Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Casa Comum. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Casa Comum. Mostrar todas as mensagens

domingo, 7 de junho de 2026

“Inventarium: Derivas da Forma” | Ana Aragão



EXPOSIÇÃO: “Inventarium: Derivas da Forma”,
de Ana Aragão
Esculturas | Frederico Diz
Casa Comum – Reitoria da Universidade do Porto
13 Abr > 12 Set 2026


Patente ao público na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto desde o passado dia 13 de Abril, a exposição “Inventarium: Derivas da Forma” inscreve-se num território onde o desenho se emancipa da sua condição de esboço para se afirmar como matriz plena de possibilidades. Distribuído por três salas, o percurso propõe um diálogo aberto entre a bidimensionalidade e o volume, construindo uma narrativa onde a linha deixa de ser gesto para se tornar génese. Densos na sua aparente leveza, os desenhos de Ana Aragão afirmam-se como dispositivos conceptuais em permanente expansão, recusando o fechamento formal e abrindo-se a sucessivas reinterpretações. Ao transitar para a escultura pelas mãos de Frederico Diz, este universo gráfico não se esgota nem se ilustra; antes se desloca, ganha corpo e contradiz a ideia de que a tridimensionalidade constitui um ponto de chegada. Há, neste gesto curatorial, uma inteligência subtil: a de expor o processo sem o cristalizar, permitindo que o visitante acompanhe a deriva das formas como quem observa um pensamento a acontecer.

Mais como fantasma do que como prática, o trabalho de Ana Aragão encontra na arquitectura o seu campo de tensão. As suas “anagrafias” urbanas, traçadas com uma minúcia quase obsessiva, não pretendem representar cidades no sentido convencional, mas sim cartografar experiências. Cada linha parece carregar uma memória, cada aglomerado sugere uma vivência, e é nessa ambiguidade, entre o rigor técnico e a imaginação afectiva, que reside a força da sua obra. Não se trata de edifícios, mas de vestígios humanos; não de plantas, mas de pulsações. Ao deslocar estas composições para o espaço escultórico, a exposição assume o risco de traduzir o íntimo em objecto. E, surpreendentemente, fá-lo sem trair a essência do desenho. As esculturas não impõem uma leitura, antes prolongam a hesitação original, preservando a ideia de cidade como organismo incompleto e mutável. O resultado é uma geografia emocional que se constrói tanto na precisão da linha como na sua capacidade de sugerir o indizível.

Entre a obstinação e a euforia, como alguém que se recusa a aceitar os limites da página, a artista constrói um universo onde cada linha é, simultaneamente, começo e desvio. É precisamente nesta ambição expansiva que a exposição enfrenta o seu maior desafio. Ao insistir na ideia de sistema aberto, de obra em permanente desdobramento, tem-se a percepção de que a tensão que torna os desenhos de Aragão tão singulares tende a diluir-se. A passagem ao volume, embora conceptualmente coerente, nem sempre mantém a mesma intensidade poética, por vezes aproximando-se de uma literalidade que o desenho sabiamente evita. Ainda assim, há momentos de verdadeira revelação, em que a transposição não só funciona como amplifica a experiência original, conferindo-lhe uma presença inesperada. O que permanece, no final, é a convicção de que Ana Aragão não desenha para representar, mas para pensar. Inventário de formas, este “Inventarium” é sobretudo um ensaio sobre a sua infinita possibilidade.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Porto, Dresden, Nagasaki” | Francisco Laranjo



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Porto, Dresden, Nagasaki”,
de Francisco Laranjo
Curadoria | Maria Clara Paulino, Filipa Tojal e Domingos Loureiro
Casa Comum Universidade do Porto
11 Dez 2025 > 28 Fev 2026

“A minha obra tem também um lado romântico, (...) um sentimento que atravessa toda a História da Arte, no sentido nostálgico, no sentido do fascínio pelo mundo e pelo universo, no sentido contemplativo."
Francisco Laranjo

A exposição “Porto, Dresden, Nagasaki” propõe um olhar abrangente sobre quase cinco décadas da obra de Francisco Laranjo, reunindo cerca de cinquenta trabalhos nas Galerias da Casa Comum da Universidade do Porto. Mais do que uma retrospectiva clássica, a mostra recusa a linearidade cronológica para construir um percurso assente em ressonâncias geográficas, culturais e simbólicas. Gravuras, desenhos arrancados de cadernos, pinturas sobre papel e tela, folhas de ouro e trabalhos em tinta da china compõem um corpo heterogéneo, marcado por contrastes de escala, técnica e intensidade. Essa diversidade material não resulta de um ecletismo formal, mas de uma prática coerente que entende a arte como campo de interrogação histórica e civilizacional. Porto, Dresden e Nagasaki funcionam aqui menos como lugares biográficos do que como territórios de pensamento: espaços onde se cruzam tradição europeia, romantismo alemão, memória da destruição e afinidades com a caligrafia e o pensamento oriental. O que a exposição pede ao visitante não é reconhecimento, mas disponibilidade - a “vulnerabilidade do olhar” de que falam os curadores - perante imagens que não oferecem respostas fáceis nem conforto visual imediato.

Esse posicionamento crítico atravessa toda a obra de Francisco Laranjo e torna-se particularmente visível neste conjunto alargado, onde se reconhece a tensão permanente entre pensamento e gesto. Professor, investigador e figura central da vida académica artística portuguesa, Laranjo foi um artista que pensou a imagem como construção ética antes de a assumir como objeto estético. Daí a austeridade formal, as paletas contidas, a recusa da sedução e a insistência numa materialidade áspera, por vezes quase resistente ao olhar. Em “Porto, Dresden, Nagasaki”, essa gravidade ganha densidade histórica: Dresden surge associada ao diálogo com o romantismo alemão e à reconstrução pós-guerra; Nagasaki convoca a memória da violência extrema e uma espiritualidade contida; o Porto afirma-se como lugar de trabalho, ensino e enraizamento crítico. Em alguns momentos, a carga conceptual sobrepõe-se à experiência sensível, exigindo do espectador um alinhamento prévio com o universo intelectual do artista. Ainda assim, a coerência do léxico visual e a integridade do posicionamento tornam evidente uma obra que nunca se quis neutra nem decorativa.

Ao integrar também livros da biblioteca pessoal do artista, a exposição reforça a ideia de que, em Francisco Laranjo, vida, pensamento e prática artística são inseparáveis. O seu legado afirma-se menos pela inovação formal do que pela defesa de uma ética da criação, onde a arte é entendida como forma de resistência, memória e responsabilidade política. Essa herança, visível na formação de várias gerações de artistas, levanta hoje questões pertinentes: até que ponto a arte pode sustentar-se quando excessivamente ancorada no discurso? Onde permanece o espaço para o indizível, para o erro ou para a emoção não codificada? “Porto, Dresden, Nagasaki” não resolve essas tensões, mas expõe-as com clareza, mostrando uma obra que, por vezes mais exemplar do que perturbadora, permanece fundamental para compreender uma certa tradição da arte contemporânea portuguesa. Uma obra exigente, séria e comprometida, que prefere o risco do pensamento ao conforto da imagem e que continua a desafiar o olhar muito depois de abandonado o espaço expositivo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Intimismo” | Juan Ricardo Nordlinger



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Intimismo”,
de Juan Ricardo Nordlinger
Casa Comum
24 Set > 22 Nov 2025


Juan Ricardo Nördlinger nasceu em Buenos Aires, em 1949, e tem actualmente o seu atelier em Santo Ovídio, Vila Nova de Gaia. A formação em Belas Artes no seu país natal, a Argentina, e a convivência com mestres como Elba Bairon ou Marcia Schwartz moldaram um percurso artístico tardio, mas profundamente consciente do gesto e da cor. Na pintura, como na gravura e na cerâmica, evidencia-se uma busca constante entre o exterior e o interior, uma tensão entre o mundo que o cerca e a introspecção que o habita. Nördlinger pinta como quem escava o próprio tempo: os objectos e figuras que surgem nas suas telas parecem emergir de uma névoa de recordações, um território em que a memória se confunde com a inspiração. Essa dimensão introspectiva nunca é fria nem analítica: é uma escuta visual, uma respiração emocional que o artista traduz através de manchas, rasgos e transparências que desafiam qualquer narrativa linear.

No cerne da sua obra reside um expressionismo vivo, de pulsação visceral, em que se adivinham ecos do surrealismo e da arte naïf, não pela ingenuidade formal, mas pela liberdade com que o artista assume o espanto perante o quotidiano. Ainda que reconhecíveis, os objectos, as figuras eos interiores aparecem deformados pela intensidade emotiva e pela vibração da cor, o que lhes confere uma energia que oscila entre o sonho e a confissão. Nördlinger trabalha a superfície da tela como um campo de batalha entre o que se vê e o que se pressente: cada mancha é uma tentativa de fixar o indizível. O uso exuberante da cor — os vermelhos que queimam, os azuis que ferem, os amarelos quase líquidos — transforma os seus quadros em lugares de alegria e vitalidade insuspeitada, mesmo quando os temas remetem à solidão ou à ausência. É essa contradição, entre a dor e a celebração, que dá corpo à sua pintura e a torna profundamente humana.

Na exposição “Intimismo”, patente até 22 de Novembro nesse lugar único de partilha de saberes que é a Casa Comum, Nördlinger propõe um regresso ao espaço doméstico e simbólico. O visitante é convidado a entrar “de mansinho”, a percorrer os corredores invisíveis de um refúgio interior, onde cadeiras, sofás e poltronas se tornam personagens silenciosas. A densidade humana, paradoxalmente ausente, sobrevive nos vestígios de uso, na vibração da cor, nas manchas que respiram memória. Aqui, o pintor faz do quotidiano matéria poética, diluindo as fronteiras entre o visível e o sugerido. Cada tela é uma confissão aberta, um espelho do que resta depois do ruído, uma meditação sobre o que significa habitar o mundo. Plena de lirismo e tensão, a pintura de Nördlinger devolve-nos a ideia de que o íntimo não é o que se esconde, antes o que se partilha através da cor e do traço.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Gabinete de Curiosidades / Museu de Causas - Coleções Agostinho Santos”



EXPOSIÇÃO: “Gabinete de Curiosidades”
Museu de Causas - Coleções Agostinho Santos
Casa Comum - Universidade do Porto
12 Jul > 06 Set 2025


Quando entrou para a área do jornalismo, Agostinho Santos achava que ia conseguir mudar o mundo com as suas reportagens. Não mudou o mundo, apesar da sua enorme dedicação à profissão ao longo de mais de três décadas, mas terá mudado o dia a dia de muita gente. Este ideal de solidariedade, cumplicidade e empatia está na base do Museu de Causas, tema da tese “Paleta Contemporânea - Museu de Causas”, apresentada em 2015 no âmbito do doutoramento em Museologia que frequentou na Faculdade de Letras e Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. O projecto viria a traduzir-se num livro e teve uma primeira exposição no Espaço Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, inaugurada a 25 de Abril de 2018. Assente em duas colecções especiais - a obra do pintor sobre intervenção social e o conjunto de obras que tem de outros artistas -, o espólio do Museu de Causas conta com 2.500 trabalhos de mais de 500 artistas que sustentam, no seu conjunto, uma narrativa visual e sensível, construída por uma comunidade artística multifacetada e profundamente comprometida com uma leitura crítica do presente e com a imaginação do devir.

“Gabinete de Curiosidades / Museu de Causas – Coleções Agostinho Santos” chega agora às Galerias da Casa Comum (edifício da Reitoria da Universidade do Porto), reunindo cerca de duzentas obras, algumas delas inéditas, de setenta artistas. Graça Morais, Nadir Afonso, Zulmiro de Carvalho, Valter Hugo Mãe, Baltazar Torres e Isabel Lhano são apenas alguns dos artistas que se fazem representar nesta mostra com obras inéditas. É possível ainda ver trabalhos de Álvaro Siza Vieira, Fernando Lanhas, Ângelo de Sousa, Júlio Pomar, António Carneiro, Fernando Távora, Armanda Passos, Francisco Laranjo, Júlio Dolbeth, entre tantos outros, numa mostra que tem a particularidade de ser composta na íntegra por trabalhos de alunos ou antigos alunos, docentes ou ex-docentes da Universidade do Porto. Ao reunir desenhos, pinturas, documentos e livros de artista (alguns deles verdadeiras raridades) e promovendo a convivência de diferentes disciplinas, estéticas e gerações, a exposição valoriza o diálogo entre mestres e discípulos e é também uma forma de mostrar como o legado artístico se transmite e se reinventa dentro e a partir da comunidade da Universidade do Porto.

Pinturas, desenhos, esculturas, maquetes, livros de artista, correspondência, fotografias. São muitas e diversificadas as armas de arremesso que, em forma de arte, se insurgem contra os problemas que afectam o nosso mundo. As injustiças, as guerras, a fome, o alastrar das doenças, as desigualdades, o desemprego, a degradação dos direitos dos trabalhadores, a corrupção, a discriminação de género, o racismo, a xenofobia, os problemas ambientais e a crise climática, entre outros, são temas inscritos num programa expositivo que tem por objectivo agitar as consciências das pessoas e pôr a sociedade a olhar a arte como uma poderosa arma de inquietação e reflexão e não como mero elemento decorativo. “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”, é um verso de Sophia, mas que se adequa na perfeição ao lado errado do mundo que todos os dias se afirma pelas notícias na rádio ou nos jornais. A arte contemporânea é uma cidade sem muros nem ameias e, por isso, projectos independentes como o Museu de Causas ou a exposição “Gabinete de Curiosidades” são tão importantes. São eles que fomentam a revolta contra a crueldade do mundo e ajudam a espalhar a mensagem de paz e liberdade de que tanto carecemos.

segunda-feira, 3 de março de 2025

EXPOSIÇÃO: “Histórias para Salvar – 10 Anos do Banco Português de Cérebros”



EXPOSIÇÃO: “Histórias para Salvar – 10 Anos do Banco Português de Cérebros”
Vários artistas
Casa Comum – Reitoria da Universidade do Porto
26 Fev > 03 Mai 2025


Que doenças afetam o cérebro?  Como se manifestam? De que forma tem vindo a ciência a dar resposta a estes desafios? Ao longo das três salas que integram as Galerias da Casa Comum à Reitoria da Universidade do Porto, o visitante é convidado a perceber que respostas temos hoje para estas e outras questões através de uma experiência educativa, reflexiva e artística sobre doenças neurológicas. “Histórias para Salvar – 10 Anos do Banco Português de Cérebros” é, assim, um convite para fazer um percurso possível pelo universo do cérebro humano e pelas patologias que podem afetar este órgão tão complexo. E é, precisamente, por aqui que a exposição começa, com a Doença de Alzheimer, a Epilepsia, a Doença de Parkinson, o Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou a Doença de Machado-Joseph. Desde os primeiros casos documentados até aos avanços científicos mais recentes, são as doenças que afectam o cérebro que estão em foco na primeira sala.

Qual a importância das doações de tecido cerebral para o avanço da investigação? Ao entrar na segunda sala o visitante depara-se com um conjunto de instrumentos de dissecação utilizados no processo de recolha e preparação de tecidos para estudos científicos e irá compreender, um pouco melhor, a forma como funciona uma das mais importantes fontes de tecidos cerebrais para a investigação científica. Um vídeo, da autoria do artista Rui Manuel Vieira, complementa as principais ideias deste núcleo, documentando o método científico do processo e, ao mesmo tempo, reflectindo sobre o lado humano e real de quem lida com o estudo e a preservação do cérebro. A exposição revela aqui a sua dimensão humana, mais pessoal e interpretativa, sobre o funcionamento do cérebro e o impacto das doenças, tentando ser fiel a quem a visita e, em particular, aos doentes e famílias que doaram o cérebro à ciência.

A terceira sala é dedicada à arte contemporânea. Através de instalações imersivas, Maria Beatitude explora o cérebro e a memória, enquanto Cristina Mateus combina imagens de diferentes origens, abordando a complexidade do cérebro e suas doenças. Recorrendo a uma linguagem muito diferente daquela que predomina na área científica, a dimensão artística da exposição acaba por reflectir, inegavelmente, “a dimensão humana” do trabalho de um organismo criado em 2014 e sediado no Serviço de Neuropatologia do Centro Hospitalar Universitário de Santo António. O Banco Português de Cérebros tem por missão desenvolver o conhecimento neurológico através da recolha de cérebros e informação clínica associada. Após o diagnóstico neuropatológico, disponibiliza tecidos para investigação em neurociências a grupos nacionais e internacionais. O trabalho desenvolvido contribui, assim, para o avanço do conhecimento sobre doenças neurológicas, ajudando ao desenvolvimento de melhores formas de diagnóstico e tratamento.

domingo, 17 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E ESCULTURA: “O Nome Igual Nos Dois?”



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E ESCULTURA: “O Nome Igual Nos Dois?”
Paula Rego, Lourdes Castro, Maria Helena Vieira da Silva, Graça Morais, Arpad Szenes, Nikias Skapinakis, Júlio Pomar, Júlio Resende e outros artistas
Curadoria | Hugo Barreira
Casa Comum – Reitoria da Universidade do Porto
26 Set 2024 > 25 Jan 2025


No ano em que celebramos os 50 anos da revolução de Abril, a Universidade do Porto dá a ver um conjunto de obras que representam actos de resistência à opressão e ao exercício de liberdade. É o caso de António Dacosta, representado com uma peça que, embora oficialmente não tenha título, foi oficiosamente designada de “Salazar”. A espátula, objecto comum do atelier e da cozinha, surge-nos aqui com aspecto sujo e manchado, transitando entre significado e significante, objecto e representação, suscitando a ideia de uma utilização ambígua. Hugo Barreira, curador de “O Nome Igual Nos Dois?”, afirma que “este é também um dos propósitos da arte”, ou seja, “representar, poética ou literalmente”, mas também “documentar este país”, então sob os desígnios de um “tiraninho que não bebia vinho nem até café”, citando o poeta Fernando Pessoa. Encontramos este “Salazar” logo na entrada da exposição, confrontando o cabisbaixo “Homem Sentado”, de Augusto Gomes, e trazendo-nos à memória “uma resistência tímida” por parte de alguns pintores enquadrados numa estética “de pé-rapado”, como dizia o regime.

Paula Rego, Lourdes Castro, Maria Helena Vieira da Silva, Graça Morais, Arpad Szenes, Nikias Skapinakis, Júlio Pomar e Júlio Resende são alguns dos artistas representados em “O Nome Igual nos Dois?”. O título da exposição foi retirado de um quadro de Júlio Pomar intitulado “Golo”, no qual o artista presta homenagem a Manuel Brito. Entrar na primeira sala é sentir a energia do período controlado pelo regime ditatorial, ensombrado pela II Guerra Mundial. “A Europa Jaz”, obra de José de Almada Negreiros, confronta-se com a máscara africana de José Guimarães, numa alusão direta às questões pós-coloniais. Na segunda sala está representada Paula Rego, mas também Lourdes Castro com um desenho a lápis de cor sobre papel que encarna o espírito da transcendência e do feminino que domina todo o espaço. A olhar-nos lá do fundo, desde que entrámos na primeira galeria, está “Bicyclette (Shooting Color)”, a obra de Arman que se impõe na terceira sala, essencialmente dominada por questões de pintura, representação e recepção da arte.

Espécie de receituário com reflexões sobre a liberdade, tanto no sentido político, quanto no social ou artístico, a exposição apresenta obras provenientes da Colecção Manuel de Brito, referência no universo dos galeristas e livreiros em Portugal no século XX, à qual o filho, Manuel Brito, deu continuidade na presente coleção. Por aqui passam, entre outros, a Metonímia, uma receita simples com resultados surpreendentes, bastando para tal trocar uma palavra por outra, mantendo uma relação de significado. Assim, um nome como MANUEL pode ser um saboroso retrato de um coleccionador nas mãos de Vieira da Silva ou uma espátula de rapar tachos pode ser uma forma de protesto ou crítica política nas mãos de um artista (ou de qualquer um). Há, também, a Memória, ingrediente fundamental para qualquer receituário da Liberdade. Apresenta-se de forma objectiva ou subjectiva, próxima ou distanciada. Para uma mais profunda degustação das imagens, recomenda-se sempre uma consciencialização da memória e sensibilização para os contextos de produção daquelas. “O Nome Igual Nos Dois?” estará patente até 25 de janeiro de 2025 e a entrada é livre.

[Texto baseado em notícia sobre a exposição, a qual pode ser lida na íntegra em https://noticias.up.pt/2024/09/23/casa-comum-da-u-porto-expoe-receituario-para-a-liberdade/]

quarta-feira, 14 de junho de 2023

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “À Luz ou à Sombra do que Foi e Continua a Ser”


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “À Luz ou à Sombra do que Foi e Continua a Ser”,
de vários artistas
Curadoria | Betty Ketchedjian, Roger Mokbel, Tarek Haddad
Bienal ’23 Fotografia do Porto
Casa Comum - Reitoria da Universidade do Porto
18 Mai > 02 Jul 2023


Em contexto local ou mais global, de que grandes acontecimentos nos recordamos nos últimos anos? Nessa lista que fazemos mentalmente cabe a explosão no porto de Beirute? Como processámos as notícias desse tempo e como as vemos à distância de quase três anos? Há algo de semelhante entre as sociedades libanesa e portuguesa? Proposta integrada no Caderno de Ativação — dispositivo de mediação desenvolvido para a Bienal'23 Fotografia do Porto pelo coletivo ARISCA —, “À Luz ou à Sombra do que Foi e Continua a Ser” é uma exposição de um colectivo de doze fotógrafos libaneses que aborda uma miríade de acontecimentos dos quais foram testemunhas ao longo dos últimos anos. O desenho da exposição sugere um carácter cíclico da própria História do Líbano através de abordagens visuais e intimistas que passam pelo documentário, storytelling e instalação, evocando reflexões sobre como narrativas de maior escala persistem colectivamente e moldam várias gerações.

“Tell the Trees to Smile”, de Myriam Boulos, é um dos projectos que integra a exposição. Usando a fotografia como forma de aproximação à realidade, enquanto meio de questionamento da cidade, das pessoas e do seu próprio lugar no mundo, a artista combina imagens, testemunhos e fragmentos do seu diário para documentar as repercussões da explosão que abalou Beirute a 04 de Agosto de 2020. “Still Life”, de Tarek Haddad, foca-se na relação entre humanos e o seu ambiente, convidando-nos a contemplar a desaceleração do tempo instilada pela degradação da situação económica e política no Líbano seguida pela pandemia. Em “The Trees Before Last”, Ieva Saudargaite explora a forma como materiais, gestos e cenas aparentemente mundanos se relacionam com o status quo. Este projecto retrata os últimos habitantes de Beirute, onde árvores solitárias parecem seres míticos que saem das sombras para partilhar as suas histórias de luta e sobrevivência, à semelhança dos habitantes humanos da cidade. Laura Menassa, em “A Quest of Identity”, partilha uma deriva pela história da sua própria timeline, revelando o impacto das circunstâncias sociopolíticas do Líbano na sua vida pessoal.

“The Disrupt”, de Elsie Haddad, documenta os eventos recentes do Líbano através da mera observação do estado dos painéis publicitários ao longo dos tempos. Numa sociedade que revolve em torno da imagem, o esvaziamento gradual do conteúdo visual alerta-nos para as diferentes problemáticas que assolam o país, corrompido desde há décadas. “While Standing My Ground” acompanha o percurso estático de Rima Maroun por diferentes lugares de Beirute, em busca da conexão com a terra num mundo de caos e incertezas. Edifícios devastados pela explosão relembram-nos dos valores que importam ser definidos, sublinhando a urgência pela estabilidade. “The Shadow of this World” revela o olhar de Paul Gorra sobre Beirute após a explosão que devastou a cidade. Posicionando-se como um estranho desconectado que observa a paisagem numa tentativa de imaginar o mundo novamente, evita a visão insustentável do horror que definiu uma nova ordem social e política naquele lugar.

Com “And Then, it’s Oh so Quiet”, Roger Mokbel percorre em 2019 uma cidade carregada de revolta e esperança, ao mesmo tempo que lida com os tumultos pessoais de uma separação amorosa. A série “Unsettled”, de Manu Ferneini, explora o conceito de identidade social, seja real, construída ou imposta, evocando o sentimento de viver num país em colapso social, económico e ambiental, e a aceitação da tensão instalada enquanto prisma natural através do qual se orienta a vida no Líbano. Omar Gabriel convida-nos, em “Four Walls”, a entrar dentro do seu círculo seguro , onde quatro paredes se tornam refúgio para a comunidade queer libanesa, protegendo-a da rejeição vivida na cidade. Através de um olhar intimista, Gabriel retrata amigos e amantes explorando os seus corpos e as suas identidades, tornando-se veículos para a resistência e revolução. Finalmente, “Out of Hand” confronta-nos com uma situação inesperada que se impõe como gatilho de uma profunda sensação de impotência. Este desconforto é exacerbado pela instalação sonora que Betty Ketchedjian integra na obra, materializando e tornando consciente a ausência de controlo do espectador.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: "1+1=1"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “1+1=1“,
de Dulce Barata Feyo e João Barata Feyo
Curadoria | Maria de Fátima Lambert
Casa Comum – Universidade do Porto
06 Mar > 06 Mai 2023


“1+1=1”, o título desta exposição, apropria-se de uma ideia defendida por Almada Negreiros em “Direção Única”, conferência proferida no Teatro Nacional de Almeida Garrett em 1932, a propósito da colaboração entre dois artistas. No caso da parceria nesta exposição, contudo, a alteridade confirma a autonomia do trabalho artístico de cada elemento do casal Barata Feyo. Esta é uma oportunidade única para ver a cidade do Porto ao pormenor e em movimento, de desfrutar de uma paisagem urbana que se situa “entre a quietude patrimonial e as investidas pulsáteis de quem a habita”. A essência, a acção e o conhecimento “per se” é o que nos transmitem estas paisagens urbanas de João, e os “mapas pintados de Dulce”, afirma a curadora, Maria de Fátima Lambert. Assim se complementam.

Nada acontece sem a firmeza dos alicerces. É assim para ambos. A liberdade do traço é refém da força dos pilares que o seguram. Para João Barata Feyo, a aventura começa com fotografias de pormenores de fachadas de casas da cidade do Porto, e o recurso a um compasso para medir as escalas das portas, das janelas e dos telhados, num trabalho que obedece à filigrana do olhar. É assim que, camada após camada, à lupa, se constroem as suas cidades. Para Dulce Barata Feyo, por sua vez, o rigor das linhas mestras é o ponto de partida. Cria uma matriz da qual brotam, quase de forma escultórica, formas e cores. Se um identifica a forma como uma aldeia ou uma a cidade se organiza, o outro dá-lhe cor e movimento. Confere-lhe vida. Fátima Lambert recorre à ideia de “vivências fronteiriças”. São trabalhos “que multiplicam a cidade” (…) paisagens urbanas que ecoam vozes”, revelam-se “ativas e constantes”.

João Barata Feyo começou por desenhar o que considerava identitário dos lugares que ia visitando. Do que via da sua janela, em Florença passou para outras cidades, nomeadamente no Alentejo, onde os telhados são substituídos por pátios e os moradores se demoram, em dias de mais luz. Casas que “resguardam as idades da história do mundo e das pessoas cujas vidas são deixadas a seu cuidado”. Locais onde as “pequenas felicidades” se escondem, as angústias se desenvolvem e os conflitos se acentuam. Já a bússola de Dulce Barata Feyo privilegia, grosso modo, o eixo vertical e horizontal, mas depois o comprometimento é com a cor. Podem ser esboços de cidades, territórios, paisagens ou atmosferas. O movimento lança-nos convites. Convida ao mergulho, qual Alice (no País das Maravilhas).

A “densidade da relação eu-tu”, revela-se “no par: mulher-homem”, diz Maria de Fátima Lambert. A curadora sublinha que, nesta exposição, “os casos de alteridade confirmam autonomia”. As “figuras e casarios nos desenhos virtuosísticos de João Barata-Feyo” e os “vislumbres de paisagens-mapas imaginados – em sublimidade cromática sobre a realidade – nas obras de Dulce Barata-Feyo” levam-nos numa viagem pelos “reinos da imaginação”. Gerando, em simultâneo, “ruturas construtivas de identidades diferenciadas”. Desta forma, os dois artistas (ou seja, 1+1) “dialogam em alteridade focada num prisma aglutinante que reverbera”. A exposição “1+1=1” vai estar patente ao público até ao próximo dia 06 de maio de 2023 e a entrada é livre.

[Texto escrito com base na notícia de Anabela Santos, em https://noticias.up.pt/para-la-do-visivel-as-cidades-dos-barata-feyo/]

sexta-feira, 20 de maio de 2022

EXPOSIÇÃO: "Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago”,
de Agostinho Santos
Curadoria | Valter Hugo Mãe
Casa Comum - Reitoria da Universidade do Porto
21 Abr > 02 Jul 2022


Por volta de 2005, José Saramago visitou Agostinho Santos no seu atelier, em Gaia. Como resultado dessa visita, o artista prometeu reler a obra do escritor para, mais tarde, com outra maturidade, voltar a trabalhar os temas que a ambos tanto tocavam. Afinal, o fascínio do pintor por José Saramago vinha de há longa data, nomeadamente dos tempos de “Palavra / Imagem; desenvolvimentos pictóricos a partir da escrita de José Saramago”, o trabalho de mestrado de Agostinho Santos em Pintura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Relido o “Memorial do Convento", o "Ensaio sobre a Cegueira”, o “Ensaio sobre a Lucidez”, “Caim”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “As Intermitências da Morte”, o trabalho está feito e pronto para ser agora apresentado: “Ver Cegueira Adentro – 100 Anos de José Saramago”. E assim se cumpre também uma promessa.

As palavras serão sempre poucas para dar forma à expressão do meu sentir perante a obra de Agostinho Santos. Entrar num corredor das galerias da Casa Comum e ser envolvido pela miríade de figuras que ondulam à superfície de um imenso azul, delirantes, buliçosas, fantasmagóricas, essência e prolongamento umas das outras, é uma experiência que não se esquece. Pela exuberância e pelo arrebatamento, pela transgressão e pela inquietude. Fortemente ligadas à terra, expressões da arte como prolongamentos da vida - mãos, troncos e rostos como “raízes, hastes e corolas” -, as imagens são enredos de seiva e sangue a borbulhar no nosso mais íntimo. Olhamos para elas e somos aquilo que vemos, os quadros como espelhos da mente, tal como Júlia Ramalho com as suas figuras ou José Saramago com os seus livros.

Entre pintura, escultura, desenho e livros de artista, são mais de cem as obras expostas, quase todas  – com a excepção de oito esculturas – realizadas entre 2019 e 2021 e mostradas agora pela primeira vez. Ainda que distribuídos por materiais e suportes muito diferentes entre si, os trabalhos de Agostinho Santos apresentam uma unidade temática e formal notáveis, consubstanciadas na obra de Saramago, na sua coerência e no seu desejo de liberdade, igualdade e justiça. Também por isto, “Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago” é um convite à revisitação do Prémio Nobel, à sua redescoberta através de apontamentos subtis, à consciência da cegueira que alastra à nossa volta e faz de nós reféns nesta espécie de “imago mundi” em que vivemos: um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de indiferença, de cinismo. Para ver e ver e ver.