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sábado, 31 de outubro de 2026

LIVRO: "O Sequestro do Cérebro" | Agostinho Santos



LIVRO: “O Sequestro do Cérebro”,
de Agostinho Santos
Ed. Officium Lectionis Edições, Setembro de 2026


“Neste período, aprendi a saborear a memória de quanto é bom, de quando os nossos estão bem e lembrei muitas vezes, entre dezenas de entradas e saídas do hospital, o quanto éramos felizes quando estávamos sentados no sofá a ler um livro, no estirador a desenhar ou a ver séries televisivas ou noticiários, ou nas cadeiras da varanda a beber um gin e a contemplar a majestosa paisagem das cidades do Porto e de Gaia, beijadas pelo rio Douro. Tudo era bom, pacífico... e eu não sabia. Tudo era sereno... e eu não sabia. Agora sei e sei também que, no meio destes meses infinitos de recuperação da Ilda, senti-me encurralado numa espécie de ilha, não abandonada de todo, mas consciente de que afinal a doença nos atirara para o nosso espaço e que a sobrevivência depende apenas de nós, em muitos casos de mim…”

Há tempestades que surgem sem aviso e que acabam por mudar para sempre a paisagem à nossa volta. “O Sequestro do Cérebro”, de Agostinho Santos, é o testemunho intenso e vivo de um desses abalos: o AVC que atingiu a sua companheira, Ilda Figueiredo, mulher de causas, de combates e de uma energia inesgotável, subitamente privada da palavra, do movimento e de uma parte essencial da sua autonomia. Foi um “tsunami”, como refere o escritor, que invadiu o seu quotidiano, suspendendo projectos e lançando ambos num território onde o medo se misturou com a esperança e cada pequeno sinal de progresso adquiriu a grandeza de um milagre. Mas não é da narrativa de uma doença que este livro trata, nem tão-pouco o relato de quem teve de aprender a cuidar. É, sobretudo, o retrato de um homem confrontado com a fragilidade da vida e obrigado a redesenhar a sua própria existência. Artista plástico, habituado a procurar no traço, na cor e na matéria os sinais de um mundo a correr para o caos, Agostinho viu-se perante a mais difícil das telas, aquela em que nada estava garantido, em que cada dia podia apagar uma linha ou devolver-lhe uma cor. E, quando tudo parecia suspenso, descobriu que a vida, mesmo ferida, não perdia inteiramente a capacidade de se reinventar.

Profissional de saúde que acompanhou parte do processo de reabilitação da doença que vitimou Ilda Figueiredo, sinto-me à vontade para afirmar que há, nas páginas deste livro, uma verdade comovente que ultrapassa a experiência individual. Agostinho Santos faz-nos reflectir numa realidade que lhe toca de perto e nos leva a perceber que também é preciso cuidar de quem cuida. Por detrás da vigilância, dos horários, das refeições, das terapias ou das deslocações, existe um homem que sente medo, que conhece a insónia, que não tem como não vacilar perante a dimensão da responsabilidade que lhe coube. Agostinho Santos tem a coragem e a generosidade de não esconder esse homem. Mostra-o a chorar longe da enfermaria, a temer não ter forças, a interrogar o silêncio daqueles que julgava próximos e a encontrar amparo na família e nos amigos que permaneceram. É nesta exposição da vulnerabilidade, sem disfarces nem heroísmos artificiais, que a sua escrita ganha uma singular humanidade. Cuidar de Ilda Figueiredo foi aprender a reconhecer o valor de coisas que antes pertenciam ao fundo indistinto dos dias: uma mão que aperta outra, um passo recuperado, uma palavra que regressa, um passeio possível. Foi também descobrir que o cuidador não é uma fortaleza sem brechas. É alguém que também precisa de descanso, de escuta e de mãos que o amparem. Para que alguém possa continuar a cuidar, é necessário que o mundo não se esqueça de cuidar dele.

No Centro de Reabilitação do Norte, em Valadares, a recuperação faz-se de cuidados clínicos, de gestos pacientes, de presença empática e de uma dedicação profissional que Agostinho Santos reconhece e agradece. Mas faz-se também de encontros, de palavras e de cultura. Entre exposições de artes plásticas e de fotografia, concertos de música clássica e tertúlias literárias, abrem-se janelas num quotidiano tantas vezes confinado às exigências da doença. O próprio Agostinho Santos foi convidado para uma dessas tertúlias, ao lado do Professor Manuel Sobrinho Simões, reencontrando um espaço de partilha que lhe era familiar: o da criação, do pensamento e da palavra. Este episódio, aparentemente discreto, contém uma verdade essencial. Uma instituição de saúde cumpre plenamente a sua missão quando, para além de tratar o corpo, reconhece a pessoa que nele habita; quando percebe que ninguém se resume ao diagnóstico, à incapacidade ou ao lugar que ocupa numa enfermaria. A cultura não substitui a terapêutica, mas pode devolver à existência horizontes que a doença estreitou. É também cuidado oferecer a alguém a possibilidade de se emocionar, de conversar, de apreciar uma obra, de participar numa conversa à volta de um livro e de voltar a sentir-se parte do mundo. Nestes encontros, a vida não espera pela recuperação para acontecer: acontece de facto, ali, entre pessoas que, apesar das suas fragilidades, continuam a ter algo para dar e muito para receber.

E há o artista, que nunca desaparece inteiramente por detrás do cuidador. Quando o tsunami entrou na sua vida, Agostinho Santos encontrava-se mergulhado na preparação da Bienal Internacional de Arte de Gaia. De repente, os caminhos passaram a convergir para o hospital; o atelier ficou distante e o tempo adquiriu outra dimensão. Porém, mesmo quando a urgência dos cuidados parece ocupar todo o espaço, a criação persiste, procurando lugar na mesa de casa, no desenho transportado para dentro das novas rotinas, no olhar que continua a interrogar o mundo. Há qualquer coisa de profundamente revelador neste gesto: desenhar, quando a vida perdeu o seu contorno é recusar que a adversidade detenha a última palavra. A mão que acompanha Ilda Figueiredo é também a mão que traça; a sensibilidade que reconhece a dor é a mesma que procura a forma, a cor e a possibilidade de uma nova composição. A arte prolonga-se para além do papel e da tela, manifesta-se na persistência de uma exposição realizada, na presença num encontro cultural, no esforço de manter a sua Ilda ligada aos outros, no cuidado de não deixar que a doença a encerre num mundo sem janelas. Não se trata de transformar o sofrimento em inspiração, como se a dor precisasse de justificar-se através de alguma obra. Trata-se, antes, de reconhecer que a identidade de uma pessoa não se esgota naquilo que lhe acontece. Mesmo sob a violência da mudança, Agostinho Santos continua a ser artista; e Ilda Figueiredo, apesar das limitações impostas pelo AVC, continua a ser a mulher de pensamento, de luta e de afectos que sempre foi. A criação não apaga as feridas, antes ajuda a impedir que elas apaguem tudo o resto.

Nisto reside o desenho mais profundo de “O Sequestro do Cérebro”: o de duas vidas que, sem deixarem de conhecer o medo e a incerteza, reaprendem a caminhar juntas. Ilda Figueiredo regressa devagar, num movimento feito de avanços, pausas e pequenas conquistas; Agostinho Santos transforma-se no decurso desse regresso, descobrindo no acto de cuidar uma das formas mais exigentes e mais fecundas de ser útil. Entre ambos, o amor deixa de ser apenas o território da cumplicidade e passa a ser também o da resistência quotidiana, da paciência e da reinvenção. À sua volta, a família, os amigos, os profissionais de saúde e a arte compõem uma rede de presenças que, quando verdadeira, impede a fragilidade de se converter em abandono. O autor lembra, porém, que essa rede não pode depender apenas da generosidade individual. Cuidar é também uma responsabilidade colectiva, que exige instituições atentas, apoio continuado e respeito pela dignidade de quem sofre e de quem acompanha. No fim, permanece a imagem de um artista que continua a desenhar, de uma mulher cujo sorriso procura de novo a luz e de duas pessoas que aprenderam a medir o tempo por gestos que outrora pareceriam insignificantes. O traço ainda pode tremer; o desenho permanece inacabado. É tempo de ajudar a reconstruir a paisagem, de descobrir entre os destroços que a mão que ampara também cria, que a mão que cria também resiste e que, mesmo depois do maior dos abalos, a vida vai voltar a encontrar o seu desenho.

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