Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Sofia Fraga. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sofia Fraga. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de agosto de 2026

LIVRO: “Perdeu-se Relógio de Senhora” | Alice Brito



LIVRO: “Perdeu-se Relógio de Senhora”,
de Alice Brito
Edição | Sofia Fraga
Ed. Companhia das Letras, Maio de 2026


“Não devemos ter sobre as pessoas juízos antecipados. Os estereótipos são a coisa mais obscuramente enganadora que há. Um militante clandestino do Partido Comunista, deste tempo contido na sexta década do século, não tinha de andar sempre com ar de espião, de boca cosida, ar carrancudo, cara de poucos amigos. É claro que eram pessoas com as limitações próprias de uma clandestinidade sofrida e brutal. Andavam no subterrâneo dos dias, em contínua dissimulação, sempre acompanhados pelo medo. Estavam as vinte e quatro horas da rotação da Terra naquela posição de aviso, cautelar e desconfiada. Mas eram pessoas tristes e alegres. Como as outras. Tinham fome e tinham sede. Como as outras. Havia gente de bom carácter e também havia gente que era uma peste. Havia criaturas sinceras, límpidas, dispostas a tudo e havia oportunistas do piorio. Como, de resto, em toda a Humanidade. Parte desse pessoal da militância clandestina era feito de figuras fascinantes e aventureiras e outra parte era uma grandessíssima seca. Havia criaturas bonitas e feias.” 

Há escritores que escolhem narrar os acontecimentos que determinam a marcha do Mundo e há aqueles que preferem escutar o rumor discreto das vidas anónimas, onde o peso da História se faz sentir com maior violência. “Perdeu-se Relógio de Senhora”, de Alice Brito, está neste segundo caso. Recuperado de uma senha clandestina utilizada pelo Partido Comunista para assinalar a prisão de um militante e activar uma cadeia de procedimentos de segurança, o enigmático título esconde, ele próprio, um romance onde a memória, a resistência e, sobretudo, o papel da mulher durante a ditadura, adquirem uma relevância histórica que só quem viveu os tempos do fascismo consegue abarcar na totalidade. Conduzindo o leitor por um Portugal cinzento, submetido ao Estado Novo, onde o medo era uma presença quotidiana e a liberdade uma aspiração silenciosa, Alice Brito socorre-se de três protagonistas oriundas de mundos distintos, que o acaso reunirá num apartamento da Duque d'Ávila, em Lisboa, pouco antes da Revolução de Abril. É através delas que a autora constrói um retrato social que ultrapassa largamente o destino individual de cada personagem, escapando ao panfleto ideológico e enveredando por um romance cuja ficção se alimenta da investigação histórica e da observação rigorosa da condição humana. O quotidiano ganha espessura narrativa, as pequenas escolhas tornam-se actos de sobrevivência e a intimidade revela-se um dos territórios onde a repressão exercia a sua autoridade mais implacável.

O maior mérito de “Perdeu-se Relógio de Senhora” reside na forma como ilumina essa violência invisível, mas latente. Em vez de privilegiar os grandes episódios da resistência política, Alice Brito fixa o olhar na disciplina moral imposta às mulheres, na educação, na sexualidade, nas convenções familiares e na submissão social transformada em norma. O fascismo aparece menos como uma sucessão de acontecimentos históricos do que como um sistema infiltrado nos gestos, na linguagem e nas expectativas de uma sociedade inteira. A experiência da autora enquanto advogada parece reflectir-se na atenção aos factos concretos e na capacidade de compreender as múltiplas formas de opressão, ao invés de aprisionar a escrita numa rigidez documental tendente a ceder ao estéril e ao fastidioso. Pelo contrário, a prosa mantém uma fluidez que permite às personagens respirarem para lá da sua função simbólica. Ainda que representem diferentes gerações e percursos sociais, nenhuma delas se reduz a um qualquer arquétipo; todas carregam contradições, desejos, medos e ambiguidades que lhes conferem rigor e autenticidade. A memória histórica surge, assim, filtrada pela experiência individual, tornando-se mais próxima e mais perturbadora. É essa conjugação entre verdade, sensibilidade e construção romanesca que impede o livro de cair na nostalgia ou na simples reconstituição de época, conferindo-lhe uma actualidade inesperada.

Mais do que revisitar um passado cada vez mais confinado a dois parágrafos num qualquer manual escolar, “Perdeu-se Relógio de Senhora” interroga o presente e recorda que o esquecimento é terreno fértil para o regresso de discursos autoritários ou, quem sabe, de três ou mais salazares. A preocupação de Alice Brito com a erosão da memória colectiva atravessa discretamente toda a obra e confere-lhe um alcance político sem sacrificar a qualidade literária. A chegada do 25 de Abril representa o desfecho luminoso de uma longa travessia, mas não dissolve as marcas deixadas por décadas de silêncio, medo e desigualdade. Nesse sentido, o romance não celebra apenas a conquista da liberdade; convida igualmente o leitor a compreender o preço que ela teve e a responsabilidade de a preservar. Sem se furtar à necessidade de uma retórica militante - deliciosas as passagens em que a autora assume o papel de personagem, opinando a seu bel-prazer -, Alice Brito demonstra que a literatura continua a ser um dos lugares privilegiados para pensar a História através das pessoas comuns, devolvendo voz àquelas que, as mais das vezes, foram apagados dos relatos oficiais. O resultado é um romance sólido, humanamente comovente e politicamente pertinente, cuja leitura se revela tão necessária pela evocação do passado como lúcida pelo diálogo que estabelece com as inquietações do presente.

sábado, 30 de maio de 2026

LIVRO: “A Chuva Que Lança a Areia do Saara” | Ana Margarida de Carvalho



LIVRO: “A Chuva Que Lança a Areia do Saara (Variações Sobre a Exaustão)”,
de Ana Margarida de Carvalho
Edição | Sofia Fraga
Ed. Companhia das Letras, Setembro de 2025


“ (…) um padre ávido de milagres, uma mulher velha com arroubos de paixão, um cobarde violador, uma casa-farol, uma intervenção angélica forjada, um lobo que nunca existiu, um cão que abandonou o dono, um rio contrariado, uma queda-d'água desviada, uma floresta reduzida a pó e lamas, uma obra desmedida feita de exaustão e ossos quebrados, e um burlão de meia-idade, abastado e caprichoso, com um apelido falso formado por aglutinação. E, no meio disto, um marido que entrou na aldeia com as quatro pernas no chão e regressou com uma e meia, mais rude, menos sapiente das coisas dos livros, mais letrado nas coisas da existência.”

Que extraordinário livro este, que nos convida a mergulhar no ambiente insano de uma imensa pedreira, tateando no meio da poeira que o vento espalha, das vozes truncadas, das imagens abruptas, dos homens e mulheres em permanente mutação. Há na escrita de Ana Margarida de Carvalho um movimento torrencial, uma escrita que leva tudo à sua frente, que abre fendas, suspende frases e as deixa tombar no branco da página como pedras arrancadas à montanha. “Como se a terra corresse inteirinha atrás de mim”. Essa dimensão telúrica corresponde à própria condição humana que o romance perscruta, de falhas feita, de interrupções, de equívocos e feridas jamais cicatrizadas. Tal como em “Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato”, o romance abriga um microcosmos que é espelho cruel da Humanidade: homens esmagados pelo trabalho, mulheres consumidas pelo desejo ou pela perda, corpos amputados, animais exaustos, rios desviados, florestas reduzidas a lama. Tudo vibra numa espécie de cosmogonia trágica onde natureza e homem se confundem, ora em harmonia primitiva, ora numa guerra sem quartel.

Num tempo dominado pelo imediatismo e pela indigência verbal, é uma felicidade depararmo-nos com uma escrita assim. Ana Margarida de Carvalho escreve contra a corrente, contra o facilitismo, contra a pobreza imaginativa do presente. Desenhadas numa arquitectura narrativa de assombrosa complexidade, as personagens são de uma espessura prodigiosa. Nenhuma surge de forma acessória; todas carregam consigo um mundo inteiro de contradições, de memórias, de humilhações e de fantasmas. “É só inquietação, inquietação”. A autora escreve como quem modela um pedaço de barro cru. Camada após camada, as suas personagens são escavadas até que delas brote qualquer coisa de intrinsecamente verdadeiro. Firmino, sobretudo, é uma dessas figuras. Simultaneamente bode expiatório, criatura grotesca e comovedora, alvo da brutalidade alheia e da piedade materna, ele concentra em si a dimensão mais funda do romance, a do humano reduzido à sua vulnerabilidade essencial. A passagem em que a mãe o lava, lhe sopra “a areia dos olhos e dos ouvidos” e lhe suporta o fedor com infinita compaixão, possui uma força quase bíblica, como se a ternura pudesse ainda sobreviver no meio da degradação mais absoluta.

O mesmo sucede com Bartolomeu, cujos olhos “de útero vegetal” carregam “algas e húmus, vestígios mortos de amor pela vida”. O extraordinário diálogo em torno da palavra “escrúpulo” - essa pedrinha cravada na sandália dos legionários - vale por um tratado sobre moral e consciência: “Os poderosos não têm escrúpulos”, diz Ana Margarida de Carvalho, deixando no leitor uma sensação rara de assombro e gratidão. Raramente a literatura portuguesa contemporânea encontrou metáforas tão inesperadas e fecundas para descrever o desejo, a melancolia e a erosão do tempo. Pelo meio, multiplicam-se referências veladas à poesia, à música e à tradição oral, pequenas cintilações intertextuais que recompensam o leitor atento. “Eu não meti o barco ao mar para ficar pelo caminho”, saborosa piscadela de olho ao romance inaugural “Que Importa a Fúria do Mar”, ecoa como memória subterrânea de um cancioneiro colectivo, ampliando ainda mais a dimensão mítica do romance.

Mas o que verdadeiramente deslumbra é a imaginação delirante da autora, essa capacidade única de fundir o sublime e o grotesco, o épico e o abjecto, a beleza luminosa e a fealdade extrema. Em “A Chuva Que Lança a Areia do Saara” há frases que parecem transportadas pelo fragor das torrentes, impregnadas de maresia, de pólvora, de suor, de sangue e de terra revolvida. Lírica ou brutal, a linguagem move-se como um organismo vivo, por vezes próxima de um poema em prosa, noutras de uma espécie de canto telúrico saído das entranhas da terra. “Se do Império os mortos vais contar, são tantas as parcelas para somar”. É um verdadeiro milagre a forma como a autora consegue transformar uma pedreira num palco metafísico onde se discutem poder, culpa, escrúpulo, exploração, amor e transcendência. É impossível não reconhecer, nesta escrita excessiva, expressiva, exigente, uma voz inteligente e extraordinariamente talentosa. Se há justiça neste mundo, então não parecerá desmedido afirmar que Ana Margarida de Carvalho poderá um dia vir a ser muito justamente considerada entre os nomes maiores da literatura universal.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

LIVRO: "Mulher, Vida, Liberdade"



LIVRO: “Mulher, Vida, Liberdade”
Coordenação | Marjane Satrapi
Título original | “Femme, Vie, Liberté”, © Editions de l’Iconoclaste, Paris
Tradução | Sofia Fraga
Edição | Amaia Iglesias
Ed. Iguana, Outubro de 2023


“Mahsa Jinâ Amini foi atingida na cabeça com tanta força que entrou em coma… morreu três dias depois. A Polícia da República Islâmica declarou que Mahsa tinha morrido na sequência de uma “paragem cardíaca”. Os meios de comunicação social pró-regime afirmaram que a jovem tinha problemas de saúde desde a infância. Porém, a narrativa do regime foi rapidamente posta em causa pela família de Mahsa e por numerosas testemunhas, incluindo os médicos do Hospital. O pai de Mahsa afirmou: ‘A minha filha não tinha problemas de saúde, eles destruíram a minha filha. Conto-o a toda a gente. Eles têm de ser responsabilizados’. A mãe acrescentou: ‘Mataram o meu anjo’.”

Ao final da tarde do dia 13 de Setembro de 2022, Masha Amani foi detida pela polícia dos costumes do Irão por, alegadamente, “trazer o véu mal colocado”. Levada para a esquadra, foi brutalmente espancada ao ponto de não resistir às agressões e acabar por morrer três dias mais tarde. A notícia da morte da jovem de 22 anos espalhou-se rapidamente através das redes sociais. Algumas jornalistas mais corajosas partilharam imagens da família no Hospital onde Mahsa acabou por morrer ou do cortejo fúnebre em Saqquez, a sua cidade natal, que acabaria por se converter numa gigantesca manifestação contra o regime dos ayatollas. Estava em marcha o movimento “Mulher, Vida, Liberdade”. Nesse e nos dias seguintes, os protestos repetiram-se em praticamente todas as cidades do Irão e a repressão não se fez esperar, acarretando um conjunto de violações graves dos direitos humanos. Uma investigação independente das Nações Unidas revela que o uso dessa força, “desnecessária e desproporcional” em protestos, em grande parte pacíficos, resultou em assassinatos ilegais e ferimentos de manifestantes, provocando 551 mortes, entre as quais pelo menos 49 mulheres e 68 crianças.

Incapazes de calar a revolta, também os iranianos da diáspora fizeram questão de juntar a sua voz à daqueles que corajosamente enfrentaram a polícia, tiraram os véus e gritaram “morte ao ditador”. Marjane Satrapi, autora da saga autobiográfica em banda desenhada “Persépolis”, foi uma das muitas personalidades empenhadas em denunciar o regime ditatorial e corrupto que dirige com mão de ferro os destinos do Irão, servindo-se daquilo que melhor sabe fazer: escrever e desenhar. Mas não esteve sozinha nesta visão histórica e política do país que a viu nascer. Pegando na ideia de Sophie de Sivry, alma da editora l’Iconoclaste, trabalhou directamente com o politólogo Farid Vahid, o jornalista Jean-Pierre Pérrin e com o historiador Abbas Milani. Entre si repartiram a responsabilidade pelos conteúdos, ficando o cuidadoso trabalho de edição a cargo de Alba Beccaria. Marjane Satrapi encarregou-se, ela própria, de desenhar a capa e um ou outro desenho no interior do livro, entregando a grande maioria das bandas desenhadas ou ilustrações a cerca de uma vintena de ilustradores iranianos, espanhóis e franceses. De forte impacto visual, o resultado é assombroso, elevando o valor do povo iraniano e pondo a nu a arbitrariedade, intolerância e brutalidade de uma minoria que o governa.

Dividido em três grandes capítulos, “Mulher, Vida, Liberdade” dedica uma parte importante dos seus conteúdos aos acontecimentos em torno da morte de Mahsa Amini, nomeadamente o surgimento do slogan e a forma como se espalhou e galgou as fronteiras do Irão. Outro capítulo importante prende-se com “Barâyeh”, o hino do movimento, da autoria de Shervin Hajipour, um jovem cantor iraniano. As ilustrações são de Shabnam Adiban, uma iraniana de 33 anos que vive em Toronto desde 2019 e que, ao mesmo tempo, realizou uma curta metragem de animação absolutamente maravilhosa. A vida na sinistra prisão de Evin, espelho do horror do regime, o massacre de Zahedan ou as execuções sem culpa formada de participantes nos movimentos de contestação, são alguns dos capítulos mais intensos e dramáticos do livro. Nos “rostos para a posteridade” rende-se homenagem aos “filhos da liberdade”, aos muitos que deram a sua vida ou sofreram horrores nas prisões do regime por exprimirem o seu desejo de um país justo e livre. Na sua forma simples de dizer as coisas as mais complexas, “Mulher, Vida, Liberdade” mostra ao mundo aquilo que se está a passar no Irão neste momento e representa um “humilde contributo pela liberdade que os iranianos tanto merecem”.

NOTA: Já depois do livro ter sido publicado, Mahsa Jinâ Amini e o Movimento Mulher Vida Liberdade foram galardoadas com o “Prémio Sakharov 2023 para a Liberdade de Pensamento”. Nomeado em homenagem ao físico e dissidente político soviético Andrei Sakharov e atribuído anualmente pelo Parlamento Europeu, o Prémio foi criado em 1988 para homenagear indivíduos e organizações que defendem os direitos humanos e as liberdades fundamentais.