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sábado, 30 de maio de 2026

LIVRO: “A Chuva Que Lança a Areia do Saara” | Ana Margarida de Carvalho



LIVRO: “A Chuva Que Lança a Areia do Saara (Variações Sobre a Exaustão)”,
de Ana Margarida de Carvalho
Edição | Sofia Fraga
Ed. Companhia das Letras, Setembro de 2025


“ (…) um padre ávido de milagres, uma mulher velha com arroubos de paixão, um cobarde violador, uma casa-farol, uma intervenção angélica forjada, um lobo que nunca existiu, um cão que abandonou o dono, um rio contrariado, uma queda-d'água desviada, uma floresta reduzida a pó e lamas, uma obra desmedida feita de exaustão e ossos quebrados, e um burlão de meia-idade, abastado e caprichoso, com um apelido falso formado por aglutinação. E, no meio disto, um marido que entrou na aldeia com as quatro pernas no chão e regressou com uma e meia, mais rude, menos sapiente das coisas dos livros, mais letrado nas coisas da existência.”

Que extraordinário livro este, que nos convida a mergulhar no ambiente insano de uma imensa pedreira, tateando no meio da poeira que o vento espalha, das vozes truncadas, das imagens abruptas, dos homens e mulheres em permanente mutação. Há na escrita de Ana Margarida de Carvalho um movimento torrencial, uma escrita que leva tudo à sua frente, que abre fendas, suspende frases e as deixa tombar no branco da página como pedras arrancadas à montanha. “Como se a terra corresse inteirinha atrás de mim”. Essa dimensão telúrica corresponde à própria condição humana que o romance perscruta, de falhas feita, de interrupções, de equívocos e feridas jamais cicatrizadas. Tal como em “Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato”, o romance abriga um microcosmos que é espelho cruel da Humanidade: homens esmagados pelo trabalho, mulheres consumidas pelo desejo ou pela perda, corpos amputados, animais exaustos, rios desviados, florestas reduzidas a lama. Tudo vibra numa espécie de cosmogonia trágica onde natureza e homem se confundem, ora em harmonia primitiva, ora numa guerra sem quartel.

Num tempo dominado pelo imediatismo e pela indigência verbal, é uma felicidade depararmo-nos com uma escrita assim. Ana Margarida de Carvalho escreve contra a corrente, contra o facilitismo, contra a pobreza imaginativa do presente. Desenhadas numa arquitectura narrativa de assombrosa complexidade, as personagens são de uma espessura prodigiosa. Nenhuma surge de forma acessória; todas carregam consigo um mundo inteiro de contradições, de memórias, de humilhações e de fantasmas. “É só inquietação, inquietação”. A autora escreve como quem modela um pedaço de barro cru. Camada após camada, as suas personagens são escavadas até que delas brote qualquer coisa de intrinsecamente verdadeiro. Firmino, sobretudo, é uma dessas figuras. Simultaneamente bode expiatório, criatura grotesca e comovedora, alvo da brutalidade alheia e da piedade materna, ele concentra em si a dimensão mais funda do romance, a do humano reduzido à sua vulnerabilidade essencial. A passagem em que a mãe o lava, lhe sopra “a areia dos olhos e dos ouvidos” e lhe suporta o fedor com infinita compaixão, possui uma força quase bíblica, como se a ternura pudesse ainda sobreviver no meio da degradação mais absoluta.

O mesmo sucede com Bartolomeu, cujos olhos “de útero vegetal” carregam “algas e húmus, vestígios mortos de amor pela vida”. O extraordinário diálogo em torno da palavra “escrúpulo” - essa pedrinha cravada na sandália dos legionários - vale por um tratado sobre moral e consciência: “Os poderosos não têm escrúpulos”, diz Ana Margarida de Carvalho, deixando no leitor uma sensação rara de assombro e gratidão. Raramente a literatura portuguesa contemporânea encontrou metáforas tão inesperadas e fecundas para descrever o desejo, a melancolia e a erosão do tempo. Pelo meio, multiplicam-se referências veladas à poesia, à música e à tradição oral, pequenas cintilações intertextuais que recompensam o leitor atento. “Eu não meti o barco ao mar para ficar pelo caminho”, saborosa piscadela de olho ao romance inaugural “Que Importa a Fúria do Mar”, ecoa como memória subterrânea de um cancioneiro colectivo, ampliando ainda mais a dimensão mítica do romance.

Mas o que verdadeiramente deslumbra é a imaginação delirante da autora, essa capacidade única de fundir o sublime e o grotesco, o épico e o abjecto, a beleza luminosa e a fealdade extrema. Em “A Chuva Que Lança a Areia do Saara” há frases que parecem transportadas pelo fragor das torrentes, impregnadas de maresia, de pólvora, de suor, de sangue e de terra revolvida. Lírica ou brutal, a linguagem move-se como um organismo vivo, por vezes próxima de um poema em prosa, noutras de uma espécie de canto telúrico saído das entranhas da terra. “Se do Império os mortos vais contar, são tantas as parcelas para somar”. É um verdadeiro milagre a forma como a autora consegue transformar uma pedreira num palco metafísico onde se discutem poder, culpa, escrúpulo, exploração, amor e transcendência. É impossível não reconhecer, nesta escrita excessiva, expressiva, exigente, uma voz inteligente e extraordinariamente talentosa. Se há justiça neste mundo, então não parecerá desmedido afirmar que Ana Margarida de Carvalho poderá um dia vir a ser muito justamente considerada entre os nomes maiores da literatura universal.

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