Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Agostinho Santos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Agostinho Santos. Mostrar todas as mensagens

sábado, 31 de outubro de 2026

LIVRO: "O Sequestro do Cérebro" | Agostinho Santos



LIVRO: “O Sequestro do Cérebro”,
de Agostinho Santos
Ed. Officium Lectionis Edições, Setembro de 2026


“Neste período, aprendi a saborear a memória de quanto é bom, de quando os nossos estão bem e lembrei muitas vezes, entre dezenas de entradas e saídas do hospital, o quanto éramos felizes quando estávamos sentados no sofá a ler um livro, no estirador a desenhar ou a ver séries televisivas ou noticiários, ou nas cadeiras da varanda a beber um gin e a contemplar a majestosa paisagem das cidades do Porto e de Gaia, beijadas pelo rio Douro. Tudo era bom, pacífico... e eu não sabia. Tudo era sereno... e eu não sabia. Agora sei e sei também que, no meio destes meses infinitos de recuperação da Ilda, senti-me encurralado numa espécie de ilha, não abandonada de todo, mas consciente de que afinal a doença nos atirara para o nosso espaço e que a sobrevivência depende apenas de nós, em muitos casos de mim…”

Há tempestades que surgem sem aviso e que acabam por mudar para sempre a paisagem à nossa volta. “O Sequestro do Cérebro”, de Agostinho Santos, é o testemunho intenso e vivo de um desses abalos: o AVC que atingiu a sua companheira, Ilda Figueiredo, mulher de causas, de combates e de uma energia inesgotável, subitamente privada da palavra, do movimento e de uma parte essencial da sua autonomia. Foi um “tsunami”, como refere o escritor, que invadiu o seu quotidiano, suspendendo projectos e lançando ambos num território onde o medo se misturou com a esperança e cada pequeno sinal de progresso adquiriu a grandeza de um milagre. Mas não é da narrativa de uma doença que este livro trata, nem tão-pouco o relato de quem teve de aprender a cuidar. É, sobretudo, o retrato de um homem confrontado com a fragilidade da vida e obrigado a redesenhar a sua própria existência. Artista plástico, habituado a procurar no traço, na cor e na matéria os sinais de um mundo a correr para o caos, Agostinho viu-se perante a mais difícil das telas, aquela em que nada estava garantido, em que cada dia podia apagar uma linha ou devolver-lhe uma cor. E, quando tudo parecia suspenso, descobriu que a vida, mesmo ferida, não perdia inteiramente a capacidade de se reinventar.

Profissional de saúde que acompanhou parte do processo de reabilitação da doença que vitimou Ilda Figueiredo, sinto-me à vontade para afirmar que há, nas páginas deste livro, uma verdade comovente que ultrapassa a experiência individual. Agostinho Santos faz-nos reflectir numa realidade que lhe toca de perto e nos leva a perceber que também é preciso cuidar de quem cuida. Por detrás da vigilância, dos horários, das refeições, das terapias ou das deslocações, existe um homem que sente medo, que conhece a insónia, que não tem como não vacilar perante a dimensão da responsabilidade que lhe coube. Agostinho Santos tem a coragem e a generosidade de não esconder esse homem. Mostra-o a chorar longe da enfermaria, a temer não ter forças, a interrogar o silêncio daqueles que julgava próximos e a encontrar amparo na família e nos amigos que permaneceram. É nesta exposição da vulnerabilidade, sem disfarces nem heroísmos artificiais, que a sua escrita ganha uma singular humanidade. Cuidar de Ilda Figueiredo foi aprender a reconhecer o valor de coisas que antes pertenciam ao fundo indistinto dos dias: uma mão que aperta outra, um passo recuperado, uma palavra que regressa, um passeio possível. Foi também descobrir que o cuidador não é uma fortaleza sem brechas. É alguém que também precisa de descanso, de escuta e de mãos que o amparem. Para que alguém possa continuar a cuidar, é necessário que o mundo não se esqueça de cuidar dele.

No Centro de Reabilitação do Norte, em Valadares, a recuperação faz-se de cuidados clínicos, de gestos pacientes, de presença empática e de uma dedicação profissional que Agostinho Santos reconhece e agradece. Mas faz-se também de encontros, de palavras e de cultura. Entre exposições de artes plásticas e de fotografia, concertos de música clássica e tertúlias literárias, abrem-se janelas num quotidiano tantas vezes confinado às exigências da doença. O próprio Agostinho Santos foi convidado para uma dessas tertúlias, ao lado do Professor Manuel Sobrinho Simões, reencontrando um espaço de partilha que lhe era familiar: o da criação, do pensamento e da palavra. Este episódio, aparentemente discreto, contém uma verdade essencial. Uma instituição de saúde cumpre plenamente a sua missão quando, para além de tratar o corpo, reconhece a pessoa que nele habita; quando percebe que ninguém se resume ao diagnóstico, à incapacidade ou ao lugar que ocupa numa enfermaria. A cultura não substitui a terapêutica, mas pode devolver à existência horizontes que a doença estreitou. É também cuidado oferecer a alguém a possibilidade de se emocionar, de conversar, de apreciar uma obra, de participar numa conversa à volta de um livro e de voltar a sentir-se parte do mundo. Nestes encontros, a vida não espera pela recuperação para acontecer: acontece de facto, ali, entre pessoas que, apesar das suas fragilidades, continuam a ter algo para dar e muito para receber.

E há o artista, que nunca desaparece inteiramente por detrás do cuidador. Quando o tsunami entrou na sua vida, Agostinho Santos encontrava-se mergulhado na preparação da Bienal Internacional de Arte de Gaia. De repente, os caminhos passaram a convergir para o hospital; o atelier ficou distante e o tempo adquiriu outra dimensão. Porém, mesmo quando a urgência dos cuidados parece ocupar todo o espaço, a criação persiste, procurando lugar na mesa de casa, no desenho transportado para dentro das novas rotinas, no olhar que continua a interrogar o mundo. Há qualquer coisa de profundamente revelador neste gesto: desenhar, quando a vida perdeu o seu contorno é recusar que a adversidade detenha a última palavra. A mão que acompanha Ilda Figueiredo é também a mão que traça; a sensibilidade que reconhece a dor é a mesma que procura a forma, a cor e a possibilidade de uma nova composição. A arte prolonga-se para além do papel e da tela, manifesta-se na persistência de uma exposição realizada, na presença num encontro cultural, no esforço de manter a sua Ilda ligada aos outros, no cuidado de não deixar que a doença a encerre num mundo sem janelas. Não se trata de transformar o sofrimento em inspiração, como se a dor precisasse de justificar-se através de alguma obra. Trata-se, antes, de reconhecer que a identidade de uma pessoa não se esgota naquilo que lhe acontece. Mesmo sob a violência da mudança, Agostinho Santos continua a ser artista; e Ilda Figueiredo, apesar das limitações impostas pelo AVC, continua a ser a mulher de pensamento, de luta e de afectos que sempre foi. A criação não apaga as feridas, antes ajuda a impedir que elas apaguem tudo o resto.

Nisto reside o desenho mais profundo de “O Sequestro do Cérebro”: o de duas vidas que, sem deixarem de conhecer o medo e a incerteza, reaprendem a caminhar juntas. Ilda Figueiredo regressa devagar, num movimento feito de avanços, pausas e pequenas conquistas; Agostinho Santos transforma-se no decurso desse regresso, descobrindo no acto de cuidar uma das formas mais exigentes e mais fecundas de ser útil. Entre ambos, o amor deixa de ser apenas o território da cumplicidade e passa a ser também o da resistência quotidiana, da paciência e da reinvenção. À sua volta, a família, os amigos, os profissionais de saúde e a arte compõem uma rede de presenças que, quando verdadeira, impede a fragilidade de se converter em abandono. O autor lembra, porém, que essa rede não pode depender apenas da generosidade individual. Cuidar é também uma responsabilidade colectiva, que exige instituições atentas, apoio continuado e respeito pela dignidade de quem sofre e de quem acompanha. No fim, permanece a imagem de um artista que continua a desenhar, de uma mulher cujo sorriso procura de novo a luz e de duas pessoas que aprenderam a medir o tempo por gestos que outrora pareceriam insignificantes. O traço ainda pode tremer; o desenho permanece inacabado. É tempo de ajudar a reconstruir a paisagem, de descobrir entre os destroços que a mão que ampara também cria, que a mão que cria também resiste e que, mesmo depois do maior dos abalos, a vida vai voltar a encontrar o seu desenho.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Tumulto” | Agostinho Santos



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Tumulto”,
de Agostinho Santos
Curadoria | Inês Falcão
Auditório Municipal de Gondomar
06 Jun > 01 Ago 2026


Começaria por dizer que “Tumulto”, a exposição que Agostinho Santos apresenta no Auditório Municipal de Gondomar, não é uma mostra para ser vista com ligeireza nem para satisfazer expectativas de conforto estético. Atravessá-la é aceitar um confronto com as inquietações do presente e com aquilo que de mais frágil habita a condição humana. Guerras, doenças, envelhecimento, violência, desigualdades, medo: os temas anunciam-se desde logo, mas seria redutor entendê-los apenas como matéria de denúncia social. Em Agostinho Santos, a realidade nunca surge como mera ilustração do mundo. O artista trabalha-a como quem a atravessa e a sofre, convocando para o desenho e para a pintura uma intensidade emocional que escapa à distância analítica e ao comentário circunstancial. As figuras multiplicam-se, fundem-se, contaminam-se umas às outras, como se cada corpo transportasse em si a memória de muitos outros corpos. O resultado é um universo visual onde a deformação se torna linguagem e onde a exuberância formal convive com uma profunda inquietação existencial. Mais do que representar o tumulto, Agostinho Santos parece procurar o lugar exacto onde ele nasce, esse território obscuro onde o humano se confronta com os seus limites, os seus fantasmas e as suas contradições.

Há muito que a obra do artista vem construindo uma reflexão persistente sobre o mal-estar do mundo, mas em “Tumulto” essa dimensão adquire uma particular densidade. As composições parecem organizadas segundo uma lógica de permanente transformação, como se nada pudesse permanecer fixo ou concluído. Rostos geram rostos, criaturas emergem de outras criaturas, gestos prolongam-se em novos gestos, numa espécie de fervilhar orgânico que recorda certas visões medievais do Paraíso e do Inferno, mas também a tradição da Arte Popular e da Arte Bruta que tão profundamente marcam o imaginário do pintor. Não estamos, porém, perante uma visão desesperada da existência. Por detrás do ruído, da turbulência e da aparente desordem, percebe-se uma procura incessante de sentido. O tumulto de Agostinho Santos não é apenas exterior; é igualmente interior, espiritual, resultado de um combate travado entre o medo e a esperança, entre a vulnerabilidade e a resistência. As obras funcionam como cartografias emocionais de um tempo em permanente sobressalto, mas também como exercícios de sobrevivência afectiva. Há nelas qualquer coisa de ritual, de exorcismo íntimo, como se o acto de desenhar e pintar permitisse ao artista domesticar os monstros que reconhece no mundo e em si próprio.

Nessa medida, a exposição encontra a sua grande força na capacidade de transformar a inquietação em possibilidade de encontro. Num tempo dominado pela velocidade da informação, pela banalização da violência e pela indiferença perante o sofrimento alheio, Agostinho Santos insiste em devolver rosto e humanidade àquilo que tantas vezes preferimos não ver. As suas figuras interrogam-nos silenciosamente e obrigam-nos a tomar posição perante aquilo que observamos. Não há aqui neutralidade possível. O visitante é chamado a participar, a reconhecer-se naquele vasto cortejo de seres híbridos, vulneráveis e excessivos que povoam as superfícies. Nesse sentido, “Tumulto” afirma-se como uma exposição profundamente política, não no sentido partidário do termo, mas enquanto exercício de consciência e de responsabilidade colectiva. A arte surge como espaço de resistência contra a anestesia moral do presente e como instrumento de reflexão sobre aquilo que nos une enquanto comunidade humana. Ao sair da exposição, permanece a sensação de termos atravessado um território povoado por sombras e sobressaltos, mas onde subsiste, ainda assim, uma obstinada confiança na empatia, na solidariedade e na capacidade do ser humano para encontrar serenidade no centro do próprio caos.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Daniel Faria: Oito estações da Noite Escura”



EXPOSIÇÃO: “Daniel Faria: Oito estações da Noite Escura”,
de Nuno Higino, José Rui Teixeira, Raquel Patriarca, Andreia C. Faria, Paulo José Miranda, Maria Brás Ferreira, Rosa Alice Branco, Miguel Neves Oliveira, Paulo Neves, Celeste Ferreira, Avelino Leite, Nazaré Álvares, Agostinho Santos, Avelino Sá, Margarida Almeida
Curadoria | José Rui Teixeira
Centro Cultural de Paredes
12 Abr 2026 > 18 Abr 2027


“Daniel Faria: Oito estações da Noite Escura” não se deixa habitar como uma exposição; atravessa-se como quem desce uma sombria encosta levando nas mãos uma pequenina luz bruxuleante. Cada estação é menos um lugar do que uma suspensão, um apeadeiro entre a carne e o seu desaparecimento, entre a palavra dita e o seu eco subterrâneo. O itinerário concebido por José Rui Teixeira prolonga o movimento interior de “Dos Líquidos”, onde Daniel Faria escreve a matéria como quem tacteia um corpo em dissolução: a raiz, o musgo, a resina, os fluidos da terra e do sangue confundem-se numa gramática da perda e da revelação. A noite é sombra, mas é também uma forma extrema de claridade. Herdada de São João da Cruz, a “Noite Escura” surge como experiência de desapossamento, caminho de combustão mística onde o sujeito só alcança a visão depois de desaprender os nomes do mundo. As obras plásticas e os textos convidados não são uma mera ilustração da poesia de Daniel Faria: prolongam-lhe a respiração mineral. Em Miguel Neves Oliveira ou Paulo Neves, como nos fragmentos de Nuno Higino e José Rui Teixeira, sente-se que a matéria está sempre prestes a desaparecer dentro da sua própria fulguração, como se o visível tivesse sido tocado por uma fadiga sagrada.

Ao longo das oito estações, o corpo torna-se lentamente sepulcro e semente. Há em toda a exposição uma liturgia da escuta, uma pedagogia do silêncio que aproxima Daniel Faria dos místicos, mas também dos poetas para quem a linguagem nasce do seu próprio esgotamento. Raquel Patriarca escreve que “o silêncio não conhece a noite”; essa suspensão do tempo repercute-se nas peças de Celeste Ferreira e Avelino Leite, onde a forma parece emergir de um escuro anterior à memória. A noite de Daniel Faria nunca é decorativa ou simbólica: é orgânica, terrestre. Inspira, expira. Em “Dos Líquidos”, a água, a seiva e o sangue constituem uma cosmologia humilde onde tudo se vira para Deus antes de regressar à terra. Essa circulação reencontra-se nas obras de Nazaré Álvares e Agostinho Santos, onde o invisível ganha espessura táctil, como se cada objecto estivesse ainda coberto pela cinza de uma criação recente. Os textos de Andreia C. Faria e Paulo José Miranda aprofundam essa sensação de limiar: entre o dentro e o fora, entre claridade e apagamento, o homem permanece incompleto, aberto como uma ferida. A exposição insiste, assim, na ideia de que a espiritualidade não ascende, antes se inclina, desce, abeira-se da humidade e da ruína para encontrar aí a pureza da luz.

A última estação abre-se como um túmulo vazio. Não é o triunfa da ressurreição, antes uma discreta deslocação da matéria. “O corpo saído para o dia nada guarda”, escreve Rosa Alice Branco, destacando uma espécie de pureza luminosa que a exposição procura preservar. Daniel Faria surge aqui não apenas como poeta da transcendência, mas como alguém que compreendeu profundamente a fragilidade dos corpos e o modo como o divino se infiltra nas coisas mínimas: uma mão diante do espelho, a roupa gasta, o cheiro da terra molhada. As obras de Margarida Almeida e Avelino Sá encerram esse percurso sem o concluir verdadeiramente; deixam o visitante num estado de suspensão semelhante ao da oração ou do luto. Oito estações tornam-se então oito modos de aprender a morrer para o excesso de ruído do mundo. E talvez seja essa a experiência mais intensa desta exposição: devolver à poesia o seu antigo poder de iniciação, fazendo da leitura uma travessia nocturna onde cada palavra arde devagar, como uma lamparina junto ao sepulcro. Entre a raiz absoluta e o mais alto apagamento, Daniel Faria continua a falar-nos de um lugar onde a noite não termina — apenas floresce.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Gravidade e(m) Suspensão” | Nazaré Álvares



EXPOSIÇÃO DE EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Gravidade e(m) Suspensão”,
de Nazaré Álvares
Curadoria | Agostinho Santos
Casa da Cultura de Paredes
03 Mai > 13 Jun 2026


“Muito relacionada com a observação da contemporaneidade, usando a tela enquanto espaço de anotação e denúncia, Nazaré Álvares age com bravura ainda que toda a sua mensagem tenha que ver que nos sentimos predados, em risco, sucumbindo. Digo bravura porque as suas imagens são fortes, a sua figuração assume o feio e o incompleto, não se adorna para efeitos prazerosos, não há cosmética na sua obra. Tudo é debaixo da máscara. De alguma maneira, tudo é mostrado como por debaixo de todos os disfarces.”
Valter Hugo Mãe

Patente na Casa da Cultura de Paredes até ao próximo dia 13, a exposição “Gravidade e(m) Suspensão” mostra Nazaré Álvares como uma das vozes mais inquietas e insubmissas no actual panorama da pintura portuguesa contemporânea. Reunindo desenho e pintura numa convivência orgânica, a artista regressa a dois núcleos temáticos que têm marcado o seu trabalho recente - o auto-retrato e a imagem da torre de Babel - para os submeter a uma tensão simultaneamente íntima e simbólica. A arista escapa à armadilha da revisitação historicista, transformando os seus trabalhos num exercício de deslocação contemporânea, onde o peso da tradição é continuamente corroído por uma linguagem pictórica nervosa, crua e emocionalmente exposta. Há uma gravidade evidente nestas obras, não apenas no sentido material da tinta espessa, da pincelada pesada e da densidade do desenho, mas sobretudo na dimensão existencial que percorre cada figura. Toda a mostra parece oscilar entre o peso do corpo e uma estranha suspensão psicológica, como se as figuras habitassem um espaço intermédio entre a queda e a permanência. Suspensos entre resistência e vulnerabilidade, os corpos gastos e os rostos inquietos são aqui matéria e desconforto.

Existe em toda a exposição uma recusa deliberada do decorativismo e uma insistência quase ética na verdade emocional da representação. Nazaré Álvares parece interessar-se menos pela imagem exterior do rosto do que pelas marcas invisíveis da experiência humana - fadiga, memória, solidão, desgaste -, transformando o retrato num espaço de exposição interior raramente confortável. A artista trabalha o próprio rosto como território de confronto. Rejeitando exercícios narcísicos ou autobiográficos inconsequentes, cada obra parece colocar em causa a estabilidade da identidade. Vincadamente expressionistas, estes rostos mostram uma frontalidade difícil de sustentar na erosão emocional que deles se desprende. Pinceladas interrompidas, zonas aparentemente inacabadas, sobreposições violentas de tinta e uma paleta contida, dominada por negros, ocres e vermelhos densos, constroem figuras cuja carne é, simultaneamente, presença física e ferida psicológica. O desenho acompanha esta intensidade sem funcionar como mero suporte preparatório; pelo contrário, prolonga a dimensão diarística e confessional da pintura. As linhas surgem tensas, fragmentadas, como se registassem pensamentos ainda em estado bruto.

A presença recorrente da torre de Babel introduz uma dimensão mais ampla e simbólica no percurso da exposição. Longe de surgir como simples referência erudita à tradição ocidental, Babel aparece aqui como metáfora da instabilidade contemporânea, da incomunicabilidade e da permanente fragmentação do sujeito. Ao colocar estas estruturas verticais em diálogo com os auto-retratos, Nazaré Álvares estabelece uma ponte subtil entre e a vulnerabilidade individual e o colapso colectivo. A suspensão sugerida no título ganha uma nova força, não apenas pela sugestão do estado psicológico das figuras, mas também pela sensação civilizacional de desequilíbrio e ruína latente que exprime. Formalmente, a artista demonstra um domínio técnico sólido, perceptível tanto na construção compositiva como na relação entre desenho e pintura, ao serviço de uma fortíssima tensão expressiva. Essa ausência de artifício complacente faz de “Gravidade e(m) Suspensão” uma exposição particularmente relevante pelo que se desprende de uma pintura lenta, física e emocionalmente exigente, na qual olhar é confrontar.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: "Reabilitação / Valadares" | Agostinho Santos



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Reabilitação / Valadares”,
de Agostinho Santos
Centro de Reabilitação do Norte
06 Ago > 13 Set 2025


“Mais do que tudo, esta minha exposição de desenhos “Reabilitação/Valadares”, agora em plena inauguração no Centro de Reabilitação de Valadares (CRN) é uma mostra carregada de emoção, que traduz e interpreta um período difícil, de inquietação e perturbação, que ainda não terminou, mas que felizmente está a virar a face e estes desenhos / aguarelas exprimem, ou pretendem exprimir, precisamente esta fase de recuperação e o quase regresso à normalidade.”
Agostinho Santos

Esta é uma recensão crítica “fora da caixa”. Começa num corredor onde doentes em cadeiras de rodas ou deitados numa maca aguardam a sua vez de serem avaliados. À sua volta concentram-se os acompanhantes. Agostinho Santos está entre eles, pertence ao rol dos familiares, vem com a esposa, Ilda Figueiredo, para internamento. Conheço a sua obra há alguns anos. A visceralidade do seu desenho toca-me profundamente, faz acordar o que de mais primordial e íntimo há em mim. Já me tinha manifestado acerca disso aqui no blogue, já tinha trocado com o artista um par de mensagens expressando a minha emoção, mas é a primeira vez que lhe aperto a mão. Embora o seu olhar não esconda preocupação, é o optimismo que fala mais alto. Os dias passados no hospital de agudos trouxeram boas notícias e as melhoras da Ilda são evidentes: É uma grande mulher e o seu carácter e determinação estão agora ao serviço de um processo exigente e complexo de reabilitação em múltiplas valências. Sei que ambos sabem que há muito caminho pela frente. Irei confirmá-lo no próximo mês e meio, ao longo do qual aprendi a conhecer melhor Agostinho Santos e a admirá-lo por aquilo que é.

Para Agostinho Santos, desenhar é tão importante como respirar. Com Ilda Figueiredo internada, o pintor exprime no papel o viver e o sentir de quem se vê incapacitado pela doença. Ouvida até à exaustão, a frase “um dia de cada vez” começa a reflectir-se nos desenhos que vai produzindo, espelho de um quotidiano vertido em surpresa e novidade, em relações de confiança que se reforçam no valor de cada conquista, em gestos aprimorados pela vontade e pelo querer. Irá chamar a este conjunto de desenhos “Reabilitação / Valadares”, assinalando assim um virar de página na qual reabilitação, renascimento e renovação não são palavras de circunstância. Figurativa, vincadamente alegórica, a série ganha forma, gesto, cor e vida. Incipientes, inacabados, os primeiros trabalhos reflectem o tanto que está por fazer no processo de reabilitação a muitos níveis. O contraste com os trabalhos da segunda metade da série é gritante, a cor a tomar conta do espaço, os desenhos como reflexo da vontade, da esperança e da alegria que residem num processo de luta e conquista. O resultado desta quase “residência artística” pode agora ser visto no Centro de Reabilitação do Norte, em vinte e quatro trabalhos que formam um “diário íntimo” que se expande muito para lá daquilo que o nosso olhar pode perceber. Em amor e em verdade.

Como espectros que se insinuam num quotidiano exasperadamente lento, mas seguro, a pulseira de identificação, a bomba inalatória ou a cadeira de rodas vêm lembrar aquilo de que é feito o “novo normal”. Por detrás do negro espreitam demónios, mas é o verde da esperança a falar mais alto. Nos meus trinta e cinco anos de profissional de enfermagem, sempre me tocou a fragilidade do ser humano, os imponderáveis que, num piscar de olhos, viram mundos de pernas para o ar. Olhar o doente, ver a súplica no abandono do seu olhar, a resignação face à sua dependência, o desejo de dias melhores, é experimentar o que de mais humano e íntimo há em nós. Poder apreciar uma série que retrata vivências tão intensas e profundas é mergulhar na bondade e na empatia, é perceber melhor aquilo de que somos feitos, é virar as costas ao que nos pode separar e comovermo-nos com o tanto que nos une. Na cor, no gesto e no sentimento, Agostinho Santos dá-nos uma lição de humanidade com este “Reabilitação / Valadares”. Vale a pena escutar pausadamente o que esta série preciosa de trabalhos tem para nos dizer. É na escuta do outro que o coração encontra a sua forma mais verdadeira de existir.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Gabinete de Curiosidades / Museu de Causas - Coleções Agostinho Santos”



EXPOSIÇÃO: “Gabinete de Curiosidades”
Museu de Causas - Coleções Agostinho Santos
Casa Comum - Universidade do Porto
12 Jul > 06 Set 2025


Quando entrou para a área do jornalismo, Agostinho Santos achava que ia conseguir mudar o mundo com as suas reportagens. Não mudou o mundo, apesar da sua enorme dedicação à profissão ao longo de mais de três décadas, mas terá mudado o dia a dia de muita gente. Este ideal de solidariedade, cumplicidade e empatia está na base do Museu de Causas, tema da tese “Paleta Contemporânea - Museu de Causas”, apresentada em 2015 no âmbito do doutoramento em Museologia que frequentou na Faculdade de Letras e Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. O projecto viria a traduzir-se num livro e teve uma primeira exposição no Espaço Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, inaugurada a 25 de Abril de 2018. Assente em duas colecções especiais - a obra do pintor sobre intervenção social e o conjunto de obras que tem de outros artistas -, o espólio do Museu de Causas conta com 2.500 trabalhos de mais de 500 artistas que sustentam, no seu conjunto, uma narrativa visual e sensível, construída por uma comunidade artística multifacetada e profundamente comprometida com uma leitura crítica do presente e com a imaginação do devir.

“Gabinete de Curiosidades / Museu de Causas – Coleções Agostinho Santos” chega agora às Galerias da Casa Comum (edifício da Reitoria da Universidade do Porto), reunindo cerca de duzentas obras, algumas delas inéditas, de setenta artistas. Graça Morais, Nadir Afonso, Zulmiro de Carvalho, Valter Hugo Mãe, Baltazar Torres e Isabel Lhano são apenas alguns dos artistas que se fazem representar nesta mostra com obras inéditas. É possível ainda ver trabalhos de Álvaro Siza Vieira, Fernando Lanhas, Ângelo de Sousa, Júlio Pomar, António Carneiro, Fernando Távora, Armanda Passos, Francisco Laranjo, Júlio Dolbeth, entre tantos outros, numa mostra que tem a particularidade de ser composta na íntegra por trabalhos de alunos ou antigos alunos, docentes ou ex-docentes da Universidade do Porto. Ao reunir desenhos, pinturas, documentos e livros de artista (alguns deles verdadeiras raridades) e promovendo a convivência de diferentes disciplinas, estéticas e gerações, a exposição valoriza o diálogo entre mestres e discípulos e é também uma forma de mostrar como o legado artístico se transmite e se reinventa dentro e a partir da comunidade da Universidade do Porto.

Pinturas, desenhos, esculturas, maquetes, livros de artista, correspondência, fotografias. São muitas e diversificadas as armas de arremesso que, em forma de arte, se insurgem contra os problemas que afectam o nosso mundo. As injustiças, as guerras, a fome, o alastrar das doenças, as desigualdades, o desemprego, a degradação dos direitos dos trabalhadores, a corrupção, a discriminação de género, o racismo, a xenofobia, os problemas ambientais e a crise climática, entre outros, são temas inscritos num programa expositivo que tem por objectivo agitar as consciências das pessoas e pôr a sociedade a olhar a arte como uma poderosa arma de inquietação e reflexão e não como mero elemento decorativo. “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”, é um verso de Sophia, mas que se adequa na perfeição ao lado errado do mundo que todos os dias se afirma pelas notícias na rádio ou nos jornais. A arte contemporânea é uma cidade sem muros nem ameias e, por isso, projectos independentes como o Museu de Causas ou a exposição “Gabinete de Curiosidades” são tão importantes. São eles que fomentam a revolta contra a crueldade do mundo e ajudam a espalhar a mensagem de paz e liberdade de que tanto carecemos.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Agostinho Santos



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
Com | Agostinho Santos
Participação especial | Manuel Sobrinho Simões
Centro de Reabilitação do Norte
26 Jun 2025 | qui | 17:00


“ (…) Germinam escolhas intrincadas:
grito vermelho de lâmina erguida
no preto e branco
- tela de protesto ou prenúncio de terramoto:
vozes de ruas desertas,
águas que cavalgam naufrágios de vidas
em simbioses (com)sentidas.”
Ilda Figueiredo, in “Nas Asas do Pássaro de Fogo”

As Tertúlias Literárias “Conversas às 5” voltaram a abrir-se em novidade e espanto aos muitos amantes das artes e das letras que marcaram presença no Centro de Reabilitação do Norte, para assistir à última sessão antes da pausa estival. Pela primeira vez na história do evento, o convite foi endereçado a um artista plástico e o livro à volta do qual a conversa se desenrolou foi um magnífico álbum, repleto de intrigantes e muito belos trabalhos artísticos, quase despido de palavras, mas com muito para dizer. Jornalista, artista plástico, investigador, curador independente e director da Bienal Internacional de Arte de Gaia, Agostinho Santos foi o convidado da sessão, a qual contou também com a participação especial de Manuel Sobrinho Simões, renomado patologista, Professor Emérito da Universidade do Porto e fundador do IPATIMUP, um dos três laboratórios europeus acreditados pelo Colégio Americano de Patologistas. “O Estranho Terrível Outro”, editado pela Officium Lectionis (2025), foi o livro em cima da mesa, girando a conversa em torno do trabalho de Agostinho Santos e da forma como, através do desenho, da pintura ou da colagem, o artista interpreta, de forma única, a variedade de rostos de pessoas com cancro.

“A arte é uma arma para denunciar e alertar para os males do mundo, e também para reflectir e convidar a reflectir sobre todas as questões que nos incomodam”, começou por dizer Agostinho Santos, artista que não dispensa de elevar a voz que a arte lhe confere para denunciar “a guerra, as desigualdades sociais, as injustiças, a corrupção, os problemas ambientais, a discriminação entre o homem e a mulher, a violência”. Veio isto a propósito de “O Estranho Terrível Outro”, um livro que aborda a questão do cancro na óptica do pintor, assunto que, confessa, “me mete medo, me faz pensar”. Um livro que, antes de o ser, foi uma série de pinturas sobre o cancro na tentativa de o personalizar, de partir em busca da sua imagem. Neste caminho de descoberta, Agostinho Santos sentiu, a partir de dada altura, a necessidade de aprofundar o tema, recorrendo para tal ao Professor Manuel Sobrinho Simões que o foi “municiando” com “fotografias de cancros, desde peças macroscópicas e imagens de microscopia óptica, até paisagens lunares de microscopia electrónica”. O resultado salda-se, nas palavras do patologista, por “uma incursão feliz na tentativa de aproximar a estranheza da diferença”.

Folheando o livro, salta à vista do leitor a diversidade de abordagens àquilo que de comum há num tema tão vasto. Incontornáveis, a rica iconografia - imagens que se entrecruzam e metamorfoseiam numa estranha simbiose, figurações de animais e plantas, símbolos do sagrado e do profano - e as séries sequenciais marcadas por uma cor predominante, foram temas de conversa, com Manuel Sobrinho Simões a falar da cor como “algo que tem um preço”, dando como exemplo o polvo e a evolução natural que lhe permite confundir-se com o seu meio natural e escapar aos predadores. “O artista faz o contrário, a coisa pior para o artista é passar despercebido”, acrescenta. Visto por Agostinho Santos como um assunto “negro, doloroso, que me mete medo”, o cancro representado na sua pintura - além de constituir uma tentativa de exorcizar fantasmas e demónios -, tem muita cor. “Um dos principais responsáveis por eu utilizar muito a cor foi o Professor Sobrinho Simões que me fez chegar trabalhos de estudo e de investigação com muita cor. Portanto, eu tentei que os rostos de pessoas com cancro - e neste livro só há rostos - incorporassem os medos, as inquietações, o que as pessoas sentem, dando cor àquilo que nos mete medo, não reduzir o problema ao preto e branco.”

“Não há nada tão parecido connosco como os nossos cancros. Se eu tiver um gémeo, sou mais parecido com o meu cancro do que com o meu gémeo”. A estranheza da frase teve o condão de adensar ainda mais o silêncio na sala, com o público extraordinariamente atento àquilo que Sobrinho Simões tinha para dizer. Sem perder o foco numa particular representação pictórica do cancro, o patologista falou da carga genética comum ao ser humano e ao arroz, ao bróculo ou à banana, por exemplo - “quando estamos a comer uma banana, estamos a comer um primo afastado, o que é uma chatice”, ironizou. Lembrando que todos nós “já fomos um ovo”, Sobrinho Simões destacou a forma como o artista mostra os diferentes rostos de pessoas com cancro, diferentes representações “não só da biologia, como da relação com os outros, o medo, as expressões mais elaboradas do ser humano”. E acrescenta que “não é a arte e a ciência que nos caracterizam, antes a educação, a formação, a relação com os outros, o sermos decentes. Quando temos um cancro, perdemos estas carapaças, temos cagaço”, algo que o artista consegue captar muito bem, estabelecendo diferenças no que é semelhante.

A cor e as questões de ordem prática ou as tendências a ela ligadas, a forma como é percepcionada ou exprime estados de espírito, abriu espaço às questões do público, enriquecendo o momento com apontamentos de grande pertinência. O luto em diferentes culturas, os sonhos a cores ou a preto e branco, o daltonismo e aquilo que é inato ou adquirido, as influências da moda, as viagens e os livros, foram assuntos sobre a mesa a suscitar um intenso momento de troca de opiniões e partilha de experiências e conhecimento. “Não seria o pintor que sou, se não fosse o jornalista que fui”, disse Agostinho Santos, acrescentando que se não fosse jornalista e pintor gostaria de ser “jornalista e pintor”, para logo emendar e falar no gosto imenso que teria em ser cientista (com provas dadas em miúdo, quando quase fazia ir pelos ares a cave lá de casa). Os derradeiros momentos ouviram Agostinho Santos e Manuel Sobrinho Simões falar dos muitos “estranhos terríveis outros” que minam as nossas sociedades, mas também deste “exercício de comunidade” que são as tertúlias, do valor dos momentos em que abandonamos o “eu” e nos voltamos para o “nós”. Agostinho Santos irá regressar ao Centro de Reabilitação do Norte para mostrar os trabalhos resultantes da passagem da esposa, Ilda Figueiredo, por este espaço. Será em Agosto e estão todos convidados a visitar a exposição.

domingo, 11 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO: "Livros de Artista"



EXPOSIÇÃO: “Livros de Artista”
Vários artistas
6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025
Quinta da Fiação de Lever
05 Abr > 12 Jul 2025


“Os livros de artista são obras de arte sob a forma de livro”. Será esta, porventura, a forma mais simples de definir um objecto artístico multifacetado, original na sua apresentação, admirável na capacidade de desenvolver as mais variadas narrativas. No essencial, um livro de artista é, em si mesmo, a obra de arte, sendo utilizado pelo artista para expressar as suas ideias, expandir projectos pessoais, documentar e embelezar trabalhos anteriores, experimentar materiais e, mais importante ainda, distribuir os seus trabalhos a um público mais vasto. Alguns livros de artista podem conter pop-outs, terem materiais não convencionais como suporte e integrarem texto ou não. Podem ser tão variados quanto os artistas que os criaram e distinguem-se de um livro “comum” pelo facto de se afastarem do mundo editorial formal, já que são frequentemente auto-publicados e financiados, impressos à mão, pintados e desenhados, vivendo de edições limitadas.

Vem esta introdução a propósito de “Livros de Artista”, fascinante mostra no âmbito da 6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025, patente ao público na Quinta da Fiação de Lever. Agostinho Santos, Agustin Bastón, Belmiro Belém, Carmo Diogo, Celeste Ferreira, Constança Lucas, Evelina Oliveira, Felicia, Miguel de Carvalho, Nazaré Álvares, Raul Valverde, Rui Costa, Rui da Graça e Valter Hugo Mãe apresentam ao olhar do visitante um conjunto alargado de trabalhos em que cada página, quando analisada separadamente, assim como o acto repetido de “folhear” o livro, se combinam para transmitir uma sensação de continuidade e oferecer um conjunto de leituras, com tanto de sofisticado quanto de inesperado. Livros produzidos manualmente ou nos quais o artista teve uma intervenção directa na sua impressão, livros com múltiplos ou cópias únicas, livros com desenhos, pinturas, colagens ou têxteis, livros que se lêem da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima, as propostas são numerosas e qual delas a mais sedutora.

Um dos aspectos que prende mais o olhar do visitante e o obriga a ver no livro de artista uma obra de arte absoluta relaciona-se com a “assinatura” do artista, o traço que lhe é característico, que o individualiza e o torna único. Reconhecer um autor num livro de artista, tal como o reconheceríamos numa pintura ou num desenho expostos numa parede, passa por ser um desafio, um dos exercícios mais interessantes que se oferecem ao visitante, feliz por reconhecer autores admiráveis e poder identificar-se com as histórias fabulosas que a sua obra transmite, embora num suporte diferente daquele a que está habituado. Estão neste caso os laranjas vibrantes ou o pequeno anjo que anunciam Celeste Ferreira, as bonecas de olhos enormes de Evelina Oliveira, as figuras que brotam umas das outras de Agostinho Santos ou as inconfundíveis máscaras de Nazaré Álvares. Uma exposição que vale tanto pela possibilidade de apreciar as obras individualmente, quanto pelo conjunto, graças à sua extraordinária qualidade e variedade. Por si só, justifica plenamente a deslocação a Lever.

sábado, 3 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO: Lagoa Henriques



EXPOSIÇÃO: Lagoa Henriques
6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025
Quinta da Fiação de Lever
05 Abr > 12 Jul 2025


“Grande parte da obra de Lagoa Henriques, talvez a mais significativa, talvez a mais reveladora, esteve à beira de soçobrar por completo num fogo impiedoso que atingiu o seu atelier, lugar de uma vida e arsenal de uma longa reflexão sobre a vida. O acaso também ajuda à formulação da história: estes desenhos mutilados, parcialmente queimados, aqui se recuperam... (...). De um lado, eles são o reflexo cintilante e sintético de uma observação infatigável da realidade exterior, do rosto, das formas, da presença humana: contam a poesia dos olhares, dos movimentos, dos ritmos da vida, o próprio sentido da amizade e da intimidade. de outro lado, porém, eles transfiguram o mundo das aparências, aproximam-se do movimento da alma, reflectem a realidade interior: contam a memória e o sonho, falam de objectos e paisagens impossíveis, narram a própria transformação.”
Rocha de Sousa, in catálogo da exposição “Desenhos Recuperados” (SNBA, Dezembro de 1972)

Numa altura em que a Bienal Internacional de Arte Gaia entra em velocidade de cruzeiro com a abertura de novos polos expositivos em Freamunde, Peso da Régua, Funchal, Esposende e Macedo de Cavaleiros, é tempo de regressar à Quinta da Fiação de Lever e apreciar o trabalho de Lagoa Henriques, o artista convidado desta sexta edição, ao qual a Bienal rende homenagem. Autor de desenhos e esculturas notáveis, poeta e conferencista, cenógrafo e colecionador, mestre e motivador de sucessivas gerações de criadores artísticos, do seu trabalho destaca-se, desde logo, a estátua de Fernando Pessoa na esplanada do café A Brasileira do Chiado, na Rua Garrett, produzida nos anos 80 e uma das obras em espaço público mais conhecidas e fotografadas do país. Mas também, entre outros, a estátua em bronze de Guerra Junqueiro na Praça de Londres e o Memorial a Antero de Quental, de pedra e aço, no Jardim do Príncipe Real, ambas igualmente em Lisboa, a União do Lis e Lena, em Leiria, o António Aleixo sentado, em Loulé, Camões e a Ilha dos Amores, em Constância, o D. Sebastião em bronze, em Esposende, ou o conjunto escultórico As Varinas, em Ovar.

Filho de um comerciante e actor amador e de uma professora primária, António Augusto Lagoa Henriques nasceu em Lisboa a 27 de Dezembro de 1923. Após concluir o curso dos liceus, pensou cursar Letras ou Direito, mas reprovou nas provas de aptidão à Universidade. Recorreu, então, a aulas particulares de Agostinho da Silva que, após ver os seus desenhos, o persuadiu a estudar Escultura. Em 1945 matriculou-se no Curso Especial de Escultura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, mudando em 1948 para a Escola de Belas Artes do Porto, onde concluiu a licenciatura com um trabalho classificado com vinte valores. Foi assistente de escultura na ESBAP e, mais tarde, professor efectivo de Desenho. Em 1966, por concurso público, passou a lecionar na ESBAL onde participou na renovação do ensino artístico, tendo instituído uma disciplina inovadora – a de Comunicação Visual. Durante a década de 90 regeu a disciplina de Desenho na Escola Superior de Conservação e Restauro de Lisboa e, em 2000, foi contratado como Professor Catedrático convidado, em regime de acumulação, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Viria a falecer a 21 de Fevereiro de 2009, vítima de doença prolongada.

Um dos aspectos que mais chama a atenção do visitante prende-se com a inesperada “bordadura” dos magníficos desenhos expostos, dir-se-ia que tocados pelo fogo. Com efeito, no princípio da década de 70, um incêndio devastador destruiu o atelier de Lagoa Henriques, numa parte dos antigos pavilhões da Exposição do Mundo Português. Num ápice desapareciam décadas de criação artística, sendo poucas as peças que se salvariam das chamas, nomeadamente desenhos que, mesmo chamuscados, viriam a ser expostos na Sociedade Nacional de Belas Artes. Alguns deles, certamente, podem ser vistos aqui, dando conta da fatalidade a que a sua obra foi submetida, mas também da capacidade de luta e imaginação de quem soube mostrar vontade de se levantar e erguer tudo de novo. Outro aspecto marcante da exposição tem a ver com a parte escultórica, com o olhar a ser atraído para um grupo de não mais de 40 cm de altura que representa duas varinas. No meu caso particular, a familiaridade com as formas da escultura levou-me a perceber que é do autor a estátua que, no Furadouro, Ovar, lembra estas bravas guerreiras do mar.

terça-feira, 22 de abril de 2025

CERTAME: 6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025



EXPOSIÇÃO: 6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025
Vários artistas
Quinta da Fiação de Lever
05 Abr > 12 Jul 2025


“A Bienal é uma escada. Em cada edição subimos mais um degrau.” Quando se cumprem dez anos sobre a primeira edição da Bienal Internacional de Arte de Gaia e quarenta anos da Cooperativa Cultural de Gaia, abrem-se as portas para uma sexta edição que é o reafirmar da certeza que “a arte de causas corresponde a um exercício de criação e de liberdade”. Pelas causas que defende, enorme diversidade e qualidade artística, a Bienal é sempre um momento dos mais relevantes em termos de oferta no nosso país e um dos mais aguardados pelos apreciadores das mais variadas manifestações artísticas. De regresso à Quinta da Fiação de Lever, espaço que vem ocupando desde 2019, esta edição da Bienal traz com ela um conjunto de propostas absolutamente irrecusáveis. Distribuídas por três imensos pavilhões, as mais de meia centena de exposições permitem apreciar cerca de 1500 obras de 350 artistas, estendendo o seu âmbito à pintura e ao desenho, escultura e arte textil, cartoonismo e fotografia, instalação e livros de artista.

No primeiro pavilhão, o destaque vai para os trabalhos de perto de uma centena de artistas que integram o Concurso Internacional, com propostas que reflectem, em muitos casos, as preocupações dos criadores com o meio ambiente, a instabilidade económica e social e os conflitos armados. Duas outras exposições da maior relevância são “A Comemoração dos 50 anos de Abril de 1974 vai às Escolas”, colectiva que reúne os trabalhos de vários alunos de escolas do Grande Porto, e “Um Hino à Liberdade”, exposição colectiva de quarenta cartoonistas de vários países no âmbito do Porto Cartoon – World Festival. Em matéria de exposições individuais, são imperdíveis as mostras “Inteligência”, na qual o artista plástico Emerenciano olha os efeitos da Revolução dos Cravos na nossa sociedade, e “Perfis no Horizonte da Humanidade”, um olhar sobre figuras marcantes da história recente, de Miriam Makeba a Desmond Tutu, de Nelson Mandela a Amilcar Cabral. É também possível ver “Contra a Superfície”, de Domingos Loureiro, e uma belíssima instalação, “Marcas de Liberdade”, iniciativa da Liga para a Inclusão Social e que reúne trabalhos de utentes de um conjunto de instituições de apoio social, como os Albergues Nocturnos do Porto ou a Unidade de Deficiência de Alfena.

No segundo pavilhão, espaço onde está instalada a Recepção e onde decorrem as muitas tertúlias que integram o programa da Bienal, o destaque vai, naturalmente, para o artista homenageado Lagoa Henriques (27/12/1923 - 21/02/2009) e para uma parte do seu extraordinário espólio, onde se incluem os desenhos que foi possível resgatar de um atelier destruído por um violento incêndio no início da década de 1970, e um conjunto de moldes que serviram de base a algumas das mais icónicas esculturas em espaço público do nosso país. Outro dos momentos altos da programação da Bienal é a mostra de livros de artista, com onze exposições individuais e uma coletiva, reunindo nomes como os de Celeste Ferreira, Evelina Oliveira, Agostinho Santos, Miguel de Carvalho, Valter Hugo Mãe, Rui da Graça, Carmo Diogo ou Nazaré Álvares. “Bandeiras pela Paz”, com curadoria de Ilda Figueiredo, é outra mostra preciosa neste pavilhão, com trabalhos de Rafi Die Erst, Maria Rosas, Nazaré Álvares, Agostinho Santos ou Rosa Bela Cruz. “Revisitações”, exposição individual de Jaime Silva, completa a oferta deste espaço.

Contíguo ao espaço anterior, na planta alta, o último pavilhão da Bienal tem para oferecer dez exposições individuais e uma colectiva, para além do habitual “Espaço Viarco”, onde os visitantes podem dar largas à sua veia criativa. Com curadoria de Agostinho Santos, a exposição dedicada aos artistas convidados concita o grosso das atenções, não só pela sua dimensão como pela oferta que cruza artistas consagrados e emergentes, num misto cativante e de enorme sofisticação. É lá que encontramos Elizabeth Leite e Paulo Neves, Ricardo Campos e Zulmiro de Carvalho, Adias Machado e Albuquerque Mendes, Cabral Pinto e Nadir Afonso. Numa escolha muito pessoal, destacaria nas exposições individuais o trabalho “Activia-40”, de Rui Carvalho, através do qual faz uma aproximação ao Dia da Liberdade com um conjunto de desenhos cujo conceito podemos incluir na chamada Arte Bruta. “Voz da Luz e da Água”, de Alexandre Rola, “Entre-Linhas”, de Rosa Godinho, “Psicodelia”, de Tito Canicoba e “Luminescências Latejantes (Na Sombra Que Ama)”, de Miguel de Carvalho, são outras exposições de enorme qualidade e interesse. Para ver até 12 de Julho.

terça-feira, 25 de abril de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: "Purga" | Agostinho Santos


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Purga”,
de Agostinho Santos
Curadoria | Valter Hugo Mãe
Museu dos Clérigos
26 Mar > 30 Abr 2023


Agostinho Santos volta a surpreender-me com a sua visão de um mundo imaginário, com tanto de íntimo como de revelador. Desta vez, porém, os trabalhos parecem ter outro alcance e dimensão e isto porque o espaço onde decorre a exposição como que amplifica a sua mensagem, tornando-a mais intensa, mais real. Espaço de culto e de oração, o complexo edificado dos Clérigos abre as portas do seu Museu a um conjunto de obras onde deus e o diabo se passeiam de braço dado. Mas não será assim desde o medievo, com as ilustrações do Paraíso e do Inferno sobre os muros das igrejas a desempenharem uma importante função de reforço das doutrinas salvíficas e condenatórias da fé cristã apresentadas e trabalhadas oralmente nas igrejas pelos clérigos? Valorizando a espiritualidade inerente às peças expostas e ao local onde me encontro, abraço as pinturas e desenhos, os livros de artista, “ex-votos” e sacrários portáteis, à medida que adentro o espaço do artista, o seu (e nosso) purgatório.

Se exceptuar uma ou outra obra em exposições colectivas, dentro ou fora do seu “Museu de Causas”, posso afirmar que vi Agostinho Santos pela primeira vez em finais de 2020. Ainda tenho presente os múltiplos avisos para higienizar as mãos e manter o distanciamento social de 2 metros. Pela primeira vez, uma maquineta “pediu-me” que parasse e dirigisse o olhar para um ponto preciso para me “ver” a temperatura. Estávamos a atravessar a nossa pior fase da pandemia e o título da exposição, “Século Monstro”, aludia (também) a isso. Lá dentro, o “novo normal” fazia-se anunciar nos olhares parados que nos interrogavam a partir da tela, nos corpos disformes que para nós estendiam os seus muitos braços e pernas, nos focinhos conformados uns nos outros abrindo muito as bocas e deixando ver as fiadas de dentes, nas serpentes esgueirando-se por entre os crânios ermos, na tinta vertida como sangue a escorrer das telas e a dizer-nos que o mal (o vírus) habita ali. É intrínseco ao homem este mal que importa expurgar. Sem ele, a noção ou essência do bem não teria razão de ser, aqui residindo o maior argumento para negar a existência do céu tal como nos é “pintado”.

Figurativamente, é o mal e o bem que Agostinho Santos evidencia, tal como o fizeram ou fazem ceramistas como Julia Ramalho ou Julia Côta, ou muitos dos nomes de culto da designada “arte bruta”, essa arte “das personalidades extraordinárias, animadas por uma febre criadora”. Com olhar febril seguimos o traço do artista. Há nele qualquer coisa de Escher, uma forte intencionalidade na forma como as figuras resultam umas das outras, o que remete para noções como a relatividade, a numerologia, as metamorfoses, o infinito. Cada desenho é uma constelação de seres cujo princípio e fim têm a uni-los um fio de Ariadne. Atentos à obra de Agostinho Santos, é com a nossa própria dimensão humana que nos confrontamos. As questões sobre quem somos, de um onde viemos e para onde vamos talvez encontrem aqui respostas que nos confortem e apaziguem. Para ver só até ao próximo domingo.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

EXPOSIÇÃO: "Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago”,
de Agostinho Santos
Curadoria | Valter Hugo Mãe
Casa Comum - Reitoria da Universidade do Porto
21 Abr > 02 Jul 2022


Por volta de 2005, José Saramago visitou Agostinho Santos no seu atelier, em Gaia. Como resultado dessa visita, o artista prometeu reler a obra do escritor para, mais tarde, com outra maturidade, voltar a trabalhar os temas que a ambos tanto tocavam. Afinal, o fascínio do pintor por José Saramago vinha de há longa data, nomeadamente dos tempos de “Palavra / Imagem; desenvolvimentos pictóricos a partir da escrita de José Saramago”, o trabalho de mestrado de Agostinho Santos em Pintura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Relido o “Memorial do Convento", o "Ensaio sobre a Cegueira”, o “Ensaio sobre a Lucidez”, “Caim”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “As Intermitências da Morte”, o trabalho está feito e pronto para ser agora apresentado: “Ver Cegueira Adentro – 100 Anos de José Saramago”. E assim se cumpre também uma promessa.

As palavras serão sempre poucas para dar forma à expressão do meu sentir perante a obra de Agostinho Santos. Entrar num corredor das galerias da Casa Comum e ser envolvido pela miríade de figuras que ondulam à superfície de um imenso azul, delirantes, buliçosas, fantasmagóricas, essência e prolongamento umas das outras, é uma experiência que não se esquece. Pela exuberância e pelo arrebatamento, pela transgressão e pela inquietude. Fortemente ligadas à terra, expressões da arte como prolongamentos da vida - mãos, troncos e rostos como “raízes, hastes e corolas” -, as imagens são enredos de seiva e sangue a borbulhar no nosso mais íntimo. Olhamos para elas e somos aquilo que vemos, os quadros como espelhos da mente, tal como Júlia Ramalho com as suas figuras ou José Saramago com os seus livros.

Entre pintura, escultura, desenho e livros de artista, são mais de cem as obras expostas, quase todas  – com a excepção de oito esculturas – realizadas entre 2019 e 2021 e mostradas agora pela primeira vez. Ainda que distribuídos por materiais e suportes muito diferentes entre si, os trabalhos de Agostinho Santos apresentam uma unidade temática e formal notáveis, consubstanciadas na obra de Saramago, na sua coerência e no seu desejo de liberdade, igualdade e justiça. Também por isto, “Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago” é um convite à revisitação do Prémio Nobel, à sua redescoberta através de apontamentos subtis, à consciência da cegueira que alastra à nossa volta e faz de nós reféns nesta espécie de “imago mundi” em que vivemos: um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de indiferença, de cinismo. Para ver e ver e ver.

terça-feira, 6 de julho de 2021

CERTAME: 4ª. Bienal Internacional de Arte de Gaia 2021


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

CERTAME: 4ª. Bienal Internacional de Arte Gaia 2021
Fábrica da Fiação de Lever
17 Abr > 10 Jul 2021


Evento dos mais significativos no panorama das Artes em Portugal, a Bienal Internacional de Arte de Gaia regressou ao espaço da antiga Companhia de Fiação de Crestuma, em Lever, para a sua quarta edição. Organizado pela Artistas de Gaia – Cooperativa Cultural, CRL, com o apoio da Câmara Municipal de Gaia e da Direcção-Geral das Artes, o certame congrega treze polos expositivos espalhados por três vastos pavilhões (mais um do que na anterior edição), ao encontro do trabalho de mais de quinhentos artistas de dezassete nacionalidades. Com propostas nos campos da pintura, escultura, desenho, fotografia e cerâmica, a 4.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2021 surge deveras marcada pelo momento presente, “num ano desafiante, em que os artistas são chamados a expressar emoções e reações à pandemia, ao confinamento, ao impacto do coronavírus na nossa sociedade”, conforme refere o Director da iniciativa, Agostinho Santos.

Presença impactante nas nossas vidas e um dos destaques da Bienal, a pandemia é abordada de forma muito concreta através da Exposição Concurso “Coronavírus não Destrói a Criatividade”. O resultado global é deveras estimulante, não apenas pelas visões múltiplas face ao flagelo pandémico e pela extraordinária diversidade de formas de expressão artística delas decorrentes, mas também pelo agitar de consciências implícito, ao encontro do lema maior do certame, uma “Bienal de Causas”. Outro dos grandes momentos desta 4ª Bienal Internacional de Arte de Gaia é a exposição “A Democracia é uma Obrigação de Todos os Dias” e que resulta de um convite do curador Valter Hugo Mãe a vinte e cinco artistas plásticos e outros tantos escritores, daí resultando “vinte e cinco obras de Abril”. Uma oportunidade única para ver como se abraçam, sob um mesmo manto, nomes como os de Ana Torrie, Filipe Romão, Miguel Carneiro ou Susana Chiocca, por um lado e, por outro, Adolfo Luxúria Canibal, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, João Paulo Esteves da Silva, Margarida Vale de Gato, Regina Guimarães, Rui Lage ou Valério Romão.

Destaque para a exposição “Novos Orientes”, com curadoria de Manuel Novaes Cabral, que junta fotografias e maquetas do projeto que Álvaro Siza Vieira e Carlos Castanheira apresentaram na China e que ganhou o prémio Archdaily, bem como o habitual concurso internacional, que contou nesta edição com a participação de 212 artistas de 17 nacionalidades. Incontornável é, ainda, a Exposição “Artistas Convidados”, com curadoria de Agostinho Santos, permitindo “abraçar” muitos amigos queridos, de Elizabeth Leite, Ana Maria Pintora, Maria do Carmo Vieira e Gina Marrinhas, a Maria Afonso, Rosa Bela Cruz, Balbina Mendes, Álvaro Domingues e tantos outros. Finalmente, destaque para as exposições de homenagem ao pintor Albuquerque Mendes e ao escultor Paulo Neves, nas quais é possível apreciar um significativo conjunto de obras representativas de um percurso de excelência e que faz deles dois dos maiores vultos no panorama artístico nacional. Muito e bom para ver (ou rever), só até ao próximo sábado.

domingo, 20 de dezembro de 2020

EXPOSIÇÃO: "Século Monstro" | Agostinho Santos


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO: “Século Monstro”,
de Agostinho Santos
Galeria Municipal de Matosinhos
26 Set 2020 > 21 Jan 2021


Façamos como o artista, espreitando pela frecha aberta e vendo o espaço em volta. Melhor fora que não o fizéssemos porque é tudo menos aprazível a visão que se nos oferece. A harmonia de formas e cores que se percebe em cada uma das telas exerce sobre o visitante uma atracção irresistível, convidando-o a observá-las mais de perto. Mas à medida que nos aproximamos, os elementos vão-se definindo e é todo um abismo que se abre à nossa frente. Há olhos parados que nos interrogam, há corpos disformes que para nós estendem os seus muitos braços e pernas, há focinhos que se conformam uns nos outros abrindo muito as bocas e deixando ver as fiadas de dentes, há serpentes que se esgueiram por entre os crânios ermos, há tinta vertida como sangue, que escorre na tela e nos diz que o mal habita ali. E há, também, um vírus silencioso que paira sobre as nossas cabeças, ameaçador, castrador, letal.

Entre pintura, objectos, esculturas e livros de artista, são em número superior a uma centena e meia as obras de Agostinho Santos que, por estes dias, podem ser vistas no extraordinário espaço da Galeria Municipal de Matosinhos e que, no seu todo, oferecem a visão do artista sobre um tempo de incertezas, angústias e medos, aqui chamado de “Século Monstro”. Uma visão “revista e actualizada” que confronta o artista com o “monstro Coronavírus”, mediante uma dezena de exercícios ilustrativos tendentes a dar um rosto ao “bicho”. Apropriando-me das palavras dos curadores da exposição, Albuquerque Mendes e Valter Hugo Mãe, está lançada a “viagem pela vida e obra do artista, apreendendo diferentes formas de sentir o medo e a esperança e ponderar sobre a força da dor e da superação”.

Fundando a sua obra numa espécie de “saber de experiência feito”, que encontra na ancestralidade as suas traves-mestras, Agostinho Santos mostra-nos o quanto a arte aproxima os homens de Deus. Ou, dito de outra forma, o quanto de espírito e matéria coexiste na tela como em cada um de nós, conformado por energias sem nome e sem rosto, que não se vêem mas sentem-se. Nessa incessante demanda no sentido de ver o que não se vê, o artista leva-nos por caminhos da Arte Popular e da Arte Bruta, provando serem estas as vias-sacras de artes outras ditas “maiores”. É possível que o visitante deixe a Galeria sem ter identificado, no meio daquela infinidade de elementos que desfilaram ante os seus olhos, o rosto do vírus que virou de pernas para o ar as nossas vidas. Mas viu os seus fantasmas e as suas quimeras, espectros e ilusões, a vaidade e a ira, Dante e o seu Inferno, as tentações de Bosch, um cristo crucificado expiando os pecados de todos. Viu-os de frente, olhos nos olhos.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #16



1. É já longa a lista de equipamentos culturais, teatros, salas de espectáculos e festivais, de diversas regiões do país, que aderiram à campanha "continuamos abertos, começamos mais cedo", antecipando o horário de apresentação das suas actividades e eventos. Esta reacção dos agentes culturais portugueses face às actuais medidas de combate à pandemia de COVID-19 (as quais decretam o encerramento dos equipamentos culturais até às 22h30 nos 121 concelhos de Portugal continental sujeitos ao confinamento parcial) tem como objectivo garantir a oferta cultural programada, seguindo todas as regras e recomendações de segurança da Direcção-Geral da Saúde. A lista completa de espaços culturais que já aderiram à iniciativa pode ser consultada AQUI. 

2. Começa na quinta feira e prolonga-se até ao dia 20 de Novembro a 29ª edição do Festival de Jazz de Guimarães. Com nomes sonantes no cartaz como Andy Shepard, Peter Evans ou a Radiohead Jazz Symphony, O Guimarães Jazz 2020 ultimou os detalhes finais para o programa da presente edição, um ano atípico na programação cultural. Numa clara aposta no “produto nacional”, os concertos terão horários adaptados devido às mais recentes imposições sociais de forma a garantir que todos possam regressar a casa a tempo do recolher obrigatório. Alguns concertos são antecipados e prometem transformar-se numa extraordinária matiné e há mesmo concertos que irão acontecer ao sábado e domingo de manhã. Os auditórios estarão com filas e lugares intermitentes e os bilhetes podem ser adquiridos online por valores que rondam os 5 e os 10€. Saiba tudo em https://www.guimaraesjazz.pt/.

3. Até ao dia 24 de Janeiro de 2021, a Galeria da Câmara Municipal de Matosinhos acolhe “Século Monstro”, do artista plástico Agostinho Santos. Com curadoria de Albuquerque Mendes e do escritor Valter Hugo Mãe, esta exposição constitui uma “viagem pelos medos do Homem”, mostrando, inclusive, o “rosto do coronavírus”. São mais de 150 obras entre pintura, objetos, esculturas e livros de artista, que traduzem o interesse de Agostinho Santos em “explorar esta faceta da dimensão humana, que tem que ver com as nossas angústias, os nossos medos, as nossas ansiedades”, reconhecendo-os e deixando-os bem impressos nas telas de grandes dimensões que cobrem as paredes da galeria. Mais informação na página do município matosinhense, em https://www.cm-matosinhos.pt/servicos-municipais/comunicacao-e-imagem/noticias/noticia/seculo-monstro-de-agostinho-santos-80.