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quarta-feira, 27 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: "Reabilitação / Valadares" | Agostinho Santos



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Reabilitação / Valadares”,
de Agostinho Santos
Centro de Reabilitação do Norte
06 Ago > 13 Set 2025


“Mais do que tudo, esta minha exposição de desenhos “Reabilitação/Valadares”, agora em plena inauguração no Centro de Reabilitação de Valadares (CRN) é uma mostra carregada de emoção, que traduz e interpreta um período difícil, de inquietação e perturbação, que ainda não terminou, mas que felizmente está a virar a face e estes desenhos / aguarelas exprimem, ou pretendem exprimir, precisamente esta fase de recuperação e o quase regresso à normalidade.”
Agostinho Santos

Esta é uma recensão crítica “fora da caixa”. Começa num corredor onde doentes em cadeiras de rodas ou deitados numa maca aguardam a sua vez de serem avaliados. À sua volta concentram-se os acompanhantes. Agostinho Santos está entre eles, pertence ao rol dos familiares, vem com a esposa, Ilda Figueiredo, para internamento. Conheço a sua obra há alguns anos. A visceralidade do seu desenho toca-me profundamente, faz acordar o que de mais primordial e íntimo há em mim. Já me tinha manifestado acerca disso aqui no blogue, já tinha trocado com o artista um par de mensagens expressando a minha emoção, mas é a primeira vez que lhe aperto a mão. Embora o seu olhar não esconda preocupação, é o optimismo que fala mais alto. Os dias passados no hospital de agudos trouxeram boas notícias e as melhoras da Ilda são evidentes: É uma grande mulher e o seu carácter e determinação estão agora ao serviço de um processo exigente e complexo de reabilitação em múltiplas valências. Sei que ambos sabem que há muito caminho pela frente. Irei confirmá-lo no próximo mês e meio, ao longo do qual aprendi a conhecer melhor Agostinho Santos e a admirá-lo por aquilo que é.

Para Agostinho Santos, desenhar é tão importante como respirar. Com Ilda Figueiredo internada, o pintor exprime no papel o viver e o sentir de quem se vê incapacitado pela doença. Ouvida até à exaustão, a frase “um dia de cada vez” começa a reflectir-se nos desenhos que vai produzindo, espelho de um quotidiano vertido em surpresa e novidade, em relações de confiança que se reforçam no valor de cada conquista, em gestos aprimorados pela vontade e pelo querer. Irá chamar a este conjunto de desenhos “Reabilitação / Valadares”, assinalando assim um virar de página na qual reabilitação, renascimento e renovação não são palavras de circunstância. Figurativa, vincadamente alegórica, a série ganha forma, gesto, cor e vida. Incipientes, inacabados, os primeiros trabalhos reflectem o tanto que está por fazer no processo de reabilitação a muitos níveis. O contraste com os trabalhos da segunda metade da série é gritante, a cor a tomar conta do espaço, os desenhos como reflexo da vontade, da esperança e da alegria que residem num processo de luta e conquista. O resultado desta quase “residência artística” pode agora ser visto no Centro de Reabilitação do Norte, em vinte e quatro trabalhos que formam um “diário íntimo” que se expande muito para lá daquilo que o nosso olhar pode perceber. Em amor e em verdade.

Como espectros que se insinuam num quotidiano exasperadamente lento, mas seguro, a pulseira de identificação, a bomba inalatória ou a cadeira de rodas vêm lembrar aquilo de que é feito o “novo normal”. Por detrás do negro espreitam demónios, mas é o verde da esperança a falar mais alto. Nos meus trinta e cinco anos de profissional de enfermagem, sempre me tocou a fragilidade do ser humano, os imponderáveis que, num piscar de olhos, viram mundos de pernas para o ar. Olhar o doente, ver a súplica no abandono do seu olhar, a resignação face à sua dependência, o desejo de dias melhores, é experimentar o que de mais humano e íntimo há em nós. Poder apreciar uma série que retrata vivências tão intensas e profundas é mergulhar na bondade e na empatia, é perceber melhor aquilo de que somos feitos, é virar as costas ao que nos pode separar e comovermo-nos com o tanto que nos une. Na cor, no gesto e no sentimento, Agostinho Santos dá-nos uma lição de humanidade com este “Reabilitação / Valadares”. Vale a pena escutar pausadamente o que esta série preciosa de trabalhos tem para nos dizer. É na escuta do outro que o coração encontra a sua forma mais verdadeira de existir.

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