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sexta-feira, 20 de maio de 2022

EXPOSIÇÃO: "Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago”,
de Agostinho Santos
Curadoria | Valter Hugo Mãe
Casa Comum - Reitoria da Universidade do Porto
21 Abr > 02 Jul 2022


Por volta de 2005, José Saramago visitou Agostinho Santos no seu atelier, em Gaia. Como resultado dessa visita, o artista prometeu reler a obra do escritor para, mais tarde, com outra maturidade, voltar a trabalhar os temas que a ambos tanto tocavam. Afinal, o fascínio do pintor por José Saramago vinha de há longa data, nomeadamente dos tempos de “Palavra / Imagem; desenvolvimentos pictóricos a partir da escrita de José Saramago”, o trabalho de mestrado de Agostinho Santos em Pintura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Relido o “Memorial do Convento", o "Ensaio sobre a Cegueira”, o “Ensaio sobre a Lucidez”, “Caim”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “As Intermitências da Morte”, o trabalho está feito e pronto para ser agora apresentado: “Ver Cegueira Adentro – 100 Anos de José Saramago”. E assim se cumpre também uma promessa.

As palavras serão sempre poucas para dar forma à expressão do meu sentir perante a obra de Agostinho Santos. Entrar num corredor das galerias da Casa Comum e ser envolvido pela miríade de figuras que ondulam à superfície de um imenso azul, delirantes, buliçosas, fantasmagóricas, essência e prolongamento umas das outras, é uma experiência que não se esquece. Pela exuberância e pelo arrebatamento, pela transgressão e pela inquietude. Fortemente ligadas à terra, expressões da arte como prolongamentos da vida - mãos, troncos e rostos como “raízes, hastes e corolas” -, as imagens são enredos de seiva e sangue a borbulhar no nosso mais íntimo. Olhamos para elas e somos aquilo que vemos, os quadros como espelhos da mente, tal como Júlia Ramalho com as suas figuras ou José Saramago com os seus livros.

Entre pintura, escultura, desenho e livros de artista, são mais de cem as obras expostas, quase todas  – com a excepção de oito esculturas – realizadas entre 2019 e 2021 e mostradas agora pela primeira vez. Ainda que distribuídos por materiais e suportes muito diferentes entre si, os trabalhos de Agostinho Santos apresentam uma unidade temática e formal notáveis, consubstanciadas na obra de Saramago, na sua coerência e no seu desejo de liberdade, igualdade e justiça. Também por isto, “Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago” é um convite à revisitação do Prémio Nobel, à sua redescoberta através de apontamentos subtis, à consciência da cegueira que alastra à nossa volta e faz de nós reféns nesta espécie de “imago mundi” em que vivemos: um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de indiferença, de cinismo. Para ver e ver e ver.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "100 Anos Nadir, Inéditos"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “100 Anos Nadir, Inéditos”,
de Nadir Afonso
Reitoria da Universidade do Porto
08 Out > 23 Dez 2020


“O que há de notável, principalmente no seu caso, resulta do facto de a exuberância do seu temperamento retirar às suas figuras geométricas, aos seus planos coloridos, a impassividade e a frieza, dando-lhes mesmo, um movimento, um dinamismo, uma alacridade, uma cadência que raramente se encontram reunidos no mesmo artista.”
Frank Elgar, “Carrefour des Lettres”

Por ocasião do centenário do nascimento de Nadir Afonso, a Sala de Exposições da Reitoria da Universidade do Porto abriu as portas ao seu antigo aluno e Doutor Honoris Causa, oferecendo ao visitante a possibilidade de apreciar mais de uma centena de trabalhos inéditos. Ali se encontram representadas as fases mais marcantes da carreira do pintor, dos trabalhos académicos ainda na década de 30 do século passado até aos tempos mais recentes, já no novo milénio. Pelo meio há trabalhos do período da sua afirmação como pintor, nomeadamente esse pouco expectável mergulho no surrealismo, a partir do qual se viria a desenvolver toda uma obra plástica exemplar, cada vez mais abstracta e mais geometrizada.

Momento-chave da sua obra, o “espacilimité” e os movimentos cinéticos a ele vinculados são figura de destaque nesta exposição, nomeadamente uma máquina construída pelo próprio pintor, a “Máquina Cinética”, âncora seminal de toda a narrativa nadiriana, a qual permite que a pintura rode sobre si própria, trazendo-a do campo estático onde se situa para o campo dinâmico do cinema. O restante conjunto de trabalhos remete para imagens idealizadas ou evocativas das cidades, cuja percepção não é imediata. Ao visitante cabe o desafio de identificar os pequenos elementos construtivos que Nadir Afonso retira da malha das cidades e inscreve nas sua telas, reconstruindo a paisagem tal qual ela é a partir desta espécie de textura abstracta.

Admirável inventor de arquitecturas, Nadir Afonso volta a mostrar-se como “um génio, ou pelo menos muito próximo disso”, como o definiu Fernando Lanhas. Esta exposição, como a anteriormente vista do pintor no Museu Municipal de Espinho, provam-no como um dos poucos verdadeiros modernistas portugueses, permitindo uma viagem por um repertório estético e teórico ao encontro de um ideal segundo o qual o homem se volta para a geometria “como as plantas se voltam para o sol”. Exposição imperdível, “100 Anos Nadir, Inéditos” tem curadoria de António Quadros Ferreira e estará patente até ao próximo dia 23 de Dezembro. A entrada é gratuita.

sábado, 1 de junho de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Future Scenarios"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Future Scenarios”,
de Lena Dobrowolska e Teo Ormond-Skeaping
Ci.CLO - Bienal Fotografia do Porto
Reitoria da Universidade do Porto
16 Mai > 02 Jul 2019


Enquanto prossegue a Ci.CLO – Bienal Fotografia do Porto, tempo de particularizar uma das dezasseis exposições inseridas no certame, aquela que, dum ponto de vista pessoal, mais impacto teve. Ocupando um espaço no piso térreo da Reitoria da Universidade do Porto, “Future Scenarios”, conjunto de imagens da autoria da polaca Lena Dobrowolska e do britânico Teo Ormond-Skeaping, explora os temas da vulnerabilidade – e da responsabilidade – pelas alterações climáticas e o papel que a sua narrativa pode desempenhar na moldagem do futuro da humanidade. Nessa medida, esta é uma exposição plenamente integrada no tema da Bienal - “Adaptação e Transição” -, ajudando a perceber de que forma podemos colaborar na transição para uma sociedade mais adaptada e sustentável.

Produzida no Laos, Bangladesh, Nepal, Reino Unido e Uganda, “Future Scenarios” mostra de que forma os países mais vulneráveis, considerados indefesos face às alterações climáticas, emergem agora como líderes no desenvolvimento de estratégias de redução de danos e de adaptação. É neles que se descobre uma enorme resiliência dos seus habitantes, se desenvolvem conhecimentos sobre a questão da adaptação, se investigam perdas e danos e se partilham avanços sobre energias renováveis. São eles, igualmente, que se mostram mais perto da descarbonização das suas economias, não obstante serem, como grupo, os que menos contribuem para o total das emissões globais de carbono. As nações desenvolvidas – as principais responsáveis pelas alterações climáticas e as que têm os melhores recursos técnicos e financeiros para as combater – parecem, pelo contrário, imersas num estado de apatia política, sem evidenciarem grandes progressos no sentido da mitigação ou da adaptação.

Documentando fenómenos exacerbados de alterações climáticas – migração induzida pelo clima, catástrofes naturais intensificadas, aumento do nível do mar, energias do futuro, conflitos, stress térmico e hídrico e segurança alimentar - Dobrowolska e Ormond-Skeaping oferecem-nos vislumbres do que poderá vir a ser o futuro. Esta é a sua forma de chamar a atenção para o facto de sermos todos responsáveis – e vulneráveis – às alterações climáticas e, se bem que, obviamente, nem todos sejamos igualmente responsáveis, todos nós deixamos pegadas de carbono, pelo que todos temos um papel a desempenhar no combate às alterações climáticas.

Acrescentaria apenas que, para esta exposição imperdível, o visitante não deve ir pressionado em matéria de tempo. As legendas que acompanham cada uma das fotos (em inglês) são extensas mas de leitura obrigatória. Só assim entenderá na íntegra o trabalho sazonal nos fornos de tijolos de Gabtoli ou a vida nas favelas que se estendem ao longo da linha de caminho de ferro de Tejgaon (Bangladesh), o impacto de 1.1 milhões de refugiados sudaneses, congoleses, somalis ou do Burundi sobre um pequeno país como o Uganda, o resultado da passagem do furacão Michael junto à costa da Flórida (Estados Unidos) ou a série de “Retratos de Resiliência”, entre muitos outros. Há ainda uma apresentação de imagens em diapositivo que complementam esta excepcional mostra e que não deve perder.

terça-feira, 2 de abril de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Acasos Objetivos"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Acasos Objetivos”,
de Carlos Magno
Reitoria da Universidade do Porto (extensão na Livraria Lello)
21 Mar > 26 Mai 2019


“SEMIÓTICA
substantivo feminino
1. Ciência dos modos de produção, de funcionamento e de recepção dos diferentes sistemas de sinais de comunicação entre indivíduos ou colectividades. = SEMIOLOGIA
2. Esta ciência aplicada a um domínio particular da comunicação.”

Foi durante a sua passagem pelo Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, ao qual presidiu entre 2011 e 2017, que o jornalista Carlos Magno decidiu impor-se a si mesmo um “código de silêncio”, suspendendo a actividade jornalística e exilando-se na máquina fotográfica. Do cruzamento entre a objectividade do olhar e o acaso dos pequenos nadas de que a vida é feita, viria a nascer um verdadeiro “manual ilustrado” de semiótica urbana, agora condensado nesta exposição “Acasos Objetivos” e que pode ser vista no corredor nascente da Reitoria da Universidade do Porto, com uma pequena extensão na Livraria Lello, ali a dois passos.

Em “Acasos Objetivos”, perspicácia, olhar inteligente e humor requintado são parte importante dum processo de selecção e recolha de imagens, organizado e intuitivo à vez. O resto é essa necessidade intrínseca de partilha da informação, dessa verdadeira paixão pela comunicação. É assim que Carlos Magno nos dá a ver um conjunto de sinais e símbolos que, nos valores e conceitos que carregam, evidenciam o pulsar duma cidade e das suas gentes, a essência do seu viver e sentir. Assentes em novas linguagens artísticas, eles são, as mais das vezes, a expressão da voz de quem não tem voz, a prova provada da democratização dos espaços públicos, a sua utilização comum plenamente assumida.

Inadvertidas ou premeditadas, inocentes ou brejeiras, frontais ou carregadas de segundos sentidos, de apoio ou de protesto, pessoais ou universais, cada uma das mensagens é um momento na vida de todos e de cada um. Um “Portugal” às avessas com a chegada da troika, a euforia colectiva do golo de calcanhar dum argelino de nome Madjer, um rapaz “esmagado” no trânsito citadino, um semáforo que “está verde” mesmo se está vermelho ou um assertivo “nós somos fodidos...” são poemas visuais que estão ali, aos olhos de todos, mas nos quais poucos reparam. Também por isso se torna obrigatório ver esta exposição. De ora em diante, o nosso olhar sobre a cidade não mais será o mesmo!