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quarta-feira, 6 de junho de 2018

CONCERTO: "Caravanas"



CONCERTO: “Caravanas”,
de Chico Buarque
Coliseu do Porto
02 Jun 2018 | sab | 21:30


Minha embaixada chegou / Deixa meu povo passar / Meu povo pede licença / Pra na batucada desacatar". Os versos de “Minha Embaixada Chegou”, escritos pelo compositor baiano Assis Valente para a voz de Carmen Miranda, fizeram-se ouvir 84 anos depois no lotadíssimo Coliseu do Porto. Foi com esse samba altivo que o “resistente” Chico Buarque e a sua banda abriram alas para passar com “Caravanas”, nome do último álbum de originais do cantor, compositor e músico carioca, num muito saudado regresso aos palcos portugueses, doze anos após a sua última actuação no nosso País.

Num alinhamento com três dezenas de canções, o álbum “Caravanas” esteve presente na íntegra, servindo de inspiração e orientação a todo o espectáculo. Fica assim bem vincada a força da música e dos poemas deste trabalho da maturidade absoluta, onde sobressaem temas como “Blues pra Bia”, “Massarandupió” (escrito em parceria com o seu neto Chico Brown), “Tua Cantiga”, “Jogo de Bola”, “Moça do Sonho” ou o lindíssimo “Dueto”, cantado em conjunto com Clara Buarque, a neta do cantor. Trata-se duma verdadeira obra prima, música e letras fundidas no aconchego e na felicidade de 73 anos do mais maravilhoso que a vida pode dar, para mim o melhor dos 38 álbuns que o cantor gravou em estúdio ao longo da sua carreira.

Entre canções de amores intemporais ou de cariz político e social, Chico Buarque revisitou uma obra que se vem construindo desde 1964 e da qual repescou, entre outros, temas como “Injuriado”, “A Volta do Malandro”, “A História de Lily Braun”, “As Vitrines”, “Futuros Amantes” ou “Geni e o Zepelim”, remetendo para álbuns emblemáticos como “Gota d’Água” (1977), “Almanaque” (1981), “O Grande Circo Místico” (1983), “Malandro” (1985), “Ópera do Malandro” (1986), “Paratodos” (1993) ou “As Cidades” (1998). O concerto serviu igualmente para lembrar parceiros como Edu Lobo, Jorge Helder e Antonio Carlos Jobim, de cuja obra em conjunto o cantor reviveu “Retrato em Branco e Preto” e a canção de exílio “Sabiá”. O malogrado compositor e baterista carioca Wilson das Neves mereceu uma saudação especial, com Chico Buarque a dedicar-lhe o concerto “Caravanas” e a interpretar “Grande Hotel”, canção extraída do álbum de 1996, “Som Sagrado de Wilson das Neves”, lançado em parceria por ambos. Já no segundo “encore”, Chico Buarque pôs termo ao concerto da forma mais previsível, repescando “Tanto Mar”, do álbum com o seu nome, gravado em 1978.

“Sei que estás em festa pá…”, cantou-se gargantas ao alto na sala, embora a realidade deste concerto tenha ficado muito aquém da tão desejada festa. Chico Buarque, a sua poesia e o seu intimismo, evidenciaram de forma absoluta a falta de condições a todos os títulos duma sala como a do Coliseu do Porto. O som esteve péssimo, as cadeiras são desconfortáveis, os lugares mais recuados da plateia não oferecem condições de visibilidade e não há qualquer controlo do público no interior na sala. Está-se num concerto como quem está numa feira, as conversas constantes para o lado, os telemóveis a dispararem ininterruptamente, a gritaria a impor-se às melodias. Há, contudo, duas conclusões a tirar desta péssima experiência, ambas positivas. A primeira é a de que temos em Estarreja, Albergaria a Velha, Sever do Vouga, Santa Maria da Feira, S. João da Madeira, Ovar, Águeda ou Ílhavo salas de excelência, tanto nas condições que oferecem ao espectador como na qualidade das suas programações. E, depois, que não volto a gastar um tostão com idas ao Coliseu. Nem que seja o próprio Chico a pedir-me!

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