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terça-feira, 26 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Chantal Akerman. Travelling”



EXPOSIÇÃO: “Chantal Akerman. Travelling”
Curadoria | Laurence Rassel
MAC / CCB – Museu de Arte Contemporânea e Centro de Arquitectura
17 Abr > 07 Set 2025


Chantal Akerman (1950–2015) firmou-se como uma das mais singulares vozes do cinema contemporâneo, ao explorar temas como a intimidade, a solidão, o luto, as injustiças sociais e a herança familiar, muitas vezes marcados pela herança judaica, experiência do exílio e memórias do Holocausto. A sua abordagem autodidata e radical surgiu desde cedo, com “Saute ma ville” (1968), curta-metragem que realizou aos 18 anos em Bruxelas, cidade natal e matriz afetiva da sua obra. No início dos anos 1970, viveu em Nova Iorque, onde teve contacto com o cinema experimental americano, incorporando uma linguagem contemplativa do tempo e do espaço. Foi aí que amadureceu a estética que levaria a filmes como “Je tu il elle” (1974) e a aclamada obra-prima “Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles” (1975), hoje considerada um marco da modernidade cinematográfica e da causa feminista, tendo sido nomeada o melhor filme de todos os tempos pela revista “Sight & Sound”, em 2022.

Chantal Akerman manteve uma carreira inquieta e multifacetada, expandindo os limites do cinema ao transitar entre géneros como o drama, a comédia, o documentário, a adaptação literária e a comédia musical. Filmes como “D’Est” (1993), “Sud” (1999) e “De l’autre côté” (2002) formam uma trilogia que observa muros, fronteiras e o sofrimento humano com um olhar poético e político. Desde meados da década de 1990, a cineasta também se destacou no campo das artes plásticas, criando cerca de 17 instalações de vídeo exibidas em importantes museus, revelando novas formas de relação com a imagem, o som e o texto. A exposição “Chantal Akerman. Travelling” reflecte esta trajectória complexa, apresentando filmes, instalações, documentos de produção e arquivos inéditos da Fundação Chantal Akerman, conservados pela Cinemateca Real da Bélgica. A mostra sublinha ainda o papel central da escrita na sua obra, revelando Akerman como uma autora que cruzou cinema e literatura com igual profundidade.

Organizada em diferentes núcleos temáticos e cronológicos, a exposição começa por Bruxelas, lugar de origem e primeira experimentação artística, e percorre geografias diversas — da Europa de Leste aos desertos norte-americanos —, reflectindo a amplitude do olhar da cineasta. Entre os destaques estão obras pouco conhecidas como “Hanging Out Yonkers” (1972), bem como as suas instalações mais emblemáticas, de “D’Est, au bord de la fiction” (1995) a “Now” (2015). A última sala reúne arquivos de produção, materiais de trabalho da Paradise Films — produtora fundada por Akerman — e testemunhos da sua rede de colaboradores, oferecendo uma perspetiva íntima sobre os processos criativos da artista. O programa associado à exposição, que inclui sessões na Cinemateca Portuguesa e eventos no MAC/CCB, convida o público a (re)descobrir uma obra radical e multifacetada, cuja influência permanece viva entre cineastas e artistas contemporâneos. Akerman, que faleceu em Paris em 2015, deixou um legado inestimável, marcado por uma sensibilidade profundamente pessoal e um compromisso inabalável com a liberdade artística.

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