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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

TEATRO: "Pêndulo"



TEATRO: “Pêndulo”
Criação e encenação | Marco Martins
Texto | Marco Martins, com o contributo do elenco e de Djaimilia Pereira de Almeida
Cenografia | Fala Atelier
Movimento | Vânia Rovisco
Música | Tia Maria Produções
Interpretação | Elane Galacho, Emanuelle Bezerra, Fabi Lima, Juliana Teodoro Alves, Maria Gustavo, Maria Yaya Rodrigues Correia, Nádia Fabrici
Produção | Arena Ensemble
100 Minutos | Maiores de 12 Anos
Teatro Campo Alegre
03 Fev 2024 | sab | 19:30


Depois de “Provisional Figures” e “Selvagem”, volto a cruzar-me com o teatro de Marco Martins e com esse extraordinário trabalho que vem fazendo com não actores, ao encontro da sua forma, tão bela e tão crua, de nos fazer olhar em volta e perceber que esta vida, para muitos, é tudo menos um mar de rosas. “Pêndulo” conta-nos, de viva voz, a história de Juliana Teodoro Alves, Maria Yaya Rodrigues Correia, Emanuelle Bezerra, Maria Gustavo, Fabiana Lima, Nádia Fabrici e Elane Galacho. Provenientes do Brasil, Angola, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde, são todas elas mulheres cuidadoras e empregadas, que passam a vida em movimento pendular entre a periferia e o centro da capital portuguesa, entre a sua casa e a de quem as emprega, entre o país de origem e o de destino, Portugal. Sete mulheres imigrantes que, com as suas histórias, levantam questões sobre o modo como se relacionam com as famílias para quem trabalham, se essa relação as afeta ou não, como se relaciona um país com os imigrantes que acolhe.

Abrir o palco a estas mulheres é levar o espectador ao encontro das suas histórias de vida, das expectativas frustradas, dos sonhos apagados, da distância da família, dos quotidianos mergulhados na rotina, da exaustão ao final de cada turno, do futuro incerto, das ameaças à sua condição de mulher e imigrante. Tudo começa num supermercado onde estas mulheres são empregadas de limpeza. É lá que, entre um trabalho que exige a não interferência com os clientes e as breves pausas para comer algo trazido de casa, elas se vão apresentando. Ficaremos a saber que ser trabalhadora doméstica ou cuidadora de idosos é algo que as une a todas. Da boca de Elane escutamos os vários trabalhos que teve no Brasil - de cuidadora do pai em fase terminal a guarda prisional -, antes de os filhos serem maiores e ter condições para tentar dar um novo rumo à sua vida em Portugal. Já Juliana, nascida em Moçambique, vai falando dos tempos passados num orfanato de holandeses e italianos onde aprendeu latim e, depois, o contar de uma história doce no momento em que um idoso ao seu cuidado está prestes a deixar este mundo.

Com um dispositivo cénico bastante simples, “Pêndulo” retira a sua força da verdade dos testemunhos e da legitimidade dos anseios destas mulheres. Não é inocente o nome “Europa” que é dado a este supermercado, símbolo maior da precariedade e da exploração, eixo orientador das várias narrativas. Como não é inocente a escolha destas actrizes e não outras: Há aqui quem tenha mestrados e não consiga melhor do que ser cuidadora em “part-time”, há quem festeje a entrada de um filho nas escolas do Bolshoi enquanto varre um chão, como há quem chegue a Lisboa e nem tempo tenha de “aterrar”, levada para trabalhar directamente do aeroporto, “com horas de entrada, mas sem horas de saída”. Ter apenas a escola primária ou estar a tirar um mestrado, ter ou não experiência profissional, acaba por ser indiferente. Importa colocar estas mulheres imigrantes na sombra, afastá-las de tudo, torná-las invisíveis. Libelo acusatório de uma sociedade neoliberal onde o dinheiro e o poder são fins que justificam todos os meios, “Pêndulo” é verdade que mói e é ferida que dói. É necessário e é urgente.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

LIVRO: "O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo"



LIVRO: “O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo”,
de Djaimilia Pereira de Almeida
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Outubro de 2023


“Escrevo perseguida. Como se, na esquina, fosse de novo aparecer o velho senhor guineense que me chamou puta no metro, por eu ter um namorado branco. ‘Sua puta, aprendeste com a tua mãe!’ Esse senhor caminha pela minha página, por todas as páginas que escrevo. Estas linhas, quaisquer linhas que escreva, vão em passo rápido, embuçadas, a fugir dele e dos seus berros.”

O final do ano trouxe com ele “O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo”, pequeno-grande livro a merecer a maior atenção. Neste conjunto de três ensaios - através dos quais Djaimilia Pereira de Almeida reflecte sobre o acto de escrever com a consciência de ser escritora e ser negra -, a premissa que serve de título ao livro surge acompanhada de um vasto leque de questões, a primeira das quais se prende com o tempo presente: um tempo que lembra “a cada livro, a cada linha”, que, há poucas décadas, seria impensável este seu modo de vida. Não sendo a única, esta constatação é particularmente significativa, porquanto nos obriga a olhar para a nossa sociedade e para nós próprios, para o racismo estrutural que deforma ideias e valores, e a equacionar aquilo que, eventualmente, nunca equacionámos. O que pensava, ou imaginava, ou via ou sentia uma preta era algo que não interessava a ninguém no tempo dos nossos avós ou mesmo dos nossos pais. O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo connosco? Será este um assunto a merecer a nossa atenção, o nosso tempo?

Três textos, portanto. Três ensaios que se integram e harmonizam, sujeito e complemento uns dos outros. Três formas de pensar a escrita nas dimensões do tempo, do espaço e da pessoa, com uma firme certeza: “Não vivo de escrever, mas escrever é quem sou.” É assim que Djaimilia Pereira de Almeida guia o leitor por intermédio de reflexões de uma universalidade inquestionável. Desde logo a cor da pele, tratada como um segredo pela parte branca da família, “tabu invisível” que apenas com a publicação do seu primeiro livro – “Esse Cabelo”, Ed. Teorema (2015) – deixou de o ser. Também o preconceito que levanta muros entre brancos e negros (“Mas as pretas agora já fazem telenovelas?”). Ou ainda o ser negra e escrever aquilo que se é, sem que isso possa ser visto como uma moda, uma tendência da estação, um objecto de mercado. Questões, dúvidas, reflexões que partem do texto original e procuram desenvolvimento num novo texto intitulado “A minha imaginação não se distingue da minha identidade”, ensaio a duas vozes, na verdade a transcrição do diálogo entre a autora e a poetisa e tradutora brasileira Stephanie Borges.

O derradeiro ensaio intitula-se “A restituição da interioridade” e é o texto da conferência apresentada no ano passado na New York University, onde Djaimilia Pereira de Almeida é professora, aqui numa tradução de Vasco Gato. O assunto é, ainda e sempre, a escrita, mas a visão da autora expande-se do individual para o colectivo. É tempo de falar da supressão da interioridade negra por via da opressão colonial, uma interioridade que, ao contrário dos objectos culturais e peças de arte saqueadas que jazem nos museus do Ocidente, não pode ser devolvida. “A sua restituição é missão nossa”, afirma a autora, desenvolvendo algumas ideias que consubstanciam a sua determinação. O caminho está a ser feito por escritores, artistas, académicos, cineastas, jornalistas, activistas, casos de Zia Soares ou Hirondina Joshua, Pedro Costa ou Isabel Zuaa, Welket Bungué ou Itamar Vieira Junior. As personagens criadas por Djaimilia Pereira de Almeida e que povoam as suas obras estão lá para o confirmar. Através delas, o leitor despe-se de certezas e mergulha no que a interioridade de alguém pode ter de mais específico, naquilo que é “a dignidade categórica de se ser pessoa.”

sábado, 22 de julho de 2023

LIVRO: "Ajudar a Cair"



LIVRO: “Ajudar a Cair”,
de Djaimilia Pereira de Almeida
Ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, Setembro de 2017


“Este mês ajudei a dar banho a uma mulher antes de ela dormir. A mulher estava deitada, sonolenta e nua quando entrámos no seu quarto. Humedeci uma pequena toalha turca em água morna num lavatório e juntei um pouco de sabonete líquido. Lavei o seu ventre e os seus pés passando a toalha húmida sobre a sua pele muito branca. Outra mulher, Jandira, lavou-lhe as pernas e o rosto. Ela tinha as costelas salientes, canelas e tornozelos muito finos. Nem por um instante me lembrei de mim, mas ao entrar no quarto, vendo-a sobre a cama, iluminada por uma luz mortiça, pensei que nunca mais sairia daquele quarto. (…) Senti-me diante de uma pessoa pela primeira vez - e foi à pressa. Julgo que nunca antes tinha visto um corpo nu, e o que ele me disse foi: vais levar-me contigo quando morreres.”

Julho de 2016. As férias da maioria do pessoal e de muitos dos residentes do Centro Nuno Belmar da Costa, propriedade da Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa, no Bairro de Nova Oeiras, estão a aproximar-se. Ao Centro chega Ana - nome fictício, como todos os nomes neste livro -, que irá integrar-se na rotina da instituição, privar de perto com os utentes, assumir o papel de cuidadora e fazer desta a sua segunda casa. Desse tempo ficará o registo de memórias marcantes a muitos títulos, um tempo de descoberta dos outros e de si própria. Moradora no Bairro, conhece de vista a maioria daquelas pessoas. São, para todos os efeitos, vizinhos. Mas este é um tempo de aprofundar essa relação, de conhecer o muito que se oculta para lá das aparências, de saber os “comos” e os “porquês” que importam nas vidas de cada um. De perceber que “tomar conta seja também andar equivocado sobre quem está próximo, conclusão contrária à nostalgia pelo tempo em que os vizinhos se conheciam bem”.

“Ajudar a Cair” é um testemunho precioso de quem, de fora, se dispõem a lançar sobre os outros a verdade de um juízo e a pureza de um olhar, livre de preconceitos ou de subterfúgios de qualquer ordem. O objecto deste livro é o Centro Nuno Belmar da Costa, “uma casa cheia de vida”; mas são, sobretudo, os seus utentes, alguns dos quais residem nele desde a sua abertura, em 1982. Já sem familiares vivos, têm aqui a sua casa e a sua família. Habitantes do Bairro, no qual estão perfeitamente integrados, são eles a Adelaide e o João Pedro, a Clarinha e o Vicente, a Dulce e o Nicolau, o Tiago e a Lucinda, o Octávio e a Filomena, mas também as monitoras Celeste, Marta, Jandira e Maria, a Dona Lurdes, uma das cozinheiras, ou a Directora Odete Nunes. São eles e as suas histórias que preenchem as páginas deste livro, abrindo espaço à auto-reflexão e deixando ver que “não é claro quem guia quem na tarefa de nos valermos uns aos outros, enquanto seres humanos”.

Denso, intenso, terno e sensível, “Ajudar a Cair” pede que nos demoremos nele. O que Djaimilia Pereira de Almeida conta neste livro tão curto, para ser lido depressa, são coisas que levam muito tempo a acontecer. Apenas lidas, cada uma das personagens mostra-se veloz. Mas, “quantos minutos demora David a escrever uma carta; Quantos dias demora Tiago a fazer um quadro com a máquina de escrever; quanto tempo leva Dulce a beber um café; quantas tardes tomam a Clarinha um “C”; quanto tempo demorou Celeste a sentir-se de novo em casa?” Desarmante pela simplicidade do seu olhar e da sua escrita, de uma verdade e generosidade comovedoras, a autora capta na essência o viver da instituição, tocando-nos pela capacidade de ver para além do óbvio: o sentirmo-nos tocados pelos momentos em que desaparecemos nos outros, o íntimo apenas entrevisto nas alturas em que não é claro o nosso lugar. Cabe a cada leitor medir a importância deste livro na sua própria maneira de ser e de estar na vida. A mim tocou-me. Muito.

domingo, 12 de dezembro de 2021

LIVRO: "Maremoto"



LIVRO: “Maremoto”,
de Djaimilia Pereira de Almeida
Ed. Relógio D’Água Editores, Abril de 2021


“Se calhar é a morte que chega perto de mim, que me veio tirar a medida da farda, essa coisa de me encontrar em todo o lado onde olho. Nem assim a saudade acorda. Contemplo o meu passado como se visse um filme que não me comove. Perto da Fatinha, na Rua do Loreto, uma loja de velas lança na rua, nos dias de Inverno, uma luz quente de fogo. Então, no regresso à António Maria Cardoso, chego-me à montra. Velas de todas as cores e formas, pequenas, grandes, coloridas, brancas, douradas, azuis. Era a única coisa que gostava de levar comigo destas ruas. Uma vela para alumiar meu quarto.”

Chama-se Aurora, vive algures em Bissau e é a destinatária de uma longa carta, texto confessional assinado pelo seu pai, “Boa Morte da Silva, oriundo da província do Cunene, Sul de Angola, nascido em 1938, filho de Maria da Silva e pai desconhecido.” Nela, o homem fala do que é ser velho e preto, subir e descer vezes sem conta uma rua de vivos e mortos a arrumar carros, viver da caridade dos outros a guardar o que não está em perigo. Por companhia tem uma hérnia a querer rebentar-lhe no umbigo, um cão de nome Jardel por companheiro e, por vezes, Fatinha, uma jovem sem-abrigo que não diz coisa com coisa. Nas horas felizes, sobem ao Miradouro de Santa Catarina, vêem-se ao longe os navios no rio, comem uma boa merenda de pão com queijo e fiambre, enquanto crescem na boca os sorrisos com as cabriolices do Jardel. Nos outros, que são quase todos, é voltar a ser um espírito que habita as ruas, que anda com os pés e as pernas, que fala e respira, mas por quem as pessoas passam, circulam e nada vêem.

Rua acima, rua abaixo, Boa Morte sorve o aroma a castanhas assadas que se espalha no ar e envelhece de mãos vazias. Passa muito tempo sem haver carro que dê moeda. No dia seguinte não haverá dinheiro para a camioneta… É aqui que paro para pensar, para reflectir na minha atitude de, tomando a parte pelo todo, raramente dar uns trocos a quem me estende a mão. São actos de puro egoísmo que, bem vistas as coisas, é a mim que magoam. “Quem sabe se notavam que mudávamos de passeio para os evitar, mudar de passeio no qual ia a nossa morte e não a sua.” Também eu vejo essas pobres almas, eles sempre de manga curta, parece que nunca têm frio, elas andrajosas, vestindo longas saias, camisolas negras e rasgadas. Fazem-se rodear dos seus sacos e plástico cheios de coisas sem valor, tapam-se com caixotes, dormem ao frio e à chuva, nas entradas de prédios ou, quando a caridade toca a “gente grada”, nas paragens de metro, no coração da terra. Também eu não faço nada.

Com este seu “Maremoto”, Djaimilia Pereira de Almeida volta a segurar-nos pelos ombros e a abanar-nos repetidamente a ver se despertamos da nossa insensibilidade. Como uma onda que avança e tudo cobre à sua passagem, a narrativa obriga-nos a olhar Boa Morte e Fatinha como gente igual a nós, gente que sente e sofre, gente cujo único pecado foi ter nascido do lado errado da noite. No grande teatro da vida, com anjinhos a voar num céu pintado de azul e nuvens, Boa Morte, Fatinha e tantos iguais a eles são actores ante uma plateia vazia. Por muito nobre que seja o carácter de uns, por muito belos e inocentes que sejam os gestos de outros, ninguém paga para entrar, todos preferem continuar a viver a sua vida de mentira, dentro de muros cada vez mais altos, fazendo rolar por baixo da porta um ou dois euros “só para não ter chatices”. Numa escrita delicada, a autora pinta quadros belos na sua crueza, obrigando-nos a olhá-los de frente e a perceber que custa tão pouco trazer um pouco de conforto e de felicidade a quem nada tem. Um livro (mais um) memorável, de uma das mais significativas e marcantes vozes da literatura portuguesa contemporânea.

domingo, 4 de outubro de 2020

LIVRO: "A Visão das Plantas"



LIVRO: “A Visão das Plantas”,
de Djaimilia Pereira de Almeida
Ed. Relógio D’Água Editores, Novembro de 2019


“Nas manhãs nubladas, gostava de sair para ver o movimento. O seu vulto de sobretudo cinzento e chapéu alto de feltro passeava pela vila mudada e chamava a atenção dos mesmos que o haviam visto partir. A barba comprida, o rosto fechado, de poucos amigos, a pala de couro negro inspiravam aos habitantes aventuras misteriosas. O rumor dos vestidos arrastando-se nas ruas azedava-lhe o humor. Apenas aos meninos e às meninas que o olhavam de baixo, entre as saias compridas e, de vez em quando, lhe punham a língua de fora, lançava sorrisos.”

É sempre com redobrado entusiasmo que retiro da estante um livro de Djaimilia Pereira de Almeida, elegendo-o como a mais íntima das companhias nos dias que se avizinham. Que, no caso de “A Visão das Plantas”, até nem foram muitos, as menos de cem páginas a pedirem, pela riqueza das imagens e das mensagens que convocam, contenção na leitura, contrariada por esse entusiasmo único que só os grandes autores despertam e que faz com que as suas obras tendam a ser devorados num ápice. Assim foi com este livro, o interesse e prazer que desperta situando-se ao nível dos dois anteriores romances lidos da autora – “Luanda, Lisboa, Paraíso” e “As Telefones” -, a escrita cuidada, de uma riqueza descritiva invulgar, a confirmá-la como uma das minhas escritoras de eleição no panorama da nova literatura portuguesa.

Em “A Visão das Plantas”, a autora colhe inspiração na personagem do capitão Celestino, uma das figuras que povoam a obra “Os Pescadores”, de Raul Brandão, através dele penetrando no mais fundo da alma humana e oferecendo, na mesma bandeja mas em copos diferentes, o sabor suave da calma e do apaziguamento e a insuportável poção do remorso e da culpa. Convidando o leitor a franquear os muros da casa e a adentrar o jardim do velho homem do mar, Djaimilia Pereira de Almeida dá-nos a conhecer um delicado mundo de cores e aromas onde os limões choram em ponto de pérola, o espantalho de braços abertos é como um arcanjo apaixonado pelo vento e as ameixas quase sabem a ananás dos Açores. Mas se espreitarmos bem, perceberemos o quanto de sombra se adensa por detrás da luz, a velha casa da rua dos choupos como o porão de escravos de um navio à deriva, o quintal como um mar outro, sem homens e sem tempo, e o passado como o rasto que as lesmas deixam ao subir as paredes da casa caiada.

Tirando o melhor partido de uma história muito simples, Djaimilia Pereira de Almeida coloca-nos perante a nossa própria finitude e mostra-nos o quanto de contraditório existe na figura humana, nas escolhas que faz como na forma de as pôr em prática. Descrevendo os momentos de uma vida que, por serem os derradeiros, não são por isso mais importantes do que todos os demais, a autora revela-se uma atenta e dedicada investigadora dos mistérios e segredos que cada um guarda dentro de si. Talvez as flores possam constituir a mais bela das metáforas, mostrando-se em todo o seu esplendor se alvo do melhor trato, mas não deixando de evidenciar a sua forma e as suas cores quando, altivamente, rompem entre as penedias, indiferentes à presença humana. Ou as crianças, a quem o reino dos céus pertence, apontando, com a sua inocência e ingenuidade, caminhos de redenção, mas habitadas já pelo germe do mal, pronto a revelar-se a qualquer momento.

domingo, 2 de agosto de 2020

LIVRO: "As Telefones"



LIVRO: “As Telefones”,
de Djaimilia Pereira de Almeida
Ed. Relógio D’Água Editores, Maio de 2020 


“Menina, vai dormir agora, mas fixa bem estas palavras, genro meu não é preto, não admito cá nenhum desses matumbos que andam aí e nem sabem o que é uma auto-estrada, não é auto-estrada que se diz aí?, não é escada rolante, é auto-estrada, era só o que me faltava! Dorme bem, filha, sim, a Mamã liga, como sempre, tchau, beijo, beijo...” 

Quando publicou “Esse Cabelo”, o seu romance de estreia, Djaimilia Pereira de Almeida referiu numa entrevista que “o ganho de procurar é procurar, interessando pouco ou nada o que se encontra”. E embora seja difícil contentarmo-nos com a incerteza quando procuramos saber quem somos, a resposta mais profícua, e a mais desconfortável, é chegar ao fim com uma pergunta, e outra, e outra. Seis anos volvidos, a escritora retoma a narrativa de “Esse Cabelo” naquilo que tem de busca da identidade, continuando a procurar e a achar mais perguntas do que respostas. Isso mesmo confirmamos em “As Telefones”, um livro que narra o viver e o sentir de Filomena e Solange, mãe e filha, seis mil quilómetros a separá-las, sensivelmente a distância que separa os subúrbios de Luanda dos subúrbios de Lisboa.

Longe do exercício voyeurista de quem fica à escuta do lado de fora, aquilo que Djaimilia Pereira de Almeida convoca em “As Telefones” é a imersão plena no corpo e na mente destas duas mulheres à conversa à medida que crescem, sobreviventes aos seus próprios silêncios como duas campeãs de mergulho olímpico. Só o auscultador sujo de dedadas de gordura, as cortinas laranja de flanela suja, o perfume que teima em permanecer nas coisas e cinco dentes de leite guardados num pedacinho de algodão são verdadeiros. Tudo o mais é fingimento, as recordações que contam uma da outra decalcadas das suas próprias recordações, firmes no balanço pelo veneno dos equívocos, os sonhos contados à pressa em chamadas matinais, como casas de pedra e cal nas suas vidas. Uma espécie de pacto, onde o importante é preservar as máscaras e deixar cair aos poucos a certeza daquilo que a cada uma pertence.

Descobrindo-se nesse ponto híbrido que é, ao mesmo tempo, memória, ensaio e ficção, “As Telefones” encerra uma reflexão profunda sobre as causas e consequências do distanciamento físico. Paradoxalmente, um livro que é um desfiar de desvios, imprecisões e omissões, resulta gigante na verdade que dele se derrama. Djaimilia Pereira de Almeida é tocante de honestidade e generosidade na forma como expõe uma realidade de contornos marcadamente pessoais e solidamente ligada ao fenómeno da diáspora. Ao leitor cabe o trabalho de catar as migalhas sobre a mesa, esfareladas pela mão da memória. De perceber o quanto da sua própria vida estará guardado numa caixa de madeira. E de partir em busca de respostas, cada vez mais certo da inutilidade da sua demanda. “Quantas vezes pode morrer uma mãe? Quantas vezes pode nascer uma filha?”

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

LIVRO: "Luanda, Lisboa, Paraíso"



Luanda, Lisboa, Paraíso”,
de Djaimilia Pereira de Almeida
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Outubro 2018


Impõe-se começar esta recensão crítica a “Luanda, Lisboa, Paraíso”, dizendo que a sua leitura é de tal forma absorvente e dela se retira tanto prazer que o livro entra directamente para a restrita galeria dos livros da minha vida. Desde logo, pela ternura duma história que trata, com enorme pudor e delicadeza, a vida simples de pessoas simples. Depois, pela prosa visualmente rica, intensa e muito bela, realçando as emoções que se desprendem de cada gesto, de cada frase. E finalmente pela generosidade e sensibilidade do olhar de Djaimilia Pereira de Almeida, compondo personagens duma enorme riqueza interior, contrastando ironicamente com a miséria extrema em que vivem.

O livro conta a história de Cartola e do seu filho, Aquiles, nascido com uma malformação no calcanhar. Confiados na ajuda de um ortopedista, ambos deixam Luanda assim que o rapaz atinge os quinze anos, tendo Lisboa como a “terra prometida”, onde Aquiles encontrará certamente a cura. As coisas, contudo, não irão correr conforme esperado, e a cidade branca é também aquela onde Cartola e Aquiles irão descobrir-se pai e filho na desventura. Até que num vale emoldurado por um pinhal, nas margens da cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, encontram abrigo e fazem um amigo.

Parábola intemporal duma sociedade polarizada entre “feios, porcos e maus” e “lindos, limpos e bonzinhos”, este é um livro que, de forma poética, evoca o quanto de conformismo e de fatalismo pode haver na condição do ser pobre. Num país com dois milhões de pobres a convocarem a nossa vergonha colectiva, “Luanda, Lisboa, Paraíso” revela-nos de que matéria são feitos os sonhos dos que tão pouco têm, ao mesmo tempo que pesa a coragem que é necessária para levantar tudo em volta uma e outra vez e nos diz, de forma palpável, o quão relativo o tempo se faz, na felicidade ou na dor. Hino à amizade, vibrante e comovente, o livro é sobretudo uma admirável evocação daquilo que, distinguindo-nos, nos torna mais próximos e solidários.