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quinta-feira, 4 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Gravidade e(m) Suspensão” | Nazaré Álvares



EXPOSIÇÃO DE EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Gravidade e(m) Suspensão”,
de Nazaré Álvares
Curadoria | Agostinho Santos
Casa da Cultura de Paredes
03 Mai > 13 Jun 2026


“Muito relacionada com a observação da contemporaneidade, usando a tela enquanto espaço de anotação e denúncia, Nazaré Álvares age com bravura ainda que toda a sua mensagem tenha que ver que nos sentimos predados, em risco, sucumbindo. Digo bravura porque as suas imagens são fortes, a sua figuração assume o feio e o incompleto, não se adorna para efeitos prazerosos, não há cosmética na sua obra. Tudo é debaixo da máscara. De alguma maneira, tudo é mostrado como por debaixo de todos os disfarces.”
Valter Hugo Mãe

Patente na Casa da Cultura de Paredes até ao próximo dia 13, a exposição “Gravidade e(m) Suspensão” mostra Nazaré Álvares como uma das vozes mais inquietas e insubmissas no actual panorama da pintura portuguesa contemporânea. Reunindo desenho e pintura numa convivência orgânica, a artista regressa a dois núcleos temáticos que têm marcado o seu trabalho recente - o auto-retrato e a imagem da torre de Babel - para os submeter a uma tensão simultaneamente íntima e simbólica. A arista escapa à armadilha da revisitação historicista, transformando os seus trabalhos num exercício de deslocação contemporânea, onde o peso da tradição é continuamente corroído por uma linguagem pictórica nervosa, crua e emocionalmente exposta. Há uma gravidade evidente nestas obras, não apenas no sentido material da tinta espessa, da pincelada pesada e da densidade do desenho, mas sobretudo na dimensão existencial que percorre cada figura. Toda a mostra parece oscilar entre o peso do corpo e uma estranha suspensão psicológica, como se as figuras habitassem um espaço intermédio entre a queda e a permanência. Suspensos entre resistência e vulnerabilidade, os corpos gastos e os rostos inquietos são aqui matéria e desconforto.

Existe em toda a exposição uma recusa deliberada do decorativismo e uma insistência quase ética na verdade emocional da representação. Nazaré Álvares parece interessar-se menos pela imagem exterior do rosto do que pelas marcas invisíveis da experiência humana - fadiga, memória, solidão, desgaste -, transformando o retrato num espaço de exposição interior raramente confortável. A artista trabalha o próprio rosto como território de confronto. Rejeitando exercícios narcísicos ou autobiográficos inconsequentes, cada obra parece colocar em causa a estabilidade da identidade. Vincadamente expressionistas, estes rostos mostram uma frontalidade difícil de sustentar na erosão emocional que deles se desprende. Pinceladas interrompidas, zonas aparentemente inacabadas, sobreposições violentas de tinta e uma paleta contida, dominada por negros, ocres e vermelhos densos, constroem figuras cuja carne é, simultaneamente, presença física e ferida psicológica. O desenho acompanha esta intensidade sem funcionar como mero suporte preparatório; pelo contrário, prolonga a dimensão diarística e confessional da pintura. As linhas surgem tensas, fragmentadas, como se registassem pensamentos ainda em estado bruto.

A presença recorrente da torre de Babel introduz uma dimensão mais ampla e simbólica no percurso da exposição. Longe de surgir como simples referência erudita à tradição ocidental, Babel aparece aqui como metáfora da instabilidade contemporânea, da incomunicabilidade e da permanente fragmentação do sujeito. Ao colocar estas estruturas verticais em diálogo com os auto-retratos, Nazaré Álvares estabelece uma ponte subtil entre e a vulnerabilidade individual e o colapso colectivo. A suspensão sugerida no título ganha uma nova força, não apenas pela sugestão do estado psicológico das figuras, mas também pela sensação civilizacional de desequilíbrio e ruína latente que exprime. Formalmente, a artista demonstra um domínio técnico sólido, perceptível tanto na construção compositiva como na relação entre desenho e pintura, ao serviço de uma fortíssima tensão expressiva. Essa ausência de artifício complacente faz de “Gravidade e(m) Suspensão” uma exposição particularmente relevante pelo que se desprende de uma pintura lenta, física e emocionalmente exigente, na qual olhar é confrontar.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO: "Habitáculos do Ser" | Evelina Oliveira



EXPOSIÇÃO: “Habitáculos do Ser”,
de Evelina Oliveira
Curadoria | Rosalina Santos
Casa da Cultura de Paredes
03 Mai > 13 Jun 2026


“Habitáculos do Ser”, exposição de Evelina Oliveira inaugurada no passado dia 03 de Maio, na Casa da Cultura de Paredes, afirma-se como um exercício de contemplação sobre a permanência da vida no seio de uma natureza aparentemente frágil. Terna e delicadamente, a artista compõe um universo visual onde matéria e memória se confundem, convocando o visitante para uma experiência simultaneamente íntima e inquietante. As peças oferecem-se como se de microcosmos orgânicos se tratassem, abrigos simbólicos onde coexistem delicadeza e resistência, silêncio e transformação. Percebe-se uma dimensão quase ritual da natureza no conjunto apresentado, como se cada fragmento vegetal, cada pássaro ou forma híbrida, transportasse consigo uma narrativa subterrânea sobre o equilíbrio precário do mundo natural. Através de uma linguagem plástica imediatamente reconhecível, Evelina Oliveira deixa que as obras respirem na ambiguidade poética que lhes dá corpo, desafiando-nos a habitar estes territórios simbólicos e a conformarmo-nos com a vulnerabilidade do próprio acto de existir.

A exposição revela uma artista versátil, capaz de cruzar desenho, pintura, colagem, modelagem e instalação, sem que o resultado perca unidade estética. Em “Habitáculos do Ser”, os materiais parecem prolongamentos naturais das ideias que lhes dão origem, integrando-se numa composição onde o artesanal e o intuitivo convivem de forma harmoniosa. A madeira, suporte predominante em várias peças, reforça essa ligação primordial à terra e à matéria viva, enquanto os pequenos detalhes orgânicos introduzem uma sensação de movimento silencioso, quase respirável. E porém, por detrás da aparente serenidade cromática, existe uma subtil tensão dramática. As formas encerradas nestes “habitáculos” oscilam entre o refúgio e o confinamento, sugerindo uma reflexão sobre os limites da protecção num tempo marcado pela devastação ambiental e pelo afastamento do homem em relação ao mundo natural. Fugindo ao discurso panfletário, a artista opta por uma abordagem sensorial a pedir observação demorada. Há momentos em que o humor e a ironia se insinuam discretamente, quebrando a solenidade contemplativa e aproximando o olhar do espectador de uma dimensão mais humana e afectiva.

Existe nesta exposição uma crença serena na capacidade de sobrevivência, mesmo após eventos destruidores, e é talvez essa esperança discreta que mais intensamente permanece no olhar de quem percorre a mostra. A ameaça das alterações climáticas e os fenómenos extremos que pesam sobre a fragilidade e vulnerabilidade dos ecossistemas permanecem como uma presença silenciosa em muitas destas obras, ainda que nunca assumida de forma explícita ou ilustrativa. Entre o verde e a cinza, entre a perda e o renascer, Evelina Oliveira constrói uma narrativa visual profundamente marcada pela ideia de regeneração. Os pequenos seres que povoam estes trabalhos - aves, flores, figuras indefinidas - surgem como testemunhas frágeis de uma natureza em permanente reconstrução. Com enorme delicadeza, a artista oferece uma visão poética do mundo natural enquanto espaço de resistência e continuidade. “Habitáculos do Ser” confirma, assim, a maturidade artística de Evelina Oliveira e a consistência de um percurso que alia rigor técnico, imaginação e sensibilidade crítica. Mais do que uma representação da natureza, a exposição propõe uma reflexão sobre a nossa relação com ela - uma relação feita de pertença, responsabilidade e espanto.