Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Biografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Biografia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Paulo M. Morais



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Paulo M. Morais
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Jan 2026 | qui | 17:00


À entrada de um novo ano, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para mais um momento de pura magia à roda dos livros e da leitura. Numa sessão aguardada com enorme expectativa, Paulo M. Morais foi um interlocutor perfeito, trazendo para a tertúlia uma coloquialidade rica e sedutora e uma generosa partilha de histórias e memórias. Numa mesa onde pontificou grande parte da obra do autor, a primazia foi dada a “A Glória Efémera”, a sua última publicação. Biografia do Nobel da Medicina Egas Moniz, o livro e a conversa proporcionada geraram no público uma admiração e cumplicidade imediatas. Para os presentes, escapar a uma rotina que vive de e para a pessoa doente, e ter a possibilidade de, ainda que por um curto espaço de tempo, mergulhar no mundo das letras e seguir os caminhos da arte e da ciência de mãos dadas com Egas Moniz e o seu tempo - entre uma conturbada carreira política, os desafios da investigação científica e uma riquíssima vida interior – revelou-se precioso. Daí que todos tenham deixado a sessão de coração cheio e, estendendo a vista até ao horizonte, sentissem que, por um momento, o cinzentismo da doença se viu vestido de tantas quantas as cores de que a vida é feita.

“Eu, que já passei muito tempo num contexto hospitalar a ser tratado a um cancro, devo dizer que a leitura foi das coisas que mais me ajudou a ultrapassar esse período”, começou por referir Paulo M. Morais ao dirigir-se aos presentes a quem saudou de forma calorosa, realçando a importância de existirem espaços como este, dedicados aos livros e à leitura em ambientes improváveis. Falando de “A Glória Efémera”, o escritor lembrou a relutância que teve em aceitar o desafio do editor Rui Couceiro e o reconhecimento de alguma “dose de loucura”, no momento de dar o sim a tão grande empreitada. Ter tido um avô médico pesou certamente na decisão: “Sempre falei muito com o meu avô sobre Medicina, mais no sentido da humanidade que o médico teria que ter, do tempo a dispensar aos seus doentes e de como isso se estava a perder. Acho que o legado dessas conversas e a memória do meu avô acabou por ser muito importante, até para me identificar com o biografado e meter-me na loucura de escrever o livro.”

O trabalho de investigação tomou conta do escritor ao longo de três anos, entre 2020 e 2023, com o labor da escrita a estender-se pelos dois anos seguintes. Entretanto, uma constatação antes de arregaçar as mangas: “Tinha de analisar o que já estava escrito [sobre Egas Moniz] para ver se havia espaço para uma coisa diferente. Li a biografia escrita pelo João Lobo Antunes e achei que era uma biografia feita por um médico. Percebi que, no que respeita à parte médica, nunca conseguiria fazer melhor do que aquilo, mas também percebi que havia outras partes da vida de Egas Moniz que não estavam tão bem exploradas.” Agora que o livro já passeia pelas mãos dos leitores, importa dizer que o resultado é pautado por um notável equilíbrio, revelador do cuidado em ir ao encontro de Egas Moniz na sua vertente de investigador e médico, mas também de um aguerrido e astuto político, um tribuno vibrante, um coleccionador, escritor e empresário, um amante da tranquilidade do lar e das coisas boas da vida.

“O que senti ao avançar com a biografia é que, provavelmente, o Egas Moniz ficou demasiado afunilado ao Nobel que lhe calhou, entre aspas. Porque poderia ter ganho o Nobel pela descoberta da angiografia e, neste caso, talvez a glória não fosse tão efémera”, referiu o convidado ao explicar o porquê do título do livro. Foi o momento de falar das questões éticas relacionadas com a leucotomia, do contexto de toda uma época na qual a Psiquiatria tentava fugir ao estigma de ser o “parente pobre” das especialidades médicas, mas também de que “o próprio Egas Moniz, no final da sua vida, terá percebido que a descoberta que lhe tinha dado o Nobel já estava a cair em desuso, levando-o a temer que já não fosse ficar para a história da forma como gostaria.” De romancista a biógrafo adivinha-se um processo de transição quase natural: “O romancista está habituado a urdir a sua trama de forma prática e fluida”, diz Paulo M. Morais, acrescentando que “ajuda escrever romances e depois adoptar o princípio de ver o biografado como se fosse uma personagem e nunca lhe perder o centro. Importa dar um contexto histórico, naturalmente, mas sobretudo não nos esquecermos de que o centro é aquele homem. A premissa que utilizei foi a mesma, com a diferença de que numa biografia não se pode inventar, os factos não podem ser alterados”, disse.

Da Fundação Mário Soares à Biblioteca Nacional, dos arquivos municipais à Casa do Marinheiro e ao legado escrito do Nobel, o trabalho de pesquisa bibliográfica foi-se adensando: “Começamos a meter canas de pesca em tudo quanto é sítio. De repente percebe-se que aquela picou qualquer coisa, aquela também já deu qualquer coisa, que esta é para esquecer…”. Fruto dessa recolha, o escritor destaca a surpresa de se ter visto confrontado com os excessos da vida política nos finais da monarquia e primeira república, “a linguagem bélica dos debates parlamentares”, fazendo com que os políticos de hoje, se comparados com os de ontem, pareçam “meninos de coro”. Ainda que as qualidades de Egas Moniz enquanto homem político se pautassem pela combatividade, argúcia, capacidade de argumentação e calculismo - e Paulo M. Morais demonstra à saciedade todas essas qualidades, apoiando-se na imprensa da época -, há um particular momento da vida política do Nobel que surpreendeu o biógrafo: “A relação de Egas Moniz com Salazar nunca foi fácil e o Nobel acabou por servir de capa para as posições que viria a tomar de oposição ao Estado Novo. As entrevistas que fui encontrando de Egas Moniz são de alguém que diz abertamente que vivíamos num estado sem liberdade de expressão, que as eleições eram uma fantochada e que se sentia preso no seu próprio país.”

Aberta a tertúlia às questões do público, foi tempo de falar do processo de investigação e de um hipotético recurso à Inteligência Artificial, tentação à qual Paulo M. Morais resistiu. Caso para dizer que “A Glória Efémera” foi “o último livro que o escritor Paulo M. Morais escreveu sem recorrer à Inteligência Artificial”. Só quando o livro já estava na gráfica se permitiu o biógrafo explorar questões tão banais como “livros escritos por Egas Moniz” e enumerados pelo chat gpt, percebendo, com grande alívio, que os livros que desconhecia afinal nunca existiram. Foi também tempo de abordar as questões que envolveram a justiça do Nobel, com o escritor a lembrar o grande problema social e de saúde pública que os doentes do foro psiquiátrico representavam na altura - com oito tiros desferidos por um louco à queima-roupa, nem o próprio Egas Moniz terá sabido muito bem como escapou com vida -, as terríveis condições de internamento dos alienados em asilos, os tratamentos “horripilantes” a que eram sujeitos, aos quais se deve acrescentar o pioneirismo da Psicocirurgia, o que cauciona, na opinião de Paulo M. Morais, a atribuição do Prémio Nobel. “Uma coisa tenho a certeza: Egas Moniz era um médico profundamente humanista e eu acho que nunca teria avançado para uma intervenção se não tivesse a certeza absoluta de que aquela era a melhor solução ao seu alcance”, conclui.

Já na recta final, a conversa olha agora Egas Moniz no ambiente íntimo do lar e da família. Mas antes, uma questão “provocadora” a uma participante muito especial nesta sessão das Tertúlias Literárias, a escritora Isabel Rio Novo. Foi ela a primeira leitora de “A Glória Efémera” - “nós somos sempre o primeiro leitor um do outro” - e deixou-nos uma opinião que considera isenta: “Escrever uma biografia não é pegar em tudo aquilo que já se escreveu, ler muito bem, baralhar de novo e voltar a escrever. E o Paulo não se conformou com o muito que já existia, com o muito que já se sabia, e aí ele foi original ao descobrir coisas que ainda não tinham sido vistas.” Referindo que o livro “não é um romance, mas lê-se como um romance”, Isabel Rio Novo remata com o melhor elogio que um escritor pode receber: “Sou uma grande leitora de biografias e esta é a melhor biografia que eu já li”. Paulo M. Morais falou então do ambiente da Casa do Marinheiro - “quando todos estiverem melhor, aconselho muito uma visita à Casa-Museu Egas Moniz, em Avanca” -, de um bucolismo romântico muito presente e cuja ruralidade servia de contraponto ao cosmopolitismo das vivências sociais do médico.  Enfim, a partilha de uma última revelação: “No meio de tanta correspondência que faz parte do seu espólio não se encontra uma carta entre marido e mulher. Mesmo nos escritos autobiográficos, a relação com a Dona Elvira, companheira de uma vida, é tratada em dois ou três parágrafos. Embora, como biógrafo, consiga perceber a intenção de Egas Moniz de preservar uma certa intimidade, acho estranho que alguém que guarda tanto não tenha encontrado uma ou outra carta que valesse a pena deixar para a posteridade.”

quarta-feira, 10 de abril de 2024

LIVRO: "A Desobediente - Biografia de Maria Teresa Horta"



LIVRO: “A Desobediente - Biografia de Maria Teresa Horta”,
de Patrícia Reis
Edição | Rui Couceiro
Ed. Contraponto Editores, Março de 2024


“É uma poetisa tremenda. Falávamos muito sobre as mulheres, sobre o corpo e a sexualidade; sobre usarem o corpo como entendessem. Era uma altura, 1962, em que os preceitos relativos à honra das mulheres se situavam sobretudo na questão da virgindade. Transversal, era comum às várias ideologias, da direita à esquerda adoptava-se a moral dominante. Quando escreveu Minha Senhora de Mim, a Teresa foi a pessoa que, através da poesia, pôs a questão do corpo de uma forma directa. Antes da Teresa, as mulheres não tinham corpo da cintura para baixo. Eram como as sereias.”

Depois de Agustina Bessa-Luís, Manoel de Oliveira, José Cardoso Pires, Manuel António Pina e Natália Correia, chega-nos às mãos um novo volume da coleção “Biografias de Grandes Figuras da Cultura Portuguesa Contemporânea”, dedicado a Maria Teresa Horta e com a assinatura de Patrícia Reis. Trata-se de um livro fundamental de uma figura fundamental das nossas letras, cuja vida apaixonante é tratada pela biógrafa com imenso cuidado e afecto, elevando nela a verdade, a frontalidade e a coerência do seu carácter. Página após página, percorremos a história do país através do olhar e do sentir de Maria Teresa Horta, acérrima defensora dos ideais de justiça e liberdade, na sua luta contra o fascismo e, mais tarde, na defesa dos valores de Abril e dos princípios democráticos. A mesma pessoa que pautou a sua vida pelo posicionamento activista em favor dos direitos da mulher. Uma mulher para quem pôr em causa é como respirar.

Dividida em cinco partes, a obra explora a infância de Teresinha, marcada pela relação com uma mãe “complicada” e um pai demasiado rígido, uma certa errância, quotidianos instáveis e a influência da avó Camila na sua atracção pela escrita desde muito nova. Na juventude nasce a paixão pelo cinema (foi a primeira mulher cineclubista) e acontece, de forma casual, um primeiro acto político, ao qual muitos outros se seguirão pela vida fora, antes e depois do 25 de Abril. A sua necessidade de afirmação vê-se na recusa em continuar a assistir à missa e no casamento aos 18 anos, movida pela ânsia de ser livre, ela que “acreditava piamente que nunca se apaixonaria”. Apaixonou-se, sim, construindo um amor à prova de bala por Luís de Barros, com quem esteve casada durante 56 anos, até que a morte dele os separou fisicamente. Extensa e muito bem documentada, a primeira parte do livro “é o chão fundador de quem é a Teresa. Tudo se desenha a partir daí.”

As dimensões jornalística, feminista, escritora ou política de Maria Teresa Horta vão se abrindo como diques que se rompem. Não sendo excessiva, tudo nesta mulher parece brotar com a força de uma torrente, impressionando pela sua força e coragem. Recusando-se a encaixar na mentalidade vigente, aprendeu a sentir o dobro dos outros, a sofrer o dobro dos outros. Saber-se debaixo dos olhares da PIDE levou-a a escrever “Minha Senhora de Mim”, que viria a ser editado e rapidamente apreendido. “Para aprenderes a não escrever como escreves”, foi abordada na rua por dois homens que a espancaram, mas não lhe serviu de emenda. “Se uma mulher incomoda muita gente…”, é em parceria com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno que colabora na escrita de “Novas Cartas Portuguesas”, o que valeu às “três Marias” um processo judicial que só viria a ser encerrado após a Revolução de Abril de 1974. Fiel a si mesma e aos seus princípios, em 2011 recusou receber o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, das mãos do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, alguém, nas palavras da escritora, “determinado em destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril”. Maria Teresa Horta fará 87 anos em Maio e vale a pena conhecê-la. De mão beijada, este trabalho de Patrícia Reis oferece-nos essa possibilidade.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

LIVRO: "Tantas Palavras"



LIVRO: “Tantas Palavras”,
de Chico Buarque
Reportagem biográfica | Humberto Werneck
Ed. Companhia das Letras, Novembro 2018 (1ª republicação, Maio 2019)


“Sou Ana de vinte minutos
Sou Ana da brasa dos brutos na coxa
Que apaga charutos
Sou Ana dos dentes rangendo
E dos olhos enxutos
Até amanhã, sou Ana
Das marcas, das macas, das vacas, das pratas,
Sou Ana de Amsterdam”

“Tantas Palavras” é “todas as letras” e é, também, uma belíssima e bem humorada crónica, através da qual Humberto Werneck nos dá a ver muito do que foi e é Chico Buarque, sobretudo enquanto compositor e cantor. Começando pela parte biográfica, que abre o livro e se estende até à página 134, diria que ela é suficientemente “aligeirada” para poder ser tomada à letra (e daí, talvez, o recurso à designação de “reportagem biográfica”), mas consistente o bastante para ficarmos com uma ideia clara do viver e do sentir do cantor e de que forma isso se viu reflectido nas suas músicas. Daquilo a que Chico Buarque apelidou de “pré-história musical”, aos anos mais recentes e à viagem ao território correspondente à antiga República Democrática Alemã, onde conheceu a família do seu meio-irmão, Werneck explora todo um manancial de histórias de vida intensa e livre, narradas com a preocupação de se mostrarem na ligação às letras das músicas, muitas delas sobejamente conhecidas e que, como o leitor descobrirá, assentam em assuntos bem mais reais do que poderíamos imaginar.

“Tem mais samba no encontro que na espera / Tem mais samba a maldade que a ferida / Tem mais samba no porto que na vela / Tem mais samba o perdão que a despedida.” Os versos pertencem ao tema “Tem Mais Samba”, o primeiro a ser inscrito na extensa recolha que ocupa as restantes 360 páginas do livro. As letras encontram-se organizadas por ordem cronológica e foram inscritas por ordem alfabética dentro de cada ano. Esta, da qual retirei os quatro versos iniciais, foi escrita em 1964 - Chico tinha então 20 anos -, mas somente publicada em 1966 integrando o primeiro álbum do cantor, “Chico Buarque de Hollanda”. Sobre ela, sabemos apenas que foi composta num violão AeroWillys 1961 que o cantor baptizou de “Nelson”. Aliás, Chico adorava dar nomes de pessoas às suas coisas e, assim, o gira-discos era “Ivone”, o gravador “Alcântara”, o frigorífico “Frida” e “Julieta” o violão com o qual compôs “A Banda”. As suas peculiaridades, porém, não se ficam por aqui e, entre as peripécias que marcaram a sua infância e juventude, fica para a posteridade a primeira aparição de Chico Buarque nos jornais, não na secção cultural, antes nos casos de polícia do Jornal “Último Hora”, de S. Paulo, em artigo intitulado “Pivetes Furtaram um Carro: Presos”.

Viajar ao longo de mais de meio século de canções é uma delícia. São 336 temas que se oferecem em desafio, pedindo ao leitor que associe a cada letra a musica respectiva. Há aquelas que são imediatas - “Pedro Pedreiro”, “Meu Caro Amigo”, “Cálice”, “Construção”, “Deus lhe Pague”, “Mulheres de Atenas”, “O Que Será” ou “Partido Alto”. Outras há que associamos com facilidade a um cantor que não Chico Buarque, sendo “Ciranda da Bailarina” o caso mais flagrante, certo que estava que era obra de Adriana Calcanhotto. Muitas das letras vêm associadas a outros autores, entre os quais se destacam Edu Lobo, Toquinho, Tom Jobim, Francis Hime, Ruy Guerra ou Vinicius de Moraes. Por lá passam, ainda, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Pablo Milanés ou Silvio Rodrigues e onde Sérgio Godinho tem uma singular aparição com “Um Tempo Que Passou”. Lá está a Ditadura Militar e um fortíssimo “Hino de Duran (Hino da Repressão)” e um abraço a uma “Morena de Angola”, lá está a paródia que é “Carta ao Tom” e um pungente “Levantados do Chão”, lá está o “Fado Tropical” (com a palavra “sífilis” vetada pela censura) e esse incontornável “Tanto Mar”, verdadeiro hino ao 25 de Abril. Lá está (lá estão) “Tantas Palavras”.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

LIVRO: "O Dever de Deslumbrar"



LIVRO: “O Dever de Deslumbrar – Biografia de Natália Correia”,
de Filipa Martins
Edição | Rui Couceiro
Ed. Contraponto Editores, Março de 2023


“O arrebite irónico que Martins Gomes lhe imprimiu nos lábios serve de faísca à provocação: quem a via passar, julgava que as árvores ganhavam vida por se verem testemunhas da sua beleza de juventude; porém, foram as ideias e a poética de Natália que deram voz à floresta. Vaticinou, em A Vinha e a Lira, que “os sonhos vão erguer-se sobre as patas traseiras e as árvores vão gritar o seu direito ao voto”. Estávamos em 1966. A obra foi, naturalmente, censurada e recolhida pela PIDE, mas as ideias germinaram, não se ficando pelo cair da folha.”

Peguei no livro, tomei-lhe o peso, apreciei-lhe a capa e, antes de virar a primeira página, perguntei-me: Que sei eu de Natália Correia? Muito pouco, constatei à medida que a leitura avançava, a começar pela sua figura, feita daquele “tipo de beleza que atrai desgraças”. Conhecia-a enquanto escritora, dramaturga, poeta e ensaísta, mas não fazia ideia que a maior parte da sua obra, no período anterior ao 25 de Abril, sofrera tão duramente o peso da censura. Adivinhava-lhe as convicções políticas inabaláveis, mas estava longe de a ver empenhada em lutas duríssimas das quais não tinha como sair vencedora. Lembrava-me da sua língua afiada na tribuna da Assembleia da República, mas não a sabia “imatura no desamparo perante as coisas práticas da vida”. Por cima da voz de José Mário Branco, cantava a sua “Queixa das Almas Jovens Censuradas”, mas ignorava que ela própria, Natália, dera corpo a muitas outras “queixas” de muitas outras “almas”.

Estas e outras surpresas – muitas outras, devo dizer -, transformam a leitura de “O Dever de Deslumbrar” numa fascinante viagem ao encontro daquilo que Natália Correia soube (e quis) ser ao longo de quase sete décadas de vida. Uma vida intensamente vivida, que a levou a amar e a ser amada, na exacta medida em que foi odiada e odiou. Atenta, metódica, exímia na forma como soube tirar partido da sua enorme inteligência e perspicácia, “abominou a mediocridade, venerou a beleza, pugnou pela diferença e sacralizou a liberdade.” Em momentos da mais feroz repressão “deu o corpo às balas”, defendendo sempre que a intervenção política era uma “obrigação dos poetas”. Questionou, lutou, obstinou-se, porfiou, insultou, amuou. Insistiu, resistiu. Foi uma mulher de causas e fez da Cultura, da Mulher e dos Direitos Humanos, lutas maiores. Ganhou amigos para a vida, incompatibilizou-se irremediavelmente com outros, mas nunca se deixou surpreender por nada nem por ninguém. Ficamos com a recordação de uma mulher contundente, visceral, provocadora, mas de uma humanidade sem limites. E ficamos, também, com uma obra à sua imagem: Forte, generosa, talentosa e imensamente livre.

É neste inesgotável manancial de águas, entre o turvo e o cristalino, que Filipa Martins vai beber um conjunto de acontecimentos absolutamente extraordinários, cruzando-os com os lugares e os tempos do século XX português. É notável a forma como a biografia está construída, oferecendo múltiplas pistas para a compreensão da pessoa biografada. Apaixonada e apaixonante, a narrativa reflecte o apego da autora à sua biografada, a sua profunda admiração. São muitas as pontas deixadas propositadamente à solta, elementos criadores de tensão que tornam a leitura empolgante. Dou como exemplo o período entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro, narrado com um ritmo e uma intensidade alucinantes, a ponto de deixar o leitor sem fôlego. A elegância do fraseado, a ponta de ironia, o humor requintado, o aparte certeiro, a cadência certa no sequenciar da narrativa, colam Filipa Martins a Natália Correia no que tem de inteligência, combatividade e energia. Uma contaminação que gosto de ver no próprio título de um livro que me deixou deslumbrado. Uma e outra cumpriram bem o seu dever.

sábado, 12 de junho de 2021

LIVRO: "O Anjo Pornográfico - A Vida de Nelson Rodrigues"



LIVRO: “O Anjo Pornográfico - A Vida de Nelson Rodrigues”,
de Ruy Castro
Ed. Tinta-da-china, Agosto de 2017


“Escrevo à noite. Vem na aragem noturna um cheiro de estrelas. E, súbito, eu descubro que estou fazendo a vigília dos pastores. Aí está o grande mistério. A vida do homem é esse vigília e nós somos eternamente os pastores. Não importa que o mundo esteja adormecido. O sonho faz quarto ao sono. E esse diáfano velório é toda a nossa vida. O homem vive e sobrevive porque espera o Messias. Neste momento, por toda a parte, onde quer que exista uma noite, lá estarão os pastores - na vigília docemente infinita. Uma noite, Ele virá. Com suas sandálias de silêncio entrará no quarto da nossa agonia. Entenderá nossa última lágrima de vida.”

Comecei a ler “O Anjo Pornográfico” sem saber ao que ía. “A Vida de Nelson Rodrigues”, em complemento ao título, fornecia uma boa pista, mas eu nunca ouvira falar de Nelson Rodrigues. A espessura do livro e o tamanho da letra e das próprias páginas pareciam levar-me na direcção de um qualquer tipo de auto-de-fé masoquista. Escusado será dizer que, página após página, a figura de Nélson Rodrigues foi surgindo como peça principal de um enorme puzzle, cada vez mais nítida, até nos oferecer a imagem grandiloquente do repórter, crítico, cronista, contista e dramaturgo, mas também da pessoa no que ela tem de mais humano, com todas as suas forças e fraquezas, tanto físicas quanto morais. À sua volta descobriu-se uma imensa plêiade de figuras que, ao longo de sete décadas, ajudaram a construir o Brasil que hoje reconhecemos. E eis como, de forma genial, Ruy Castro nos mostra o quanto Nelson Rodrigues foi, à sua maneira, uma das figuras mais influentes do século XX no país irmão.

Só os grandes biógrafos conseguem escrever assim. Ruy Castro aprendeu a ler com “A vida como ela é…”, o interminável folhetim publicado inicialmente no jornal “Última Hora”. Desde então seguiu-o pelos jornais e leu mais Nelson Rodrigues do que qualquer outro autor nacional ou estrangeiro. Assistiu a quase todas as suas peças, viu-o na televisão, na rua, em casa de amigos, no Maracanã e, em 1967, foi seu colega de trabalho no “Correio da Manhã”. Almoçaram juntos algumas vezes e chegou a entrevistá-lo. Este profundo conhecimento do biografado foi importante no momento de passar para o papel a vida de Nelson. Mais importante, porém, é a sua capacidade de reunir todas as personagens, de as dispor em palcos de cores vivas espalhados pelo Rio de Janeiro, de desdobrar as histórias e de trazer as suas emoções para as páginas do livro. Então, aproximando-se do leitor, coloca o braço suavemente sobre o seu ombro, olha-o nos olhos e conta-lhe histórias do jeito mais simples, quase brincalhão, com a linguagem do quotidiano onde abundam as palavras e as expressões que reconhecemos de telenovelas como “Gabriela” ou “Dona Xepa”.

Na sua extraordinária forma de percorrer os fios da História, o autor oferece-nos a possibilidade de entrever as linhas com que Nélson Rodrigues coseu 68 anos de uma vida plena. Para uns um génio ou um santo, para outros um canalha, um tarado, um reaccionário, Nélson Rodrigues fez parte dos jornais e revistas no berço, na plenitude e na morte. Atravessou todas as revoluções gráficas, estilísticas e empresariais da imprensa naquele período e acompanhou de perto todas as transformações políticas do Brasil. Numa delas, a de 1930, esteve no lugar da vítima. Conheceu de perto os poderosos e, ao mesmo tempo, era um homem identificado com o povo. A televisão tornou-o ainda mais popular, fazendo com que as pessoas passassem a ligar o nome à figura. E foi também o inventor do teatro brasileiro moderno, saboreando sucessos imensos a par de alguns fracassos. Tinha muito para contar e sabia contar como ninguém. Ruy Castro conta-o aqui na mesma medida, provando que, tal como na vida, também as biografias podem agigantar-se e revelar-se muito além das aparências.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

LIVRO: "Egas Moniz - Uma Biografia"



LIVRO: “Egas Moniz – Uma Biografia”,
de João Lobo Antunes
Edição | Guilherme Valente
Ed. Gradiva Publicações, Dezembro de 2010 (1ª edição)


“Egas começava a escrever a receita quando o doente, que estava à sua direita, inicia os disparos. O primeiro tiro atinge a mão direita e a caneta salta-lhe da mão, salpicando de tinta a receita, cuja imagem ele inclui nas ‘Confidências’. Depois, conta Egas, ‘desviando-se para as minhas costas, ainda por excesso de precaução, despejou as cargas da pistola automática’. Só à quinta bala Egas toma consciência de que estava a ser atacado e ainda tenta pegar num tinteiro para arremessar ao agressor, mas a mão não obedece. Recebe mais dois tiros. O oitavo falha por pouco o abdómen.”

Egas Moniz não foi nenhum “santo”. De um ambição avassaladora e de uma vaidade imensa, a sua vida foi pautada por momentos de verdadeiro “film noir” aos quais não faltou “sexo (escrito) e violência (que o ia matando)”. A um tempo profundamente idealista e realista, Egas Moniz veio a desvendar-se numa personalidade complexa que, se lhe valeu o mais elevado galardão que um médico pode receber – o Prémio Nobel -, também lhe trouxe dissabores e dilemas assentes nas inúmeras querelas que manteve. Entre a fidalguia rural, onde se esteiam as suas raízes, e o cosmopolitismo de um homem da sociedade lisboeta, “amigo dos poderosos e apreciador das coisas boas da vida”, o seu percurso tropeçou frequentemente em desvios e incoerências, mas seguiu sempre, no firme propósito da superioridade da sua vontade.

Respondendo a um desígnio de ordem familiar e afectiva – enraizado no facto de ser sobrinho-neto de Almeida Lima, braço direito de Egas Moniz e fundador da neurocirurgia portuguesa, e filho de João Alfredo Lobo Antunes, a quem Egas entregou o laboratório de neuropatologia –, João Lobo Antunes traça um retrato vigoroso do médico, político e escritor, não sem assumir que “esta é apenas uma biografia de Egas Moniz, neste caso a minha interpretação da sua vida e obra.” Estruturando o texto numa base cronológica, o autor valoriza os momentos mais marcantes da vida de Egas Moniz – dos tempos difíceis da sua infância e juventude à conquista do Nobel e à consagração tranquila, passando pelo “conspirador e político até à medula”, pelo cientista improvável e tardio ou pela década do atentado. Enriquece-os com notas de rodapé recheadas de apontamentos de carácter biográfico, textos científicos e ensaios afins, incentivando o leitor a complementar a informação e a alargá-la a partir da sua própria pesquisa em fontes citadas ou outras.

Olhando a obra no seu todo, faltou a João Lobo Antunes brincar na Quinta do Marinheiro com os manos António, Miguel e Lucianinha, sentar-se ao lado do “Abadinho” nos bancos de escola em Pardilhó, viver o retiro do Colégio de S. Fiel, ser chamado à pedra em Coimbra, abraçar lutas políticas no parlamento, antecipar uma recepção em sua casa a convidados ilustres, sentar-se em frente a uma requintada travessa de ortolans no Le Chapon Fin de Bordéus, ver Egas chegar a casa com um quadro de António Reis debaixo do braço, registar um progresso inesperado nos trabalhos científicos, seguir pelos corredores da Casa do Telhal ao lado de um doente recém leucotomizado, baixar a uma cama de hospital com o corpo crivado de balas ou recolher-se no escritório, o telegrama a anunciar a atribuição do Prémio Nobel nas mãos trementes. Não que estes episódios escapem à obra, mas falta a suprema cola da ficção a ligá-los. Essa arte não a demonstrou Lobo Antunes, fazendo com que o lado racional se sobreponha ao lado mais humano do biografado. É inegável, contudo, o interesse deste livro, na particular vertente da História da Medicina, oferecendo um conjunto de conhecimentos que vão muito além da simples curiosidade.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

LIVRO: "Sophia"



LIVRO: “Sophia”,
de Isabel Nery
Ed. A Esfera dos Livros, Maio de 2019


“Esta não é uma biografia autorizada. Esta não é uma biografia da que sempre foi princesa. Esta não é uma biografia para Sophia.
Esta é antes uma biografia sobre Sophia, uma demonstração de que a sua criação ganhou vida própria e não depende já exclusivamente das vontades da autora. Pertence aos leitores, aos portugueses – e ao mundo.”

Normalmente, é-me muito difícil encontrar as palavras certas para falar daquilo que um livro me oferece, quando o livro em questão é muito bom (talvez a expressão “ficar sem palavras” faça aqui algum sentido). “Sophia”, biografia não autorizada da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen – que faria hoje cem anos, caso fosse viva -, é uma das raras excepções a esta regra deveras pessoal. Não é custoso verter em palavras um olhar repleto das mais belas imagens, fruto de uma escrita generosa e que acrescenta história, cultura e conhecimento ao leitor. O gozo que me deu descobrir (!) Sophia. O quanto intuí nos seus silêncios, o quanto vibrei com a coragem da sua escrita, o quanto me ri com algumas das suas tiradas lapidares, o quanto sofri com a sua dor.

Atravessando o século XX português, a história de Sophia de Mello Breyner Andresen confunde-se com a do próprio país e disso nos dá conta esta sua biografia. Desse longínquo 6 de Novembro de 1919, dia do nascimento da poeta, aos alvores do século XXI e à sua morte, sobrevinda em 02 de Julho de 2004, é ao seu encontro que vamos, numa viagem por mares nem sempre bonançosos. Através de olhos que poderiam ser os seus, espreitamos o ambiente depauperado da Nação na primeira República, a ascensão e consolidação do Estado Novo, as “mãos horrorosas dos fascistas”, a resistência feita palavra e presença; e, depois, “o dia inicial inteiro e limpo”, os trabalhos na Constituinte, os conturbados momentos do PREC com um sequestro pelo meio, até à defesa da cultura, do alto da bancada socialista ou ao Prémio Camões, em 1999, pela primeira vez outorgado a uma mulher.

Mas “Sophia” não é apenas História e não é apenas política. É igualmente uma viagem que une o Porto, Lisboa e Lagos, três vectores em solo pátrio, a uma Grécia pela qual se apaixonou, que passou a ver em tudo e que serviu de inspiração a uma significativa parte da sua obra. É também uma viagem ao encontro da sociedade aristocrática na qual nasceu e viveu, mas também da gente comum, como a empregada Luísa, autêntica “coluna de Hércules” da família, ou os pescadores que, de barco a remos, a levavam a visitar as grutas da Ponta da Piedade. É privar com alguns dos maiores vultos da nossa história recente, como Mário Soares ou Manuel Alegre, Jorge de Sena ou Graça Morais, Eduardo Lourenço ou José Saramago, entre tantos e tantos outros. É mergulhar no espaço conjugal de “Tareco e Xixa”, descobrir em Francisco Sousa Tavares o “pior condutor de automóveis do mundo” e, recuando gerações, conhecer o avô Thomaz de Mello Breyner, o médico das “moléstias vergonhosas”, ou ir ao início de tudo quando, numa manhã de verão de 1840, Jan Hinrich Andresen, com 14 anos apenas, chegou ao Porto para dar início a uma bela história. Tudo isto envolto na sua obra, sempre presente, dos contos infantis e dos textos de não ficção à poesia. Sobretudo à poesia.

As últimas palavras vão para Isabel Nery, autora de “Sophia”, uma biografia que faz jus ao nome e à relevância da poeta. Nela soube a autora encontrar o tom certo para oferecer ao leitor a novidade da descoberta, os factos que acrescentam conhecimento, a emoção que gera empatia, transformando a leitura destas mais de trezentas páginas num enorme prazer. Perante ela me curvo pela forma como, inspiradamente, soube trabalhar e montar um verdadeiro “puzzle” - de pesquisa, viagem e encontros feito – para o tornar límpido e puro, “livre como o vento e repetido / como o florir das ondas ordenadas”. Louvo ainda Isabel Nery pela sua honestidade moral e intelectual posta ao serviço da obra e da poeta, mas sobretudo dos leitores. A forma como a autora nos introduz “Sophia” é desarmante. Mais do que mostrar-nos ao que vamos, dá-nos a absoluta confiança, a certeza, desde a primeira linha, de estarmos perante uma biografia superlativa. “Numa altura em que tantas vezes parecemos moralmente dormentes, aprofundar o conhecimento sobre a autora e os seus escritos é o melhor tributo que lhe podemos deixar”, diz Isabel Nery. A vontade de ler mais Sophia, de saber mais de Sophia, cresceu em mim, reforçou-se, é agora imensa. A mensagem passou!