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sábado, 13 de junho de 2026

LIVRO: “Os Armários Vazios” | Annie Ernaux



LIVRO: “Os Armários Vazios”,
de Annie Ernaux
Título original | “Les Armoires vides” (© Éditions Galimard, Paris, 1974)
Tradução | Tânia Ganho
Ed. Livros do Brasil, Abril de 2024


“ … Eu já devia comparar, devia querer ignorar a bata branca da minha mãe, manchada de ferrugem em baixo, ‘é vinagre’, diz ela, cinzenta acima e abaixo do cinto, de roçar nas caixas, ou o bater da faca do meu pai na ponta da mesa quando acaba de comer, o sorver da sopa, os bêbados nojentos à noite… Talvez nunca tenha havido equilíbrio entre os meus mundos. Foi preciso escolher um, como ponto de referência, acabamos por ser obrigados a isso. Se tivesse escolhido o dos meus pais, o da família Lesur, pior ainda, a metade movida a vinhaça, não teria querido ser boa aluna, não me teria importado de vender batatas atrás do balcão, não teria ido para a faculdade. Era preciso odiar a mercearia inteira, o café, a clientela desprezível que vivia a fiado.”

Romance de estreia de Annie Ernaux, “Os Armários Vazios” anuncia já todos os grandes temas que atravessariam a obra futura de Annie Ernaux e permanece, décadas depois da sua publicação, uma impressionante demonstração de coragem literária e de honestidade intelectual. A narrativa acompanha Denise Lesur, jovem estudante que recorre a uma “fazedora de anjos” para um aborto clandestino na Paris dos anos 60. Enquanto aguarda o desfecho deste “acontecimento” decisivo e íntimo, revisita as recordações da infância passada no café-mercearia dos pais, na Normandia. O acto que enquadra o romance funciona menos como centro da acção do que como detonador de uma reflexão devastadora sobre a vergonha social. A autora disseca com precisão quase cirúrgica o sentimento de desenraizamento que acompanha a ascensão de classe, revelando o elevado preço da mobilidade social. O percurso escolar, tradicionalmente celebrado como instrumento de emancipação, surge aqui como um processo ambíguo: ao mesmo tempo que permite escapar às limitações impostas pelas origens da jovem Denise, exige uma ruptura dolorosa com o seu mundo. O resultado é uma narrativa marcada pela tensão constante entre gratidão e ressentimento, amor e repulsa, orgulho e culpa.

A força de “Os Armários Vazios” reside igualmente na sua escrita. Muito antes da chamada “escrita neutra” que viria a caracterizar parte da obra posterior da escritora, este primeiro livro apresenta uma linguagem incandescente, nervosa, por vezes brutal. Annie Ernaux alterna registos linguísticos com notável mestria, transitando da oralidade popular ao discurso erudito sem jamais comprometer a unidade narrativa. Cada frase parece escrita sob o signo da urgência, como se a verdade devesse ser arrancada à força antes que o pudor ou a complacência a pudessem suavizar. Essa ausência de auto-censura confere ao romance uma autenticidade rara. Denise não procura justificar-se nem conquistar a simpatia do leitor; expõe-se sem ornamentos, revelando a crueldade de quem aprende a desprezar aquilo que constitui o seu mais íntimo. A vergonha dos pais, do seu modo de falar, dos seus gestos e hábitos, transforma-se numa forma de auto-aversão. A autora mostra que a violência social produz inevitavelmente violência emocional e, por isso, recusa qualquer sentimentalismo. O que emerge destas páginas não é um relato de superação, mas antes o retrato impiedoso de uma fractura interior que nenhuma conquista académica ou cultural consegue verdadeiramente reparar.

Não são muitos os romances que conseguem captar com semelhante lucidez a violência silenciosa do determinismo social e a forma como este se infiltra nos afectos mais elementares. Lido hoje, “Os Armários Vazios” impressiona não apenas pela sua dimensão autobiográfica, mas também pela extraordinária actualidade das questões que levanta. Romance social, feminista e de formação, a obra articula o “ser mulher” com a experiência das diferenças de classe, mostrando como ambas implicam processos de ruptura, perda e reinvenção. Mais do que um episódio dramático, o aborto clandestino que abre e fecha a narrativa torna-se no símbolo máximo de uma luta contra os constrangimentos impostos pelo meio social, pela moral católica e pelas expectativas de género. Ao mesmo tempo, a autora evita transformar a protagonista numa heroína exemplar. Denise permanece uma figura contraditória, frequentemente ingrata e cruel, mas profundamente humana. É nessa recusa da idealização que reside grande parte da força do romance. Mais do que denunciar injustiças ou reivindicar identidades, “Os Armários Vazios” interroga o que significa escolher um mundo sem conseguir abandonar completamente outro.

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