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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

LIVRO: “O Macaco Bêbedo Foi à Ópera - Da Embriaguez à Civilização”



LIVRO: “O Macaco Bêbedo Foi à Ópera - Da Embriaguez à Civilização”,
de Afonso Cruz
Ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, Maio de 2019


“A loucura está ao alcance de qualquer pessoa enquanto exista um bar na vizinhança. O álcool pode ser a porta de entrada para a necessária demência, temporária como convém. A jovialidade das ideias depende dessa revolta contra a solidez do mundo e, se a loucura não é um talento, pode ser provocada. Bastam umas garrafas, porque ela pode ser engarrafada. Viver essa loucura é efectivamente um retorno à infância. Não é por acaso que o bêbedo anda de quatro como as crianças.”

Ao contrário da generalidade dos livros da colecção Retratos da Fundação, cuja abordagem aos mais variados temas é feita de um ponto de vista factual, quase diria jornalístico, “O Macaco Bêbedo Foi à Ópera - Da Embriaguez à Civilização” lança o leitor no domínio das hipóteses, mais do que no das certezas. A aposta num registo onde a filosofia, a sociologia e a religião se misturam com as ciências exactas, mostra-nos um Afonso Cruz igual a si próprio, ele que já nos tinha brindado com um conjunto de livros onde o real e o espiritual se entrecruzam, como é o caso dos excelentes “Jalan, Jalan” ou “Jesus Cristo Bebia Cerveja”. Neste livro editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, o autor propõe-se abordar várias questões relacionadas com o álcool, não tanto sobre o facto de ser este um problema preocupante no nosso país – onde o consumo per capita se situa acima da média dos países da OCDE e se começa a beber aos 13 anos –, antes dando a ver a sua influência na própria evolução do homem e a forma como a sua utilização serviu de alicerce a importantes civilizações.

Antes de ter criado as plantas e os animais – o último dos quais o Homem –, Deus criou os Céus e a Terra, assim lemos nos Génesis. É justamente o Universo que Afonso Cruz começa por espreitar, trazendo-nos a evidência científica de que “gigantescas nuvens de metanol, etanol e álcool vinílico – estendendo-se por milhares de milhões de quilómetros – foram localizadas no espaço interestelar e em sistemas estelares envolventes”. “Talvez o ‘lácteo’ da nossa galáxia não seja o baptismo mais apropriado”, diz a propósito, mostrando um apurado sentido de humor que se espalha pelos catorze capítulos que compõem o livro. A questão, porém, não é meramente cosmológica e a possibilidade de termos abandonado as árvores e alcançado o bipedismo à conta do álcool deve ser tida em grande conta. Fruta madura, perfume alcoólico, açucar, energia, coleta, armazenamento… O processo está em marcha e dele não resultam, apenas, a postura erecta e a oponência do polegar. A acumulação de gordura no organismo resulta em obesidade e conduz às doenças cardiovasculares, assim como o acúmulo de energias como a lenha, o carvão, o petróleo, a energia eléctrica e nuclear estão na base da economia à escala mundial.

Factuais ou meramente especulativas, as premissas sobre as quais assenta “O Macaco Bêbedo Foi à Ópera - Da Embriaguez à Civilização” vão desfilando a cada capítulo, prendendo a atenção do leitor graças a uma escrita perspicaz e à oportunidade das questões que o assunto levanta. São dezenas as fontes citadas, da Epopeia de Gilgamesh (texto em forma de poema escrito pelos Sumérios há quatro mil anos) a “O Macaco Nu”, de Desmond Morris. Num capítulo intitulado “Jesus Cristo bebia cerveja?”, Afonso Cruz inverte o sentido da questão e pergunta-se se “poderia Jesus Cristo ter evitado beber a mais difundida e importante das bebidas do seu tempo.” Noutro, nota que “o andar do bêbedo tem a particularidade de ser a menor distância entre um copo de cerveja e a casa de banho”. Noutro, ainda, persegue Erasmo de Roterdão e o seu “Elogio da Loucura” e lembra que “a loucura está ao alcance de qualquer pessoa enquanto exista um bar na vizinhança”. O último capítulo faz da questão cultural a “pedra de toque” e diz-nos que saber olhar um livro ou uma peça de teatro, um filme ou uma pintura é uma questão de cultura, como o é a apreciação e valorização de uma bebida alcoólica. Um belo ensaio a merecer um brinde.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

LIVRO: "Jesus Cristo Bebia Cerveja"



LIVRO: “Jesus Cristo Bebia Cerveja”,
de Afonso Cruz
Ed. Companhia das Letras, Abril de 2012 (8ª edição, Maio de 2019)


“Os meus avós, os meus pais, a minha mulher, eu e os meus filhos comemos debaixo de um plátano gigante, brincámos debaixo de um plátano gigante, rimos debaixo de um plátano gigante... Se nos cair um tronco em cima, se nos matar a todos, é melhor do que a puta de um cancro. Foram gerações inteiras a usufruir da felicidade de estar debaixo de uma árvore. Sabes o que isso quer dizer? Que vivíamos, que gostávamos do que fazíamos, que sangrávamos dos tomates e das costas e dos ossos, que chorávamos e ríamos sem precisarmos de uma telenovela ou de um comediante na televisão. Era assim que vivíamos. Debaixo das árvores.”

As coisas são aquilo que quisermos que elas sejam. Se uma aldeia do Alentejo pode ser Jerusalém, é porque é Jerusalém. É sobre esta e outras verdades que nos conta Afonso Cruz neste “Jesus Cristo Bebia Cerveja”, coboiada à portuguesa onde se misturam amores inocentes, histórias de sexo, fantasias delirantes, implacáveis vinganças e crimes brutais. Onde os seixos têm o sabor de momentos passados, um professor pinta frases de um epicurista em muros caiados e recitar Nicolau de Cusa pode ser o mais poderoso dos afrodisíacos. Onde há pessoas velhas que morrem novas, horas que passam em segundos, sonhos que acontecem quando se está acordado e bolos de canela que não sabem a canela.

Partindo de uma ideia que prima pela simplicidade – os esforços de uma rapariga muito jovem que, dedicadamente, tudo faz para que a avó possa viver o sonho de visitar a Terra Santa antes de morrer –, Afonso Cruz prova o seu génio na forma como desenvolve a acção do romance, pontuando-o de momentos delicados e de uma enorme ternura. Na forma como as suas personagens se entrelaçam cabem todos os dogmas de um mundo fantasioso, a vida como uma peça levada ao palco por um encenador com tanto de compreensivo como de caprichoso. Num avião transformado em bar de strip como nas arcadas de uma baleia que se abrigam num quarto de dormir, o autor faz da vida uma sequência de acasos, lembrando que entre o forro de uma cadeira imaculadamente branco e uma sujidade como uma pincelada arrastada, expressionista, vai o simples sentar de um corpo.

É difícil não encontrarmos na escrita de Afonso Cruz algo que nos toque, nos seduza, de tal forma o seu contar é engenhoso, quase delirante, repleto de momentos bem-humorados, as piscadelas de olho ao real a porem a nu as partidas que o destino gosta de pregar, as suas ironias supremas. Com a mesma facilidade, faz-nos escutar o arrazoado boçal de um cantoneiro, a lengalenga estafada de um padre ou os pensamentos de um teólogo do Renascimento. Com igual nexo, nos diz que a vida só vale a pena quando se morre por amor, dois seres entranhados um no outro, como uma faca espetada no coração, ou que o vinho na Última Ceia é um erro histórico: Jesus Cristo bebia cerveja! Pode não ser o melhor livro de Afonso Cruz mas é, certamente, um belo momento de leitura.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

LIVRO: "Jalan Jalan - Uma Leitura do Mundo"




LIVRO: “Jalan Jalan – Uma Leitura do Mundo”,
de Afonso Cruz
Ed. Companhia das Letras, Novembro de 2017


“Apesar da beleza da paisagem, dos campos de arroz, do verde omnipresente, dos templos hindus, dos macacos zangados, uma das melhores coisas que trouxe de Bali foi uma oferta do João, que me embrulhou e ofereceu uma palavra, talvez duas: Jalan significa rua em indonésio, disse-me. Também significa andar. Jalan jalan, a repetição da palavra, que muitas vezes forma o plural, significa, neste caso, passear. Passear é andar duas vezes.”

Há livros cujas mensagens precisas parecem apontar na nossa direcção. Livros que deixam propostas, que oferecem ideias, que nos abrem as janelas para os detalhes, aquilo que nunca havíamos vislumbrado até então e que agora surge aos nossos olhos tão nítido, tão inspirador. “Jalan Jalan” é um desses livros. Poderá não o ser para todos os leitores, mas é-o para mim. Querem um exemplo entre mil? “Como nunca viajava com máquina fotográfica, acabava por passar muito tempo a olhar para tudo aquilo que sentia necessidade de reter”, diz Afonso Cruz, com isso respondendo a uma dúvida que me tenho colocado cada vez com maior insistência: - Regressas exausto de uma viagem e trazes contigo cinco mil imagens guardadas nos cartões de memória, mas o que viste, realmente?

Sob o manto da viagem – em Julho passado, o livro venceu por unanimidade a segunda edição do Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores -, o que “Jalan Jalan” encerra é um convite ao leitor a que preste mais atenção ao mundo que o rodeia e retire o maior partido do belo que se esconde nos lugares mais insuspeitos. Afonso Cruz propõe um passeio que não se mede pela distância ou pela técnica de colocar um pé à frente do outro, antes pelo modo como nos tocam e comovem as paisagens entrevistas e as ideias convocadas. Nas movimentadas ruas de Taipei, num ruidoso souk do Cairo ou no alto de uma duna da Jordânia, os lugares estão lá. Mas o que verdadeiramente importa está naquilo que embala os sentidos, seja o sabor de uma sopa de peixe frito e massa, seja o aroma do fumo frutado dos cachimbos ou a visão de um fulgurante pôr-do-sol, ainda que com um escorpião por companhia.

Mais do que os lugares, importam as pegadas que ficam nos espaços percorridos, “o compromisso, a união amorosa entre o transitório e o eterno”. Da “Lógica da Batata” ao “Paradoxo do Tamanho”, de “Pirâmides com Prédios Atrás” a “Ser Pássaro” ou à “Definição de Deus”, o autor oferece-nos uma leitura muito particular do mundo, baseada nas suas experiências de viagens e no exercício auto-reflexivo delas resultante. Nas interpretações de Kurt Vonnegut, num poema de Dylan Thomas, na evocação do martírio de Santa Vilgeforte ou numa pintura de Mondrian, as situações reais ou os passos da imaginação narrados em “Jalan Jalan” levam o leitor a pisar o mesmo chão de pensadores e artistas, gente das ciências exactas, santos e mártires e a atentar, através do seu olhar, naquilo que normalmente não veria.

Concluída a leitura, “Jalan Jalan” escapa à estante e ao repouso entre lidos e por ler, antes passa a ocupar um espaço preciso, na mesa da sala, ali à mão, para que possa continuar a servir de guia e de fonte de inspiração, qualquer que seja o momento. É lícito lê-lo de trás para a frente, saltando capítulos ou abrindo-o ao calhas, já que haverá sempre um bom motivo de reflexão que justifique o investimento “em tempo”. Sem uma cronologia implícita, mas ligados entre si por um útil índice remissivo, os duzentos e vinte e dois textos que o compõem não cessam de fazer ouvir o seu chamamento. Ler o mesmo texto repetidamente revela-se um exercício assaz enriquecedor, visto a cada nova leitura corresponderem novos ensinamentos, tal a qualidade e alcance dos pensamentos que encerra. Guarde-se “Jalan Jalan” como se guarda uma Bíblia. São múltiplas as linhas de leitura, tantas quantas as viagens que se nos oferecem fazer. De Afonso Cruz, saberemos colher o mais valioso conselho. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

LIVRO: "Princípio de Karenina"



LIVRO: “Princípio de Karenina”,
de Afonso Cruz
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Novembro de 2018


“Eu seria muito infeliz num mundo feliz. Ela seria feliz em qualquer mundo.”

Cada frase, cada linha, cada palavra é boa, quando um livro é bom. É por isso que não se pode desperdiçar absolutamente nada da leitura deste “Princípio de Karenina”. A começar, desde logo, pela dedicatória “ao meu pai” e por essa espécie de prólogo onde um pai, numa situação desesperada, se dirige à filha, disposto a contar-lhe a sua história, a história de ambos, sem quaisquer garantias de que ela chegará ao seu destinatário. Entre a dúvida e a dor, “Princípio de Karenina” está lançado. É elevado o patamar emocional alcançado pelas breves frases iniciais, como são enormes as expectativas criadas no leitor e que não sairão goradas no final das quase duzentas páginas que compõem o livro. É que Afonso Cruz é exímio em contar uma história que nos fala de amor incondicional, da entrega e da dádiva que nele reside e de como faz de nós melhores pessoas.

Ao encontro de uma criança marcada pela deformidade, de um pai fóbico e castrador, de uma mãe remetida a um espaço secundário e de todo um conjunto de personagens únicas nas suas peculiaridades, Afonso Cruz pega no leitor pela mão e mostra-lhe como é precária a argamassa que o suporta, de mitos e medos feita, as fronteiras que lhe são impostas a condicioná-lo vida fora, como um ferrete que fere e tolhe. Não há descoberta sem transgressão, não há vitória sem audácia, não há redenção sem medo, não há perfeição sem liberdade plena. Chama-se “Princípio de Karenina”, mas poderia chamar-se “a insustentável leveza do ser”, tão forte e premente é a necessidade de rasgar fronteiras físicas e morais, e fazê-lo sem sucumbir. Sobretudo, quando julgamos saber que é no tapete à porta de casa que começa o estrangeiro, a barbárie, o mal.

Até que ponto estamos dispostos a partir em busca da felicidade, mesmo que para tal tenhamos de abandonar a nossa zona de conforto, é uma interrogação que acompanha toda a narrativa. Como o protagonista desta história, também o leitor é convidado a questionar a sua postura perante o mundo, a sua educação e valores, o quão felizes foram as suas opções, o quanto terá perdido por não querer (ou não saber) arriscar. Entre a rotina e a novidade, o desgosto e o deleite, a subordinação e a liberdade, “Princípio de Karenina” abre-se numa viagem que é também um desafio aos sentidos, ora leve como o voo de uma borboleta ou o perfume de uma pele, ora amargo como o sabor de longas esperas ou de corpos em suspenso. Uma viagem que nos desperta para a vida e nos convida a ir o mais longe que pudermos. Ainda que o mais longe seja a Cochinchina!