Começaria por dizer que “Tumulto”, a exposição que Agostinho Santos apresenta no Auditório Municipal de Gondomar, não é uma mostra para ser vista com ligeireza nem para satisfazer expectativas de conforto estético. Atravessá-la é aceitar um confronto com as inquietações do presente e com aquilo que de mais frágil habita a condição humana. Guerras, doenças, envelhecimento, violência, desigualdades, medo: os temas anunciam-se desde logo, mas seria redutor entendê-los apenas como matéria de denúncia social. Em Agostinho Santos, a realidade nunca surge como mera ilustração do mundo. O artista trabalha-a como quem a atravessa e a sofre, convocando para o desenho e para a pintura uma intensidade emocional que escapa à distância analítica e ao comentário circunstancial. As figuras multiplicam-se, fundem-se, contaminam-se umas às outras, como se cada corpo transportasse em si a memória de muitos outros corpos. O resultado é um universo visual onde a deformação se torna linguagem e onde a exuberância formal convive com uma profunda inquietação existencial. Mais do que representar o tumulto, Agostinho Santos parece procurar o lugar exacto onde ele nasce, esse território obscuro onde o humano se confronta com os seus limites, os seus fantasmas e as suas contradições.
Há muito que a obra do artista vem construindo uma reflexão persistente sobre o mal-estar do mundo, mas em “Tumulto” essa dimensão adquire uma particular densidade. As composições parecem organizadas segundo uma lógica de permanente transformação, como se nada pudesse permanecer fixo ou concluído. Rostos geram rostos, criaturas emergem de outras criaturas, gestos prolongam-se em novos gestos, numa espécie de fervilhar orgânico que recorda certas visões medievais do Paraíso e do Inferno, mas também a tradição da Arte Popular e da Arte Bruta que tão profundamente marcam o imaginário do pintor. Não estamos, porém, perante uma visão desesperada da existência. Por detrás do ruído, da turbulência e da aparente desordem, percebe-se uma procura incessante de sentido. O tumulto de Agostinho Santos não é apenas exterior; é igualmente interior, espiritual, resultado de um combate travado entre o medo e a esperança, entre a vulnerabilidade e a resistência. As obras funcionam como cartografias emocionais de um tempo em permanente sobressalto, mas também como exercícios de sobrevivência afectiva. Há nelas qualquer coisa de ritual, de exorcismo íntimo, como se o acto de desenhar e pintar permitisse ao artista domesticar os monstros que reconhece no mundo e em si próprio.
Nessa medida, a exposição encontra a sua grande força na capacidade de transformar a inquietação em possibilidade de encontro. Num tempo dominado pela velocidade da informação, pela banalização da violência e pela indiferença perante o sofrimento alheio, Agostinho Santos insiste em devolver rosto e humanidade àquilo que tantas vezes preferimos não ver. As suas figuras interrogam-nos silenciosamente e obrigam-nos a tomar posição perante aquilo que observamos. Não há aqui neutralidade possível. O visitante é chamado a participar, a reconhecer-se naquele vasto cortejo de seres híbridos, vulneráveis e excessivos que povoam as superfícies. Nesse sentido, “Tumulto” afirma-se como uma exposição profundamente política, não no sentido partidário do termo, mas enquanto exercício de consciência e de responsabilidade colectiva. A arte surge como espaço de resistência contra a anestesia moral do presente e como instrumento de reflexão sobre aquilo que nos une enquanto comunidade humana. Ao sair da exposição, permanece a sensação de termos atravessado um território povoado por sombras e sobressaltos, mas onde subsiste, ainda assim, uma obstinada confiança na empatia, na solidariedade e na capacidade do ser humano para encontrar serenidade no centro do próprio caos.