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sexta-feira, 12 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Daniel Faria: Oito estações da Noite Escura”



EXPOSIÇÃO: “Daniel Faria: Oito estações da Noite Escura”,
de Nuno Higino, José Rui Teixeira, Raquel Patriarca, Andreia C. Faria, Paulo José Miranda, Maria Brás Ferreira, Rosa Alice Branco, Miguel Neves Oliveira, Paulo Neves, Celeste Ferreira, Avelino Leite, Nazaré Álvares, Agostinho Santos, Avelino Sá, Margarida Almeida
Curadoria | José Rui Teixeira
Centro Cultural de Paredes
12 Abr 2026 > 18 Abr 2027


“Daniel Faria: Oito estações da Noite Escura” não se deixa habitar como uma exposição; atravessa-se como quem desce uma sombria encosta levando nas mãos uma pequenina luz bruxuleante. Cada estação é menos um lugar do que uma suspensão, um apeadeiro entre a carne e o seu desaparecimento, entre a palavra dita e o seu eco subterrâneo. O itinerário concebido por José Rui Teixeira prolonga o movimento interior de “Dos Líquidos”, onde Daniel Faria escreve a matéria como quem tacteia um corpo em dissolução: a raiz, o musgo, a resina, os fluidos da terra e do sangue confundem-se numa gramática da perda e da revelação. A noite é sombra, mas é também uma forma extrema de claridade. Herdada de São João da Cruz, a “Noite Escura” surge como experiência de desapossamento, caminho de combustão mística onde o sujeito só alcança a visão depois de desaprender os nomes do mundo. As obras plásticas e os textos convidados não são uma mera ilustração da poesia de Daniel Faria: prolongam-lhe a respiração mineral. Em Miguel Neves Oliveira ou Paulo Neves, como nos fragmentos de Nuno Higino e José Rui Teixeira, sente-se que a matéria está sempre prestes a desaparecer dentro da sua própria fulguração, como se o visível tivesse sido tocado por uma fadiga sagrada.

Ao longo das oito estações, o corpo torna-se lentamente sepulcro e semente. Há em toda a exposição uma liturgia da escuta, uma pedagogia do silêncio que aproxima Daniel Faria dos místicos, mas também dos poetas para quem a linguagem nasce do seu próprio esgotamento. Raquel Patriarca escreve que “o silêncio não conhece a noite”; essa suspensão do tempo repercute-se nas peças de Celeste Ferreira e Avelino Leite, onde a forma parece emergir de um escuro anterior à memória. A noite de Daniel Faria nunca é decorativa ou simbólica: é orgânica, terrestre. Inspira, expira. Em “Dos Líquidos”, a água, a seiva e o sangue constituem uma cosmologia humilde onde tudo se vira para Deus antes de regressar à terra. Essa circulação reencontra-se nas obras de Nazaré Álvares e Agostinho Santos, onde o invisível ganha espessura táctil, como se cada objecto estivesse ainda coberto pela cinza de uma criação recente. Os textos de Andreia C. Faria e Paulo José Miranda aprofundam essa sensação de limiar: entre o dentro e o fora, entre claridade e apagamento, o homem permanece incompleto, aberto como uma ferida. A exposição insiste, assim, na ideia de que a espiritualidade não ascende, antes se inclina, desce, abeira-se da humidade e da ruína para encontrar aí a pureza da luz.

A última estação abre-se como um túmulo vazio. Não é o triunfa da ressurreição, antes uma discreta deslocação da matéria. “O corpo saído para o dia nada guarda”, escreve Rosa Alice Branco, destacando uma espécie de pureza luminosa que a exposição procura preservar. Daniel Faria surge aqui não apenas como poeta da transcendência, mas como alguém que compreendeu profundamente a fragilidade dos corpos e o modo como o divino se infiltra nas coisas mínimas: uma mão diante do espelho, a roupa gasta, o cheiro da terra molhada. As obras de Margarida Almeida e Avelino Sá encerram esse percurso sem o concluir verdadeiramente; deixam o visitante num estado de suspensão semelhante ao da oração ou do luto. Oito estações tornam-se então oito modos de aprender a morrer para o excesso de ruído do mundo. E talvez seja essa a experiência mais intensa desta exposição: devolver à poesia o seu antigo poder de iniciação, fazendo da leitura uma travessia nocturna onde cada palavra arde devagar, como uma lamparina junto ao sepulcro. Entre a raiz absoluta e o mais alto apagamento, Daniel Faria continua a falar-nos de um lugar onde a noite não termina — apenas floresce.

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