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quarta-feira, 24 de julho de 2024

LIVRO: "Nas Suas Mãos"



LIVRO: “Nas Suas Mãos”,
de Leïla Slimani
Título original | “À Mains Nues” (Edition Les Arènes, Paris, 2020-2021)
Ilustrações | Clément Oubrerie
Tradução | Tânia Ganho
Edição | Amaia Iglesias
Ed. Iguana, Abril de 2024


“Ao Hospital do Val-de-Grâce, chegam cada vez mais soldados com ferimentos no rosto. Isolamo-los dos outros doentes, por causa do terror que suscitam e do cheiro pestilento que se solta dos seus ferimentos. / As más-línguas chamam-nos o ‘serviço dos babam-se todos’, por causa dos ferimentos terríveis que fazem com que os soldados fiquem sem maxilares. / Na sala enorme onde eles estão fechados, ecoam os gritos de dor e de desespero. Escondemos todos os espelhos e tememos suicídios… / O Morestin já nem dorme, trabalha dia e noite para desenvolver novas técnicas de enxerto e lhes devolver uma aparência humana. / Dizias que ele era um velho louco. Ai, querido André, talvez tenhas razão. Volta depressa.”

Pese embora o seu pioneirismo na cirurgia estética e reconstrutiva, a História parece ter-se esquecido de Suzanne Noël (1878-1954). E, todavia, ela foi uma verdadeira percursora daquilo a que mais tarde viríamos a conhecer como lipoaspiração, devolvendo beleza – e anos –, tanto a mulheres que não se sentiam bem com o seu corpo (a actriz francesa Sarah Bernhardt terá sido um dos seus casos de maior sucesso), quanto aos muitos sobreviventes da I Guerra Mundial que, com o “rosto quebrado”, beneficiaram dos seus conhecimentos na recuperação da imagem e consequente possibilidade de uma reintegração social plena. Mas não foi apenas no campo das ciências que Suzanne Noël se notabilizou. Dedicando grande parte da sua vida à defesa dos Direitos Humanos, fundou o primeiro clube soroptimista francês, abraçando o movimento sufragista e lutando pelo direito ao voto das mulheres. Hoje, as cartas constitutivas dos novos clubes soroptimistas são concedidas em nome de Suzanne Noël e existe uma bolsa de estudos com o seu nome, contribuindo para a especialização médica em Cirurgia Plástica.

Resgatar a figura de Suzanne Noël, a sua influência no seio da academia e o muito que acrescentou a uma especialidade mal vista pelos pares e cuja vertente estética chegou a ser proibida por lei, terá sido um dos valores que levou Leïla Slimani a escrever sobre esta mulher de uma forma tão próxima. O outro terá tido a ver com o seu pendor de feminista convicta, aí se revendo na luta de Suzanne Noël contra o preconceito e pelo reconhecimento do seu trabalho numa sociedade particularmente misógina. Do nascimento de Suzanne Noël em Laon, no seio de uma família burguesa, à divulgação empenhada dos princípios do soroptimismo que mobilizaram todas as suas forças numa fase mais avançada da sua vida, passando pelo seu casamento e posterior divórcio com o dermatologista Henri Pertat, os trabalhos com o Dr. Morestin em Val-de-Grâce e com o Professor Brocq no Hospital Saint-Louis, um segundo casamento com André Noël, a morte da sua filha Jacqueline e posterior suicídio de André, a sua entrega à causa feminista e as múltiplas solicitações para palestrar em todo o mundo, de tudo isto Leïla Slimani dá conta com rigor biográfico e uma enorme sensibilidade.

Não deixa de ser surpreendente que Leïla Slimani tivesse optado por uma banda desenhada para falar de uma das suas heroínas, demonstrando que a sua escrita pode afastar-se dos tons carregados que a povoam e que tão bem se distinguem em livros como “O Perfume das Flores à Noite”, “No Jardim do Ogre” ou “Canção Doce”. A escritora mostra um apurado domínio dos tempos inerentes ao desenho, deixando espaço aberto à imaginação, só em parte preenchida pelo trabalho de ilustração de Clément Oubrerie. Se, com frequência, “tropeçamos” em momentos narrativos brilhantes e plenos de humor- a conferência de Raymond Passot face a uma plateia hostil, os primeiros dias de Suzanne e Jacqueline no apartamento de Montmartre, as recomendações à Dra. Irène Duval antes de Suzanne partir em viagem -, não menos frequentemente damos conta de “cartões” de uma enorme expressividade e beleza - uma aula do Dr. Brocq no teatro anatómico, Suzanne e os colegas a atravessarem a praça de um quarteirão de Paris, uma panorâmica do “serviço dos babam-se todos”. Um livro que se lê com redobrado interesse e que, combinando a arte da escrita e a arte da ilustração, recupera a imagem de uma mulher muito à frente do seu tempo, cujo exemplo de coragem e empenho é um farol nos dias que correm.

domingo, 26 de março de 2023

LIVRO: "Balada para Sophie"



LIVRO: “Balada para Sophie”,
de Filipe Melo (argumento) e Juan Cavia (arte)
Companhia das Letras, Junho de 2021 (4ª republicação, Dezembro de 2022)


“ (…) mas, de repente, os dedos aproximaram-se do teclado e bastou um par de notas…
( – Meu Deus… Quem é ele? )
… para que todos percebêssemos que estávamos na presença de um génio.
( – Quem diria? O raio do fedelho… )
François Samson voltou ao palco.
( Bis! Bis! Bravo! )
Como encore, tocou o segundo estudo de Chopin. E, a seguir, outro, e outro, e outro, e outro.  Um miúdo de dez anos tocou, de memória, os 27 estudos sem uma única falha (…)”

“Cressy-La-Valoise, 1997”. Uma estagiária do jornal “Le Monde” apresenta-se à porta de uma mansão. Chama-se Adeline Jourdain e está ali para entrevistar Julien Dubois, célebre pianista, entretanto reformado. De início relutante a conceder a entrevista, o velho acabará por ceder e abrir à jovem toda uma vida ditada por um momento marcante, que o leva a recuar a 1933 e à primeira edição do Concurso Nacional de Jovens Pianistas, na qual o pequeno Julien conhece o prodigioso François Samson, músico autodidacta e filho do empregado do teatro onde decorre o concurso. A vida dá muitas voltas e não serão poucas as vezes em que Julien Dubois e François Samson se voltarão a cruzar, nos palcos ou fora deles. Mas as circunstâncias daquele primeiro encontro e os ecos de um concurso com um vencedor inesperado irão repercutir-se pelo tempo fora, vertidos em rivalidade, desamor e arrependimento.

Devo dizer que a Banda Desenhada nunca foi opção de leitura que me atraísse. Algures, na pré-adolescência, li o incontornável tio Patinhas e os irmãos Metralha, mas sem que isso despertasse em mim um especial gosto por este género. Houve depois umas séries engraçadas de BD que os meus tios coleccionavam e, essas sim, já me chamaram a atenção. De memória recordo as aventuras na selva de Kalar, de Ogan o Viking, do intrépido piloto da RAF Major Alvega ou do Caribú, de todos o meu preferido. Com a entrada na adolescência os interesses foram-se dispersando e o pouco contacto com a BD acabou por se tornar praticamente nulo, falha que nem mesmo o nascimento dos meus filhos conseguiu colmatar. Até há meia dúzia de dias atrás, quando peguei no multi-premiado “Balada para Sophie”, com texto de Filipe Melo e desenhos do argentino Juan Cavia, e me senti absolutamente rendido à história e ao desenho ao mergulhar num mundo cuja estética remete para o cinema, a música e a literatura.

“Balada para Sophie” é um livro admirável a todos os títulos. Começando pelo livro em si, enquanto produto, é um dos mais belos exemplos do que podem o cuidado e o bom gosto: o cunho de álbum na sua dimensão e nas mais de 300 páginas, a capa dura onde sabe bem passar a mão, as letras desenhadas, a tira em tecido a servir de marca página. Depois há toda a parte gráfica, o desenho de Juan Cavia com particular atenção ao rigor dos enquadramentos, a uma apurada noção de perspectiva, à delicadeza do traço e à suave coloração, na qual contou com as colaborações de Sandro Pacucci e Santiago R. Villa. Finalmente o texto, brilhante, de Filipe Melo, que através da história deste homem nos conta a história da humanidade, naquilo que tem de mais pernicioso, o ciúme, a inveja, a culpa, mas também de mais belo e livre, como o amor e a música. Ainda dois pormenores: o livro contém, nas suas páginas finais, a partitura de “Ballade pour Sophie”, escrita por Filipe Melo e é dedicado a Beatriz Lebre, jovem pianista e estudante universitária de Psicologia que foi morta em 2020 por um colega de universidade.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

EXPOSIÇÃO: "Hergé"



EXPOSIÇÃO: “Hergé”
Curadoria | Ana Vasconcelos, Nick Rodwell
Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian
01 Out 2021 > 10 Jan 2022


Na arte, como na vida, muitos são chamados mas poucos os escolhidos. Vem isto a propósito de Georges Prosper Remi (1907 – 1983), a quem a exposição “Hergé” é dedicada. “Hergé”, quero vincar, e não “Tintin”, por muito que criatura e criador sejam indissociáveis. Mas é importante que isto seja dito para que não se lavre no erro de ir à espera de ver uma coisa quando é de outra que se trata. Daí a necessidade de dirigir o foco para o criador, através do qual chegaremos à criatura, esse jovem repórter de espírito aventureiro e curioso que vem fazendo as delícias de gerações de leitores do mundo inteiro. “Hergé” é um convite à fruição da arte de um criador de génio, que tanto se sentiu à vontade na ilustração e na banda desenhada, como na publicidade, na imprensa, no desenho de moda ou nas artes plásticas. Cruzando pranchas originais, pinturas, fotografias, documentos de arquivo e outros tesouros do Museu Hergé, este é um fascinante percurso de descoberta de uma personalidade artística de referência do século XX.

Distribuída por nove núcleos, “Hergé” oferece uma visão poliédrica do trabalho do artista, mas também de toda a complexidade da sua biografia e dos tempos conturbados em que viveu. Para se compreender que o destino de Hergé mudou para sempre a 10 de janeiro de 1929 com o aparecimento de Tintin, importa recuar às origens, a um Georges Remi ainda criança que só sossegava em frente a uma folha de papel, com as mãos ocupadas a desenhar. Este gosto por contar histórias e ilustrá-las acompanhou-o toda a vida e foi-se desenvolvendo até assumir a forma de arte. Das influências reconhecidas pelo próprio autor aos primeiros desenhos significativos, dos “pecados da juventude” às pranchas conseguidas, da pré-publicação no “Le Boy-Scout” aos álbuns na “Casterman”, das técnicas de reprodução aproximativa à bela impressão sobre papel de qualidade superior, de tudo isto a exposição dá conta, permitindo perceber a evolução do processo criativo que levará o jovem Georges Rémi a tornar-se Hergé, pai da banda desenhada europeia.

Aos olhos do visitante não passará despercebida a faceta de colecionador e amante das várias correntes artísticas da sua época – da pop art ao abstrato, passando pelo minimalismo –, mas também o seu interesse por civilizações antigas e pelas chamadas artes primitivas. A integração destes seus gostos no desenho dá azo a um jogo feito de paixão e desafio. Por outro lado, há em Hergé uma extraordinária capacidade de representar a realidade por um lado, de uma forma inventiva, mas por outro, tão familiar que o leitor pode facilmente projetar-se neste universo criado a partir do zero. Ou talvez não. Se os elogios à amizade e aos grandes valores morais são uma constante do seu trabalho, nele encontramos também as visões estereotipadas e ofensivas das populações africanas ou o mais primário anticomunismo. Basta atentar nas primeiras aventuras de Tintin e seu cão Milou no país dos sovietes (álbum de 1930) ou no Congo (um ano mais tarde), para vermos o quão questionável pode ser o seu teor ideológico. Aqui temos um Hergé politicamente muito incorreto, leia-se mesmo reacionário e preconceituoso.

De sala em sala, de surpresa em surpresa, o visitante vai-se embrenhando num mundo de sonho e fantasia, ao mesmo tempo recorrendo às suas memórias de um tempo em que a chegada de mais um fascículo do Tintin era um dia de festa. Poder apreciar a parede com fascículos do “Le Petit Vingtième”, evocação do Hergé desenhador e ilustrador durante os anos 1930 é uma felicidade. Como o são os exemplos que dão conta da apropriação de uma série de métodos característicos do romance, mas também de alguns “truques” próprios da linguagem cinematográfica, assim como a verdadeira lição de grafismo que os documentos expostos proporcionam: a simplicidade da mensagem, o “lettering”, a distribuição, a repartição dos espaços, a passagem a cor; toda uma série de características e de particularidades que reencontramos nos princípios fundamentais próprios da linha clara. A exposição chega ao fim com “O nascimento de um mito”. Estranha-se a opção dos curadores por esta aparente inversão cronológica, um gesto de agitação e rebeldia que obriga o visitante a “revisitar” a história e, quiçá, a “refazê-la”. Mas não é isso que, em qualquer circunstância, devemos ousar?