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sábado, 30 de maio de 2026

LIVRO: “A Chuva Que Lança a Areia do Saara” | Ana Margarida de Carvalho



LIVRO: “A Chuva Que Lança a Areia do Saara (Variações Sobre a Exaustão)”,
de Ana Margarida de Carvalho
Edição | Sofia Fraga
Ed. Companhia das Letras, Setembro de 2025


“ (…) um padre ávido de milagres, uma mulher velha com arroubos de paixão, um cobarde violador, uma casa-farol, uma intervenção angélica forjada, um lobo que nunca existiu, um cão que abandonou o dono, um rio contrariado, uma queda-d'água desviada, uma floresta reduzida a pó e lamas, uma obra desmedida feita de exaustão e ossos quebrados, e um burlão de meia-idade, abastado e caprichoso, com um apelido falso formado por aglutinação. E, no meio disto, um marido que entrou na aldeia com as quatro pernas no chão e regressou com uma e meia, mais rude, menos sapiente das coisas dos livros, mais letrado nas coisas da existência.”

Que extraordinário livro este, que nos convida a mergulhar no ambiente insano de uma imensa pedreira, tateando no meio da poeira que o vento espalha, das vozes truncadas, das imagens abruptas, dos homens e mulheres em permanente mutação. Há na escrita de Ana Margarida de Carvalho um movimento torrencial, uma escrita que leva tudo à sua frente, que abre fendas, suspende frases e as deixa tombar no branco da página como pedras arrancadas à montanha. “Como se a terra corresse inteirinha atrás de mim”. Essa dimensão telúrica corresponde à própria condição humana que o romance perscruta, de falhas feita, de interrupções, de equívocos e feridas jamais cicatrizadas. Tal como em “Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato”, o romance abriga um microcosmos que é espelho cruel da Humanidade: homens esmagados pelo trabalho, mulheres consumidas pelo desejo ou pela perda, corpos amputados, animais exaustos, rios desviados, florestas reduzidas a lama. Tudo vibra numa espécie de cosmogonia trágica onde natureza e homem se confundem, ora em harmonia primitiva, ora numa guerra sem quartel.

Num tempo dominado pelo imediatismo e pela indigência verbal, é uma felicidade depararmo-nos com uma escrita assim. Ana Margarida de Carvalho escreve contra a corrente, contra o facilitismo, contra a pobreza imaginativa do presente. Desenhadas numa arquitectura narrativa de assombrosa complexidade, as personagens são de uma espessura prodigiosa. Nenhuma surge de forma acessória; todas carregam consigo um mundo inteiro de contradições, de memórias, de humilhações e de fantasmas. “É só inquietação, inquietação”. A autora escreve como quem modela um pedaço de barro cru. Camada após camada, as suas personagens são escavadas até que delas brote qualquer coisa de intrinsecamente verdadeiro. Firmino, sobretudo, é uma dessas figuras. Simultaneamente bode expiatório, criatura grotesca e comovedora, alvo da brutalidade alheia e da piedade materna, ele concentra em si a dimensão mais funda do romance, a do humano reduzido à sua vulnerabilidade essencial. A passagem em que a mãe o lava, lhe sopra “a areia dos olhos e dos ouvidos” e lhe suporta o fedor com infinita compaixão, possui uma força quase bíblica, como se a ternura pudesse ainda sobreviver no meio da degradação mais absoluta.

O mesmo sucede com Bartolomeu, cujos olhos “de útero vegetal” carregam “algas e húmus, vestígios mortos de amor pela vida”. O extraordinário diálogo em torno da palavra “escrúpulo” - essa pedrinha cravada na sandália dos legionários - vale por um tratado sobre moral e consciência: “Os poderosos não têm escrúpulos”, diz Ana Margarida de Carvalho, deixando no leitor uma sensação rara de assombro e gratidão. Raramente a literatura portuguesa contemporânea encontrou metáforas tão inesperadas e fecundas para descrever o desejo, a melancolia e a erosão do tempo. Pelo meio, multiplicam-se referências veladas à poesia, à música e à tradição oral, pequenas cintilações intertextuais que recompensam o leitor atento. “Eu não meti o barco ao mar para ficar pelo caminho”, saborosa piscadela de olho ao romance inaugural “Que Importa a Fúria do Mar”, ecoa como memória subterrânea de um cancioneiro colectivo, ampliando ainda mais a dimensão mítica do romance.

Mas o que verdadeiramente deslumbra é a imaginação delirante da autora, essa capacidade única de fundir o sublime e o grotesco, o épico e o abjecto, a beleza luminosa e a fealdade extrema. Em “A Chuva Que Lança a Areia do Saara” há frases que parecem transportadas pelo fragor das torrentes, impregnadas de maresia, de pólvora, de suor, de sangue e de terra revolvida. Lírica ou brutal, a linguagem move-se como um organismo vivo, por vezes próxima de um poema em prosa, noutras de uma espécie de canto telúrico saído das entranhas da terra. “Se do Império os mortos vais contar, são tantas as parcelas para somar”. É um verdadeiro milagre a forma como a autora consegue transformar uma pedreira num palco metafísico onde se discutem poder, culpa, escrúpulo, exploração, amor e transcendência. É impossível não reconhecer, nesta escrita excessiva, expressiva, exigente, uma voz inteligente e extraordinariamente talentosa. Se há justiça neste mundo, então não parecerá desmedido afirmar que Ana Margarida de Carvalho poderá um dia vir a ser muito justamente considerada entre os nomes maiores da literatura universal.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

LIVRO: "Cartografias de Lugares mal Situados (10 Contos da Guerra)"



LIVRO: “Cartografias de Lugares mal Situados (10 Contos da Guerra)”,
de Ana Margarida de Carvalho
Ed. Relógio D’Água Editores, Junho de 2021


“Não sabiam desistir. É o que lhe temos vindo a dizer, senhora jornalista, embora vindos de partes distintas do planeta, eram demasiado parecidos. Na força física e na obstinação. Não se rendiam, não aceitavam empates nem complacências. Nem quando vieram as retroescavadoras retirar a areia, os familiares sepultar o que restava dos seus cadáveres, desidratados e mumificados com areia por fora e por dentro, e os esquadrões antibombas desinfestar quase todo o território. A guerra tinha acabado mas não para eles. Continuaram a defender os seus postos. Tal como haviam sido oficiados.”

Este breve excerto remete para a cartografia de um lugar mal situado que Ana Margarida de Carvalho designa por “primeira linha de fogo”. De um lado a jornalista, do outro a população. No centro a “casa bexigosa”, uma casa cravada de marcas de balas, agora destruída, pedaços de corpos dos seus dois habitantes espalhados, “uma perna para um lado ainda com a anca agarrada, as tripas para o outro”. A população é árabe. Falam do calor e do leite que coalha nos estômagos, do arame farpado que só os gatos conseguem atravessar, de minas anti-pessoais a mais ou a menos. Há chá de hibisco num samovar, sente-se-lhe o aroma intenso. As conversas distraem-se, “a gente desmemoria-se, é inevitável, não há como combater o peso do presente”. Quando regressam aos velhos e ao casebre bexigoso, é para falar dos litígios ancestrais e íntimos de dois alfaiates praticamente cegos do lado de cá do deserto.

Depois de “Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato” ou “O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça”, Ana Margarida de Carvalho volta a impressionar-me com a acuidade do seu olhar e a riqueza da sua escrita. O conto sobre o qual, de forma breve, me debruço no parágrafo anterior, é paradigmático disso mesmo. Há nele a força da História que se impõe como uma marca de inevitabilidade. Há gente que carrega às costas os despojos de uma conflitualidade sempre presente. Há lugares cuja cartografia não permite distorções, de tão exactos e únicos que são. Há, sobretudo, a coragem de lutar contra a adversidade e seguir em frente, “que a vida é só uma e não nos deixa tempo para angústias”. E isto tanto é válido agora como há duzentos anos, na aflição de quem foge ao invasor francês, de quem se faz ao mar numa noite escura ou de quem se confina, tomado de pânico por uma pandemia que alastra como uma nuvem tóxica e mortal.

Ao longo destes “10 Contos da Guerra”, a autora explora a bestialidade, o absurdo e a maldade que se espalham em cada conflito, pondo a nu o pior da natureza humana. O seu olhar rasga fronteiras, entra nas casas e penetra no íntimo das pessoas, expondo-o mais as suas feridas de guerra. De súbito, os actos heróicos da resistência francesa ficaram lá longe, sobrando umas mãos como tentáculos desarticulados de um polvo seco; os ecos da Guerra Civil de Espanha diluem-se no toque rijo e são de uma prótese de madeira; a Guerra da Síria é um homem com cheiro a salgado, olhos de urgência e dedos de ganância. Traçado o mapa, avançamos por estes lugares mal situados com o medo de quem teme pisar uma mina, o passo suspenso da cegonha, incapazes de passar ao lado do horror, de o olhar nos olhos. Este livro vem lembrar-nos que o mundo real não se faz apenas do assombro de Muralhas da China, Pirâmides do Gizé, praias do Caribe ou quadros de Caravaggio. Há gente a viver debaixo de escombros e lugares cujos mapas importa não esquecer.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

LIVRO: "Pequenos Delírios Domésticos"



LIVRO: “Pequenos Delírios Domésticos”,
de Ana Margarida de Carvalho
Ed. Relógio D’Água Editores, Outubro de 2017


“Só pergunta quem ama, só indaga quem anseia, só quer saber quem deseja. Mas eu tenho a aflição da bruma, renego a limpidez, o sol que já nasceu, os outros que me ouvem com os olhos. Este barco é um cemitério de corpos vivos. E num barco à deriva, todos se sentem matéria pesada, a maldição física da aceleração em queda livre, como a estupida maçã. E no entanto, todos eles me parecem tão ocos, de ossos aguçados a quererem romper a pele, que quase poderiam flutuar neste mar, que já tudo vai caroço de um fruto raivosamente tragado, chupado, sorvido de todos os sucos. É isso. Somos um caixote de caroços, lançados fora, náufragos dos nossos próprios corpos. E o mar, mesmo que não fertilize, está com uma disposição caridosa de acolher.”

Em Outubro de 2017, o fogo entrou pela terra adentro. Ceifou árvores, florestas inteiras, casas e alfaias agrícolas, décadas de trabalho, dezenas de vidas. Na aldeia do Couto do Mosteiro, em Santa Comba Dão, a casa de família de Ana Margarida de Carvalho foi uma das que não escapou à fúria cega das chamas. De meados do século XIX, do tempo dos seus trisávos, a casa guarda hoje as paredes graníticas ao alto, no seu interior apenas escombros, despojamento e devassidão. Dela restam memórias em forma de cheiros, de sons, de cores, de palavras ciciadas ou de gritos felizes das crianças, do toque das mãos da velha criada ou do estalar do trovão cada vez mais próximo. É esta casa – o que foi e o que é - o ponto de partida e chegada de “Pequenos Delírios Domésticos”, primeira incursão da escritora no mundo do conto.

Colando o título deste seu livro ao de uma canção de Sérgio Godinho, do álbum “Tinta Permanente” (1993), Ana Margarida de Carvalho oferece-nos um conjunto de contos fortemente marcados por esta noção de casa enquanto ideia de território, espaço de pertença, real e concreto ou do domínio da memória, apenas. Nela vivem, a ela chegam ou dela partem figuras como Manuel, um pouco resoluto bombista-suicida, a sobrevivente Andreia, o deslembrado Saaid, o ensimesmado Jorge ou o esquecido Jaime. Com eles trazem histórias de uma tristeza imensa, de pura resignação ou de seguir com a vida em frente como quem arrasta o mundo atrás de si. É neles que a autora encontra os pretextos para falar de temas tão actuais como os extremismos, o preconceito, a solidão, a intolerância, a falta de solidariedade ou a estupidez do ser humano, doença que avança para a cronicidade e que vai minando por dentro a nossa sociedade.

Não poderia terminar esta breve recensão crítica sem dedicar uma palavra a “Chão Zero”, conto de abertura do livro e que o marca de forma indelével, como uma dor em moedeira que está lá mas da qual nos distraímos, ou porque concentrados em algo que reclama o máximo das nossas energias ou porque há dores que se sobrepõem umas às outras, trazendo com elas o primado do mais forte. Como um lamento (ou será um grito?), “Chão Zero” é de uma verdade e de uma intensidade tocante, que nos dilacera e faz sofrer, ao mesmo tempo que expõe, de forma clara, a extraordinária qualidade da escrita de Ana Margarida de Carvalho. “Quase tudo o que ler a partir daqui é mentira”, adverte-se o leitor na volta do conto. Talvez não seja bem assim, entre a mentira e a verdade uma linha tão ténue que só olhos atentos e cabeça fria conseguem descortinar. Mas não deixa de ser uma bela metáfora destes estranhos dias que correm.

terça-feira, 3 de março de 2020

LIVRO: "O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça"



LIVRO: “O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça”,
de Ana Margarida de Carvalho 
Ed. Relógio d’Água, Novembro de 2019


“(...) às vezes reparava num carreiro de formigas, não são muitas, é uma só, estava convencido, um insecto, muito comprido, muito rente, desmantelado, com milhões de patinhas, que não terminava nunca de passar, pelo menos a si nunca fora dado ver a última formiga que encerrava o carreiro, e já ia com 24 anos de olhos postos no chão, é porque isto é um bicho sem fim, (...)” 

Como um carreiro de formigas, que se alonga e alonga até dar a volta ao mundo, assim são as palavras alinhadas ao correr de “O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça”, prosa sem pausas, intensa, febril, que nos transporta a um certo Alentejo em finais da década de 1930, a Guerra Civil de Espanha a estender os estigmas do ódio, do terror e da morte ao lado de cá da fronteira, uma densa nuvem negra a atingir em breve a Europa e o Mundo. No espaço de um único dia, entre dois entardeceres, com Simão, Maria Angelina, Isidro, Maria Albinha, Constantino, Camilo, Maria Albertina e tantos outros, mergulharemos no mais fundo do fundo da alma das gentes, as mãos sujas de sangue, o ar carregado de poeira que um vento agreste teima em levantar.

É inegável a habilidade da autora em traduzir por palavras a angústia de quem carrega um fardo demasiado pesado, a arrogância no bico duma ave de rapina, os lamentos das mulheres que nada têm e nada querem, a raiva no ataque de uma matilha de cães ou o sabor do sangue cru que salpica do arpéu do atum. Estamos de novo em terrenos do genial “Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato”, naquilo que o livro tem de visceral, na poesia que se derrame de forma directa – “se já não pões a tanta insânia freio / não esperes de mim daqui adiante / que possa mais amar-te, mas temer-te / que amor, contigo, em medo se converte” – ou simplesmente se insinua, numa medalhinha com o nome do filho, num homem inundado de mar por dentro ou num Cristo negro de pescoço pendido. 

Com tanto de inquietante e incómodo como de ameno e apaziguador, a escrita de Ana Margarida de Carvalho tem uma qualidade figurativa única, capaz de conferir um sentido global a uma espécie de bestiário, em que os significados se misturam e confundem. Nesse sentido, sugere-me a pintura de Hieronymus Bosch, na medida em que combina, de forma assaz convincente, a profunda religiosidade inerente à noção de bem e de mal, com o carácter social ou ético do pecado. Estabelecendo uma comparação com o quadro “As Tentações de Santo Antão”, por exemplo, percebemos que há tanto de grotesco – e, ao mesmo tempo, tanto de humano – na representação dos elementos que povoam o tríptico, como nas personagens que se desdobram à nossa frente, nas páginas do livro. Apenas com uma diferença: Neste livro, ninguém é tentado porque ninguém é santo!

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

DEBATE: "Como Nasce um Romance?"



DEBATE: “Como Nasce um Romance?”,
com Ana Margarida de Carvalho e Mário de Carvalho
Moderadora | Inês Fonseca Santos
Programação | Eduardo Agualusa e Anabela Mota Ribeiro
Feira do Livro do Porto 2018
Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, Porto
23 Set 2018 | dom | 19:00


Com uma programação que foi, uma vez mais, muito além da simples apresentação e venda de livros, a Feira do Livro do Porto teve no espaço de Debate um dos momentos mais altos, a sua enorme qualidade e interesse a fazerem esgotar a lotação do Auditório da Biblioteca Almeida Garrett em praticamente todas as sessões. Foi assim na abertura, que contou com a presença de José Mário Branco, o autor homenageado desta edição da Feira, e foi assim nas sessões seguintes, que viram em palco Mia Couto, Afonso Cruz, Daniel Cohn-Bendit – o principal rosto da revolta estudantil francesa do Maio de 1968 -, Filipa Martins, João Pinto Coelho, Kalaf Epalanga, Telma Tvon, Leila Slimani, José Riço Direitinho, Valério Romão, Mário de Carvalho e Ana Margarida de Carvalho, os dois últimos frente a frente na derradeira sessão.

É precisamente desta última sessão – uma mesa que, pela primeira vez, juntou pai e filha para falarem dos seus percursos enquanto escritores -, que recupero um breve conjunto de apontamentos e os partilho com os leitores deste blogue. Girando à volta do tema “Como Nasce um Romance?”, a conversa acabou por revelar, mais do que os escritores, as pessoas que lhes estão por detrás. Mas porque tudo tem um princípio, a primeira questão prendeu-se com os passos iniciais dos autores no delicado processo de escrever. Mário de Carvalho confessou que “começar a escrever não foi uma escolha nem uma inevitabilidade, mas talvez antes um acaso”, referindo as influências que recebeu dum grupo de amigos que se empenhavam em produzir matéria literária e o levaram a ir respondendo aos sucessivos pedidos para escrever alguns textos. “A minha vida literária tem sido uma vida de resposta”, resumiu. Já Ana Margarida de Carvalho vem da área do jornalismo, com provas dadas na profissão, uma vasta experiência na escrita de guiões e na crítica cinematográfica e um percurso que sempre a manteve nas proximidades dessa ténue linha que separa a realidade da ficção. “A escrita implica um processo longo de acumulação e [ao fim de 25 anos de jornalismo] talvez o meu tempo de escritora seja o tempo certo”, disse, para acrescentar que “ter um pai como o Mário de Carvalho inibe e alimenta, ao mesmo tempo, a vontade de ser escritor”.

Para a escritora, falar do pai é matéria incontornável: “Sempre conheci o meu pai a escrever, as minhas noites sempre foram acompanhadas do tique-tique da máquina de escrever e talvez não tenha dado muito valor ao facto dele ser escritor, porque isso para mim era uma coisa natural”, recorda. A partir do momento em que começou a escrever, porém, esse olhar terá mudado de forma significativa: “Há um lado funesto nesta coisa da literatura, o assumirmos que a nossa vida não basta e querermos mais e mais. Noto um olhar muito atento no meu pai e uma capacidade de virar a atenção para outro lado. É um olhar de frente, não evidente à aparência das coisas, de certa forma subversivo”, disse.

Pegando nas palavras de Ana Margarida de Carvalho, a moderadora, Inês Fonseca Santos, fez notar que “desenvolvemos a nossa vida como uma narrativa e andamos sempre à procura de histórias”, o que leva Mário de Carvalho a responder citando Luisa Costa Gomes: “Era uma vez uma história que tinha uma grande vontade de ser contada”. E concretiza: “As histórias podem ser suscitadas pelos acontecimentos mais diversos, uma cena doméstica, um episódio no autocarro, um filme, um livro que se lê. Tudo pode servir para iniciar uma história”. O processo que permite prosseguir com a história até ao fim é que já não será tão linear, o que leva o escritor a admitir ter imensos textos abandonados: “Não encontrei forma de continuar com eles e para lá estão”, reconhece. Mas acrescenta: “Uma história tem de resultar num estranhamento, tornar o familiar numa coisa estranha. É esse o dom do escritor, mostrar o outro lado do mundo e fazê-lo diferente”.

“O primeiro verso é-nos dado e os outros são conquistados”. Inês Fonseca Santos, uma vez mais, a lançar a discussão, desta vez em torno da inspiração, e Mário de Carvalho a revelar algum cepticismo em relação ao assunto: “Desconfio muito da inspiração, quase como se se invocasse o espírito a descer sobre o escritor”, disse. Já Ana Margarida de Carvalho refere que o que mais lhe serve de inspiração “é a última linha que escrevi”, acrescentando: “Ligo muito à associação de ideias, prefiro escrever sem reflectir em demasia. Sou pouco disciplinado, sou atacada por mim própria e pelo meu próprio caos”. E conclui com uma imagem muito bonita: “Da carga que a palavra tem construímos um livro, como um novelo cheio de pontas soltas que se vai transformando numa peça de malha”.

As últimas palavras são abertamente dirigidas ao leitor. Mário de Carvalho defende que “fazem falta leitores que construam o livro consigo, que sejam parceiros do escritor”, reforçando que “sem o leitor o livro não existe porque o leitor também faz o livro”. Mas faz notar que “uma coisa é o leitor e outra é o público, o que compra o livro e que traz popularidade ao escritor, mas isso é baixar o nível. O jogo é com o leitor e não com o público, não com aqueles que aligeiram a leitura.” Ana Margarida de Carvalho corrobora a ideia, fazendo notar que também há aqueles escritores que aligeiram a escrita: “Isso é tratar o leitor como um consumidor. Isso é tratar mal o leitor, é apequená-lo e só denota arrogância da parte de quem o faz”, conclui.

terça-feira, 22 de maio de 2018

LIVRO: "Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato"



LIVRO: “Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato”,
de Ana Margarida de Carvalho
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Teorema, Abril de 2016


“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”. Quando tendemos para ver na frase que abre a Declaração Universal dos Direitos do Homem uma verdade irrefutável, o pensamento estilhaça-se no sangue e nas bombas do Sudão do Sul ou do Delta do Níger, de Ghouta oriental ou da Faixa de Gaza. Vogando na vertigem de correntes desencontradas, entre certezas que teimam em afirmar-se e as muitas dúvidas que constantemente nos assaltam, buscamos refúgio num livro, aconchegamo-nos “nos olhos de um gato” e logo tudo se aclara. Na fome e na sede, no calor e no frio, na raiva e na dor, na vida e na morte, são nulas as diferenças. De cor e de género, de origem, de estrato económico e social. Na sua condição mais elementar, despojado do que é seu, posto a nu perante o próximo, fica o homem reduzido ao seu nome de baptismo e ao corpo com que veio ao mundo, livre e igual aos outros homens. É esta a verdade do romance de Ana Margarida de Carvalho. Uma verdade irrefutável!

Com “Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato”, oferece-nos a autora uma obra poderosíssima quanto à temática que aborda, assente numa linguagem extremamente cuidada e, sobretudo, num desenho narrativo engenhoso e imaginativo, que ora nos agarra pelas tripas, ora nos prende pelo coração. Arrojados a uma praia, estreita língua de areia cercada por altas e intransponíveis escarpas, um grupo de náufragos tenta, desesperadamente, sobreviver face à escassez de meios de que dispõe. Ritmando o seu quotidiano pelo vai e vem das marés – que lhes permite percorrer o areal duas vezes ao dia -, o grupo ora se ufana em garantir o parco sustento que retira do mar, ora se recolhe a um recôncavo elevado na rocha, gruta miniatural, abrigo precário das investidas das ondas. Em número de oito, os náufragos formam um microcosmos social à mercê das circunstâncias, obrigados, em nome da sobrevivência, a pôr de parte aquilo que os separa.

A leitura de “Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato” proporciona um prazer enorme da primeira à ultima página. Ana Margarida de Carvalho é inexcedível de generosidade na forma como detalha cada capítulo, pondo à prova os nossos fantasmas e preconceitos, as nossas convicções, os nossos medos. O “monólogo da Santa”, logo a abrir o livro, é disso o mais acabado exemplo. Chegamos a hesitar no momento de virar a página, de tal maneira é forte e impressiva a ladaínha de Nossa Senhora de Todas as Angústias, corpo de pau e cabeleira indígena, o caos sendo uma das ordens de Deus. Com tanto por dizer, tantas sensações por descrever, tantas imagens por contar, acrescentaria apenas que, tal como em “Que Importa a Fúria do Mar”, o anterior romance da escritora, Ana Margarida de Carvalho reincide no desenvolvimento de uma espécie de “private joke”, introduzindo, aqui e além, pequenas frases subtraídas às letras dos nossos cantautores. É assim que nos deixamos embalar na leitura pela trilogia da “Lusitana Diáspora”, de Fausto Bordalo Dias, do “Canto Dos Torna-Viagem”, de José Mário Branco, de “Os Conquistadores”, de Sérgio Godinho ou dum muito a propósito “O Navio Negreiro”, de Caetano Veloso, entre outros. Até mesmo com a voz de António Zambujo (ou terá sido com a letra de Maria do Rosário Pedreira?) é possível cruzarmo-nos por lá, num “pedaço de mau caminho”.


P. S. - No título, a frase recorrente do“Poema do Desamor”, de Alexandre O'Neill, é como um convite a uma pequena brincadeira: “Desmama-te desanca-te desbunda-te / mas não vais encontrar outro livro assim // Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te / mas não vais encontrar outro livro assim // Arranha arrepanha apanha espanca / mas não vais encontrar outro livro assim”.