“Levantei-me para me aproximar dela. Não me tinha em pé, a sola de couro dos sapatos fazia-me escorregar. Agarrei-me a ela, apertei-lhe o pulso com os dedos. O cheiro do rio cobria tudo. Maddalena tremia, mas não de medo. Maddalena não tinha medo de nada. Nem do cão de gengivas inchadas e espuma entre os dentes do senhor Tresoldi, nem da perna do diabo que desce pela chaminé na história que os crescidos contavam. E nem sequer do sangue ou da guerra.”
Estreia literária de Beatrice Salvioni, “A Malnascida” impõe-se desde as primeiras páginas como um relato de forte densidade simbólica e emocional. Inscrito na tradição italiana de romances de formação femininos, o livro transporta-nos à cidade de Monza, nos anos de consolidação do regime fascista de Mussolini, que se impõe aqui como pano de fundo opressivo e omnipresente. Com uma escrita firme e desenvolta, a autora guia o leitor através de uma Itália filtrada pela vida quotidiana, com as suas praças e mercados, os rumores e o “diz-que-disse”, as hierarquias sociais, a vigilância moral e política, o peso das convenções e da religião. É neste cenário que se cruza o destino de Francesca, adolescente burguesa criada no culto das aparências, e de Maddalena, a temida “malnascida”, jovem oriunda de um meio económico baixo, marcada pela violência social e pela superstição colectiva que faz dela uma “bruxa”. É neste clima de tensão entre classes, géneros e destinos, num país onde ser mulher, pobre e indócil equivale a uma condenação tácita, que reside precisamente a força do romance.
A amizade intensa e improvável entre Francesca e Maddalena constitui o verdadeiro motor narrativo do livro e a sua mais evidente dimensão social e humana. Salvioni constrói um vínculo de fascínio, aprendizagem e emancipação mútua, fazendo da Malnascida uma figura tutelar, quase mítica, capaz de rasgar os estreitos horizontes em que Francesca foi educada. Através dela, a jovem burguesa descobre a possibilidade de desobedecer, de desejar, de pensar por si própria, num contexto profundamente patriarcal e repressivo. O romance expõe com clareza a hipocrisia da moral dominante, a violência masculina normalizada e a cumplicidade silenciosa das instituições. Embora algumas personagens secundárias e certas diferenças sociais possam parecer, por momentos, excessivamente maniqueístas, com destaque para o jogo de contrastes entre a família pobre solidária e a burguesia rígida e calculista, essa opção narrativa contribui para reforçar o carácter alegórico do texto e a sua eficácia enquanto fonte de denúncia. Subtil e evocativa, a escrita de Salvioni confia no leitor, dispensando explicações excessivas e deixando que os silêncios e os gestos falem por si.
A espaços, parece-nos escutar o eco de uma Elena Ferrante, de uma Natalia Ginzburg ou de uma Alba de Céspedes, sobretudo na exploração da amizade feminina como espaço de resistência e construção identitária. No entanto, Beatrice Salvioni não se limita a repetir modelos: o seu romance revela um tom mais incisivo, o contexto fascista e a violência política e social a assumirem um peso mais directo e contundente. A estrutura narrativa, marcada desde o início por um acontecimento trágico, confere ao livro uma tensão constante que prende o leitor até às últimas páginas. Luminoso e perturbador, “A Malnascida” é um romance capaz de conjugar ternura e brutalidade, ao mesmo tempo que aborda com justeza temas como a condição feminina, a exclusão social, a guerra e a culpa. Para um primeiro romance, a maturidade literária é notável e justifica plenamente o entusiasmo com que falo de Beatrice Salvioni. A autora afirma-se, assim, como uma voz promissora da literatura italiana contemporânea, capaz de transformar uma história de amizade num poderoso gesto de insubmissão. O que não é para todos.
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