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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

LIVRO: "Gaza Está em Toda a Parte" | Alexandra Lucas Coelho



LIVRO: “Gaza Está em Toda a Parte”,
de Alexandra Lucas Coelho
Fotografias | Alexandra Lucas Coelho
Ed. Editorial Caminho, Maio de 2025


“Os EUA apoiam os bombardeamentos para pressionar o Hamas. A UE segue incapaz de qualquer sanção a Israel. Centenas de milhares em Gaza são outra vez expulsos de várias zonas. Israel ameaça anexá-las, cria um ‘Gabinete de Emigração Voluntária’, impede toda a entrada de ajuda há um mês. A fome alastra, os hospitais estão cheios de corpos. Dezenas de crianças voltam a ser amputadas sem anestesia. Os mortos ultrapassam 50 mil. A estimativa incluindo desaparecidos é acima de 60 mil, segundo as autoridades de Gaza. E muito acima disso no último estudo da revista científica The Lancet (só até Outubro de 2024, 70 mil mortos). Mais 110 mil feridos, dois milhões de deslocados, a razia de um território, com o seu património de milénios. Um genocídio em directo - e em curso - que a imprensa de fora continua a não cobrir. O maior apagão na história do jornalismo. O colapso humano.”

“Numa altura em que paira no ar a ameaça de reocupação da Cidade de Gaza, novos bombardeamentos israelitas voltaram a atingi-la na madrugada desta quarta-feira, com tanques e aviões a matarem pelo menos doze pessoas”. A notícia é de anteontem, mas podia ser do início do mês, do início do ano, de um qualquer dia de 2024 ou de há uns minutos apenas. O teor, desgraçadamente, é sempre o mesmo; o que varia é a expressão dos números, acrescentando a cada novo dia mais devastação e horror ao território de Gaza e aos seus habitantes. Há quase dois anos que as atrocidades não cessam de aumentar, contando-se até ao momento, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 61 mil mortos, incluindo pelo menos 18.000 crianças, e 151 mil feridos. Cesarianas e membros amputados a crianças sem anestesia, desnutrição aguda grave de toda a população, detenções arbitrárias sem culpa formada, deslocamentos forçados e constantes, falta de segurança, de serviços básicos ou de abrigos, jornalistas e médicos mortos ou detidos e um sistema de ajuda humanitária em colapso deixam no ar uma questão muito simples: Como é possível sobreviver nestas condições?

Este livro é a reafirmação daquilo que Alexandra Lucas Coelho nos vem dizendo desde “Oriente Próximo” e que estendeu aos magistrais “E a Noite Roda” e “Líbano, Labirinto”. Ou seja, que Gaza está em toda a parte. Está naquela terra esventrada pelas bombas onde vivem quase dois milhões de pessoas, das quais dois terços dependem da ONU desde há gerações; como está nos milhares de judeus americanos que ocuparam a Grand Central Station de Nova Iorque com t-shirts onde se podia ler “não em nosso nome”. Está na ruidosa e bruxuleante noite dos milhares de geradores roncando e das telas digitais que também fazem de lanterna, único ponto de fuga para cada palestiniano; como está na clara e corajosa mensagem de António Guterres nas Nações Unidas em que afirmou que a destruição em massa de Gaza é intolerável e deve parar. Está numa Europa refém da culpa do Holocausto desde a Segunda Guerra Mundial; como está na vala comum onde Israel pretendeu esconder quinze paramédicos executados de forma sumária. Está na mesa à roda da qual se reúne a família Tamimi sem saber se aquela será a sua última refeição; como está no drone assassino que se abateu sobre uma tenda nas imediações do Hospital Al-Shifa, ceifando a vida a seis jornalistas às primeiras horas do passado domingo.

“Gaza Está em Toda a Parte” abre no interior de uma cidade onde os jornalistas estão impedidos de entrar desde o 7 de Outubro e termina com um texto intitulado “A vossa vala comum: Carta aos governantes do país e da Europa onde nasci”. Reportagens, crónicas, alguns textos nunca publicados, 148 fotografias a cores, quase todas inéditas e notas de rodapé ajudam a contextualizar alguns dos assuntos abordados; há também actualizações, referências, mapas e fontes. Mas é o dedo de Alexandra Lucas Coelho a escarafunchar fundo nas feridas do genocídio que marca a leitura e faz de cada capítulo um potente murro no estômago. A cronologia dos factos tem na contagem actualizada de mortos e feridos do lado palestiniano um elemento impressivo e que impede o leitor de se alhear do que está a acontecer no preciso momento em que pousa o olhar numa nova página. De um lado Masha Gessem, Ilan Pappé, Francesca Albanese, Mahmoud Darwish, Etty Hillesum, o Papa Francisco ou o Tribunal Penal Internacional. Do outro as políticas belicistas e expansionistas de Trump e Biden, Órban e Ursula von der Leyen, e de todos aqueles que vergam a espinha ante o sionismo, “esse fruto monstruoso do monstruoso anti-semitismo europeu.” De um lado a coragem palestiniana. Do outro o poço sem fundo da vergonha que pesa sobre a Humanidade.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

LIVRO: "Oriente Próximo"



LIVRO: “Oriente Próximo”,
de Alexandra Lucas Coelho
Ed. Editorial Caminho, Outubro de 2007 (2ª. edição, Janeiro de 2024)


“Não sou uma pacifista. Contra a ocupação militar temos direito à resistência armada, de acordo com a lei internacional. Mas a luta armada, quando cresci, não era acções contra civis, mas contra o exército. Violência contra civis, não. Acho muito triste que tenhamos tomado a linguagem dos opressores. Quanto mais sei sobre a Palestina, mais tenho a certeza que era uma sociedade pacífica e gentil, de agricultura, comunitária. As oliveiras eram um esforço comunitário. E a Palestina perdeu e perdeu e perdeu. Quando Israel estava a construir este país, com bombas e tanques, os palestinianos ainda andavam com rebanhos, a colher azeitonas. Não estou interessada em adquirir a linguagem do opressor.”

“Oriente Próximo” é sobre judeus de canudos nas orelhas, chapéus de pelo como os trisavós no império russo e telemóveis de última geração; soldados bronzeados de óculos Dolce & Gabanna a beijarem soldadas bronzeadas de óculos Linda Farrow Vintage, ambos de M16 ao ombro; uma orquestra de músicos israelitas e árabes que se encontram como iguais perante Beethoven; um Hyundai dourado entre carcaças amolgadas no centro de Ramallah; a maior vela do mundo de Hanukkah; os heterónimos de Pessoa traduzidos para hebraico; a melhor focaccia com alecrim de Jerusalém. Mas também sobre a dor sem medo de uma pedra atirada contra um tanque; milhares de oliveiras destruídas para que os colonatos se possam expandir; checkpoints que são o primado da humilhação; campos de refugiados onde milhares vivem em condições sub-humanas; aviões que quebram a barreira do som sobre as casas às três da manhã; crianças que correm a recolher fragmentos fumegantes de obuses acabados de cair; o olhar opaco de uma mãe cujo filho de vinte anos se fez explodir matando seis israelitas.

Numa altura em que um novo capítulo do secular conflito entre Israel e Palestina mantém o assunto na ordem do dia, a reedição de “Oriente Próximo” mostra-se particularmente oportuna. Publicado originalmente em Outubro de 2007, o livro detalha o viver e sentir de israelitas e palestinianos, face ao clima de constante conflitualidade em que se encontram mergulhados. À luz daquilo que vamos sabendo sobre a situação na Faixa de Gaza – os últimos nove meses de ofensiva israelita saldam-se em mais de trinta e cinco mil mortos, oitenta e seis mil feridos e uma crise humanitária sem precedentes –, o livro é revelador de princípios e valores que sustentam as diferentes tomadas de posição, ao mesmo tempo mostrando que, sendo muito aquilo que separa os lados em conflito, será muito mais o que os aproxima. Um paradoxo em parte explicado pelo apoio dos Estados Unidos à sede expansionista de Telavive, com o silêncio cúmplice da Europa e a ineficácia da ONU em fazer valer declarações e acordos. É tudo isto que Alexandra Lucas Coelho nos oferece, numa escrita atenta e esclarecida, que recusa eufemismos e não recua perante a verdade dos factos.

Resultado de várias estadias como jornalista em Israel e nos Territórios Palestinianos Ocupados em viagens a partir de 2002, e em 2005-2006 como correspondente do Público, “Oriente Próximo” vai alternando entre a reportagem e a entrevista, dando a ver uma gama o mais ampla possível de pontos de vista de um e do outro lado do conflito. Aquilo que Alexandra Lucas Coelho faz é montar um autêntico puzzle. Missão impossível, digo eu, num quadro de absoluta complexidade, com um sem número de peças que não encaixam, mas não por inabilidade da autora. Prepare-se o leitor para uma escrita musculada, interventiva e exigente, um convite a ligar as pontas do multissecular “novelo”, na certeza de que muitas outras irão surgir para lá do livro. Janela aberta sobre territórios repetidamente flagelados, “Oriente Próximo” não julga, não sentencia, não dá palpites. Mas reafirma a certeza que não é possível encontrar uma solução para o conflito com mais guerra e mais horror.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

LIVRO: "Líbano, Labirinto"



LIVRO: “Líbano, Labirinto”,
de Alexandra Lucas Coelho
Ed. Editorial Caminho, Junho de 2021


“Quando as revistas estrangeiras vêm a Beirute entre guerras (ou desastres), Gemmayzeh é um daqueles bairros que aparecem descritos como “Soho-sur-mer”. Restaurantes do mundo, bares com DJ, artistas. Só que na porta de ferro deste restaurante alguém grafitou a vermelho um enforcado. Outro, a negro, na fachada. Uma legenda diz, em árabe: “Execução.” A outra: “Levantem-se das ruínas.” Não é Soho-sur-mer. É Beirute.”

Uma barreira que parece ser de betão serve de protecção à fachada do Ministério do Interior libanês. Está pintada com as cores da bandeira do país, três listas horizontais, a superior e a inferior num tom de vermelho escuro, a do meio branca. A negro, cedros desenhados em sequência despontam entre os muitos cartazes e fotografias coladas, as tags que se multiplicam, os grafitis. A palavra “REVO⅃UTION” prende a nossa atenção, as letras que formam a palavra “LOVE” inscritas a vermelho e invertidas. Na rua, as pessoas acumulam-se. Há gente que discursa de megafone na mão. Agitam-se bandeiras, erguem-se cartazes. Em muitos deles, a frase: “We want our money back”. É este o poder de uma fotografia. Uma das muitas que ilustram “Líbano, Labirinto”, o olhar de Alexandra Lucas Coelho a corroborar a narrativa, a prolongá-la, a vincá-la. Porque este livro é, para além da crónica, reportagem e ensaio que se abrigam na sua matriz, também um álbum fotográfico.

As primeiras páginas colocam o leitor no centro de um pesadelo, duas semanas e meia passadas sobre aquela que foi uma das maiores explosões não-atómicas da História. Os ponteiros marcavam as 18:07 desse fatídico 04 de Agosto de 2020 quando se deu o rebentamento das quase três mil toneladas de Nitrato de Amónio que há sete anos se encontravam armazenadas num silo gigante do Porto de Beirute. Recordo as imagens amplamente difundidas da onda de choque que avança sobre a cidade, estilhaçando tudo à sua passagem e causando mais de duzentos mortos, sete mil feridos e cerca de uma centena de desaparecidos. Agora, é ao lado de Alexandra Lucas Coelho, do seu tradutor Ali e de Aeesha, a namorada deste, que percorremos a rua Gouraud, “tão paralelos quanto perpendiculares ao mar”. Esventrados, sem portas, os andares térreos dos prédios são buracos. Rasgões insólitos nas fachadas expõem a intimidade das casas. Tapumes, improvisos, remendos, preenchem a paisagem. Das varandas restam os ferros agarrados às paredes. O entulho amontoado dificulta a progressão e único ruído é o do vidro partido sob os nossos pés a cada passada.

Ao longo de quase quinhentas páginas, Alexandra Lucas Coelho fala-nos deste Líbano e “de uma história que parece condenada a renascer das cinzas, a voltar às cinzas.” É assim há pelo menos cem anos, desde o estertor do Império Otomano. Metodicamente, a escritora dá-nos uma lição de História, começando na Grande Revolta Árabe e no acordo secreto Sykes-Picot de permeio com Lawrence da Arábia, atravessando as sucessivas ocupações israelitas, Musa al Sadr e o Movimento dos Desprovidos, a Guerra Civil que teve início em Abril de 1975 e se prolongou por quinze anos, até à Revolução de Outubro de 2019 (que Alexandra Lucas Coelho acompanhou, deixando-nos aqui nota desses dias de esperança e luta). Neste longo périplo, vamos reconhecendo algumas figuras – Arafat, Nasser, Ariel Sharon, Muamar Kadhafi, Bashar al-Assad, Ronald Reagan, Kissinger, Khomeini – e tomando contacto com outras – Hamed Sinno, Alireza Shojaian, Soha Bechara, Wajdi Mouawad, Lamid Ziadé, Charif Majdalani. Tudo isto de permeio com os compadrios e conluios, a corrupção, promessas de morte, carros bomba, massacres, Sabra e Chatila, o Hamas, a Fatah, a Jihad Islâmica, o Hezbollah, a Palestina. E Khiam.

O que “Líbano, Labirinto” tem de mais extraordinário é o desfilar de emoções que se derrama da prosa de Alexandra Lucas Coelho e contamina o leitor. Quem a conhece de livros como “E A Noite Roda”, “A Nossa Alegria Chegou”, “O Meu Amante de Domingo” ou o fabuloso “Deus-dará” sabe ao que vai sempre que abraça um novo livro seu. Uma vez mais, ela suplanta largamente as expectativas, oferecendo-nos um livro fundamental para a compreensão da questão libanesa, exemplarmente organizado num complexo puzzle de datas, locais e figuras, profusamente ilustrado com as imagens e as vozes que marcam cada momento e inspirador na medida em que nos deixa a certeza de que “quem pisa Beirute ama Beirute”. O profundo amor por esta cidade tão martirizada, pelas pessoas que não desistem dela, percebe-se em cada frase, em cada imagem que Alexandra Lucas Coelho partilha connosco. Generosa, combativa, ela faz eco daquilo que mais ouviu em todos os relatos, em todos os testemunhos: “Não parem de falar do Líbano, não nos esqueçam.” Não esquecemos. Não esqueceremos!

sábado, 8 de janeiro de 2022

LIVRO: "O Meu Amante de Domingo"



LIVRO: “O Meu Amante de Domingo”,
de Alexandra Lucas Coelho
Ed. Editorial Caminho, Novembro de 2014 (1ª edição); Fevereiro de 2020 (3ª edição)


“Tudo começaria com uma narradora que decide escrever depois de se apaixonar por um impostor. Eu não revelaria o que pusera fim abrupto à relação. Importante era a fúria, a luta armada, a pulsão de vida contra os filhos da puta. O livro seria uma espécie de antropofagia, ela comendo o inimigo para ficar mais forte, como uma tupi portuguesa no Verão de 2014. Estaria há pouco tempo no Alentejo, como eu, mas noutro Alentejo. Podia ser, por exemplo, arqueóloga, escavar enxovais de judeus na Serra de S. Mamede. Pouco importava se existia mesmo um Campo Arqueológico lá.”

Vejo “O Meu Amante de Domingo” como uma provocação. Imagino Alexandra Lucas Coelho a escrevê-lo com esse propósito, o de provocar (e de se provocar), ao mesmo tempo reflectindo sobre o acto da escrita, fascinante jogo de palavras com tanto de verdade como de fingimento, em cada lance um piscar de olho ao leitor em busca de cumplicidade. Uma provocação, portanto, mas daquelas provocações saudáveis, carregadas de humor e sarcasmo, a picar, a picar sempre, à espera de uma virgem ofendida que lhe caia na rede para lhe dizer, sem papas na língua, à moda de Canidelo: “Vai p’ró c@&@#€%!”. Um desplante cobrado com uma saborosa gargalhada por quem parte com todas as ganas ao encontro das convenções porque sabe que foram feitas para serem quebradas. Que se porta mal, porque sim. Que não se rende. E que assim, no meio do estardalhaço, mostra de que massa se fazem os livros.

“Não importa quem é o gajo, nem o que fez, mas o buraco que abriu”. O “gajo”, aqui, é o “caubói”, dezasseis anos mais novo que a heroína da nossa história. Na pele de uma revisora às voltas com a biografia de Nélson Rodrigues ou de uma arqueóloga que desenterra passados, acompanhamos as suas deambulações entre Lisboa e o Alentejo, armada de pás e picaretas a clamar vingança, o som e a fúria alimento para a mais devastadora e selvagem das punições. Enquanto maquina a sua vingança, um livro vai nascendo aos borbotões. Entretanto há um Lada Niva de 1994 a aguardar conserto numa garagem da Bobadela, uma gata chamada “Lolita” a quem é preciso dar de comer, uma cervical a necessitar de vinte piscinas, um Apolo em vias de ser engatado, a vida num minuto e um amante de domingo, “ex-marido de uma pasteleira de Coina, agora casado com uma santa”, que diz “póssamos, vareia,…” e que garante que “os problemas hadem ser resolvidos”.

Segundo romance de Alexandra Lucas Coelho, depois do inaugural “E A Noite Roda”, “O Meu Amante de Domingo” vem confirmar uma mulher segura nas suas convicções e uma enorme escritora. Confiante o suficiente para arriscar um exercício que corta com o estilo do livro anterior e com o seu tom hiperrealista, a autora faz questão de manter um olhar comprometido sobre aquilo que se passa à sua volta e de nos deixar reflexões substantivas em matéria de preconceito de classe ou de género, assédio sexual, violência física e psicológica, direito à privacidade, propriedade intelectual e outros. A ironia torna-se uma forte aliada na descrição das personagens, dos lugares e da própria acção, acentuando-lhes a improbabilidade e o desconcerto. A linguagem carrega-se de obscenidades para melhor vincar a “normalidade” de relações que de normal pouco têm. E há ainda um bónus nas várias leituras que o livro oferece ao convocar um conjunto significativo de autores e respectivas obras, convidando à desconstrução do romance. Um ano de leituras que se abre sob os melhores auspícios.

sábado, 4 de abril de 2020

LIVRO: "Deus-dará"



LIVRO: “Deus-dará”, 
de Alexandra Lucas Coelho 
Ed. Tinta-da-china, Novembro de 2016


“Alô, você aí dentro da nuvem, não finge que não escuta, sabia que já não tenho saco para essa pose de me-crucifiquem, essa cara de bondade eterna, esse cabelo? Por acaso você conhece alguém na Galileia com esse cabelo? Aliás, por acaso você conhece alguém na Galileia ainda? E aqui, vai-me dizer que conhece alguém? Minha mãe, por exemplo, você conhece? É que ela conhece muito bem você, mas eu ainda não vi uma prova de que você mereça. Está-me escutando, seu filho de Deus? ALÔÔÔÔÔÔÔ?” 

Começo a ler “Deus-dará” e, como de costume, a tirar algumas notas. Cedo, porém, me dou conta de que a informação é tanta e tão valiosa que prosseguir com esta tarefa se afigura empresa impossível. Por um lado, corro o risco de transcrever quase na íntegra o livro para o caderno; mas, sobretudo, percebo que, a continuar assim, irei rapidamente perder o fio à meada desta chuva em catadupa de palavras, cores, sons e perfumes, aglutinadas no viver e sentir das gentes em permanente ebulição e adoçada com o cheiro gostoso da canela que se desprende de cada gesto, de cada fala, de cada mensagem. Melhor mesmo é entregar-me por inteiro a esta estonteante canção que tem como ponto de partida o encontro entre o Velho e Novo Mundo a atar portugueses e brasileiros, gente cruzada com gente gerando gente, e que transforma cada página num grito de amor e dor, de liberdade e opressão, de beijo e agressão, de luta e de luto.

Como se quisesse contrariar a “Felicidade” de António Carlos Jobim, a autora elege a quarta-feira como o primeiro destes “sete dias na vida de São Sebastião do Rio de Janeiro”. Sete dias e sete céus, sete sóis, sete luas, sete curvas, sete chakras da energia. Sete vidas, sete dores. Sete milhões de amores, tantos quantos os habitantes da segunda cidade mais populosa do Brasil. Contando a história de Lucas, Judite, Zaca, Tristão, Inês, Gabriel e Noé, Alexandra Lucas Coelho toma-nos pela mão e faz-nos descer o Cosme Velho até aos bairros de Jacarepaguá, Água Santa, Inhaúma ou Engenho de Dentro, ao Complexo do Alemão, da Maré ou da Cidade de Deus, à ilha de Paquetá, à praia de Copacabana ou ao Corcovado, cruzando vidas e sortes que mostram até que ponto tudo muda para que tudo fique na mesma. Um “requiem tropical” que, com mais ou menos açúcar, nos vem lembrar que alguém permanece livre porque nasceu branco e exerce o poder sobre alguém escravo porque nasceu negro. 

Recorrendo ao olhar do cinema, direi que ler “Deus-dará” é assistir a um documentário ficcionado onde a maioria das sequências são filmadas num único plano, a câmara à mão, frenética, nervosa, em sobressalto constante. Há depois o zoom in e o zoom out, um olhar que pousa sobre a Serra dos Orgãos, que se abate sobre a floresta, entra no terreiro e depois na casa até se centrar em cada uma das figuras que, vestidas de branco, participam no rito da ayahuasca. Ou sobre Inês sentada à janela da Charutaria Syria, depois do plano se fechar sobre o espaço da loja, mais ainda sobre a pracinha em triângulo da Rua Buenos Aires com a estátua do Mascate, e sobre o Saara, o maior shopping a céu aberto do mundo, com as suas mais de 1200 lojas. Finalmente, o grande plano, olhos nos olhos com figuras tão distantes e distintas como Pedro Álvares Cabral ou Dirk Van Hogendorp, Machado de Assis ou Jaime Cortesão, o padre jesuíta José de Anchieta ou o imã Abdurrahman al-Baghdadi, Pêro Vaz de Caminha ou Rafael Bordalo Pinheiro, Garrincha ou o rinoceronte Ganda. Ainda Nicolau Coelho.

Com um olho na moral e outro no malandro, o que Alexandra Lucas Coelho faz é misturar a História, a Política, a Sociologia, a Etnologia e todas as restantes ciências sociais e humanas nesse enorme caldeirão fumegante que é a Cidade Maravilhosa, a pior cidade do mundo à excepção de todas as outras. Daí resulta um milhão de leituras possíveis, uma das mais claras dando conta que Portugal continua a mostrar-se incapaz de olhar o seu passado além da aventura e de reconhecer as consequências dos seus actos, persistindo em ignorar a violência do colonialismo nos discursos que produz sobre os “Descobrimentos” e em reduzir a história à auto-estima. Complementarmente, é-nos proposta uma sensacional playlist onde cabem Carmen Miranda e Jards Macalé, Luís Gonzaga e Vinicius de Moraes, João Bosco e Tom Jobim, Adriana Calcanhotto e Seu Jorge, Caetano Veloso e Chico Buarque, MC Funkero e MC Pensador, gravações feitas no Alto Rio Negro, “cosmogonias, cosmologias” e uma Avé Maria de Schubert, ao meio dia, “oferecimento altifalante da Igreja de São Judas Tadeu”. À qual acrescentaria o “irmão do meio” que, com Gabriel o Pensador, nos diz que isto anda tudo ligado. 

Não gostaria de terminar esta (anormalmente longa) recensão sem transcrever mais um excerto do livro, demonstrativo da sua força visual e da mensagem política que lhe subjaz em cada página, em cada frase: “Conforme as incursões da polícia, a cracolândia pode mover-se de quadra ou para outra favela, mas hoje não tem novidade. A kombi avança ao longo da Maré, vira à direita, estaciona. De um lado da rua, armazéns, caminhões parados; do outro, papelões, colchões, plásticos, trapos, lixo, e gente saindo de tudo isso, a ver quem chega. Cheira a podre, um funk brada: QUEM PODE ACABAR COM A GUERRA / NÃO QUER QUE A GUERRA ACABE.” Talvez porque a selva seja tão perto, talvez porque o morro seja tão alto, talvez porque a vida seja tão perigosa, talvez porque se possa pedir tudo ao Cristo, menos que ele seja o grande guarda-nocturno desta Sodoma incorrigível, parece-me não haver outra forma de o dizer: “Deus-dará” é foda!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

LIVRO: "A Nossa Alegria Chegou"



LIVRO: “A Nossa Alegria Chegou”,
de Alexandra Lucas Coelho
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Setembro de 2018


Até chegarem a Alendabar, a mulher e o rapaz tiveram de atravessar muitos fusos horários. Vencida a última etapa do seu roteiro, um trilho de terra batida em muito mau estado - “os buracos cheios de chuva, espelhos do céu” -, estacionaram o carocha à sombra de uma árvore. Têm à sua frente uma baía majestosa de águas transparentes, pequenas ilhas debruadas por corais, árvores exuberantes que dão frutos carnudos e doces e uma praia imensa, bordejada por uma densa cortina de árvores em flor. Num extremo da praia, a falésia negra, encostada a um vulcão. No outro, a foz de um rio incandescente. O dia rompe quando pisam a areia. Trazem com eles uma missão. Desconhecem que, não muito longe dali, naquela mesma praia, três jovens celebram um pacto, decididos, também eles, a cumprir uma missão. É dia do equinócio de Primavera e as doze horas que se seguem irão ter um profundo impacto na vida de todos.

A calma e a harmonia com que Alexandra Lucas Coelho nos saúda logo no início deste seu romance, vão dar lugar, muito rapidamente, à dor e à raiva. Foram colocadas ali para acentuarem a lenta agonia de uma natureza envenenada pelo plástico, acusarem a calamidade que são as grandes explorações de gado que ganham terreno de pastagem à custa da floresta, denunciarem o poder de uns poucos que oprimem, tiranizam e maltratam mil vezes os muitos a eles subjugados. Do respeito pelos valores ancestrais e pelos princípios de vida em comunhão com a natureza, passamos rapidamente para a ditadura dos mercados, para os números distorcidos a imporem a sua lei, para o lucro a qualquer preço, para a soberba e a opulência dos ricos, contrastando com a miséria e a falta de meios dos pobres. Lembrando que os recursos do planeta não são inesgotáveis, a autora aponta o dedo aos tiranos e aos corruptos, responsáveis pela ineficiência das políticas ambientais e pela falta de sustentabilidade de uma Terra a saque.

Com uma escrita construída na base da simplicidade e da poesia – as histórias de “Orlando e o Rinoceronte”, o anterior livro da escritora, a bailarem na minha cabeça o tempo todo -, “A Nossa Alegria Chegou” oferece-nos uma visão do mundo extremamente complexa e actual. É um livro com uma carga ideológica e política fortíssimas, um libelo contra a arbitrariedade, a repressão e o abuso, um grito de alerta para um planeta em rápida asfixia. É, ao mesmo tempo, um convite à contemplação e ao deleite do que de bom ainda nos resta e um incitamento à luta pela rápida inversão dos acontecimentos, preservando o que de bom nos resta e devolvendo a saúde a um planeta moribundo. No seu jeito adorável de contar uma história, Alexandra Lucas Coelho diz-nos que tal ainda é possível. Está nas nossas mãos fazê-lo!

domingo, 3 de dezembro de 2017

LIVRO: "Orlando e o Rinoceronte"



LIVRO: “Orlando e o Rinoceronte”,
de Alexandra Lucas Coelho
Ilustrações de Alexandra Lucas Coelho
Ed. Alfaguara, Outubro de 2017


Confesso que nem sempre foi assim, esta minha admiração pela chamada literatura infantil, infanto-juvenil ou o que lhe quiserem chamar. A razão para esta mudança está em livros como “Orlando e o Rinoceronte”, de Alexandra Lucas Coelho, e cuja leitura resulta em momentos de deleite e fruição de pequenos prazeres e grandes aventuras, muitas delas “irmãs gémeas” das que preservamos na memória e que remetem para infâncias felizes.

Gostaria de notar que “Orlando e o Rinoceronte” é um livro “a sério”. Quero com isto dizer que o seu formato “reduzido” (se comparado com a generalidade dos exemplares da “concorrência”), as suas mais de cem páginas (!) e a relativa escassez de desenhos, faz com que o seu apelo esteja mais no conteúdo, que não na forma. Daí que a dedicatória “para os meus sobrinhos Maria, Mariana, Matias e Nuno e para todos os que vão mudar o mundo” faça todo o sentido. Os meninos e meninas dispostos a aceitar o convite à leitura de “Orlando e o Rinoceronte” que se preparem para a realidade que os espera: Vocês vão MESMO mudar o mundo!

“Orlando e o Rinoceronte” leva-nos a conhecer Orlando, olhos abertos para o mundo do alto dos seus oito anos, mas também Ganda e a sua história trágico-marítima, por obra e graça da estupidez e do egoísmo dos homens. Faz igualmente com que nos lembremos que encontrar a pessoa certa para nos falar das coisas é mil vezes melhor do que ir procurar ao Google; e que o conceito de Portugalidade e de escravatura estão ligados e não são coisa de que nos possamos orgulhar. Entre outras, também nos alerta para a ideia subjacente aos Descobrimentos e mostra que, afinal, as coisas podem não ser bem como nos contam. “Coisas sérias” à parte, este livro fez-me, sobretudo, fechar os olhos com força e, nas estrelas por cujo brilho me deixei levar, jogar de novo às caricas no pátio tornado estádio todas as tardes de todas as férias, acompanhar o meu pai nas pescarias de tainhas numa ria imensamente bela e despoluída, deliciar-me com o sabor levemente acidulado da broa que a D. Laurinda cozia, passar tardes inteiras a ler em voz alta para a minha mãe enquanto ela fazia renda, penetrar nas sombras misteriosas do Pinhal do Gato Morto, o corpo a tremer colado ao da Tia Matilde, ou sentir-me livre como nunca, correndo no meio do feno alto ao cair duma tarde de Verão.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

LIVRO: "E a noite roda"



LIVRO: “E a Noite Roda”,
de Alexandra Lucas Coelho
Ed. Companhia das Letras, Maio de 2017


Naquele início de Novembro de 2004, o Mundo está suspenso do estado agónico de Yasser Arafat. É neste contexto que a vida de dois jornalistas se cruza em Jerusalém. O que daí advém revelar-se-á muito mais que uma história de amor. Em permanente “estado de sítio”, a vida de ambos como que irá mimetizar a instabilidade política que se vive naquela zona do globo. As manobras de diversão suceder-se-ão, assim como os cessar-fogo. Os danos ir-se-ão avolumando, ameaçando tornar-se irreparáveis. Até que em Dezembro de 2006 fica tudo escuro.

Mais do que uma grande jornalista, Alexandra Lucas Coelho é uma enorme comunicadora. A sua escrita é rápida, telegráfica. Não são necessárias mais do que duas ou três “pinceladas” para que todo um quadro se abra, nítido, aos nossos olhos. Ela sabe, como ninguém, expor a fragilidade emocional, a vulnerabilidade, de quem convive quotidianamente com o horror. E é exímia em descrever os sentimentos mais díspares que resultam da pressão constante, do medo permanente. Centrando o romance na figura feminina, é notório o esforço de autopreservação duma certa normalidade na vida da personagem principal, mas não deixa de ser desconcertante a forma como permite que um quarto com vista ou o cheiro doce do jasmim se deixem “contaminar” por horas de espera em checkpoints ou pelos raides aéreos noturnos dos F16 israelitas sobre Gaza. Obrigando o leitor a mergulhar no desprazer e no sobressalto face à objectividade com que aborda situações reais de conflito, logo de seguida vem “resgatá-lo”, levando-o de mãos dadas a vaguear ao redor da Notre-Dame de Paris, a procurar um casaco nos corredores do Vaticano ou a provar um queijo Garrotxa numa casa à sombra dos Pirinéus.

Entre as várias leituras que “E a Noite Roda” permite, a mais fascinante será, porventura, aquela que se encontra implícita no próprio título do livro, indiciadora dum movimento de constante vai-e-vem, onde o gelo dá lugar ao fogo, a quase indiferença à tórrida paixão, a noite densa e negra ao mais radioso dos dias. É assim com a noite que roda, como o é com a vida de Ana Blau, fluindo naquilo que tem de mais íntimo. A paz é uma miragem quando a vertigem dum amor, feito de avanços e recuos, tem tanto de desejo quanto de irracional. O apaziguamento não é mais que o ganhar fôlego para um novo embate. Alexandra Lucas Coelho prova-o de forma irrefutável. É todo um manancial de verdade aquele que emana da figura principal do romance. Com ela rimos e choramos, nos debatemos, nos envolvemos. Tão fortes, mas tão frágeis a cada instante. Como navios sem rumo, entregues aos caprichos dos elementos, certos que um tempo bonançoso suceder-se-á a cada nova tempestade.