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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

LIVRO: "A Malnascida" | Beatrice Salvioni



LIVRO: “A Malnascida”,
de Beatrice Salvioni
Texto original | “La Malnata” (2022 Giulio Einaudi Editore)
Tradução | Ana Cláudia Santos
Editora | Clara Capitão
Ed. Alfaguara, Outubro de 2023


“Levantei-me para me aproximar dela. Não me tinha em pé, a sola de couro dos sapatos fazia-me escorregar. Agarrei-me a ela, apertei-lhe o pulso com os dedos. O cheiro do rio cobria tudo. Maddalena tremia, mas não de medo. Maddalena não tinha medo de nada. Nem do cão de gengivas inchadas e espuma entre os dentes do senhor Tresoldi, nem da perna do diabo que desce pela chaminé na história que os crescidos contavam. E nem sequer do sangue ou da guerra.”

Estreia literária de Beatrice Salvioni, “A Malnascida” impõe-se desde as primeiras páginas como um relato de forte densidade simbólica e emocional. Inscrito na tradição italiana de romances de formação femininos, o livro transporta-nos à cidade de Monza, nos anos de consolidação do regime fascista de Mussolini, que se impõe aqui como pano de fundo opressivo e omnipresente. Com uma escrita firme e desenvolta, a autora guia o leitor através de uma Itália filtrada pela vida quotidiana, com as suas praças e mercados, os rumores e o “diz-que-disse”, as hierarquias sociais, a vigilância moral e política, o peso das convenções e da religião. É neste cenário que se cruza o destino de Francesca, adolescente burguesa criada no culto das aparências, e de Maddalena, a temida “malnascida”, jovem oriunda de um meio económico baixo, marcada pela violência social e pela superstição colectiva que faz dela uma “bruxa”. É neste clima de tensão entre classes, géneros e destinos, num país onde ser mulher, pobre e indócil equivale a uma condenação tácita, que reside precisamente a força do romance.

A amizade intensa e improvável entre Francesca e Maddalena constitui o verdadeiro motor narrativo do livro e a sua mais evidente dimensão social e humana. Salvioni constrói um vínculo de fascínio, aprendizagem e emancipação mútua, fazendo da Malnascida uma figura tutelar, quase mítica, capaz de rasgar os estreitos horizontes em que Francesca foi educada. Através dela, a jovem burguesa descobre a possibilidade de desobedecer, de desejar, de pensar por si própria, num contexto profundamente patriarcal e repressivo. O romance expõe com clareza a hipocrisia da moral dominante, a violência masculina normalizada e a cumplicidade silenciosa das instituições. Embora algumas personagens secundárias e certas diferenças sociais possam parecer, por momentos, excessivamente maniqueístas, com destaque para o jogo de contrastes entre a família pobre solidária e a burguesia rígida e calculista, essa opção narrativa contribui para reforçar o carácter alegórico do texto e a sua eficácia enquanto fonte de denúncia. Subtil e evocativa, a escrita de Salvioni confia no leitor, dispensando explicações excessivas e deixando que os silêncios e os gestos falem por si.

A espaços, parece-nos escutar o eco de uma Elena Ferrante, de uma Natalia Ginzburg ou de uma Alba de Céspedes, sobretudo na exploração da amizade feminina como espaço de resistência e construção identitária. No entanto, Beatrice Salvioni não se limita a repetir modelos: o seu romance revela um tom mais incisivo, o contexto fascista e a violência política e social a assumirem um peso mais directo e contundente. A estrutura narrativa, marcada desde o início por um acontecimento trágico, confere ao livro uma tensão constante que prende o leitor até às últimas páginas. Luminoso e perturbador, “A Malnascida” é um romance capaz de conjugar ternura e brutalidade, ao mesmo tempo que aborda com justeza temas como a condição feminina, a exclusão social, a guerra e a culpa. Para um primeiro romance, a maturidade literária é notável e justifica plenamente o entusiasmo com que falo de Beatrice Salvioni. A autora afirma-se, assim, como uma voz promissora da literatura italiana contemporânea, capaz de transformar uma história de amizade num poderoso gesto de insubmissão. O que não é para todos.

domingo, 14 de janeiro de 2024

LIVRO: "O Nome Que a Cidade Esqueceu"



LIVRO: “O Nome Que a Cidade Esqueceu”,
de João Tordo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Novembro de 2023


“Ao mesmo tempo, eu começava a entender a solidão das grandes cidades. A sobrevivência num lugar como Manhattan não dependia tanto da proximidade como da distância; não dependia tanto do afecto como do desapego. Tal como Nikolai, ou George B., ou Dorah, ou as pessoas que andavam nas ruas e no metropolitano, eu começara a construir uma redoma em meu redor. Tornara-me um pouco menos sensível, um pouco menos doce, um tanto mais esquiva. Um dia, tal como George ou Dorah ou Nikolai, não deixaria entrar na minha vida ninguém que pudesse magoar-me, e também ninguém que pudesse fazer-me bem.”

“O Nome Que a Cidade Esqueceu” traz-nos a história de Natasha, uma jovem mulher que deixa o país onde nasceu, a Georgia, e emigra para os Estados Unidos depois de uma bomba ter caído no seu quintal. Da lenta recuperação sobrou uma terrível gaguez, que a ataca com força nos momentos mais inoportunos. A essa dificuldade juntam-se outras, só em parte colmatadas graças ao seu estatuto de refugiada e ao dinheiro que recebe das Nações Unidas. A solidão, essa, veio para ficar. É na lavandaria do senhor Fu, na esquina da rua onde vive, que têm lugar os poucos contactos sociais que mantém. Pessoas como Dorah, Clive ou Nikolai ajudam-na, aos poucos, a afastar da lembrança as imagens impressivas do seu tempo de infância e juventude, a saudade dos pais e do irmão, militar da Guarda Nacional a lutar na Ossetia do Sul. A grande mudança na sua vida, porém, dá-se quando conhece Julie e, através dela, George B., que a contratará para um tarefa peculiar.

A celebrar duas décadas de vida literária, João Tordo regressa à cidade onde tudo começou, oferecendo-nos uma narrativa recheada de mistério, solidão e ternura. Partindo de uma história verídica publicada no New York Times, o autor constrói um romance enigmático, impulsionado pelo acaso e pela memória. O resultado é “uma narrativa que disseca a solidão, grande doença dos nossos tempos, confrontando as suas personagens e os leitores com o passado com que todos tentamos reconciliar-nos”. Aquilo que João Tordo nos vem dizer é que o drama de Natasha é um drama colectivo, a sua condição de refugiada como algo ao qual nenhum de nós escapa, solidários que somos na desconfiança, reféns da angústia e do medo, entregues aos caprichos de um acaso onde brincam a sorte e o azar, um verdadeiro jogo do gato e do rato que faz com que cada vez mais nos fechemos ao mundo e a nós próprios.

Construída com enorme sensibilidade, a história é o retrato de uma sociedade em vias de desumanização, mas que ainda conserva algumas bolsas de bondade e de esperança, onde a solidariedade e a cumplicidade ainda mantêm algum significado. Com um forte sentido visual, “O Nome Que a Cidade Esqueceu” faz do tempo e da memória um elemento vital, encerrando a acção em espaços concentracionários e lúgubres, onde o calor, quando chega, é sempre excessivo, opressivo, asfixiante. Ao contrário dos filmes de Coppola ou Scorsese, povoados por uma fauna ululante de italianos ou irlandeses, os ruídos aqui mais não são do que ecos da grande cidade, longínquos e deformados. Tal como o passado se faz presente nuns Adidas Sputnik vermelhos ou numa imagem de Steve McQueen, num cromo desbotado do Yogi Berra ou na sucessão de nomes inscritos nas Páginas Amarelas. Um dos melhores livros de João Tordo.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

LIVRO: "O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo"



LIVRO: “O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo”,
de Djaimilia Pereira de Almeida
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Outubro de 2023


“Escrevo perseguida. Como se, na esquina, fosse de novo aparecer o velho senhor guineense que me chamou puta no metro, por eu ter um namorado branco. ‘Sua puta, aprendeste com a tua mãe!’ Esse senhor caminha pela minha página, por todas as páginas que escrevo. Estas linhas, quaisquer linhas que escreva, vão em passo rápido, embuçadas, a fugir dele e dos seus berros.”

O final do ano trouxe com ele “O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo”, pequeno-grande livro a merecer a maior atenção. Neste conjunto de três ensaios - através dos quais Djaimilia Pereira de Almeida reflecte sobre o acto de escrever com a consciência de ser escritora e ser negra -, a premissa que serve de título ao livro surge acompanhada de um vasto leque de questões, a primeira das quais se prende com o tempo presente: um tempo que lembra “a cada livro, a cada linha”, que, há poucas décadas, seria impensável este seu modo de vida. Não sendo a única, esta constatação é particularmente significativa, porquanto nos obriga a olhar para a nossa sociedade e para nós próprios, para o racismo estrutural que deforma ideias e valores, e a equacionar aquilo que, eventualmente, nunca equacionámos. O que pensava, ou imaginava, ou via ou sentia uma preta era algo que não interessava a ninguém no tempo dos nossos avós ou mesmo dos nossos pais. O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo connosco? Será este um assunto a merecer a nossa atenção, o nosso tempo?

Três textos, portanto. Três ensaios que se integram e harmonizam, sujeito e complemento uns dos outros. Três formas de pensar a escrita nas dimensões do tempo, do espaço e da pessoa, com uma firme certeza: “Não vivo de escrever, mas escrever é quem sou.” É assim que Djaimilia Pereira de Almeida guia o leitor por intermédio de reflexões de uma universalidade inquestionável. Desde logo a cor da pele, tratada como um segredo pela parte branca da família, “tabu invisível” que apenas com a publicação do seu primeiro livro – “Esse Cabelo”, Ed. Teorema (2015) – deixou de o ser. Também o preconceito que levanta muros entre brancos e negros (“Mas as pretas agora já fazem telenovelas?”). Ou ainda o ser negra e escrever aquilo que se é, sem que isso possa ser visto como uma moda, uma tendência da estação, um objecto de mercado. Questões, dúvidas, reflexões que partem do texto original e procuram desenvolvimento num novo texto intitulado “A minha imaginação não se distingue da minha identidade”, ensaio a duas vozes, na verdade a transcrição do diálogo entre a autora e a poetisa e tradutora brasileira Stephanie Borges.

O derradeiro ensaio intitula-se “A restituição da interioridade” e é o texto da conferência apresentada no ano passado na New York University, onde Djaimilia Pereira de Almeida é professora, aqui numa tradução de Vasco Gato. O assunto é, ainda e sempre, a escrita, mas a visão da autora expande-se do individual para o colectivo. É tempo de falar da supressão da interioridade negra por via da opressão colonial, uma interioridade que, ao contrário dos objectos culturais e peças de arte saqueadas que jazem nos museus do Ocidente, não pode ser devolvida. “A sua restituição é missão nossa”, afirma a autora, desenvolvendo algumas ideias que consubstanciam a sua determinação. O caminho está a ser feito por escritores, artistas, académicos, cineastas, jornalistas, activistas, casos de Zia Soares ou Hirondina Joshua, Pedro Costa ou Isabel Zuaa, Welket Bungué ou Itamar Vieira Junior. As personagens criadas por Djaimilia Pereira de Almeida e que povoam as suas obras estão lá para o confirmar. Através delas, o leitor despe-se de certezas e mergulha no que a interioridade de alguém pode ter de mais específico, naquilo que é “a dignidade categórica de se ser pessoa.”

domingo, 26 de novembro de 2023

LIVRO: "Revolução"



LIVRO: “Revolução”,
de Hugo Gonçalves
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Outubro de 2023


“Os turistas revolucionários achavam Lisboa pitoresca. Para Maria Luísa, a cidade era a pista de um circo indigente. Com o espírito quebrado e a mão estendida durante décadas, os portugueses continuavam a dar pinotes e a precisar de um domador. Que mansidão era aquela? Como podiam esquecer o que lhes tinham feito? Porque seguiam com medo? Como saíam da opressão do fascismo para a escravatura do capitalismo?”

O livro “vai alto” quando, após anos atribulados que marcam de forma indelével a família Storm e a arrastam para uma completa desagregação, um jantar de aniversário serve de pretexto para voltar a juntar à mesa praticamente todos os membros da família. Socorro-me da sinopse para contar que “o epicentro do colapso tem origem muitos anos antes, entre o fim da ditadura e os primeiros tempos da revolução. Maria Luísa, a filha mais velha, opositora clandestina do regime, é perseguida pela PIDE. Frederico, o filho mais novo, está obcecado em perder a virgindade antes de ser mobilizado para a guerra colonial. E Pureza, a filha do meio, vê os seus sonhos de uma perfeita família tradicional despedaçados pelo processo revolucionário em curso.” São os “violentos e excessivos meses do PREC, quando a esperança e o medo dividem os portugueses, separando filhos e pais, colocando irmãos em lados opostos da barricada.”

Nas suas quase quinhentas páginas, “Revolução” mergulha, de forma intensa e vívida, na história de um país ávido de pôr fim aos conflitos no Ultramar e de abraçar os valores da liberdade e da democracia. Um país refém da desconfiança e do medo que o marcaram ao longo de quase meio século de ditadura, dado a um perigoso extremar de posições que o aproximam perigosamente da guerra civil, repleto de figuras totalmente inábeis na condução dos seus destinos. Entretanto, meio século passado sobre a revolução dos cravos, esta revisitação de meses e anos particularmente conturbados tem o mérito de, na forma de um romance, celebrar Abril, olhando-o a uma distância razoável do ponto de vista histórico, mas não o suficiente para que o desconforto não assalte o leitor, ao encontrar em si os ecos de um tempo que está longe de ter sido brando e cavalheiresco como se faz crer, o tempo de uma revolução feita de cravos que cedo murcharam.

Repleto de episódios marcantes - os mais curiosos serão tentados a interromper a leitura por variadíssimas vezes, seja para confirmar a identidade de uma figura que se atravessa no livro, para “assistir” a um comício em Almada do então primeiro-ministro Vasco Gonçalves ou apenas para recordar a banda sonora da série “Bonanza” -, “Revolução” revela a enorme preocupação de Hugo Gonçalves em manter-se fiel à verdade histórica, ao mesmo tempo que mostra a inteligência e sagacidade do autor em fazer reviver, na pele dos elementos de uma mesma família, os momentos mais significativos em torno do “dia inicial inteiro e limpo”. Particularmente credíveis, as personagens de Maria Luísa e de Diogo, cunhados, ambos figuras de proa de partidos extremistas, ela de esquerda, ele de direita, mostram que, ao contrário de militarem em extremos opostos de um espectro político linear e contínuo, de facto acabam por se aproximar e mesmo por ser tocar. Mais do que isso, porém, eles provam o quanto de pernicioso e nefasto subjaz na radicalização de propostas e de tomadas de posição. Uma mensagem para os dias de hoje.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

LIVRO: "Deus Pátria Família"



LIVRO: “Deus Pátria Família”, 
de Hugo Gonçalves
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Maio de 2021


“Pai, mãe e filho. Um juiz, a diretora da revista da Mocidade Portuguesa Feminina, um legionário com posto garantido nas Brigadas da Decência. A família orgulho do regime. E, ainda assim, tão diferente daquela que aparece, a cores, numa página da revista nas mãos de Pereira. Trata-se de um cenário doméstico popularizado pela propaganda. Na ilustração, o pai regressa a casa do trabalho na lavoura, tem uma enxada ao ombro e o chapéu na mão. A mesa está posta, há um crucifixo em cima do móvel. A filha pequena abre os braços ao pai, o filho levanta-se, respeitosamente, para o receber. A mãe, de avental, segura um tacho junto do fogo da lareira. No canto superior esquerdo: A lição de Salazar.”

Imaginativo, engenhoso, divertido, eficaz. É desta forma que adjectivo “Deus Pátria Família”, grata surpresa no final de um ano particularmente pródigo em leituras. Fundando o título deste seu mais recente romance na “trilogia da educação nacional” ao tempo do Estado Novo, Hugo Gonçalves oferece-nos uma narrativa cujo alcance ultrapassa em muito a “lição de Salazar”. O sentido literal do título impõe-se ao longo das quatrocentas e cinquenta páginas deste livro, escrutinando o sentido de cada um dos nomes em momentos particularmente sensíveis da nossa história recente. Mascarada de romance policial, a acção encontra a intolerância e o preconceito nos dogmas religiosos e nos choques culturais; envolve no fanatismo o apego a um lugar e a uma bandeira contrapondo-lhes as crises de refugiados e migrantes; e, exalta as relações familiares, defendendo os seus valores como o grande suporte moral de uma sociedade convulsa, mergulhada numa guerra que não acaba nunca. Um livro actual, portanto.

As primeiras páginas de “Deus Pátria Família” transportam o leitor à Lisboa de início dos anos 40 do século passado, uma cidade que se vai enchendo de refugiados judeus e que vê, embasbacada, mulheres loiríssimas, pernas nuas e saias pelo joelho, instaladas na esplanada da Pastelaria Suiça a fumar o seu cigarro. Da simpatia inicial à desconfiança generalizada, porém, irá um pequeno passo. O mal-estar face às posições dos tradicionais aliados britânicos é cada vez maior. Salazar exibe uma postura calculista perante os desenvolvimentos bélicos que afundam a Europa no caos. Os esbirros da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, precursora da PIDE, e os bufos da Legião Portuguesa, estão mais activos que nunca. Enquanto isso, uma série de crimes de contornos místicos, ocorridos sempre ao dia 13 e vitimando jovens mulheres, esperam por uma solução. De súbito, porém, o ano já é o de 1920 e a cidade é Nova Iorque, embora os protagonistas da história possam ser os mesmos. Tal como podem ser os mesmos os seus deuses e demónios, a noção de pátria ou a sua ausência, o apego à família ou o seu afastamento.

Depois de “Filho da Mãe”, Hugo Gonçalves volta a mostrar as suas enormes qualidades de escrita, sobretudo pela habilidade em misturar géneros, avançar e recuar no tempo e emaranhar umas nas outras as várias histórias que compõem este romance, sem nunca perder o pé. É de uma enorme inteligência a forma como, a seu bel prazer, se permite subverter os acontecimentos, mantendo uns e alterando outros, por vezes de forma drástica face àquilo que foi o curso da História. Piscando o olho ao leitor, convida-o a passear-se no campo das suposições e a remexer nas suas memórias, equilibrado nessa imprecisa linha que separa o real do ficcionado. Convite aceite, a narrativa interrompe-se para dar lugar à pesquisa, do projecto Bravo à figura de Rolão Preto, do “Julgamento do Macaco” ao refrão original de “A Portuguesa”. O livro chega ao fim e, com ele, a sensação de que poderíamos ficar eternamente em volta deste “tabuleiro” tão engenhosamente montado, a brincar o “jogo dos ses”. Sentado connosco à mesa, as peças ainda a mexer, Hugo Gonçalves fita-nos com o seu largo sorriso.

sábado, 16 de outubro de 2021

LIVRO: "Seja o Que For"



LIVRO: “Seja O Que For”,
de Miguel Araújo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Agosto de 2020

“O No Name era um café normalíssimo. A trupe ficava por ali, de pé, a beber cerveja e a falar. Não tínhamos idade para descer as escadas para a Indústria. Nem interesse. Havia um televisor ao dependuro num canto, nisso o No Name era como todos os cafés. Alternative Nation, Headbanger’s Ball, MTV live, 120 Minutes, Beavis and Butthead. O Kurt Cobain aos gritos com aquele anjo enorme atrás, a loira queixuda do Headbanger’s Ball com cachos loiros e madeixas pretas, que dizia “Thhhrash”, a entrevistar o pessoal dos Alice in Chains, o Beavis e o Butthead a grasnarem o riff do Smoke on the Water. O Van Stralen numa mesa a fazer corridas de cigarros e de canecas de litro ao perde-paga. O Guerra a vomitar chili com carne depois de uma investida gloriosa”.

As crónicas quinzenais que Miguel Araújo vem mantendo desde 2017 na Revista Visão - a última, datada do passado dia 9, fala-nos da vida secreta dos objectos e é de leitura obrigatória -, voltam uma vez mais em forma de livro, depois de devidamente escrutinadas. Foi assim com “Penas de Pato - Ver a Vida a Passar da Varanda” [cuja crítica pode ser lida AQUI], volta a ser assim com “Seja O Que For”, segunda incursão do autor na prosa, o se lado optimista e de bem com a vida a sorrir-nos de novo. São quarenta e seis capítulos, quarenta e seis histórias do quotidiano que nos mergulham em “dias pequenos”, o acordar sempre à mesma hora, os pequenos-almoços, as idas para as escolas, a corrida, o chuveiro, o estúdio, os almoços, o estúdio, as idas à escola, os trabalhos de casa, os jantares, a cama (que amanhã é outro dia). Um ciclo diário, sempre igual - “lavar, sujar, voltar a lavar, pôr, repor, usar, deitar fora” -, uma rotina à qual Miguel Araújo dedica o melhor dos seus esforços e da qual extrai uma boa parte do melhor que a vida tem.

“Seja O Que For” poderia ser um livro de auto-ajuda? Obviamente que não. Não tem aquelas capas fatelas de tão coloridas, não nos atira à cara as palavras “poder”, “milagre”, “coragem” ou “f*da-se”, não tem aquelas citações em letra mais pequenina do Deepak Chopra ou as vinhetas a anunciar a milésima edição e os 50 milhões de exemplares vendidos. Mas é inspirador ao ponto de nos dizer que podemos sempre contar com a pequenez das nossas rotinas para que novas e boas ideias surjam e cresçam. Este livro é a prova disso mesmo. Distribuir pratos e talheres pela máquina de lavar, observar um gato morto nas ruas da Cantareira, escutar dois pares de americanos num restaurante da praia da Cordoama ou perceber o quanto uma casa-casa pode ranger e estalar, são nadas deste mundo que, paradoxalmente, nos mostram o quão rica e variada é a vida que nos cerca. Uma vida cuja única mossa que nos faz é não nos fazer mossa, assim nós queiramos e saibamos.

Neste revoltear dos tais “dias pequenos”, vistos também como “dias de missão”, há pormenores que fazem a diferença e ajudam a que as coisas não descambem. Desde logo esse cuidado com a saúde, própria e a de todos lá em casa, que é não ver noticiários. Depois, desligar a função de toque no telemóvel, o ónus da resposta imediata jogado para trás das costas. Ou ainda pender para pessoas que pendem para o mar, que não tocam em delícias ou salsichas, se demoram muito tempo no chuveiro, nunca ligam o ar condicionado do carro ou que, podendo, não falam. É aí que se encontram os “pouquíssimos, caríssimos, verdadeiros amigos”. É com eles que recordamos esse tão leal, nobre e invicto Centro Comercial Dallas mais a sua menos bem frequentada Ala Norte, nos emocionamos com um embrulho gigante em forma de bacalhau numa noite de consoada, trememos de aflição ao recordar o convívio de Carnaval da paróquia de Cristo-Rei com precisos 13 anos e meio de idade ou falamos do Gomes dos Recursos Humanos. E depois cantamos, na mão uma Super Bock, que mesmo que se acabe o stock a vida é boa (a vida é tão boa, a vida é mesmo boa) de se levar.

domingo, 26 de setembro de 2021

LIVRO: "Felicidade"



LIVRO: “Felicidade”,
de João Tordo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Outubro de 2020


“Quando saímos do Condes, Esperança fez o caminho até casa muito calada, a carteira ao colo, os olhos postos na janela do carro. Enquanto eu estacionava o Opel, ela perguntou: Acreditas em fantasmas? Puxei o travão de mão; reparei nas pernas nuas da minha mulher a emergirem da saia de xadrez. Apeteceu-me tocá-las; apeteceu-me levá-la para Monsanto, mas havia alguns anos que não o fazíamos. Claro que não, acabei por responder, os fantasmas não existem.”

Mesmo correndo o risco de me repetir, João Tordo e a sua escrita ocupam um lugar muito especial nas minhas preferências de leitura. A fórmula infalível de entremear o certo com o incerto, o palpável com o etéreo, convidando o leitor a seguir até ao fim os caminhos da dúvida com as certezas possíveis, são nele uma marca distintiva muito forte e que faz com que cada um dos seus livros seja uma viagem de busca e descoberta, de prazer sempre renovado. “Felicidade”, romance que conta praticamente um ano desde que foi publicado, é disso um dos mais acabados exemplos. Nele se condensam, em doses generosas e perfeitamente equilibradas, aquilo que admitimos como sendo real e o seu ficcionado contraponto, o que é consubstanciável e o que pertence ao domínio do oculto, as geografias precisas (e reconhecíveis) e os lugares sem nome que a mente constrói e alimenta. Nele estão, num processo de continuidade com os seus anteriores livros, a existência enquanto passagem sem propósitos claros, o prazer e o sexo como meios dos quais nem sempre se percebem os fins e o medo e a morte como verdadeiros motores do acto de existir.

Nesta história de um rapaz que, aos dezassete anos, vê a sua vida ligar-se irrevogavelmente à de três irmãs gémeas, “bonitas, seguras, determinadas, fonte de desejos e fantasias inalcançáveis”, aquilo que verdadeiramente conta é o imponderável, o destino e as suas partidas, o riso descarado de um deus manipulador que puxa os cordelinhos a seu bel-prazer para nos ver “às aranhas” numa vida a descambar para a morte. João Tordo fala-nos daquilo que tanto gosta de falar, das encruzilhadas que se abrem à existência de cada um, de um certo livre-arbítrio que na sua origem tem muito pouco a ver com a razão e tudo a ver com o “pathos”, a sua ferida mais primordial. Daí que não seja difícil para o leitor colar-se à personagem deste rapaz, identificar-se com ela, viver a sua aventura naquilo que tem de bom, mas também no que de funesto e desditoso vem a afligi-lo, intuindo que nesta coisa de sortes e azares cada um terá guardado o seu próprio bocado.

Nascida de um sonho que o autor teve na sua adolescência tardia, “Felicidade” é mais um exemplo de ficção com traços autobiográficos, a componente imaginária fortemente esotérica ou não fosse este sonho a história de um jovem casal em que a mulher morre em pleno acto sexual. Este é o gatilho para uma série de peripécias que acabam por condicionar toda a existência do parceiro sobrevivente, mergulhando-o numa espiral auto-destrutiva, o seu mundo a ruir aos bocadinhos, as forças para torcer a desdita a deixarem-no para trás e a fitarem-no do outro lado da rua. Mestre na arte da escrita, João Tordo leva ao extremo a condição deste homem, fazendo-o derrapar em ambientes manhosos, a roçar o absurdo e o non sense. No limite, o autor deixa cair a máscara, revelando um lado omnipotente e omnisciente que o torna no deus de que falava há pouco. Repleto de tiradas hilariantes, misturadas com outras bem negras, “Felicidade” oferece momentos de deliciosa leitura, sem, contudo, deixar de nos convidar a reflectir naquilo que somos.

sábado, 10 de julho de 2021

LIVRO: "Penas de Pato - Ver a Vida a Passar da Varanda"



LIVRO: “Penas de Pato - Ver a Vida a Passar da Varanda”,
de Miguel Araújo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Setembro de 2018


“Nós sabemos mais da História americana do que da nossa porque a nossa imaginação pode facilmente recorrer-se dos filmes de caubóis que a nossa televisão tanto passou nas nossas infâncias. Esse imaginário está-nos amplamente disponível. Pelo menos eu, quando era puto, brincava aos caubóis e nunca me lembro de alguma vez me ter ocorrido brincar aos campinos ou aos Descobrimentos ou aos legionários do D. Afonso Henriques. E essa, para mim, é que é a verdadeira questão portuguesa.”


Quem acompanha a carreira artística de Miguel Araújo e já assistiu a alguns dos seus concertos, sabe o quanto o cantor gosta de “entremear” as suas canções com histórias breves que, para além de contextualizarem cada uma das músicas, fornecem pistas sobre os passos de uma vida e os rumos para os quais ela vai sendo levada, as mais das vezes de forma perfeitamente casual. “Penas de Pato – Ver a Vida a Passar da Varanda”, a sua primeira incursão na prosa, poderia muito bem ser um apanhado destas histórias contadas em palco e transpostas para livro, plenas de espontaneidade e de verdade, por um Miguel Araújo descomplexado, sem peneiras e sem filtros. Embrenhado nas páginas do livro, o leitor não raras vezes tem a sensação de estar frente a frente com o autor, escutando-o com a maior das atenções, percebendo-lhe o entusiasmo até nas coisas mais simples, a firmeza nas suas convicções, a certeza de que a vida é maravilhosa quando a sabemos viver.

As crónicas quinzenais que Miguel Araújo vem mantendo desde 2017 na Revista Visão constituem a base deste livro. Como o próprio afirma na nota introdutória, são fruto de uma escrita “mais transparente, como coisa acabada, capaz de se bastar a si própria”, em contraponto a esse “processo moroso, difícil, necessariamente forçado” que é o de encontrar as palavras certas que uma melodia reclama. Em jeito de síntese, Miguel Araújo abre-se numa confissão: “Chego a pensar que um pedaço de texto que se resolve em cinco minutos terá eventualmente mais de mim do que a letra duma canção que me demora cinco meses.” Facilmente perceberemos que a questão dos “cinco minutos” é uma força de expressão, da mesma forma que nos damos conta do gozo que se derrama de cada história, a escrita como um exercício de liberdade que, mais do que enriquecer e preencher quem a vive e sente, reclama ser partilhada.

Quem for à procura de encontrar nas páginas deste livro traços da personalidade do autor e perceber a força do seu carácter não sairá defraudado. São inúmeras as revelações em nome próprio que mostram um Miguel Araújo muito diferente na vida real em relação à ideia que temos daquilo que é a “vida de artista”. Para além dos episódios desconcertantes que ajudam a defini-lo, metaforicamente, como alguém que “não sabe onde ficam os atalhos para fugir ao trânsito”, o livro é bem a prova de estarmos perante um observador atento e interessado pelo que se passa à sua volta, seja ele o pessoal a opinar em massa e a desatar à bordoada no Facebook, os nomes dos cafés onde se identificam gerações muito concretas, uma placa na auto-estrada que indica Lourizela ou a forma como o futebol é jogado, “de uma maneira desonrada, feia, pouco cavalheiresca”. O resto são memórias e, também, alguns pedacinhos de ficção (agora que penso bem, talvez não sejam apenas “alguns”, e sejam algo mais que “pedacinhos”).

quinta-feira, 5 de março de 2020

LIVRO: "A Noite em que o Verão Acabou"



LIVRO: “A Noite em que o Verão Acabou”, 
de João Tordo 
Edição | Clara Capitão 
Ed. Companhia das Letras, Novembro de 2019


“Jerome David recebeu-me em roupão e chinelos. Sentámo-nos no alpendre da casa e ele disse-me que tinha lido o meu primeiro romance. Imediatamente intuíra quem eu era. Não fez qualquer apreciação ao livro, limitou-se a dizer que conhecia a razão pela qual eu escrevia e que sabia que eu atravessaria o deserto que ele atravessara havia décadas. Foi ele que me ensinou que a literatura não é o princípio, mas o fim; aquilo que só se alcança quando já estamos praticamente mortos, e as palavras são a única coisa que ainda nos liga à vida, o fio invisível que nos mantém à superfície.”

Admirador confesso de João Tordo e habituado a enfrentar a sua escrita ao longo de quinhentas ou mais páginas, foi com entusiasmo que me atirei a este seu último trabalho e me deixei enredar na densa malha de acontecimentos que terão, como fim último, descobrir quem matou Noah Walsh. Com base numa confissão voluntária, o tribunal dá como provado que as seis facadas que desfiguraram e tiraram a vida ao milionário foram desferidas pela sua filha Levi, uma adolescente de 16 anos, mas talvez as coisas não sejam tão lineares assim. É isso que Laura, a irmã de Levi, e Pedro Taborda, amigo da família Walsh e aspirante a escritor, irão desvendar, mergulhando irremediavelmente num mar de segredos que envolve a pequena comunidade de Chatlam.

Sem pretender interferir com a leitura que cada um fará de “A Noite em que o Verão Acabou”, importa dizer que este é um daqueles livros que mantêm o leitor em suspenso até à última página. João Tordo evidencia-se uma vez mais pela qualidade da sua escrita, doseando com conta, peso e medida os ingredientes do thriller, a acção sem deslizes, omissões ou contradições, a intensidade e emoção em crescendo até ao desfecho final. Marcando os diálogos pela naturalidade da linguagem e pelos apontamentos bem humorados, fazendo deslocar a acção por geografias precisas e detalhando com rigor pessoas e lugares – da perfeição das formas do corpo de uma adolescente, às sombras de um esconso quarto de hotel ou a uma invasão de borboletas monarcas –, o livro adquire um tom marcadamente cinematográfico, uma pitada de “O Silêncio dos Inocentes” entre a ética de Alfred Hitchcock e a estética de David Lynch. 

Apesar deste livro ser apresentado como o primeiro thriller de João Tordo, nada do que aqui surge é propriamente novo. Quem leu “Hotel Memória”, o seu segundo livro, saberá muito bem do que falo e, sobretudo, o próprio autor, que não dispensa em “alojar-se” no Memory Hotel na sua passagem por Nova Iorque. De facto, para além de toda uma trama judiciosamente orquestrada e com propósitos bem definidos, “A Noite em que o Verão Acabou” oferece-nos também deliciosos apontamentos sobre o processo de escrita e sobre “a nossa necessidade de mentir”, afinal “o lugar de onde nascem todas as histórias”. Chega a ser comovente a forma como o escritor se despe de preconceitos e, assumindo o egoísmo, a monomania e a sofreguidão de aplauso face aos méritos que acha que deve merecer mais do que ninguém, acaba por confessar que “o sucesso é o pior de todos os males”. Fá-lo através de um escritor mais velho, uma espécie de mentor, abrindo novos caminhos à leitura do livro, tornando-o mais denso e profundo, ainda. Mais fascinante!

sábado, 28 de dezembro de 2019

LIVRO: "Filho da Mãe"



LIVRO: “Filho da Mãe”,
de Hugo Gonçalves
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Maio de 2019


“No testamento não há heranças ou revelações. Mas, como suspeitava, esse tornou-se o pretexto para iniciar a viagem. (…) Tinha de perseguir tudo o que me pudesse desprender do puxão gravitacional que era a ausência da minha mãe – não apenas a doença, a morte ou o luto, mas a minha mãe inteira, apagada de uma só vez.”

No ensejo de recuperar as memórias da mãe falecida há três décadas e, através delas, perceber as errâncias da vida e o adulto em que se tornou, é ao interior do “eu” a viagem que Hugo Gonçalves empreende neste seu “Filho da Mãe”. Revisitando lugares, refazendo trajectos, reconstruindo momentos e recuperando, nas recordações dos outros, as suas próprias recordações, o autor oferece-nos um relato íntimo e sentido dum tempo que, sendo de inquietação e dúvida, é, ao mesmo tempo, de apaziguamento e aceitação. Um tempo no qual testemunhos da mãe como “o casaco de peles, os desenhos do hospital ou as cassetes” são dados como irremediavelmente perdidos, cedendo lugar à memória, a “essa coisa humana – essa coisa assombrosa – de podermos amar aquilo que a morte tocou.”

Pelo seu carácter profundamente autobiográfico, pelo assunto delicado que aborda e pela forma despojada como se apresenta, “Filho da Mãe” coloca-se a si mesmo o enorme desafio de se oferecer ao leitor numa história pungente e emocionalmente dolorosa, sem que este sinta o desconforto da intromissão ou o embaraço do despudor. A voz correcta do autor, porém, apresta-se a dissipar quaisquer dúvidas nesta matéria, rejeitando a facilidade e o exibicionismo desde as primeiras linhas e mostrando o livro naquilo que ele verdadeiramente é: Um exercício de gratidão e um acto de amor.

Ao percorrer a genealogia da família, agitando o lodo da memória na tentativa de perceber o que vem ao de cima, Hugo Gonçalves não se limita a abrigar a história de um menino de oito anos que perdeu a mãe, lançando igualmente um olhar sobre as pessoas que o rodearam e por tudo o que passaram, provando que a dor é de todos e de cada um. Ao expor-se e, ao mesmo tempo, expor alguém removido do evento mais definidor da sua vida, adivinham-se as interrogações e angústias do autor, mas percebe-se a intenção, catártica e redentora, de não deixar nada por dizer. Longe de ser um ajuste de contas com a vida, “Filho da Mãe” é sobretudo um reencontro, de Hugo Gonçalves com os outros e consigo mesmo. Que disso quisesse deixar testemunho em forma de livro é algo pelo qual devemos estar gratos. Assim derramada, sobre a obscuridade do luto, a luz deste livro é um acto de coragem, uma celebração do amor e um hino à vida.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

LIVRO: "Princípio de Karenina"



LIVRO: “Princípio de Karenina”,
de Afonso Cruz
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Novembro de 2018


“Eu seria muito infeliz num mundo feliz. Ela seria feliz em qualquer mundo.”

Cada frase, cada linha, cada palavra é boa, quando um livro é bom. É por isso que não se pode desperdiçar absolutamente nada da leitura deste “Princípio de Karenina”. A começar, desde logo, pela dedicatória “ao meu pai” e por essa espécie de prólogo onde um pai, numa situação desesperada, se dirige à filha, disposto a contar-lhe a sua história, a história de ambos, sem quaisquer garantias de que ela chegará ao seu destinatário. Entre a dúvida e a dor, “Princípio de Karenina” está lançado. É elevado o patamar emocional alcançado pelas breves frases iniciais, como são enormes as expectativas criadas no leitor e que não sairão goradas no final das quase duzentas páginas que compõem o livro. É que Afonso Cruz é exímio em contar uma história que nos fala de amor incondicional, da entrega e da dádiva que nele reside e de como faz de nós melhores pessoas.

Ao encontro de uma criança marcada pela deformidade, de um pai fóbico e castrador, de uma mãe remetida a um espaço secundário e de todo um conjunto de personagens únicas nas suas peculiaridades, Afonso Cruz pega no leitor pela mão e mostra-lhe como é precária a argamassa que o suporta, de mitos e medos feita, as fronteiras que lhe são impostas a condicioná-lo vida fora, como um ferrete que fere e tolhe. Não há descoberta sem transgressão, não há vitória sem audácia, não há redenção sem medo, não há perfeição sem liberdade plena. Chama-se “Princípio de Karenina”, mas poderia chamar-se “a insustentável leveza do ser”, tão forte e premente é a necessidade de rasgar fronteiras físicas e morais, e fazê-lo sem sucumbir. Sobretudo, quando julgamos saber que é no tapete à porta de casa que começa o estrangeiro, a barbárie, o mal.

Até que ponto estamos dispostos a partir em busca da felicidade, mesmo que para tal tenhamos de abandonar a nossa zona de conforto, é uma interrogação que acompanha toda a narrativa. Como o protagonista desta história, também o leitor é convidado a questionar a sua postura perante o mundo, a sua educação e valores, o quão felizes foram as suas opções, o quanto terá perdido por não querer (ou não saber) arriscar. Entre a rotina e a novidade, o desgosto e o deleite, a subordinação e a liberdade, “Princípio de Karenina” abre-se numa viagem que é também um desafio aos sentidos, ora leve como o voo de uma borboleta ou o perfume de uma pele, ora amargo como o sabor de longas esperas ou de corpos em suspenso. Uma viagem que nos desperta para a vida e nos convida a ir o mais longe que pudermos. Ainda que o mais longe seja a Cochinchina!

sábado, 22 de junho de 2019

LIVRO: "A Mulher Que Correu Atrás Do Vento"



LIVRO: “A Mulher Que Correu Atrás Do Vento”,
de João Tordo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Março de 2019


“Porque haveria um escritor português de se interessar por uma compositora alemã que é praticamente desconhecida?
Porque é isso que os escritores fazem, respondeu Eduardo, interessam-se pelas coisas que não interessam a mais ninguém.”

Não sei se deva invocar o “alinhamento dos astros” ou uma “química especial”, a verdade é que há na escrita de João Tordo algo que me atrai e me faz ficar agarrado aos seus livros desde o primeiro instante. É uma arte, reconheço, feita de cabeça e coração em partes iguais e que neste “A Mulher Que Correu Atrás Do Vento” se traduz na subtileza com que nos introduz no universo das personagens de Beatriz, Lisbeth, Graça e Lia, nessa forma de nos dar a ver estas mulheres pelo seu lado mais fascinante. Mas não era assim também nos anteriores “Ensina-Me A Voar Sobre Os Telhados”, “Crónica dos Amantes Involuntários” ou “Hotel Memória”, para citar apenas alguns?

Eis-me, pois, preso ao livro desde a primeira página e a mergulhar num objecto que é, mais do que uma história (ou várias histórias) muito bem contada, uma irónica reflexão sobre o acto da escrita e as infindáveis possibilidades que se abrem ao escritor no exercício da sua arte. “A Mulher Que Correu Atrás Do Vento” é, se o quisermos ver desta forma, um “manual da manipulação” ou “de como levar o leitor pela trela” ao longo de mais de quatrocentas e cinquenta páginas, dando-lhe apenas a “rédea” necessária para que não se espalhe (e, com ele, o livro). E assim, a par das quatro mulheres já referidas, vamos encontrar também um escritor, personagem que João Tordo recupera de um dos seus livros anteriores, um tipo que personifica o próprio autor, criatura e criador unidos para nos virem dizer que a vida é um livro, ou o livro dentro de um livro.

Dividida em múltiplas perspectivas, escrita em vários tons, repleta de vozes diferentes e, por vezes, contraditórias, “A Mulher Que Correu Atrás Do Vento” serve para João Tordo baralhar as cartas da realidade e da ficção e nos vir dizer, em tom professoral, “que esta narrativa – como todas as narrativas – não trata do que é, mas do que poderia ter sido; não do que foi, mas do que poderia ser”. O cinismo com que o escritor (o criador) se revela acima do comum dos mortais, o seu lado irritantemente narcisista que não se coíbe de exibir, passeiam-se aqui de mãos dadas com os reflexos de vidas perdidas, enjauladas em si mesmas, afastadas de tudo e de todos e para quem, na morte, reside a única salvação. Citando James Joyce – de quem este livro está impregnado -, recordarei: “Life is too short to read a bad book.” Com João Tordo não se corre nunca este risco!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

LIVRO: "Luanda, Lisboa, Paraíso"



“Luanda, Lisboa, Paraíso”,
de Djaimilia Pereira de Almeida
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Outubro 2018


Impõe-se começar esta recensão crítica a “Luanda, Lisboa, Paraíso”, dizendo que a sua leitura é de tal forma absorvente e dela se retira tanto prazer que o livro entra directamente para a restrita galeria dos livros da minha vida. Desde logo, pela ternura duma história que trata, com enorme pudor e delicadeza, a vida simples de pessoas simples. Depois, pela prosa visualmente rica, intensa e muito bela, realçando as emoções que se desprendem de cada gesto, de cada frase. E finalmente pela generosidade e sensibilidade do olhar de Djaimilia Pereira de Almeida, compondo personagens duma enorme riqueza interior, contrastando ironicamente com a miséria extrema em que vivem.

O livro conta a história de Cartola e do seu filho, Aquiles, nascido com uma malformação no calcanhar. Confiados na ajuda de um ortopedista, ambos deixam Luanda assim que o rapaz atinge os quinze anos, tendo Lisboa como a “terra prometida”, onde Aquiles encontrará certamente a cura. As coisas, contudo, não irão correr conforme esperado, e a cidade branca é também aquela onde Cartola e Aquiles irão descobrir-se pai e filho na desventura. Até que num vale emoldurado por um pinhal, nas margens da cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, encontram abrigo e fazem um amigo.

Parábola intemporal duma sociedade polarizada entre “feios, porcos e maus” e “lindos, limpos e bonzinhos”, este é um livro que, de forma poética, evoca o quanto de conformismo e de fatalismo pode haver na condição do ser pobre. Num país com dois milhões de pobres a convocarem a nossa vergonha colectiva, “Luanda, Lisboa, Paraíso” revela-nos de que matéria são feitos os sonhos dos que tão pouco têm, ao mesmo tempo que pesa a coragem que é necessária para levantar tudo em volta uma e outra vez e nos diz, de forma palpável, o quão relativo o tempo se faz, na felicidade ou na dor. Hino à amizade, vibrante e comovente, o livro é sobretudo uma admirável evocação daquilo que, distinguindo-nos, nos torna mais próximos e solidários.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

LIVRO: "A Nossa Alegria Chegou"



LIVRO: “A Nossa Alegria Chegou”,
de Alexandra Lucas Coelho
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Setembro de 2018


Até chegarem a Alendabar, a mulher e o rapaz tiveram de atravessar muitos fusos horários. Vencida a última etapa do seu roteiro, um trilho de terra batida em muito mau estado - “os buracos cheios de chuva, espelhos do céu” -, estacionaram o carocha à sombra de uma árvore. Têm à sua frente uma baía majestosa de águas transparentes, pequenas ilhas debruadas por corais, árvores exuberantes que dão frutos carnudos e doces e uma praia imensa, bordejada por uma densa cortina de árvores em flor. Num extremo da praia, a falésia negra, encostada a um vulcão. No outro, a foz de um rio incandescente. O dia rompe quando pisam a areia. Trazem com eles uma missão. Desconhecem que, não muito longe dali, naquela mesma praia, três jovens celebram um pacto, decididos, também eles, a cumprir uma missão. É dia do equinócio de Primavera e as doze horas que se seguem irão ter um profundo impacto na vida de todos.

A calma e a harmonia com que Alexandra Lucas Coelho nos saúda logo no início deste seu romance, vão dar lugar, muito rapidamente, à dor e à raiva. Foram colocadas ali para acentuarem a lenta agonia de uma natureza envenenada pelo plástico, acusarem a calamidade que são as grandes explorações de gado que ganham terreno de pastagem à custa da floresta, denunciarem o poder de uns poucos que oprimem, tiranizam e maltratam mil vezes os muitos a eles subjugados. Do respeito pelos valores ancestrais e pelos princípios de vida em comunhão com a natureza, passamos rapidamente para a ditadura dos mercados, para os números distorcidos a imporem a sua lei, para o lucro a qualquer preço, para a soberba e a opulência dos ricos, contrastando com a miséria e a falta de meios dos pobres. Lembrando que os recursos do planeta não são inesgotáveis, a autora aponta o dedo aos tiranos e aos corruptos, responsáveis pela ineficiência das políticas ambientais e pela falta de sustentabilidade de uma Terra a saque.

Com uma escrita construída na base da simplicidade e da poesia – as histórias de “Orlando e o Rinoceronte”, o anterior livro da escritora, a bailarem na minha cabeça o tempo todo -, “A Nossa Alegria Chegou” oferece-nos uma visão do mundo extremamente complexa e actual. É um livro com uma carga ideológica e política fortíssimas, um libelo contra a arbitrariedade, a repressão e o abuso, um grito de alerta para um planeta em rápida asfixia. É, ao mesmo tempo, um convite à contemplação e ao deleite do que de bom ainda nos resta e um incitamento à luta pela rápida inversão dos acontecimentos, preservando o que de bom nos resta e devolvendo a saúde a um planeta moribundo. No seu jeito adorável de contar uma história, Alexandra Lucas Coelho diz-nos que tal ainda é possível. Está nas nossas mãos fazê-lo!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

LIVRO: "Ensina-me a voar sobre os telhados"



LIVRO: “Ensina-me a voar sobre os telhados”,
de João Tordo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Março de 2017


Lembro-me de ser criança e de ter um sonho recorrente no qual era capaz de voar. Tomado de tal leveza, o meu corpo elevava-se no sono, atravessava a placa da casa e o telhado e, erguendo-se a grande altura, permitia-me ver, com uma nitidez única, os campos onde brincava com os meus amigos, o coradouro onde jogávamos à bola, os pardais que voavam em bando por baixo de mim, o rio com os seus peixes que apanhávamos à mão no auge das férias grandes. E eu sorria, sorria sempre. Não posso mais esquecer a felicidade que sentia quando “levitava”. Ainda que em sonhos, estava ali a materialização desse secreto desejo de voar que anima o homem desde que se lembra de ser homem. O tempo foi passando, os sonos tornaram-se mais leves e curtos, os sonhos esparsos, quase raros. Nunca mais “levitei”. Só agora voltei a fazê-lo, graças à leitura de “Ensina-me a voar sobre os telhados”.

De João Tordo recordo, para além dos livros que lera anteriormente – “O Paraíso segundo Lars D.” e “Biografia Involuntária dos Amantes” –, uma conversa pela noite fora no Museu de Ovar, em Dezembro de 2017, na qual o escritor disse esta coisa espantosa: “Escrever é deixar que todas as vozes que temos dentro de nós venham ao de cima e falem”. Procurando concretizar a ideia, falou das vozes que, surgidas do nada, ia anotando em pedacinhos de papel e que, “na hora da verdade”, reunia e escutava. É assim que gosto de imaginá-lo, à secretária, a escrever este livro, o tampo da mesa a transbordar de papelinhos de diferentes tamanhos, alguns de cores que não o branco. É nesses, mais chamativos, que julgo encontrar uma espécie de lembrete com “diálogos de Ménon, de Platão”, ainda “o dilema não é não sabermos, é não saber que sabemos”, ou mesmo “a vida humana não é marcada pela ignorância, mas pelo esquecimento”.

Nas breves citações do final do parágrafo anterior encontrei eu um fio condutor desta história que percorre a vida duma família ao longo de três gerações, à medida que nos vamos dando conta de um terrível segredo. Trata-se dum fio muito ténue, talvez de seda, difícil de perceber, mais difícil ainda de alcançar, mas que anda por ali para nos lembrar que não devemos desistir de acreditar no impossível. Estou certo que outros leitores farão do livro outras leituras, escutarão outras vozes, chorarão outros choros e rirão outros risos. Mas todos encontrarão no livro espaço para que as vozes que existem em cada um venham ao de cima e falem também.

“Observo o meu rosto no vidro, inundado pela luz, e descubro que estou a sorrir”. É a última frase do livro de João Tordo, mas nenhuma outra poderia traduzir melhor o estado de felicidade em que me encontro, tornada que foi a derradeira página de “Ensina-me a voar sobre os telhados”. Foram dias de prazer e devaneio, de sonho e de reflexão, sobretudo duma profunda emoção perante prosa tão límpida e leve, tão rica de imagens e de emoções, tão bem articulada nos tempos distintos em que se desenvolve, ritmada como um poema, intensa como o aroma da terra molhada após uma tempestade de Verão. Agora que chego ao fim, é realmente com um sorriso que aperto o livro entre as mãos para o depositar em seguida na estante, deixando-o a descansar num lugar do lado esquerdo, do lado do coração.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

LIVRO: "Viagem ao Sonho Americano"



LIVRO: “Viagem ao Sonho Americano”,
de Isabel Lucas
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Junho de 2017


Há um motorista de autocarro português no trajecto entre Providence e New Bedford e uma enfermeira de New Jersey chamada Ana, neta de dominicanos. Há um cantor islâmico chamado Salaad e uma mulher no metro que grita, metade em espanhol metade em inglês, que na cama dela só se deita quem ela quiser. Há um Marco Tulio que se apresenta como brasileiro e serve há dois anos o exército norte-americano numa base no Alasca. Há um cão que dá pelo nome de Emmett Kelly. Há um céu às cores e na montanha, ao longe, a palavra Hollywood. Há duas mulheres numa banca de peixe que discutem política e há crianças alimentando mendigos, como quem alimenta pombos, junto à estação de comboios de Washington D.C.. Há Neil Young e o massacre de Kent. Há Hillary e Trump e Cruz e Sanders. Há uma mulher que atravessa a rua de trotineta e tailleur. Há essa pergunta, mil vezes repetida: “How do you do your laundry?” E há, naturalmente, o sonho americano!

“Viagem ao Sonho Americano”, o livro, começa em finais de Fevereiro de 2016, com Isabel Lucas a encetar um périplo pelos Estados Unidos da América. Ao longo de um ano e de 97 mil quilómetros percorridos, vai tomando o pulso a uma Nação que deixa para trás Obama e o seu legado e tem agora em Donald Trump o novo inquilino da Casa Branca. Levado na viagem e no sonho, o leitor vai tomando, também ele, o pulso a uma América que, afinal, parece conhecer de cor, de tal forma lhe soam familiares os nomes, os lugares, até as situações, por mais bizarras que possam ser. É, afinal, o “sonho” inculcado nos próprios sonhos, de tanto o ver retratado em filmes como “E Tudo o Vento Levou”, “Peço a Palavra”, “Do Céu Caiu uma Estrela”, “À Beira do Abismo”, “O Mundo a Seus Pés” ou, mais recentemente, “Era Uma Vez na América”, “Fargo” ou “Pulp Fiction”.

Isabel Lucas podia ter feito do cinema o ponto de partida para esta viagem. Ou da música, da arte, dos ideais de liberdade, até. Optou, no entanto, pela literatura, porque é lá que está tudo. “Daí esta viagem ser a partir de livros que levam a outros livros, porque não existem bons livros nem bons homens sem contágio”, diz ela. E fez bem, digo eu, apesar de me debater agora entre a vontade de reler Herman Melville, Virginia Woolf, F. Scott Fitzgerald ou John Steinbeck e a intenção de descobrir Donald Ray Pollock, Cormac McCarthy, Toni Morrison ou Edwige Danticat, entre vários outros. Do livro fica tanta coisa... Fica, desde logo, não uma América, nem duas, nem três, mas tantas quantos são os Americanos. Fica uma América dividida, tomada pela estranheza, marcada pela violência. Uma América vasta, das grandes extensões geladas do Alasca ao Oeste selvagem ou ao skyline de Manhattan. Fica uma América que se questiona, se desconstrói e se reinventa no sonho e que, através dele, pula e avança. E fica esse som que obriga a fechar os olhos e a escutar com atenção. Um som que vai enfraquecendo mas teima em não se apagar. Sim, um som. Talvez o de um comboio a passar ao longe, à noite.