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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Porto, Dresden, Nagasaki” | Francisco Laranjo



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Porto, Dresden, Nagasaki”,
de Francisco Laranjo
Curadoria | Maria Clara Paulino, Filipa Tojal e Domingos Loureiro
Casa Comum Universidade do Porto
11 Dez 2025 > 28 Fev 2026

“A minha obra tem também um lado romântico, (...) um sentimento que atravessa toda a História da Arte, no sentido nostálgico, no sentido do fascínio pelo mundo e pelo universo, no sentido contemplativo."
Francisco Laranjo

A exposição “Porto, Dresden, Nagasaki” propõe um olhar abrangente sobre quase cinco décadas da obra de Francisco Laranjo, reunindo cerca de cinquenta trabalhos nas Galerias da Casa Comum da Universidade do Porto. Mais do que uma retrospectiva clássica, a mostra recusa a linearidade cronológica para construir um percurso assente em ressonâncias geográficas, culturais e simbólicas. Gravuras, desenhos arrancados de cadernos, pinturas sobre papel e tela, folhas de ouro e trabalhos em tinta da china compõem um corpo heterogéneo, marcado por contrastes de escala, técnica e intensidade. Essa diversidade material não resulta de um ecletismo formal, mas de uma prática coerente que entende a arte como campo de interrogação histórica e civilizacional. Porto, Dresden e Nagasaki funcionam aqui menos como lugares biográficos do que como territórios de pensamento: espaços onde se cruzam tradição europeia, romantismo alemão, memória da destruição e afinidades com a caligrafia e o pensamento oriental. O que a exposição pede ao visitante não é reconhecimento, mas disponibilidade - a “vulnerabilidade do olhar” de que falam os curadores - perante imagens que não oferecem respostas fáceis nem conforto visual imediato.

Esse posicionamento crítico atravessa toda a obra de Francisco Laranjo e torna-se particularmente visível neste conjunto alargado, onde se reconhece a tensão permanente entre pensamento e gesto. Professor, investigador e figura central da vida académica artística portuguesa, Laranjo foi um artista que pensou a imagem como construção ética antes de a assumir como objeto estético. Daí a austeridade formal, as paletas contidas, a recusa da sedução e a insistência numa materialidade áspera, por vezes quase resistente ao olhar. Em “Porto, Dresden, Nagasaki”, essa gravidade ganha densidade histórica: Dresden surge associada ao diálogo com o romantismo alemão e à reconstrução pós-guerra; Nagasaki convoca a memória da violência extrema e uma espiritualidade contida; o Porto afirma-se como lugar de trabalho, ensino e enraizamento crítico. Em alguns momentos, a carga conceptual sobrepõe-se à experiência sensível, exigindo do espectador um alinhamento prévio com o universo intelectual do artista. Ainda assim, a coerência do léxico visual e a integridade do posicionamento tornam evidente uma obra que nunca se quis neutra nem decorativa.

Ao integrar também livros da biblioteca pessoal do artista, a exposição reforça a ideia de que, em Francisco Laranjo, vida, pensamento e prática artística são inseparáveis. O seu legado afirma-se menos pela inovação formal do que pela defesa de uma ética da criação, onde a arte é entendida como forma de resistência, memória e responsabilidade política. Essa herança, visível na formação de várias gerações de artistas, levanta hoje questões pertinentes: até que ponto a arte pode sustentar-se quando excessivamente ancorada no discurso? Onde permanece o espaço para o indizível, para o erro ou para a emoção não codificada? “Porto, Dresden, Nagasaki” não resolve essas tensões, mas expõe-as com clareza, mostrando uma obra que, por vezes mais exemplar do que perturbadora, permanece fundamental para compreender uma certa tradição da arte contemporânea portuguesa. Uma obra exigente, séria e comprometida, que prefere o risco do pensamento ao conforto da imagem e que continua a desafiar o olhar muito depois de abandonado o espaço expositivo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Um Lugar de um Mundo Novo"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Um Lugar de um Mundo Novo”,
de Francisco Laranjo
Coordenação Geral | Fernando Seara
Museografia | Francisco Laranjo, Mariana Morais
Museu do Douro
02 Dez 2022 > 26 Fev 2023


“Tudo o que é importante na vida, é simbólico.” A partir desta frase, respigada de uma conversa que teve em novo com o pai, Francisco Miguel Laranjo desenvolve um texto belíssimo que acompanha a exposição de pintura e desenho “Um Lugar de um Mundo Novo”, de Francisco Laranjo, e que pode ser vista até ao próximo dia 26 de Fevereiro. É dele que me socorro para contextualizar as obras patentes na galeria de exposições temporárias do Museu do Douro, na Régua, percebendo que “nesta simples, mas totalizante afirmação, cabe uma dimensão significativa do seu trabalho enquanto artista. Na verdade, pode dizer-se que a sua pintura e pensamento encontram-se invariavelmente num local intermédio entre o gesto e o simbólico. Se o primeiro pressupõe fisicalidade e materialidade, o segundo permite viagens pelo tempo, entre culturas, entre escalas micro e macro, entre variadas geografias.”

As viagens. As geografias. O Douro. O rio, mas também as margens que o comprimem, se erguem em monumentais escadarias e se desdobram noutras viagens que Francisco Laranjo empreendeu entre continentes, culturas e referências, da filosofia à música e da literatura ao cinema. O Douro, e por extensão o Porto, ao qual sempre regressa e que nos é sugerido nestes trabalhos em traços de luz e cor, ao mesmo tempo chamando a atenção para a desdita de se “considerar inexistente o que não se vê”, realidade tão comum nas sociedades ocidentais. Falando sobre a beleza, Junichiro Tanisaki dizia: “Creio que o belo não é uma substância em si, mas apenas um desenho de sombras, um jogo de claro-escuro produzido pela justaposição de diversas substâncias.” Por seu lado, Mark Rothko articula também a ideia da utilização do silêncio. Algures entre o cósmico e o microscópico, onde cabem e se criam mundos, está Francisco Laranjo e a sua obra. Na sombra e no silêncio.

Sobre a pintura, disse Francisco Laranjo: “Confesso acreditar nela poderosamente para além de todos os vaticínios da sua morte, faz dois séculos com Hegel. E acredito sobretudo por ser exactamente o oposto do lado físico do objecto que ela é também. E o exercício mais estranho da relação do espirito com um lado simples e intuitivo de imaginar que se pode pensar num espaço eminentemente plano e ilusório, uma escrita sobre o tempo e o lugar, e pensar que aí se transcende o discurso que chamamos do conhecimento e da vida, e ao mesmo tempo procurarmo-nos a nós próprios. A pintura nasce num silêncio tão eloquente, quanto as razões que assistem para a sua realização. E, se o silêncio a testemunha como espaço interior de reflexão da razão, da paixão, do sentimento, da consciência ou do que lhe quisermos chamar para justificar o que não é preciso, sobra em importância a dimensão do desconhecido e do mistério que a arte estende para lá do visível e do imaginário que existe na nossa natureza mais profunda.”

São de Francisco Miguel Laranjo as últimas palavras: “Há poucos anos atrás, enquanto o ajudava a pendurar uma gravura numa parede, procurava a posição mais apropriada, enquanto olhava para a altura do tecto. De forma genérica, costuma-se utilizar um sempre subjectivo ‘nível dos olhos’ para encontrar a posição do centro de uma pintura que ficará suspensa, em exposição. ‘Mais abaixo’, disse-me o meu pai num tom suave, ‘gosto dos meus trabalhos juntos ao coração’, enquanto tocava com a mão direita no peito. (…) A enorme dimensão humana e empática que caracterizam o seu trabalho – e o definiram como pessoa – que partiu do Douro para todo o mundo, é assim devolvida nesta generosa presença abstracta de enorme clareza, sempre entre o gesto e o simbólico. Este texto é, igualmente, um pequeno gesto simbólico. Guarda uma pequeníssima quantidade de memórias, de inúmeras viagens, de longas conversas, de muita aprendizagem, ajuda e encorajamento continuo. Do ocidente ao oriente, ficarão pinturas, desenhos, serigrafias, gravuras, esculturas, vitrais e cerâmicas suspensas no tempo. Os gestos simbólicos, no entanto, ficarão para sempre.”