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sábado, 21 de fevereiro de 2026

LIVRO: “Furriel Não É Nome de Pai. Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial” | Catarina Gomes



LIVRO: “Furriel Não É Nome de Pai. Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial”,
de Catarina Gomes
Ed. Tinta-da-china, Maio de 2018 (3.ª edição revista e aumentada, Janeiro de 2026)


“A passagem do tempo trocara números, baralhara postos e a ordem dos apelidos. Fernando sabia agora que, ao contrário dos dados que Rosa reunira, o pai marinheiro navegava numa LDM 408, não numa 405, não tinha o posto de artilheiro, mas de fogueiro, e, sim, chamava-se Monteiro, mas não era esse o seu último apelido. Não sabe quantos telefonemas fez, quantas mensagens enviou, quantas horas passou no arquivo, muito tempo. Pensando bem, não tanto assim. Fernando alcançou em menos de quatro meses o que Rosa perseguia há mais de vinte anos. ‘Eu, se tivesse tempo, descobria mais malta, mais velhotes’, diz-me, animado com o seu êxito. ‘Os pais estão é a acabar’.”

Em “Furriel Não É Nome de Pai”, Catarina Gomes transforma uma das zonas mais silenciadas da Guerra Colonial - travada entre 1961 e 1974 em Angola, Moçambique e Guiné - em território de investigação. Partindo de um conflito que mobilizou quase um milhão e meio de homens, a autora centra-se nas crianças nascidas de relações entre militares portugueses e mulheres africanas, marcadas pelo estigma de “filhos de tuga” ou “restos de tuga”. Longe de se limitar ao retrato emocional, Catarina Gomes ancora cada história num trabalho minucioso feito de anos de entrevistas, de cruzamento de arquivos, de contactos com associações locais como a “Fidju di Tuga” e de um acompanhamento de processos feitos de encontros e desencontros. O livro prolonga o percurso iniciado no jornal Público - e que viria a dar lugar à série documental Filhos de Tuga, exibida pela RTP -, consolidando uma investigação que dura há décadas. O resultado é uma cartografia humana do abandono, onde números, nomes e lugares - de Bissau a Lichinga, de Ingoré a Metangula — ganham espessura histórica, social e política.

A força do livro reside na forma como a autora doseia informação e emoção. Casos como o de Fernando, que tomou “furriel” por nome próprio do pai até à idade adulta, funcionam como chaves narrativas que abrem para uma realidade mais vasta. A cada testemunho - gémeos que guardam uma fotografia desbotada, filhos que apenas conhecem uma patente e um apelido - segue-se o enquadramento estrutural: a desigualdade colonial, a facilidade com que a hierarquia militar favorecia encontros fugazes, a persistência de versões auto-justificativas - “queriam levar os filhos consigo, as famílias africanas é que nunca deixavam. Sabe como é, África. A culpa não foi dos pais”. Catarina Gomes desmonta estes enredos recorrentes sem recorrer ao julgamento sumário. A autora prefere expor padrões, revelar contradições e deixar que a repetição dos relatos componha um retrato colectivo. Numa escrita clara, quase depurada, os dados surgem no momento exacto, iluminando a experiência individual sem a esmagar.

Mais do que recuperar memórias, a autora interpela o presente. Ao acompanhar cartas enviadas a embaixadas, homenagens simbólicas a “pais desconhecidos” e a expectativa depositada em irmãos portugueses que possam reconhecer laços, o livro questiona o papel do Estado e o direito à filiação e à nacionalidade. A ausência quase total de respostas paternas — “nenhum pai me contactou”, escreve — transforma-se num dado tão eloquente quanto qualquer estatística. Há, no texto, uma desilusão contida, mas também a convicção de que revelar nomes como Califa Tcham, Elizabete Malú, Mandica, Maimuna Djau, Lucia Robene ou Fernando Hengar da Silva, e de os cruzar com os de Filomena Viegas, Sara Prado, Jorge Bento ou de um tal Pimpão, é um gesto de reparação. Com rigor investigativo e uma prosa simples, mas incisiva, “Furriel Não É Nome de Pai” afirma-se como jornalismo de referência: um trabalho que, mais de meio século depois do fim da guerra, obriga Portugal a confrontar-se com as consequências humanas do seu passado colonial.

sábado, 9 de março de 2024

LIVRO: “Um Dedo Borrado de Tinta: Histórias de quem não pôde aprender a ler”



LIVRO: “Um Dedo Borrado de Tinta: Histórias de quem não pôde aprender a ler”,
de Catarina Gomes
Ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, Fevereiro de 2024


“O agá chega finalmente ao papel. Depois dele, Horácio prossegue com o desenho das outras letras do seu primeiro nome. “Primeiro é o agá, que não se lê, mas lê-se o ó à frente, eu sei que levava aqui um ó, ainda lá aprendi na escola; aqui tinha, então, aqui fazia assim um rê, assim; aqui era um a e tinha acento; aqui era um quê; ao fim, aqui à frente, era um i, é mesmo assim; e um ó.” Levava, fazia, era. São letras arrancadas ao passado.”

Não é demais sublinhar o quão preciosos são os “retratos” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, conjunto de pequenos-grandes livros publicados regularmente desde Maio de 2014 e que, da saúde à cultura, da ciência à justiça, da educação ao ambiente, das questões sociais à política, nos trazem um olhar próximo sobre a realidade do país e nos ajudam a compreender o que fomos e o que somos no Portugal de hoje. Faço este preâmbulo - em jeito de convite a que considerem a sua inclusão nas vossas listas de leitura -, na altura em que acabo de ler “Um Dedo Borrado de Tinta: Histórias de quem não pôde aprender a ler”, o mais recente volume dos “Retratos da Fundação”, da autoria de Catarina Gomes. Em seis capítulos, o livro narra as histórias de Horácio, Isabel, Conceição, Maria José, Emília e Olívia na sua relação com as letras, histórias de quem não pôde aprender a ler por razões que se prendem, entre outras, com a falta de condições económicas, com o facto de se ser menina, com a ideia feita de que “o saber não dá pão”.

Com Catarina Gomes percorremos as ruas do Casteleiro, aldeia no concelho do Sabugal. Dizia o recenseamento populacional de 2011 que era aqui, ao nível da freguesia, que existiam proporcionalmente mais analfabetos em Portugal (41,5% dos casteleirenses com mais de dez anos, contra os 5% em termos nacionais). Com ela entramos na casa de algumas pessoas que não tiveram a oportunidade de aprender a ler. São, como todos os analfabetos, “uma camada de passado ainda à mostra” e é esse passado que, nas conversas, vem à superfície. Um passado que traz consigo os manuais do Estado Novo, o quadro de ardósia que “parece triste da cor da noite” mas que “é dele que sai a luz que ensina muitos meninos ao mesmo tempo”, as longas distancias a percorrer até à escola, os castigos quotidianos e bem aceites. Um passado do qual sobraram, em muitos casos, “assinaturas disformes, mal elaboradas, deixando supor que o autor apenas possui um conhecimento vago das letras, podendo desenhá-las ao contrário.” Onde a mágoa e o ressentimento são figuras maiores num emaranhado de emoções que todos fazem por sublimar.

Apetece-me chamar-lhe “narrativa de proximidade” porque, no gesto e na palavra, é de proximidade que se faz este livro. Essa é, porventura, uma das suas marcas distintivas, que o afasta da linguagem fria e calculista dos números e das estatísticas. Lemos aquilo que cada uma destas pessoas diz e é como se estivéssemos ali, escutando a chuva que cai com força e vendo as brasas sob o caldeirão negro de ferro onde se apura um almoço de arroz com entrecosto. Ouvimos falar de “crianças com frio, malnutridas, sobrecarregadas de trabalho, crianças pequenas a tomarem conta de bebés, impedidas de ir à escola”. Vamos “à Beatriz”, a juntadora de letras, a decifradora, para que nos leia uma carta que chegou num envelope diferente, agora que o filho morreu e já não há quem leia. Visitamos a antiga escola primária, hoje reabilitada e rebaptizada “Casa da Memória”, parecendo ainda escutar os risos e brincadeiras das crianças, “às carreiras e aos pinotes”. Mais do que um mero retrato, “Um Dedo Borrado de Tinta” é todo um tempo feito de histórias de vida que importa reter. Histórias de quem não pôde aprender a ler.