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sábado, 20 de junho de 2026

LIVRO: "Casa dos Mortos" | Maria José Oliveira



LIVRO: “Casa dos Mortos”,
de Maria José Oliveira
Ed. Edições Tinta-da-china, Abril de 2026


“Procedeu a acareações e a sessões de reconhecimento presencial, pediu diligências judiciais, instaurou autos de corpo de delito directo e indirecto, requereu exames de sanidade e registou lesões corporais visíveis. Constituiu como arguidos ou identificou como ‘presumidos delinquentes’ dezenas de pides, alguns dos quais tinham já abandonado a instituição ou haviam sido deslocados para a ‘metrópole’. Interrogou alguns dos que foram capturados na ‘Operação Zebra’ e ouviu confissões sobre a recorrente prática de torturas nos interrogatórios, mutilações, sobrelotação das cadeias, mortes por asfixia, castigos corporais, fome, ausência de tratamento médico e a memória traumática de um cão esfomeado que durante a noite era introduzido nas celas da subdelegação em Nampula para estropiar os reclusos.”

A descoberta, na Torre do Tombo, da documentação produzida pela Comissão de Apuramento de Responsabilidades do Pessoal da ex-DGS em Moçambique, constitui um relevante acontecimento historiográfico e serve de ponto de partida a “Casa dos Mortos”, conjunto de textos publicados entre Junho e Agosto de 2025 no suplemento dominical P2 do jornal “Público” e reunidos agora em livro. Da autoria da jornalista e investigadora Maria José Oliveira, nele se revela a essência de um arquivo perdido, mas sobretudo a desgraça de um país que preferiu perder a memória. Ao longo de milhares de páginas, militares portugueses recolheram, logo após o 25 de Abril de 1974, depoimentos de vítimas, familiares, testemunhas e até de agentes da polícia política, documentando detenções arbitrárias, desaparecimentos, execuções sumárias, torturas sistemáticas e práticas que hoje caberiam sem dificuldade na definição de crimes contra a Humanidade. O mais perturbador não é apenas a violência descrita, mas o facto de esta investigação ter permanecido praticamente invisível durante meio século. Enquanto Portugal cultivava uma narrativa benevolente do seu passado ultramarino, estes documentos permaneciam encerrados em caixas poeirentas, como se o esquecimento fosse uma forma de absolvição. O livro de Maria José Oliveira vem romper esse silêncio e confrontar-nos com uma evidência que nos deve envergonhar a todos: a repressão colonial não foi um acidente marginal nem um excesso episódico da guerra; foi uma estrutura organizada de dominação, sustentada por instituições do Estado português.

A actualidade destas revelações torna-se ainda mais evidente quando confrontada com os resultados da recente sondagem da Universidade Católica para a Renascença. Segundo o estudo, a maioria dos portugueses considera que Portugal não deve apresentar um pedido oficial de desculpas pela colonização. A conclusão é reveladora não apenas de uma posição política, mas sobretudo de um défice de conhecimento histórico. Como pode uma sociedade recusar um gesto de reconhecimento quando desconhece a dimensão dos factos que o fundamentam? A leitura do trabalho de Maria José Oliveira desmonta muitas das narrativas auto-indulgentes que persistem no espaço público português. Os testemunhos recolhidos em 1974 descrevem queimaduras, mutilações, afogamentos simulados, fome deliberada, violações, espancamentos e assassinatos cometidos sob autoridade colonial. Não estamos aqui perante interpretações ideológicas ou revisões retrospectivas: trata-se de documentação produzida por oficiais portugueses, poucos meses depois da queda da ditadura. Perante este património probatório, a recusa de um pedido de desculpas deixa de poder ser interpretada como simples divergência de opinião. Surge antes como sintoma de uma amnésia colectiva alimentada durante décadas por uma pedagogia nacional incapaz de encarar o lado mais sombrio do império.

As consequências desse esquecimento não pertencem apenas ao passado. Em Moçambique, como noutros antigos territórios colonizados, as feridas da violência portuguesa permanecem inscritas na memória individual, familiar e comunitária. Muitas das vítimas identificadas pela comissão procuravam apenas saber onde tinham sido enterrados os seus pais, irmãos ou filhos. Outras carregavam no corpo marcas permanentes das torturas sofridas. A ausência de justiça, a destruição deliberada de arquivos e o desaparecimento de inúmeros responsáveis impediram qualquer processo efectivo de reparação moral ou jurídica. É neste contexto que a questão do pedido de desculpas deve ser colocada. Não como um exercício simbólico destinado a satisfazer modas contemporâneas, mas como um acto mínimo de responsabilidade histórica. Nenhum pedido apagará os crimes documentados em “Casa dos Mortos”, mas a sua ausência prolonga uma negação que continua a contaminar as relações de Portugal com as suas antigas colónias. Enquanto o país colonizador insistir em recordar apenas as glórias da expansão e ignorar os mecanismos de opressão que a sustentaram, dificilmente poderá exigir que os outros esqueçam aquilo que sofreram.

Enfim, é tempo de prestar o devido tributo ao trabalho de Maria José Oliveira por trazer à luz do dia as vozes das vítimas, procurando amplificá-las como forma possível de lhes fazer justiça. O livro divide-se em sete capítulos que mostram uma máquina repressiva que prendeu, torturou, matou e fez desaparecer cidadãos moçambicanos em nome da preservação de uma ordem colonial condenada pela História. Ao longo das pouco mais de centena e meia de páginas, a autora foca-se na organização do material que lhe veio parar às mãos, levando o leitor numa espécie de viagem aos territórios do terror, de Nampula à Beira, da Machava à ilha do Ibo. É impossível ficar-se indiferente à dimensão dos factos, da mesma forma que é impossível não nos indignarmos perante a crueldade dos actos. E volto à questão inicial. Perante estas evidências, a discussão já não deveria centrar-se em saber se Portugal deve ou não pedir desculpa. A verdadeira questão é outra: como é possível que, conhecendo-se tão pouco do que aconteceu, ainda haja quem considere dispensável esse gesto elementar de reconhecimento? O problema não reside no excesso de memória, mas na sua persistente insuficiência. Porque implica abandonar definitivamente o conforto do mito lusotropical e aceitar que o colonialismo português não foi mais humano nem mais benigno do que outros projectos imperiais. As páginas de “Casa dos Mortos” mostram precisamente isso.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

LIVRO: “Furriel Não É Nome de Pai. Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial” | Catarina Gomes



LIVRO: “Furriel Não É Nome de Pai. Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial”,
de Catarina Gomes
Ed. Tinta-da-china, Maio de 2018 (3.ª edição revista e aumentada, Janeiro de 2026)


“A passagem do tempo trocara números, baralhara postos e a ordem dos apelidos. Fernando sabia agora que, ao contrário dos dados que Rosa reunira, o pai marinheiro navegava numa LDM 408, não numa 405, não tinha o posto de artilheiro, mas de fogueiro, e, sim, chamava-se Monteiro, mas não era esse o seu último apelido. Não sabe quantos telefonemas fez, quantas mensagens enviou, quantas horas passou no arquivo, muito tempo. Pensando bem, não tanto assim. Fernando alcançou em menos de quatro meses o que Rosa perseguia há mais de vinte anos. ‘Eu, se tivesse tempo, descobria mais malta, mais velhotes’, diz-me, animado com o seu êxito. ‘Os pais estão é a acabar’.”

Em “Furriel Não É Nome de Pai”, Catarina Gomes transforma uma das zonas mais silenciadas da Guerra Colonial - travada entre 1961 e 1974 em Angola, Moçambique e Guiné - em território de investigação. Partindo de um conflito que mobilizou quase um milhão e meio de homens, a autora centra-se nas crianças nascidas de relações entre militares portugueses e mulheres africanas, marcadas pelo estigma de “filhos de tuga” ou “restos de tuga”. Longe de se limitar ao retrato emocional, Catarina Gomes ancora cada história num trabalho minucioso feito de anos de entrevistas, de cruzamento de arquivos, de contactos com associações locais como a “Fidju di Tuga” e de um acompanhamento de processos feitos de encontros e desencontros. O livro prolonga o percurso iniciado no jornal Público - e que viria a dar lugar à série documental Filhos de Tuga, exibida pela RTP -, consolidando uma investigação que dura há décadas. O resultado é uma cartografia humana do abandono, onde números, nomes e lugares - de Bissau a Lichinga, de Ingoré a Metangula — ganham espessura histórica, social e política.

A força do livro reside na forma como a autora doseia informação e emoção. Casos como o de Fernando, que tomou “furriel” por nome próprio do pai até à idade adulta, funcionam como chaves narrativas que abrem para uma realidade mais vasta. A cada testemunho - gémeos que guardam uma fotografia desbotada, filhos que apenas conhecem uma patente e um apelido - segue-se o enquadramento estrutural: a desigualdade colonial, a facilidade com que a hierarquia militar favorecia encontros fugazes, a persistência de versões auto-justificativas - “queriam levar os filhos consigo, as famílias africanas é que nunca deixavam. Sabe como é, África. A culpa não foi dos pais”. Catarina Gomes desmonta estes enredos recorrentes sem recorrer ao julgamento sumário. A autora prefere expor padrões, revelar contradições e deixar que a repetição dos relatos componha um retrato colectivo. Numa escrita clara, quase depurada, os dados surgem no momento exacto, iluminando a experiência individual sem a esmagar.

Mais do que recuperar memórias, a autora interpela o presente. Ao acompanhar cartas enviadas a embaixadas, homenagens simbólicas a “pais desconhecidos” e a expectativa depositada em irmãos portugueses que possam reconhecer laços, o livro questiona o papel do Estado e o direito à filiação e à nacionalidade. A ausência quase total de respostas paternas — “nenhum pai me contactou”, escreve — transforma-se num dado tão eloquente quanto qualquer estatística. Há, no texto, uma desilusão contida, mas também a convicção de que revelar nomes como Califa Tcham, Elizabete Malú, Mandica, Maimuna Djau, Lucia Robene ou Fernando Hengar da Silva, e de os cruzar com os de Filomena Viegas, Sara Prado, Jorge Bento ou de um tal Pimpão, é um gesto de reparação. Com rigor investigativo e uma prosa simples, mas incisiva, “Furriel Não É Nome de Pai” afirma-se como jornalismo de referência: um trabalho que, mais de meio século depois do fim da guerra, obriga Portugal a confrontar-se com as consequências humanas do seu passado colonial.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

LIVRO: "Na Medida do Impossível" | Tiago Rodrigues



LIVRO: “Na Medida do Impossível”,
de Tiago Rodrigues
Tradução | Joana Frazão
Ed. Edições Tinta-da-china, Março de 2025


“E pensei na facilidade com que nos habituamos a viver entre dois mundos, o possível e o impossível, entre a abundância e a absoluta falta de tudo. E pensei em como, nas minhas primeiras missões, voltava do impossível, onde as pessoas careciam das coisas mais básicas, e, ao entrar numa qualquer loja do possível, me desfazia em lágrimas ao ver as centenas de cores diferentes de verniz das unhas nas prateleiras, ao passo que hoje ando quase sempre com as unhas pintadas, saltando de um mundo para o outro com a maior facilidade, sem sofrimento. Por isso, ao ver a ração de gato que o caro colega tinha deixado para trás, sorri.”

Sudão, Gaza, Afeganistão, República Democrática do Congo, Somália, Síria, Iémen ou Haiti. Estes são apenas alguns dos países onde estão em curso conflitos armados e aos quais as organizações internacionais procuram fazer chegar a tão necessária ajuda humanitária. São países onde a fome e a falta de acesso a serviços básicos são prevalentes, a insegurança é extrema, os sistemas de saúde praticamente colapsaram e os surtos de doenças alastram continuamente. São aos milhares os mortos e feridos que se contam nos vários teatros de guerra, aos quais se somam milhões de deslocados. As catástrofes naturais, como os terramotos no Afeganistão ou a seca na Somália, só vêm agravar ainda mais a situação. Neste ambiente de enorme tensão, carência e sofrimento, os profissionais humanitários arriscam a vida diariamente, desafiando a falta de segurança, as dificuldades logísticas e a necessidade de manter o distanciamento emocional para levar por diante o seu trabalho. Mas é no meio do caos que quase todos eles encontram satisfação pessoal ao sentirem que fazem a diferença na vida de pessoas em situações extremas.

Disto nos fala Tiago Rodrigues em “Na Medida do Impossível”, um livro que, antes de o ser, foi peça de teatro estreada a 1 de Fevereiro de 2022 na Comédie de Genève, com encenação do próprio Tiago Rodrigues e interpretação de Adrien Barazonne, Beatriz Brás, Baptiste Coustenoble, Natacha Koutchoumov e do músico Gabriel Ferrandini. Os mesmos Adrien, Beatriz, Baptiste e Natacha com quem nos cruzamos ao longo do livro e cujos testemunhos resultam de entrevistas feitas a um conjunto de pessoas pertencentes a organizações como o Comité Internacional da Cruz Vermelha ou os Médicos Sem Fronteiras. Aceitam regressar por momentos aos teatros de guerra e partilhar um quotidiano hostil num território que o dramaturgo convencionou baptizar de Impossível – “mas que é tão real como decidir quem vive e quem morre, e é de tal maneira possível que já esteve em todo o lado e pode sempre voltar a qualquer lugar”. Apesar de saberem melhor do que a maioria que não vão conseguir salvar o mundo, qualquer um deles continua a arriscar a vida e a bater-se por um dia melhor, por um momento de dignidade, por pelo menos alguns minutos em que os tiros param e se ouve apenas silêncio.

Quem conhece o trabalho de Tiago Rodrigues sabe que a condenação arrasta consigo a redenção. As histórias nunca são simples ou fáceis, porquanto o mundo não é simples, a violência não é simples, o sofrimento tampouco é simples. Não é turismo, não são férias, é um trabalho a sério o destas pessoas. Cheio de ilusão no início, na certeza de que irão salvar o mundo, para logo perceberem que não vão salvar o mundo, porque o mundo não pode ser salvo. Espera-os longas horas retidos em checkpoints, ruínas e cadáveres, a adrenalina a rivalizar com o cheiro da gangrena, “corpos, suor, roupa velha, cabelo, fezes, humidade, o cheiro a mar em pleno deserto”. À sua volta descobrirão pessoas humanas e brilhantes, mas também os maiores idiotas. Ainda um hospital de campanha improvisado e dezenas de mães com os seus bebés, uma criança com um nome de futebolista mitológico, lençóis brancos e limpos como bandeiras de dignidade, uma noite passada a vigiar uma vala comum, o silêncio na montanha enquanto decorre o resgate de um ferido, um fado na voz de Amália. E que nunca mais esquecerão.

sábado, 14 de setembro de 2024

LIVRO: "Souvenir"



LIVRO: “Souvenir”,
de Marta Hugon
Ed. Tinta-da-china, Abril de 2024


“A mamã bem me tinha avisado. Ela embirrava com todos os meus namorados e dizia-me que eles só queriam o meu dinheiro porque eu era demasiado estúpida e gorda para terem algum interesse por mim. Mas era tão bonito, o Henrique. A beleza de um homem sempre foi a minha fraqueza. Dizem que o papá também era bonito. Não me lembro bem. A mamã dizia coisas horríveis sobre ele. Que nunca gostara dela e que me tinha trocado por outra família em Moçambique. Imagine, se calhar tenho uma data de irmãos pretos sem saber! Não que eu seja racista, não me interprete mal. Hoje em dia não se pode dizer nada.”

Uma professora de canto de meia idade que se apaixona pelo seu jovem aluno, um homem que perde a memória depois de um acidente de bicicleta, uma empregada doméstica acusada de roubar um objecto de valor e que é despedida, um engate num bar que termina da pior forma, uma ilha no Índico que transforma a vida de um visitante, uma chamada telefónica com uma forte carga premonitória, uma carta muito tempo guardada e que recupera uma vivência amarga, uma viagem relâmpago a Nova Iorque, uma praia distante que traz com ela o fim do mundo, uma entrevista que abraça uma grande história de amor, a memória como uma dádiva. Dádivas e lembranças que tornam presentes as marcas do passado, presentes que são desafios e convidam à quotidiana tomada de decisões, futuros que se abrem e fecham como velhas portadas batidas pela ventania. De incertezas e ambições, escombros e recomeços, se faz a estreia de Marta Hugon no pequeno grande mundo da ficção, através de um livro que revela uma autora perspicaz, delicada e sensível, de quem muito há a esperar.

Conhecida, sobretudo, pela sua voz e presença ligada ao Jazz, Marta Hugon surpreende-nos com “Souvenir”, um olhar pessoal em forma de livro que nos mergulha num presente dominado pela premência de amar e ser amado. Conjunto de onze contos cuidadosamente burilados, o livro exprime, de uma forma muito simples mas plena de significado, a urgência de uma palavra, de um abraço, de um beijo, como um escape ou uma libertação das sombras que vão caindo sobre as vidas de cada um, nesse terreno resvaladiço que conduz ao desamparo e à solidão. Realistas na sua essência, desenvoltos e desapaixonados, estes contos formam, na sua dimensão humana, um conjunto homogéneo e profundamente actual. A sua leitura pode não ser sempre fácil ou agradável, mas o teor é sintomático de um mundo tomado por uma deriva existencial, de uma angústia sem limites, mascarada por atitudes afirmativas, de uma violência latente, construída na base da hipocrisia e do fingimento, da arrogância e das relações de poder.

Testemunhos vivos do pensamento sincero e exigente da autora, os contos impressionam pela intensidade da escrita e pela sua depuração. Não é fácil encontrarmos numa primeira obra uma visão tão madura e tão bem estruturada, isenta de irritantes “apêndices”, na forma de parêntesis ou apartes. Focada em contar uma história e em fazê-lo bem, Marta Hugon não se desvia um milímetro do seu objectivo, dispensando o inconsequente e o fútil. Feito de objectos, lugares e músicas, o mundo pessoal da autora mostra-se de forma subtil neste desfiar de contos, fazendo do leitor um cúmplice no complexo exercício de desenterrar passados e abraçar presentes. Em parte ou no todo, o leitor pode encontrar em “Souvenir” um espelho de si próprio, naquilo que o viver implica de saber, mas também de fortuna e acaso. Na encruzilhada de todas as vidas, entre Lisboa e Nova Iorque, a ilha de Moçambique ou uma barragem no Alentejo, lá encontraremos também a nossa, ora altruística e solidária com a dos outros, ora desinteressada e profundamente egoísta. Saudem-se as decisões intempestivas, os monólogos meditativos, os telefonemas a meio da noite, os encontros furtivos. A vida existe para ser vivida.

sábado, 27 de julho de 2024

LIVRO: "25 de Abril, Quinta-feira"



LIVRO: “25 de Abril de 1974, Quinta-feira”
Fotografia e coordenação | Alfredo Cunha
Textos | Carlos de Matos Gomes, Adelino Gomes, Fernando Rosas
Gravuras | Alexandre Farto / Vhils
Prefácio | Luís Pedro Nunes
Ed. Edições Tinta-da-china, Dezembro de 2023


“Estou na Amadora, são 3 e tal da manhã e ouço pela primeira vez na vida o ‘Riders in the Storm’, dos Doors. Lá para as 4 e tal começam a dizer que algo se está a passar em Lisboa. Visto-me e decido ir para o Século. Vou para a estação. Passo pelo bairro de lata da Falagueira, uma das vistas mais miseráveis dos subúrbios de Lisboa e que tenho fotografado nos últimos anos. Chegado à estação do Rossio, corro até ao Bairro Alto, à redação do Século, e saco o maior número de rolos possível. Uns 40. São umas 6 da manhã. Está lá o Mário Zambujal, que destaca o jornalista Mário Contumélias e a mim para seguirmos para o Terreiro do Paço. Só lá para as 9 e tal é que tenho a primeira conversa com o Salgueiro Maia. Vê-me fotografar e pergunta-me o que estou ali a fazer. Digo que sou do Século. Pergunta-me se sou dos deste lado ou dos outros. Não sei bem o que dizer e respondo que estou ali daquele lado a fotografar. Então ele diz-me para passar a barreira e não ficar escondido.”

Todos temos o nosso 25 de Abril. Eu, com os meus 13 anos à data, como os muitos que eram vivos na altura e mesmo aqueles que só viriam a nascer depois. Do meu posso falar sem esforço, de tal forma precisas são ainda as imagens na minha memória: O levantar às 8 e ver o pai “com cara de caso” a dizer que aconteceu qualquer coisa “lá para Lisboa”. A Emissora Nacional que só transmitia música clássica (“música fúnebre”, dizia a minha mãe). Um dia de aulas que teria sido normal não fora um ou outro colega mais expedito repetir, grosso modo, aquilo que os seus pais, como o meu, terão dito às 8 da manhã depois de escutar a rádio. Um secretismo enorme à hora do almoço e os pais calados às muitas questões que lhes ia colocando. E, finalmente, com o sol a pôr-se, a explosão de alegria do vizinho Silva, a correr que nem um louco na viela por detrás do prédio, aos gritos de “Viva a Liberdade”, que fazia acompanhar com um salto como se fosse o Eusébio a celebrar mais um golo. Nos dias seguintes, então, falou-se abertamente de uma palavra que desconhecia até então: Política. É dela que me lembro, das suas histórias, do seu fascínio, dos seus agentes, que viria a acompanhar a partir de então com redobrado interesse. Tudo isso bebido em conversas na escola, em casa ou no café, ou lido no Jornal do Comércio, “O Diário Mais Antigo do País”, e que no dia 26 de Abril proclamava, a toda a largura da primeira página: “O governo rendeu-se incondicionalmente ao General António de Spínola que preside à Junta de Salvação Nacional”.

A máquina do tempo leva-nos, pelas mais variadas razões, aos muitos 25 de Abril que se abrigam no peito de cada um. Alguns há que, sendo de um, são de muitos, de tal forma projectaram no imaginário colectivo a memória de um tempo de euforia, fazendo com que vivêssemos cada momento como se fosse também nosso. O 25 de Abril do fotojornalista Alfredo Cunha é um deles. Muitas das imagens que registou desse “dia inicial inteiro e limpo” tornaram-se símbolos da nossa liberdade. São icónicas as fotografias que fez de Salgueiro Maia e da sua coluna, bem como dos momentos-chave da revolução vividos no Terreiro do Paço ou no Largo do Carmo. Em 50 anos de vida em democracia, nas mais variadas circunstâncias, cruzámo-nos com essas imagens dezenas de vezes, descobrindo-lhes novos sentidos, novas verdades. Nesses momentos, de redobrada admiração, a emoção tocou-nos sempre (e estou certo que continuará a tocar). Por isso, ao passar as páginas uma a uma deste “25 de Abril de 1974, Quinta-feira”, faço-o pausadamente, quase de forma reverencial, sentindo em cada fotografia um reencontro com uma história que me é grata e me traz, acima de tudo, as mais felizes memórias.

No prefácio ao livro, da autoria de Luís Pedro Nunes, lemos que “[este livro é] um testemunho que pretende ser um exercício se não de total objetividade, pelo menos de sinceridade”. Meio século depois do 25 de Abril, o livro representa o encontro do olhar de Alfredo Cunha, presente em quase todos os momentos do dia e dos meses que se seguiram, com o olhar de Carlos Matos Gomes, um dos capitães de Abril, o olhar do repórter Adelino Gomes, “que perante o desenrolar dos acontecimentos marca o momento em que nasce a liberdade de expressão, ao conseguir um microfone emprestado para colocar a revolução no ar” e o do activista na clandestinidade, Fernando Rosas, hoje historiador jubilado. Juntos, analisam o “momento zero” do dia primeiro, o seu desenrolar, os antecedentes, a conjuntura e as ondas de choque que se seguiram e que tiveram um impacto profundo na sociedade portuguesa, nomeadamente com as descolonizações e a chegada dos “retornados” a um país em convulsão, ou com os momentos críticos em que Portugal podia ter caído numa guerra civil. “E pediram a Vhils para selar esta obra, como se se tratasse de uma cápsula feita para enviar para o futuro, para ser lida e vivida, dado ter sido escrita e fotografada por quem viveu apaixonadamente uma revolução, mas, 50 anos depois, se prestou a depositar aqui o seu testemunho analítico”. Serão necessárias mais referências para vermos neste um livro essencial da nossa história e da nossa vida?

[O livro é uma edição especial, em grande formato e capa dura e a reprodução da capa (Alfredo Cunha e Vhils) tem impressão fotográfica (42x60 cm). Cada exemplar do livro é autografado por Alfredo Cunha e contém uma fotografia de Salgueiro Maia, impressa em papel premium, com selo branco assinado (21x29,7 cm). Venda exclusiva no site da Tinta-da-china, em https://tintadachina.pt/]

quarta-feira, 8 de maio de 2024

LIVRO: “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”



LIVRO: “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”,
de Tiago Rodrigues
Posfácio | Gonçalo Frota
Ed. Edições tinta-da-china, Abril 2024


“Quando matamos, damos sentido ao nosso gesto. Como quando cozinhamos. Quando trabalhamos a terra. Quando fazemos o que nos apaixona. O sentido está no gesto. Tem de haver carinho, cuidado, detalhe. Mesmo na violência. Mesmo no assassínio. Se reconhecermos a beleza de matar, fazemos parte da História e estamos com todas as que morreram às mãos dos fascistas, a lutar pela liberdade e por um mundo mais justo.”

A 19 de maio de 1954, em Baleizão, Catarina Eufémia foi assassinada pela Guarda Nacional Republicana com três tiros pelas costas. Paz, trabalho e pão eram o motivo da sua luta, e nesse dia participava numa greve de trabalhadores rurais alentejanos clamando por melhores salários. No momento do crime, ao lado de Catarina estava uma mulher. Do lado oposto, de pé junto ao assassino, estava um soldado. O soldado era marido desta mulher e pai dos seus filhos. Foi morto com a própria pistola, disparada pela mulher ao cair da noite. Com a morte, uma promessa. Com a promessa, uma herança: “Enquanto viva, no dia em que mataram a minha Catarina, cairá um fascista que não tenha feito nada ao ver cair uma mulher. Os que disparam carregam um peso maior e talvez os castigue a justiça. Os cúmplices voam leves como andorinhas. Nenhuma assassinada esquecida. Nenhum cúmplice perdoado. Espero o mesmo de vós. A partir deste dia, todas vós, as que nascerdes do meu sangue, sereis Catarina.”

“Quem viu morrer Catarina, não perdoa a quem matou”. As palavras de Zeca Afonso parecem atravessar este texto, da autoria de Tiago Rodrigues, ao longo do qual uma família reunida numa casa de campo, no sul de Portugal, se prepara para dar cumprimento ao dever de matar um fascista, no dia em que se cumpre mais um aniversário da morte de Catarina Eufémia. Baseando o texto nos ataques que as democracias vêm sofrendo um pouco por todo o lado, o autor lança um olhar certeiro sobre a tolerância com que são tratados os intolerantes e interroga-se até que ponto podemos quebrar as regras da democracia para melhor defender as suas causas. Num ambiente de tensão crescente, o fantasma de Catarina Eufémia a tocar-nos nas mãos com as suas mãos frias, esgrimem-se opiniões, partilham-se dúvidas, pesa-se o medo e a cobardia, o dever e a justiça, enquanto a História nos segreda ao ouvido que “qualquer fascista pode ser o fascista que tem a ideia de enfiar um povo inteiro numa carruagem de comboio”.

“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” tem no posfácio, da autoria de Gonçalo Frota, um precioso documento que contextualiza a peça e a enriquece. Aquilo que estava fadado para não ir além de um artigo de jornal com algum fôlego, viria a transformar-se num ensaio com uma centena de páginas, testemunho vivo de um processo criativo subjacente a uma questão fulcral: “Como chegámos aqui?” Da notícia de um acórdão do juiz Neto de Moura, de que todos estamos lembrados pelas piores razões, à peça que viria a subir à cena no Centro Cultural Vila Flor em Setembro de 2020, há um longo caminho feito de residências, workshops, muitos livros, séries, filmes, discursos, uma playlist em permanente construção, debates e ensaios, com muitos cortes e acrescentos à mistura. À criação da peça não foi alheio o ambiente social e político vivido, com uma pandemia de permeio e a eleição do primeiro deputado pela extrema-direita nas legislativas de 06 de Outubro de 2019. O tempo passou e a peça fez o seu caminho, deixando um rasto de plateias incendiadas pela ideia de que “a democracia não está a salvo só porque a ditadura ainda é uma memória viva”. Hoje, o partido de extrema-direita vem de eleger cinquenta deputados para o parlamento!

domingo, 8 de outubro de 2023

LIVRO: "Tudo São Histórias de Amor"



LIVRO: “Tudo São Histórias de Amor”,
de Dulce Maria Cardoso
Ed. Edições Tinta-da-china, Março de 2014 (2ª edição aumentada, bolso, Abril de 2021)


“Tu e eu nunca fomos parecidas, mas também não éramos opostas. Poderíamos ter-nos complementado se não se desse o caso de partilharmos o mesmo corpo. Dispúnhamos apenas de um corpo, este que agora é só meu. Nunca deixámos de guerrear na nossa existência intermitente. A vitória de uma seria a derrota da outra. Aquela de nós que matasse a outra cometeria um crime perfeito, um assassínio sem cadáver. Eras mais capaz nas coisas do mundo. Achava que serias tu a acabar comigo. Mas não. Escrevo-te do local do crime. Do sítio das palavras.”

Que Dulce Maria Cardoso é uma extraordinária romancista, sabia-o bem desde que li “O Retorno” e “Eliete - A Vida Normal”. Que os seus dotes de cronista são igualmente relevantes, ficou provado com “Autobiografia Não Autorizada”, cujo segundo volume acaba de ser publicado. Qualquer dos três livros referidos, por muito diferentes que possam ser entre si, têm em comum uma intertextualidade delicada e subtil, um conjunto de personagens, lugares e vivências que os tornam próximos. Mas têm, sobretudo, Dulce Maria Cardoso naquilo que foi e é, na sua verdade, na elegância da sua escrita e na arte de contar uma história. Uma enorme contista, portanto, que “Tudo São Histórias de Amor” vem confirmar em vinte e um contos onde a palavra amor se inscreve por inteiro, ao arrepio de lamechices e de qualquer cor-de-rosismo. Amor imperfeito, rude, desajeitado, magoado, que se cruza com temas como a indiferença ou o preconceito, a maldade ou a solidão, o dever ou a consciência. Histórias de amor, sim, mas nem sempre de final feliz.

Editado em Março de 2014, esta antologia de contos conheceu duas republicações, a última das quais (a que tive oportunidade de ler), em formato bolso, revista e aumentada. Procurei saber quais os contos que foram acrescentados à edição original, mas não descobri essa informação. Cruzando datas, percebo que “Diário de uma cuidadora informal, ou para que servem os velhos?” é um deles (se é que há mais do que um). Vale a pena falar deste conto em forma de diário, já que ele diz muito da autora e da sua escrita, do seu viver interior, da sua forma de ver o mundo. É um conto que, por si só, justifica a leitura do livro, tão forte e poderoso é o seu pensar sobre este presente distópico que tende a afastar os velhos do centro de interesses de uma sociedade fechada sobre si própria e que fenómenos como a pandemia apenas agravaram, pondo a nu a falta de solidariedade com os menos capazes. O conto mostra a proximidade da relação entre Dulce Maria Cardoso e a sua mãe, na altura com 81 anos e com um processo de demência em curso. É tocante a forma como a autora coloca o dedo nas várias feridas, como se despe de preconceitos e envolve o leitor num problema que todos devemos encarar.

Um cão a roubar carne para a velha que já não sai de casa e vive isolada no último andar de um prédio, uma mãe obrigada a escolher qual dos dois filhos salva de morrer atropelado, um rapaz com um baralho de cartas a ganhar uma mulher ao jogo, uma mulher a engolir uns brincos de jade e a suicidar-se, uma cadela chamada Jinja a entrar na cabeça da Dulce e a servir-lhe de inspiração para um texto. Tudo isto são histórias de amor. Mergulhar nelas é abarcar um mundo cuja respiração se dá a ver num expandir e encolher sem pausas, desgastado e sujo, tornado suportável no desfiar de memórias que acabamos por confundir e nos deixam na incerteza de que sejam realmente nossas. Imprevisíveis, cativantes, provocantes, inspiradoras, as histórias abrem-se como um extenso mapa de paisagens da alma, dentro das quais o coração pula, como que por magia, “pum, pum, pum, pum”. Saltando de uns contos para outros, piscando o olho ao lado de lá da rua onde vivem os restantes livros da autora, as personagens ganham vida própria. Tomam-nos pela mão e mostram-nos as histórias de amor que nos habitam e que animam o pulsar do nosso coração.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

LIVRO: "Autobiografia Não Autorizada"



LIVRO: “Autobiografia Não Autorizada”,
de Dulce Maria Cardoso
Ed. Tinta-da-china, Junho de 2021


“A minha mãe faz hoje 80 anos. Quando fala do seu nascimento refere que a Segunda Guerra Mundial começou nesse ano e eu sinto-me tentada a reconhecer nessa coincidência um sinal dos muitos tumultos por que a sua vida passou, mas a minha mãe, bastante mais capaz do que eu para tratar sofrimentos, não se detém em comparações despropositadas, O importante é seguir em frente, garante, desembaraçada do passado. E eu sempre tão enrodilhada nele.”

“Autobiografia Não Autorizada” reúne um conjunto de crónicas que Dulce Maria Cardoso assina periodicamente na revista “Visão”. Nelas, a autora assume o papel de personagem maior, falando sobretudo de si, das suas vivências, das suas memórias, de uma infância feliz passada em Luanda. Do regresso precipitado a um Portugal de murais coloridos a gritar revoluções e palavras de ordem como “faxismo nunca +”. Das enormes dificuldades desses tempos do “retorno”. Dos avós em Carrazeda de Ansiães, do frio, dos pontos que acrescentava aos contos que inventava e que lhe trouxeram a certeza de um dia vir a ser escritora. Ainda de uma residência literária numa pequena cidade alemã, de uma passagem pela Urgência do Santa Maria com a pulseira amarela, de uma tentativa de violação de que foi alvo menina ainda, das limitações que tendem a eternizar-se no actual estado pandémico.

Nós a aguardarmos ansiosamente a segunda parte do magistral “Eliete” e Dulce Maria Cardoso a trocar-nos as voltas e a propor-nos um conjunto de cinquenta e quatro crónicas, cinquenta e quatro histórias de vida, nas quais não há como não nos revermos. Desde logo, porque os tempos angustiantes de uma pandemia que se arrasta há dois anos tocam a todos e vão deixando marcas bem fundas. Depois, que levante o dedo quem nunca foi criança e subiu às árvores, fez das aventuras do vilão e iletrado Sinhozinho Malta e da tonta e corrupta Viúva Porcina um divertimento imperdível, teve uma máquina de lavar roupa avariada, um amigo que partiu demasiado cedo ou sentiu que esta vida é um tremendo despropósito. É desta proximidade que o livro vive, da forma como nos enleia, nos eleva nas nossas forças e certezas ou põe a nu as nossas fragilidades, os nossos medos e fracassos.

À dimensão humana de “Autobiografia Não Autorizada”, importa acrescentar a dimensão literária, o livro povoado de personagens que reconhecemos de romances anteriores da autora. São elas (ou as memórias que delas guardamos) que nos mostram como se modela uma figura a partir de um pedaço de barro, como vemos ganhar vida aquilo que ainda agora era inerte. Expresso num figurino que se assume como uma mistura de realidade e ficção, o livro mostra o quanto escrever pode ser uma forma de “pensar devagar”, unindo escritor e leitor em torno de um mesmo pensamento, criando uma empatia que se vai reforçando crónica após crónica, a ponto de fecharmos o livro e percebermos o quanto reacções, pensamentos e ideais podem enredar-se com tanta força, ainda que as vivências possam ser tão diversas. Não saberemos nunca que mentiras se escondem nas verdades reveladas por Dulce Maria Cardoso. Mas que importa isso quando o que lemos nos dá tanto gozo?

domingo, 19 de dezembro de 2021

LIVRO: "O Retorno"



LIVRO: “O Retorno”,
de Dulce Maria Cardoso
Ed. Edições Tinta-da-china, 2011
Edição comemorativa Outubro de 2021 (14ª edição)


“Não, a metrópole não pode ser como hoje a vimos. A prova de que Portugal não é um país pequeno está no mapa que mostrava quanto o império apanhava da Europa, um império tão grande como daqui até à Rússia não pode ter uma metrópole com ruas onde mal cabe um carro, não pode ter pessoas tristes e feias, nem velhos desdentados nas janelas tão sem serventia que nem para a morte têm interesse. Lá os velhos tinham dentes postiços muito brancos e andavam de um lado para o outro com chapéu na cabeça e os fatos dos trópicos engomados. Quando o pai via os velhos a comer marisco no Restinga dizia, aqui até os velhos fintam a morte.”

Angola, finais de 1974. O processo de descolonização está em curso e a independência do país tem data marcada. São muitos os que se recusam a aceitar o retorno, o regresso à metrópole, o lugar de onde há muito fugiram com “uma barriga inchada de fome e uma cabeça cheia de piolhos”. Aqui têm a sua vida organizada, as suas casas, os seus negócios, os seus pretos. O sentimento geral é de negação, a noite de passagem de ano aí está a provar que não se passa nada. Os tiros que se ouvem cada vez mais perto continuam muito longe, as vozes ameaçadoras que se levantam não passam da boca para fora. Até que a violência escala muito rapidamente e a necessidade de deixar tudo para trás impõe-se com a urgência das vidas em risco. Mais de trezentas mil pessoas deixam Angola numa gigantesca ponte aérea e chegam à Portela com pouco mais do que a roupa que trazem no corpo. A Dona Glória e os seus dois filhos, o Rui e a Lurdes, estão entre os retornados.

Retrato emotivo de um dos episódios mais marcantes da nossa História recente, “O Retorno” coloca o leitor no turbilhão de um processo que representou uma mudança radical na vida de meio milhão de pessoas e lançou o país numa profunda crise. Mergulhados num “pingue-pongue” político pela condução dos destinos de uma democracia débil, figuras como Rosa Coutinho, Almeida Santos, Mário Soares, Pinheiro de Azevedo, Vasco Gonçalves ou o próprio Presidente da República, o general Costa Gomes, mostram-se indiferentes à verdadeira catástrofe humanitária que se desenrola à sua volta. O Hotel Estoril Sol, o maior do país à altura dos acontecimentos, irá ser durante muito tempo o epicentro das vidas de várias centenas de famílias, os quartos transformados em camaratas, as refeições tomadas após horas de espera em filas intermináveis, os salões divididos entre os “exclusivos a hóspedes” e os restantes, destinados aos retornados.

Narrado na primeira pessoa pelo Rui, o filho mais novo desta família desfeita por força das circunstâncias, “O Retorno” tem um cunho marcadamente autobiográfico. Nascida em Trás-os-Montes em 1964, Dulce Maria Cardoso foi, ainda bebé, com a família para Luanda. As recordações de uma vida feliz em África misturam-se com o regresso a Portugal na atribulada ponte aérea, escapando de um ambiente de guerra civil. A escrita directa, os relatos factuais de um conjunto de momentos de grande tensão, os conflitos interiores dominados pela raiva e pela revolta e a enorme franja de emoções tintadas de nostalgia e saudosismo fazem deste livro um dos mais importantes documentos para a compreensão de um período que lançou portugueses “de cá” e portugueses “de lá” uns contra os outros. Combinando com delicadeza as nuances históricas com as pulsões da adolescência, a autora abre a porta a um conjunto de leituras intensas e vivas, nas quais o leitor acabará necessariamente por se rever. Um livro essencial.

sábado, 12 de junho de 2021

LIVRO: "O Anjo Pornográfico - A Vida de Nelson Rodrigues"



LIVRO: “O Anjo Pornográfico - A Vida de Nelson Rodrigues”,
de Ruy Castro
Ed. Tinta-da-china, Agosto de 2017


“Escrevo à noite. Vem na aragem noturna um cheiro de estrelas. E, súbito, eu descubro que estou fazendo a vigília dos pastores. Aí está o grande mistério. A vida do homem é esse vigília e nós somos eternamente os pastores. Não importa que o mundo esteja adormecido. O sonho faz quarto ao sono. E esse diáfano velório é toda a nossa vida. O homem vive e sobrevive porque espera o Messias. Neste momento, por toda a parte, onde quer que exista uma noite, lá estarão os pastores - na vigília docemente infinita. Uma noite, Ele virá. Com suas sandálias de silêncio entrará no quarto da nossa agonia. Entenderá nossa última lágrima de vida.”

Comecei a ler “O Anjo Pornográfico” sem saber ao que ía. “A Vida de Nelson Rodrigues”, em complemento ao título, fornecia uma boa pista, mas eu nunca ouvira falar de Nelson Rodrigues. A espessura do livro e o tamanho da letra e das próprias páginas pareciam levar-me na direcção de um qualquer tipo de auto-de-fé masoquista. Escusado será dizer que, página após página, a figura de Nélson Rodrigues foi surgindo como peça principal de um enorme puzzle, cada vez mais nítida, até nos oferecer a imagem grandiloquente do repórter, crítico, cronista, contista e dramaturgo, mas também da pessoa no que ela tem de mais humano, com todas as suas forças e fraquezas, tanto físicas quanto morais. À sua volta descobriu-se uma imensa plêiade de figuras que, ao longo de sete décadas, ajudaram a construir o Brasil que hoje reconhecemos. E eis como, de forma genial, Ruy Castro nos mostra o quanto Nelson Rodrigues foi, à sua maneira, uma das figuras mais influentes do século XX no país irmão.

Só os grandes biógrafos conseguem escrever assim. Ruy Castro aprendeu a ler com “A vida como ela é…”, o interminável folhetim publicado inicialmente no jornal “Última Hora”. Desde então seguiu-o pelos jornais e leu mais Nelson Rodrigues do que qualquer outro autor nacional ou estrangeiro. Assistiu a quase todas as suas peças, viu-o na televisão, na rua, em casa de amigos, no Maracanã e, em 1967, foi seu colega de trabalho no “Correio da Manhã”. Almoçaram juntos algumas vezes e chegou a entrevistá-lo. Este profundo conhecimento do biografado foi importante no momento de passar para o papel a vida de Nelson. Mais importante, porém, é a sua capacidade de reunir todas as personagens, de as dispor em palcos de cores vivas espalhados pelo Rio de Janeiro, de desdobrar as histórias e de trazer as suas emoções para as páginas do livro. Então, aproximando-se do leitor, coloca o braço suavemente sobre o seu ombro, olha-o nos olhos e conta-lhe histórias do jeito mais simples, quase brincalhão, com a linguagem do quotidiano onde abundam as palavras e as expressões que reconhecemos de telenovelas como “Gabriela” ou “Dona Xepa”.

Na sua extraordinária forma de percorrer os fios da História, o autor oferece-nos a possibilidade de entrever as linhas com que Nélson Rodrigues coseu 68 anos de uma vida plena. Para uns um génio ou um santo, para outros um canalha, um tarado, um reaccionário, Nélson Rodrigues fez parte dos jornais e revistas no berço, na plenitude e na morte. Atravessou todas as revoluções gráficas, estilísticas e empresariais da imprensa naquele período e acompanhou de perto todas as transformações políticas do Brasil. Numa delas, a de 1930, esteve no lugar da vítima. Conheceu de perto os poderosos e, ao mesmo tempo, era um homem identificado com o povo. A televisão tornou-o ainda mais popular, fazendo com que as pessoas passassem a ligar o nome à figura. E foi também o inventor do teatro brasileiro moderno, saboreando sucessos imensos a par de alguns fracassos. Tinha muito para contar e sabia contar como ninguém. Ruy Castro conta-o aqui na mesma medida, provando que, tal como na vida, também as biografias podem agigantar-se e revelar-se muito além das aparências.

sábado, 24 de abril de 2021

LIVRO: "Uma História da Leitura"



LIVRO: “Uma História da Leitura”, 
de Alberto Manguel
Texto original | “A History of Reading”, 2020
Tradução | Rita Almeida Simões
Ed. Edições Tinta-da-china, Novembro de 2020


“Sabemos que lemos, mesmo quando aceitamos suspender a descrença; sabemos porque é que lemos, mesmo quando não sabemos como, conscientes ao mesmo tempo do texto ilusório e do acto da leitura. Lemos para conhecer o fim, por consideração à história. Lemos, não para chegar ao fim, mas pelo prazer da própria leitura. Lemos com absoluta atenção, quais caçadores em busca de pegadas, alheios ao que nos rodeia. Lemos distraidamente, saltando páginas. Lemos com desprezo, admiração, negligência, fúria, paixão, inveja, anseio. Lemos em lufadas de prazer súbito, sem saber o que provocou esse prazer.”

É-me impossível dizer algo sobre “Uma História da Leitura” sem referir “O Infinito Num Junco”, essa outra história dos livros e da leitura da autoria de Irene Vallejo, lida nos primeiros dias do mês passado. Ambos coincidem em argumentos, elementos, referências, dados, factos e histórias. Ambos exaltam os primórdios do livro e da escrita, fazendo notar a sua evolução até aos nossos dias. Ambos têm como fim último o leitor, razão de ser do livro, seu fiel depositário e intransigente guardião. Mas se ambas as obras coincidem em termos de conteúdo, já de um ponto de vista formal estão muito longe uma da outra: Aquilo que em Irene Vallejo é deliciosa fluidez, o ensaio transformado num quase romance, em Alberto Manguel é convenção e academismo, capítulos deliciosamente vivos alternando com outros marcadamente herméticos e de interesse discutível, reflectindo-se numa leitura feita de comprometedores altos e baixos.

Da leitura em voz alta aos livros silenciosos, aos livros de imagens ou àqueles guardados na memória para escapar às perseguições, passando pelo saber ler ou pelo saber ouvir ler, pelo leitor simbólico, pelo autor como leitor ou pelo tradutor como leitor, “Uma História da Leitura” está aqui para nos mostrar o quanto de poder e de magia existe nos livros. Ao longo das suas páginas, percebemos o quanto o amor e a dor surgem de mãos dadas desde o preciso momento em que a pena cai sobre a folha até ao fechar da última página: A elevada posição social do escriba mas também a penosidade do seu trabalho, os livros ciosamente guardados mas também as purgas ideológicas que levaram à destruição de milhares e milhares de livros em múltiplas ocasiões, o livro como fonte de descoberta mas também, por isso mesmo, proibida a sua leitura para preservar as supremacias ideológicas, de género ou de raça. E os exemplos sucedem-se.

Complementando os vários capítulos com um conjunto de imagens que ilustram as ideias expressas, Alberto Manguel mostra-nos também a articulação da literatura com as demais artes. Cadernos escolares, páginas de jornais, fotografias, desenhos, gravuras, frescos, iluminuras, pinturas, baixos relevos, máquinas de leitura e um sem número de artefactos dão-nos conta do exercício da leitura e da escrita em mosteiros, universidades, clubes de leitura, locais de trabalho, na rua ou no interior das casas. Escrito num estilo acessível mas erudito, rico em informações mas também em reflexões, “Uma História da Leitura” é, ao mesmo tempo, a história dos leitores comuns, daquelas pessoas que, “ao longo das eras, preferiram certos livros a outros, aceitaram nalguns casos o veredicto dos mais velhos, mas noutras ocasiões resgataram do passado títulos esquecidos, ou arrumaram nas prateleiras das suas bibliotecas os eleitos dos seus contemporâneos. Esta é a história das suas vitórias e dos seus sofrimentos secretos, e da maneira como essas coisas se passaram”. Esta é também a história de cada um de nós, leitores.

sexta-feira, 26 de março de 2021

LIVRO: "Flecha"



LIVRO: “Flecha”,
de Matilde Campilho
Ed. Edições Tinta-da-china, Agosto de 2020


“Um grupo de formigas faz o percurso encarreirado entre o musgo e o buraco. Cada uma delas leva alguma coisa às costas: um pedaço de casca de árvore, uma pata de besouro, um resto de palha, uma outra formiga já cansada, um grão de terra, uma lasca de concha. Um rapazinho, de cócoras, observa o movimento daqueles bichos pretos e analisa – à vez – cada vestígio de vida que se move à boleia de outra vida.”

“Flecha” é um livro de histórias. Duzentas e vinte e seis histórias, para ser mais preciso. Umas que se espraiam por duas páginas (nunca mais do que isso), outras resumidas em uma ou duas linhas apenas. Histórias que nos falam de coisas vivas e de coisas mortas. Que nos trazem paisagens, objectos, bichos, rostos, deuses. Que nos convidam a ver, a escutar, a sentir: uma praia de Cabo Polónio, as traseiras do mercado de Michoacán, um rosto marcado pelo sol, esplêndidos automobilistas, um avião que já iniciou o seu trajecto há mais de oito horas, o cavalo do primeiro-ministro, bandos de morcegos, uma lebre, um bezerro, um mosquito, um relâmpago. E a conhecer pessoas como David, Constantin ou Lídia, um esquimó, o pai de Aurélia, um menino de olhos negros, um guerreiro aqueu, o vigilante do Museu do Ouro, uma menina de estrela branca.

“Entre o sono e a vida, um dia de cada vez, caminhando sobre a caruma, vamos escutando e contando histórias. Uns aos outros, a nós mesmos, e àqueles que vêm depois de nós”. Inscrito na tradição oral de passar as histórias de geração em geração, “Flecha” abre-se em recados de amor à vida, nos seus “milhões de feitiços, não isentos de medo”, os sonhos apontados ao dia seguinte. Preenchendo um território tão vasto quanto o universo, as histórias brilham com o fulgor de um cometa, deixando no seu rasto símbolos, premonições, visões ou apelos. Delicadas e sensíveis como a flor da peónia, reflectem o olhar de quem vê com a alma, as imagens a nascerem de mil formas e cores, a vingarem muito além das palavras e a alojarem-se no nosso mais profundo, nesse lugar a que chamamos coração.

Pequeno em tamanho, quase um livro de bolso, mas enorme naquilo que tem para nos contar, “Flecha” é, para mim, a descoberta de uma autora fantástica. De Matilde Campilho percebo que editou em 2014 “Jóquei”, livro de poemas que recebeu excelente acolhimento. Suspeito que um e outro estarão fortemente ligados. Em “Flecha”, tal como em “Jóquei”, tudo é poesia. Na maneira como aborda os enigmas que conformam as nossas vidas, como mergulha nas tensões do nosso espaço interior, como o povoa de signos e sinais, Matilde Campilho traz a poesia para dentro destas pequenas histórias, convidando cada um de nós a descobrir-se a partir de alguém ou de alguma coisa, a partir de fora do “eu”. Cada história é um convite. Tão íntimo como um beijo no escuro.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #6



1. A pandemia da covid-19 fez com que este ano a 37.ª edição do “Jazz em Agosto” fosse cancelada. A alternativa surge com a designação de “Jazz 2020” e resulta de uma parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian, a Associação Porta-Jazz, sediada no Porto, e o Jazz ao Centro Clube, que opera em Coimbra. Assim, entre os dias 31 de Julho e 09 de Agosto, o magnífico Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação receberá o “Coreto”, formação que reúne muitos dos músicos que gravitam em torno da associação portuense, mas também o quinteto da trompetista Susana Santos Silva, “Impermanence”, e o projeto “Dentro da Janela”, comandado pelo saxofonista João Mortágua. As propostas passam ainda pelo quinteto feminino “Lantana”, a harpista Angélica Salvi, o trio “The Selva” e o pianista Daniel Bernardes com o “Drumming GP”. Coimbra receberá actuações de dois trios (o “TGB” de Sérgio Carolino, Mário Delgado e Alexandre Frazão, e a parceria entre Luís Vicente, Hugo Antunes e Pedro Melo Alves) e pelo Porto passarão o “André Rosinha Trio” e o quarteto que junta Ricardo Toscano, Rodrigo Pinheiro, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini. O programa completo pode ser consultado em https://gulbenkian.pt/musica/jazz-2020/.

2. Sob o tema “Diversidade-Investigação. O Complexo Espaço da Comunicação pela Arte”, a XXI Bienal Internacional de Arte de Cerveira está de regresso e volta a marcar o calendário nacional de eventos de 01 de Agosto a 31 de Dezembro de 2020. Mantendo-se estruturado segundo o modelo que o carateriza desde a primeira edição, em 1978, o evento integra, para além da exposição do concurso internacional e artistas convidados, onze projectos curatoriais, intervenções artísticas, conferências, conversas e visitas guiadas, oferecendo ao público as mais recentes realizações artísticas e tendências estéticas da arte moderna em Portugal e no mundo. Para além da integração de trabalhos no espaço público da ‘Vila das Artes’, e contribuindo para a descentralização cultural, o evento volta a expandir-se pelo Norte de Portugal, com exposições em Alfândega da Fé, Viana do Castelo, Vila Praia de Âncora e Monção. Reforçando a internacionalização do evento, a Fundação Bienal de Arte de Cerveira apresenta, pela primeira vez, uma edição digital que permitirá ao público a visita virtual à bienal de arte mais antiga do país e da Península Ibérica a partir de qualquer parte do mundo. Saiba tudo em https://bienaldecerveira.pt/.

3.  A Tinta-da-china acaba de lançar, numa edição limitada a duzentos exemplares e numerada, “A Cidade Que Não Existia”, do fotógrafo Alfredo Cunha. A este propósito, recuperamos as palavras de Luís Pedro Nunes: “Este não é um livro de imagens (só) sobre a Amadora. É um retrato de Portugal e dos portugueses. Revejo aquelas caras dos anos 70 na minha Escola Primária do Alentejo, todos índios, sujos e (sejamos sinceros) um pouco ranhosos. A pobreza era o denominador comum — sendo que havia um grande fosso entre o ‘remediado’ e o pobre, entre a janela do apartamento e o outro lado da ribeira. Estes são os portugueses de antes, mas também os de hoje. Nos anos 70, Alfredo fotografou na Amadora um país que já não podia existir, mas que teimosamente queria estar só no mundo. Voltou 50 anos depois para fotografar o país a ser, a rir — a querer ousar. Apanhou um país suspenso, num pânico enclausurado — a antítese do que quer para o seu trabalho. Viu ruas sem gente, caras tapadas por máscara e sem expressão, aquele momento em que se está a cair no abismo e ainda não se sabe como vai ser o impacto.” O preço de cada exemplar é de € 95,00 e vem acompanhado de uma fotografia autografada pelo autor e carimbada. Encomendas directamente com a editora em https://tintadachina.pt/produto/a-cidade-que-nao-existia-edicao-especial-fotografia/.

sábado, 4 de abril de 2020

LIVRO: "Deus-dará"



LIVRO: “Deus-dará”, 
de Alexandra Lucas Coelho 
Ed. Tinta-da-china, Novembro de 2016


“Alô, você aí dentro da nuvem, não finge que não escuta, sabia que já não tenho saco para essa pose de me-crucifiquem, essa cara de bondade eterna, esse cabelo? Por acaso você conhece alguém na Galileia com esse cabelo? Aliás, por acaso você conhece alguém na Galileia ainda? E aqui, vai-me dizer que conhece alguém? Minha mãe, por exemplo, você conhece? É que ela conhece muito bem você, mas eu ainda não vi uma prova de que você mereça. Está-me escutando, seu filho de Deus? ALÔÔÔÔÔÔÔ?” 

Começo a ler “Deus-dará” e, como de costume, a tirar algumas notas. Cedo, porém, me dou conta de que a informação é tanta e tão valiosa que prosseguir com esta tarefa se afigura empresa impossível. Por um lado, corro o risco de transcrever quase na íntegra o livro para o caderno; mas, sobretudo, percebo que, a continuar assim, irei rapidamente perder o fio à meada desta chuva em catadupa de palavras, cores, sons e perfumes, aglutinadas no viver e sentir das gentes em permanente ebulição e adoçada com o cheiro gostoso da canela que se desprende de cada gesto, de cada fala, de cada mensagem. Melhor mesmo é entregar-me por inteiro a esta estonteante canção que tem como ponto de partida o encontro entre o Velho e Novo Mundo a atar portugueses e brasileiros, gente cruzada com gente gerando gente, e que transforma cada página num grito de amor e dor, de liberdade e opressão, de beijo e agressão, de luta e de luto.

Como se quisesse contrariar a “Felicidade” de António Carlos Jobim, a autora elege a quarta-feira como o primeiro destes “sete dias na vida de São Sebastião do Rio de Janeiro”. Sete dias e sete céus, sete sóis, sete luas, sete curvas, sete chakras da energia. Sete vidas, sete dores. Sete milhões de amores, tantos quantos os habitantes da segunda cidade mais populosa do Brasil. Contando a história de Lucas, Judite, Zaca, Tristão, Inês, Gabriel e Noé, Alexandra Lucas Coelho toma-nos pela mão e faz-nos descer o Cosme Velho até aos bairros de Jacarepaguá, Água Santa, Inhaúma ou Engenho de Dentro, ao Complexo do Alemão, da Maré ou da Cidade de Deus, à ilha de Paquetá, à praia de Copacabana ou ao Corcovado, cruzando vidas e sortes que mostram até que ponto tudo muda para que tudo fique na mesma. Um “requiem tropical” que, com mais ou menos açúcar, nos vem lembrar que alguém permanece livre porque nasceu branco e exerce o poder sobre alguém escravo porque nasceu negro. 

Recorrendo ao olhar do cinema, direi que ler “Deus-dará” é assistir a um documentário ficcionado onde a maioria das sequências são filmadas num único plano, a câmara à mão, frenética, nervosa, em sobressalto constante. Há depois o zoom in e o zoom out, um olhar que pousa sobre a Serra dos Orgãos, que se abate sobre a floresta, entra no terreiro e depois na casa até se centrar em cada uma das figuras que, vestidas de branco, participam no rito da ayahuasca. Ou sobre Inês sentada à janela da Charutaria Syria, depois do plano se fechar sobre o espaço da loja, mais ainda sobre a pracinha em triângulo da Rua Buenos Aires com a estátua do Mascate, e sobre o Saara, o maior shopping a céu aberto do mundo, com as suas mais de 1200 lojas. Finalmente, o grande plano, olhos nos olhos com figuras tão distantes e distintas como Pedro Álvares Cabral ou Dirk Van Hogendorp, Machado de Assis ou Jaime Cortesão, o padre jesuíta José de Anchieta ou o imã Abdurrahman al-Baghdadi, Pêro Vaz de Caminha ou Rafael Bordalo Pinheiro, Garrincha ou o rinoceronte Ganda. Ainda Nicolau Coelho.

Com um olho na moral e outro no malandro, o que Alexandra Lucas Coelho faz é misturar a História, a Política, a Sociologia, a Etnologia e todas as restantes ciências sociais e humanas nesse enorme caldeirão fumegante que é a Cidade Maravilhosa, a pior cidade do mundo à excepção de todas as outras. Daí resulta um milhão de leituras possíveis, uma das mais claras dando conta que Portugal continua a mostrar-se incapaz de olhar o seu passado além da aventura e de reconhecer as consequências dos seus actos, persistindo em ignorar a violência do colonialismo nos discursos que produz sobre os “Descobrimentos” e em reduzir a história à auto-estima. Complementarmente, é-nos proposta uma sensacional playlist onde cabem Carmen Miranda e Jards Macalé, Luís Gonzaga e Vinicius de Moraes, João Bosco e Tom Jobim, Adriana Calcanhotto e Seu Jorge, Caetano Veloso e Chico Buarque, MC Funkero e MC Pensador, gravações feitas no Alto Rio Negro, “cosmogonias, cosmologias” e uma Avé Maria de Schubert, ao meio dia, “oferecimento altifalante da Igreja de São Judas Tadeu”. À qual acrescentaria o “irmão do meio” que, com Gabriel o Pensador, nos diz que isto anda tudo ligado. 

Não gostaria de terminar esta (anormalmente longa) recensão sem transcrever mais um excerto do livro, demonstrativo da sua força visual e da mensagem política que lhe subjaz em cada página, em cada frase: “Conforme as incursões da polícia, a cracolândia pode mover-se de quadra ou para outra favela, mas hoje não tem novidade. A kombi avança ao longo da Maré, vira à direita, estaciona. De um lado da rua, armazéns, caminhões parados; do outro, papelões, colchões, plásticos, trapos, lixo, e gente saindo de tudo isso, a ver quem chega. Cheira a podre, um funk brada: QUEM PODE ACABAR COM A GUERRA / NÃO QUER QUE A GUERRA ACABE.” Talvez porque a selva seja tão perto, talvez porque o morro seja tão alto, talvez porque a vida seja tão perigosa, talvez porque se possa pedir tudo ao Cristo, menos que ele seja o grande guarda-nocturno desta Sodoma incorrigível, parece-me não haver outra forma de o dizer: “Deus-dará” é foda!