Juan Ricardo Nördlinger nasceu em Buenos Aires, em 1949, e tem actualmente o seu atelier em Santo Ovídio, Vila Nova de Gaia. A formação em Belas Artes no seu país natal, a Argentina, e a convivência com mestres como Elba Bairon ou Marcia Schwartz moldaram um percurso artístico tardio, mas profundamente consciente do gesto e da cor. Na pintura, como na gravura e na cerâmica, evidencia-se uma busca constante entre o exterior e o interior, uma tensão entre o mundo que o cerca e a introspecção que o habita. Nördlinger pinta como quem escava o próprio tempo: os objectos e figuras que surgem nas suas telas parecem emergir de uma névoa de recordações, um território em que a memória se confunde com a inspiração. Essa dimensão introspectiva nunca é fria nem analítica: é uma escuta visual, uma respiração emocional que o artista traduz através de manchas, rasgos e transparências que desafiam qualquer narrativa linear.
No cerne da sua obra reside um expressionismo vivo, de pulsação visceral, em que se adivinham ecos do surrealismo e da arte naïf, não pela ingenuidade formal, mas pela liberdade com que o artista assume o espanto perante o quotidiano. Ainda que reconhecíveis, os objectos, as figuras eos interiores aparecem deformados pela intensidade emotiva e pela vibração da cor, o que lhes confere uma energia que oscila entre o sonho e a confissão. Nördlinger trabalha a superfície da tela como um campo de batalha entre o que se vê e o que se pressente: cada mancha é uma tentativa de fixar o indizível. O uso exuberante da cor — os vermelhos que queimam, os azuis que ferem, os amarelos quase líquidos — transforma os seus quadros em lugares de alegria e vitalidade insuspeitada, mesmo quando os temas remetem à solidão ou à ausência. É essa contradição, entre a dor e a celebração, que dá corpo à sua pintura e a torna profundamente humana.
Na exposição “Intimismo”, patente até 22 de Novembro nesse lugar único de partilha de saberes que é a Casa Comum, Nördlinger propõe um regresso ao espaço doméstico e simbólico. O visitante é convidado a entrar “de mansinho”, a percorrer os corredores invisíveis de um refúgio interior, onde cadeiras, sofás e poltronas se tornam personagens silenciosas. A densidade humana, paradoxalmente ausente, sobrevive nos vestígios de uso, na vibração da cor, nas manchas que respiram memória. Aqui, o pintor faz do quotidiano matéria poética, diluindo as fronteiras entre o visível e o sugerido. Cada tela é uma confissão aberta, um espelho do que resta depois do ruído, uma meditação sobre o que significa habitar o mundo. Plena de lirismo e tensão, a pintura de Nördlinger devolve-nos a ideia de que o íntimo não é o que se esconde, antes o que se partilha através da cor e do traço.
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