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terça-feira, 19 de setembro de 2023

LIVRO: "Tantas Palavras"



LIVRO: “Tantas Palavras”,
de Chico Buarque
Reportagem biográfica | Humberto Werneck
Ed. Companhia das Letras, Novembro 2018 (1ª republicação, Maio 2019)


“Sou Ana de vinte minutos
Sou Ana da brasa dos brutos na coxa
Que apaga charutos
Sou Ana dos dentes rangendo
E dos olhos enxutos
Até amanhã, sou Ana
Das marcas, das macas, das vacas, das pratas,
Sou Ana de Amsterdam”

“Tantas Palavras” é “todas as letras” e é, também, uma belíssima e bem humorada crónica, através da qual Humberto Werneck nos dá a ver muito do que foi e é Chico Buarque, sobretudo enquanto compositor e cantor. Começando pela parte biográfica, que abre o livro e se estende até à página 134, diria que ela é suficientemente “aligeirada” para poder ser tomada à letra (e daí, talvez, o recurso à designação de “reportagem biográfica”), mas consistente o bastante para ficarmos com uma ideia clara do viver e do sentir do cantor e de que forma isso se viu reflectido nas suas músicas. Daquilo a que Chico Buarque apelidou de “pré-história musical”, aos anos mais recentes e à viagem ao território correspondente à antiga República Democrática Alemã, onde conheceu a família do seu meio-irmão, Werneck explora todo um manancial de histórias de vida intensa e livre, narradas com a preocupação de se mostrarem na ligação às letras das músicas, muitas delas sobejamente conhecidas e que, como o leitor descobrirá, assentam em assuntos bem mais reais do que poderíamos imaginar.

“Tem mais samba no encontro que na espera / Tem mais samba a maldade que a ferida / Tem mais samba no porto que na vela / Tem mais samba o perdão que a despedida.” Os versos pertencem ao tema “Tem Mais Samba”, o primeiro a ser inscrito na extensa recolha que ocupa as restantes 360 páginas do livro. As letras encontram-se organizadas por ordem cronológica e foram inscritas por ordem alfabética dentro de cada ano. Esta, da qual retirei os quatro versos iniciais, foi escrita em 1964 - Chico tinha então 20 anos -, mas somente publicada em 1966 integrando o primeiro álbum do cantor, “Chico Buarque de Hollanda”. Sobre ela, sabemos apenas que foi composta num violão AeroWillys 1961 que o cantor baptizou de “Nelson”. Aliás, Chico adorava dar nomes de pessoas às suas coisas e, assim, o gira-discos era “Ivone”, o gravador “Alcântara”, o frigorífico “Frida” e “Julieta” o violão com o qual compôs “A Banda”. As suas peculiaridades, porém, não se ficam por aqui e, entre as peripécias que marcaram a sua infância e juventude, fica para a posteridade a primeira aparição de Chico Buarque nos jornais, não na secção cultural, antes nos casos de polícia do Jornal “Último Hora”, de S. Paulo, em artigo intitulado “Pivetes Furtaram um Carro: Presos”.

Viajar ao longo de mais de meio século de canções é uma delícia. São 336 temas que se oferecem em desafio, pedindo ao leitor que associe a cada letra a musica respectiva. Há aquelas que são imediatas - “Pedro Pedreiro”, “Meu Caro Amigo”, “Cálice”, “Construção”, “Deus lhe Pague”, “Mulheres de Atenas”, “O Que Será” ou “Partido Alto”. Outras há que associamos com facilidade a um cantor que não Chico Buarque, sendo “Ciranda da Bailarina” o caso mais flagrante, certo que estava que era obra de Adriana Calcanhotto. Muitas das letras vêm associadas a outros autores, entre os quais se destacam Edu Lobo, Toquinho, Tom Jobim, Francis Hime, Ruy Guerra ou Vinicius de Moraes. Por lá passam, ainda, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Pablo Milanés ou Silvio Rodrigues e onde Sérgio Godinho tem uma singular aparição com “Um Tempo Que Passou”. Lá está a Ditadura Militar e um fortíssimo “Hino de Duran (Hino da Repressão)” e um abraço a uma “Morena de Angola”, lá está a paródia que é “Carta ao Tom” e um pungente “Levantados do Chão”, lá está o “Fado Tropical” (com a palavra “sífilis” vetada pela censura) e esse incontornável “Tanto Mar”, verdadeiro hino ao 25 de Abril. Lá está (lá estão) “Tantas Palavras”.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

LIVRO: "Anos de Chumbo e Outros Contos"



LIVRO: “Anos de Chumbo e Outros Contos”,
de Chico Buarque
Ed. Companhia das Letras, Novembro de 2021


“Busquei abrigo no Copacabana Palace, onde Pablo Neruda me contou que Romy Schneider também tinha síndrome do pânico. Tudo começou quando ela descobriu que o tio Adolfo, que a sentava no colo e beijava suas bochechas de criança, outro não era senão Adolf Hitler, íntimo de sua mãe. Daí compreendi o ar angustiado com que ela me pediu um cigarro na piscina do hotel. Ficou desolada ao saber que eu não fumava Chesterfield, e o Continental sem filtro que lhe ofereci se molhou com a chuva grossa que só chovia em cima dela.”

Não é correcto dizer que nunca li nada de Chico Buarque. Autor e intérprete de canções que marcam várias gerações, são dele poemas tão intensos e belos como “Caçada”, “Sem Açucar”, “O Que Será (À Flor da Pele)”, “O Meu Amor”, “Folhetim”, “A Banda”, “Construção” ou “Geni e o Zepelim”, que muitos de nós serão capazes de recitar sem hesitações da primeira à última estrofe. Neste início de ano, porém, calhou de sentir vontade de ver Chico Buarque para além das suas canções, elegendo para tal “Anos de Chumbo e Outros Contos”, oitavo livro da “maturidade de Chico”. Conjunto de oito contos ditados ao correr da pena, súmula das vivências e dos sonhos que acompanham Chico Buarque desde a adolescência, o livro revela-se uma agradável surpresa, quer pela diversidade de histórias, quer pelo jeito muito particular de as contar, com leveza mas, sobretudo, com imensa graça.

Detenho-me em “Para Clarice Lispector, com Candura”, um dos contos deste livro. Não o faço por acaso. Ter lido muito recentemente “Todas as Crónicas”, livro onde se reúnem as colaborações de Clarice Lispector com vários orgãos da imprensa brasileira, faz-me ter muito presente a admiração que a escritora nutria pelo cantor, alvo de referências várias nos seus textos. Este conto de Chico Buarque surge em forma de retribuição e agradecimento, mas é também uma homenagem a Clarice. Encarnando a personagem de um jovem aprendiz de poeta a quem a escritora dá guarida, acolhendo-o em sua casa e propondo-se rever os seus poemas, Chico Buarque revela o quanto de dúbio pode haver numa relação. Para quem conhece minimamente Lispector e a sua mundividência, quanto mais não seja pela leitura das crónicas, encontra neste conto uma contextualização muito particular, da mão direita horrivelmente queimada ao retrato de De Chirico, da criada despedida à nova cozinheira de mão-cheia, dos quiproquós com a editora por causa da pontuação ao seu desejo de “alimentar todas as crianças famintas, abrigar todas as criaturas abandonadas do Brasil”.

Embora se perceba que nem todos os contos têm a mesma qualidade, são em número superior aqueles que se revelam preciosos, contribuindo para que o livro seja merecedor de leitura atenta. Entre estes, não posso deixar de destacar “Copacabana”, um conto que nos revela o cosmopolitismo de uma cidade como o Rio de Janeiro nos anos 60 e o “sonho acordado” de um jovem de dezasseis anos que se cruza com Ava Gardner e Richard Burton, Romy Schneider e John Huston, os escritores Pablo Neruda e Jorge Luís Borges. Por outro lado, “O Passaporte” é um caricatural auto-retrato de um Chico Buarque enquanto “grande artista”, a braços com as reacções de um público que o odeia mais do que o ama. Se vemos num conto uma imensa ternura, logo outro nos revela o sentido mais perverso do ser humano. A pureza e a sordidez misturam-se no espaço de um parágrafo, evidenciando um olhar agudo sobre a sociedade, um apurado sentido crítico e um forte domínio da linguagem por parte do seu autor. Ler “Anos de Chumbo e Outros Contos” não será nunca tempo perdido.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

CONCERTO: "Caravanas"



CONCERTO: “Caravanas”,
de Chico Buarque
Coliseu do Porto
02 Jun 2018 | sab | 21:30


“Minha embaixada chegou / Deixa meu povo passar / Meu povo pede licença / Pra na batucada desacatar". Os versos de “Minha Embaixada Chegou”, escritos pelo compositor baiano Assis Valente para a voz de Carmen Miranda, fizeram-se ouvir 84 anos depois no lotadíssimo Coliseu do Porto. Foi com esse samba altivo que o “resistente” Chico Buarque e a sua banda abriram alas para passar com “Caravanas”, nome do último álbum de originais do cantor, compositor e músico carioca, num muito saudado regresso aos palcos portugueses, doze anos após a sua última actuação no nosso País.

Num alinhamento com três dezenas de canções, o álbum “Caravanas” esteve presente na íntegra, servindo de inspiração e orientação a todo o espectáculo. Fica assim bem vincada a força da música e dos poemas deste trabalho da maturidade absoluta, onde sobressaem temas como “Blues pra Bia”, “Massarandupió” (escrito em parceria com o seu neto Chico Brown), “Tua Cantiga”, “Jogo de Bola”, “Moça do Sonho” ou o lindíssimo “Dueto”, cantado em conjunto com Clara Buarque, a neta do cantor. Trata-se duma verdadeira obra prima, música e letras fundidas no aconchego e na felicidade de 73 anos do mais maravilhoso que a vida pode dar, para mim o melhor dos 38 álbuns que o cantor gravou em estúdio ao longo da sua carreira.

Entre canções de amores intemporais ou de cariz político e social, Chico Buarque revisitou uma obra que se vem construindo desde 1964 e da qual repescou, entre outros, temas como “Injuriado”, “A Volta do Malandro”, “A História de Lily Braun”, “As Vitrines”, “Futuros Amantes” ou “Geni e o Zepelim”, remetendo para álbuns emblemáticos como “Gota d’Água” (1977), “Almanaque” (1981), “O Grande Circo Místico” (1983), “Malandro” (1985), “Ópera do Malandro” (1986), “Paratodos” (1993) ou “As Cidades” (1998). O concerto serviu igualmente para lembrar parceiros como Edu Lobo, Jorge Helder e Antonio Carlos Jobim, de cuja obra em conjunto o cantor reviveu “Retrato em Branco e Preto” e a canção de exílio “Sabiá”. O malogrado compositor e baterista carioca Wilson das Neves mereceu uma saudação especial, com Chico Buarque a dedicar-lhe o concerto “Caravanas” e a interpretar “Grande Hotel”, canção extraída do álbum de 1996, “Som Sagrado de Wilson das Neves”, lançado em parceria por ambos. Já no segundo “encore”, Chico Buarque pôs termo ao concerto da forma mais previsível, repescando “Tanto Mar”, do álbum com o seu nome, gravado em 1978.

“Sei que estás em festa pá…”, cantou-se gargantas ao alto na sala, embora a realidade deste concerto tenha ficado muito aquém da tão desejada festa. Chico Buarque, a sua poesia e o seu intimismo, evidenciaram de forma absoluta a falta de condições a todos os títulos duma sala como a do Coliseu do Porto. O som esteve péssimo, as cadeiras são desconfortáveis, os lugares mais recuados da plateia não oferecem condições de visibilidade e não há qualquer controlo do público no interior na sala. Está-se num concerto como quem está numa feira, as conversas constantes para o lado, os telemóveis a dispararem ininterruptamente, a gritaria a impor-se às melodias. Há, contudo, duas conclusões a tirar desta péssima experiência, ambas positivas. A primeira é a de que temos em Estarreja, Albergaria a Velha, Sever do Vouga, Santa Maria da Feira, S. João da Madeira, Ovar, Águeda ou Ílhavo salas de excelência, tanto nas condições que oferecem ao espectador como na qualidade das suas programações. E, depois, que não volto a gastar um tostão com idas ao Coliseu. Nem que seja o próprio Chico a pedir-me!