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terça-feira, 24 de março de 2026

TEATRO: "O Colar" | Sophia de Mello Breyner



TEATRO: “O Colar”
Texto | Sophia de Mello Breyner
Adaptação e encenação | Leandro Ribeiro
Coreografia | Eduarda Terra
Cenários, figurinos, desenho de luz, desenho de som | Leandro Ribeiro
Interpretação | João Assunção, Maria Silva, Francisco Fidalgo, Sara Oliveira, Sofia Miguel Costa, Maria Eduarda Terra, Simão Baldaia, Alexandre Pinto, Maria Inês Campos
Produção | Sol d’Alma - Associação de Teatro
90 Minutos | Maiores de 6 Anos
Auditório do Sol d’Alma
21 Mar 2026 | sab | 18:00


Ao olharmos o lado teatral de Sophia de Mello Breyner Andresen, reconhecemos nele um território breve mas revelador no interior da sua obra: apenas cinco peças, sendo “O Colar” (2001) a última, como se nesse gesto final se condensasse uma pulsação dramática sempre latente na sua escrita. Há, de facto, na sua poesia e na sua prosa — sobretudo na destinada à infância — uma teatralidade essencial, feita de vozes que se erguem com nitidez, de gestos que pedem corpo e espaço, vocação confirmada pelas sucessivas adaptações cénicas dos seus textos. Nesse sentido, saúde-se a escolha do Sol d’Alma em levar à cena “O Colar”, não como simples transposição, mas como revelação de algo que é material essencial no ADN da companhia: o apelo à presença, ao dizer incarnado. E, desde o primeiro instante, reconhece-se essa limpidez inconfundível numa linguagem depurada, quase austera, mas atravessada por uma densidade moral e simbólica que cintila como água ao sol, como se cada palavra tivesse sido longamente polida pela memória do mar.

Na tessitura desta adaptação, preserva-se essa claridade inaugural, ainda que atravessada por uma escolha estrutural importante: a supressão do terceiro acto. Tal economia, sendo eficaz na forma como concentra a acção na paixão de Vanina por Pietro Alvisi, altera necessariamente o ritmo respiratório da obra, comprimindo o seu fôlego mais amplo. Com esta decisão perde-se a dimensão contemplativa do amor da escritora pelo mar e pela Grécia, um espaço de suspensão que aqui se rarefaz. Perdem-se ainda alguns momentos de graça que a surpreendente Sofia Miguel Costa acrescenta à peça, brilhando no papel da Condessa Zeti e, em particular, nessa graciosa mestiçagem de português e italiano que anima os diálogos e lhes confere um sabor raro. Ainda assim, a mensagem passa sem sobressaltos, o palco a revelar-se como espelho ambíguo, onde visível e invisível se entrelaçam e cada gesto parece abraçar a própria sombra. Há, na palavra dita, uma musicalidade contida, um rigor quase clássico que sustém o excesso e lhe dá forma, conduzindo o espectador a uma região onde beleza e inquietação são matéria inseparável.

Interpretada pela seguríssima M7aria Silva, no centro da acção ergue-se Vanina, figura de sentimentos transparentes e desmesuradas emoções, criatura que acredita no poder do amor com uma inteireza quase feroz, como se o mundo pudesse ainda corresponder ao desenho do desejo. De um profundo lirismo, a sua linguagem revela essa condição inaugural, esse modo de estar que não admite fissuras. E, no entanto, é precisamente essa pureza radical que a expõe ao choque com o real. O colar, objecto e símbolo, concentra essa ambiguidade essencial: promessa de pertença e instrumento de captura, brilho que seduz e laço que prende. Ao aceitá-lo, Vanina entra num jogo de espelhos onde a identidade se fragmenta, onde o eu se descobre vulnerável à encenação do outro. Pietro Alvisi, na pessoa de João Assunção, surge como leveza indecisa, cantor do amor incapaz de o sustentar, enquanto as restantes figuras - entre a sedução e a norma, entre o impulso e a contenção - desenham um campo de forças que empurra e limita. É nesse movimento, quase imperceptível, que a peça atinge a sua verdade mais dolorosa: crescer é aprender a desconfiar do brilho, é reconhecer que nada do que é puro permanece intacto quando tocado pelo mundo.

Consciente dessa matéria subtil, Leandro Ribeiro acentua a teatralidade intrínseca da obra, explorando o seu lado mais íntimo e inquietante. Há uma percepção aguda de que viver é representar, de que as relações se organizam como espectáculo: gestos que são máscaras, palavras que procuram efeito, encontros cuidadosamente coreografados. Ao tornar visível esse artifício, o espectáculo não o anula, antes o ilumina. Os momentos musicais introduzem uma respiração orgânica, como marés que vão e voltam, enquanto os figurinos e a composição visual acrescentam densidade a um universo já por si carregado de sentido. O elenco sustenta essa arquitectura com uma notável homogeneidade, onde cada presença encontra o seu lugar sem ruído, e onde a palavra se torna corpo sem perder a sua transparência. Neste “O Colar”, o teatro cumpre a sua vocação mais elevada, a de criar um instante partilhado de revelação, efémero mas persistente, onde a beleza e a perda continuam, inseparáveis, a dialogar na memória de quem viu e escutou.

[Foto: Sol d'Alma - Associação de Teatro | https://www.facebook.com/share/1DQ7gDHmNt/]

sábado, 9 de novembro de 2019

TEATRO: "A Menina do Mar"



TEATRO: “A Menina do Mar”
Texto | Sophia de Mello Breyner Andresen
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Cenografia | Henrique Ralheta
Música | Edward Luiz Ayres d’Abreu
Figurinos | Rafaela Mapril
Interpretação | Ana Valentim, Catarina Rôlo Salgueiro, Nuno Nolasco, Rafael Gomes, Teresa Coutinho
Músicos | Bethany Carmo, Miguel Costa, Miguel Polido, Ricardo Santos, Fernando Brites, Daniel Bolito, Francisca Fins, Catarina Távora, Miguel Menezes
Direcção Musical | Martim Sousa Tavares
Produção | MPMP e Teatro do Eléctrico
Duração 60 minutos | Maiores de 6 anos
Centro de Artes de Ovar
11 Out 2019 | sex | 22:00


“ – Mas o que é a saudade? – perguntou a Menina do Mar.
– A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.”

Quando se comemora um século sobre a data de nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, um dos seus títulos mais amados e lidos transforma-se em conto musical pela mão do neto da poeta, Martim Sousa Tavares. Com a voz, o corpo e o gesto de cinco actores, dez instrumentistas e um maestro, o espectador é convidado a percorrer o universo marítimo e fantástico de uma menina que vive no mar – mas muito curiosa pela vida em terra – e de um menino que vive em terra – mas muito curioso pela vida no mar. Desde a inquietação e desconfiança das primeiras descobertas até à festa derradeira em que todos dançam alegremente, persiste a pergunta fundamental: será possível vivermos todos nós em harmonia com o oceano, a natureza, a vida que nos rodeia?

Estreada no início do passado mês de Maio, no Teatro Luís de Camões, a peça entra agora em itinerância, tendo “aportado” ao Centro de Artes de Ovar para uma representação única. Levado nas asas do sonho, o público presente viveu um momento de teatro repleto de surpresa e encantamento, quer pela poesia que se derrama do texto, quer pelo talento de Ricardo Neves-Neves à frente da encenação, quer ainda pelo privilégio de ter uma orquestra em palco, com a enorme riqueza de apontamentos que daí advém. Sob o olhar grave e atento do contrabaixista, o muito respeitável Rei do Mar e entre um simpático peixe clarinetista, um desconfiado caranguejo saxofonista, um misterioso e algo desajeitado polvo fagotista e muitas outras personagens desconcertantes, a peça permite desvendar uma história de amizade entre um rapaz e a Menina do Mar, apostados em partilhar aquilo que os distingue e torna únicos: a menina fica a saber o que é o amor, a saudade e a alegria; o rapaz aceita viver com ela no fundo do mar.

Unindo a terra e a água numa mesma pátria de alegria e fluidez, “A Menina do Mar” é o segundo livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, publicado em 1947, após o volume “Poesia”. Aqui, como de resto em muita da sua obra, a poeta busca a perfeição, a pureza e a harmonia, utilizando alguns lugares recorrentes como o mar, a praia, a casa e o jardim. Visitando a infância, onde aprendeu a ouvir as vozes das coisas, o mar é aqui uma fonte de purificação e um lugar onde tudo adquire sentido. Pode ser esta uma história para crianças mas a mensagem serve principalmente para as pessoas mais crescidas capazes de entender que não devem desistir dos seus sonhos à primeira dificuldade. Que o Teatro do Eléctrico tenha querido associar-se ao momento tão especial do centenário do nascimento de Sophia e tenha sabido, com esta peça, respeitar o sentido da obra, valorizando-a com o gesto e enriquecendo-a com a música, é algo que muito se louva.

[Foto: mundoportugues.pt/]

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

LIVRO: "Sophia"



LIVRO: “Sophia”,
de Isabel Nery
Ed. A Esfera dos Livros, Maio de 2019


“Esta não é uma biografia autorizada. Esta não é uma biografia da que sempre foi princesa. Esta não é uma biografia para Sophia.
Esta é antes uma biografia sobre Sophia, uma demonstração de que a sua criação ganhou vida própria e não depende já exclusivamente das vontades da autora. Pertence aos leitores, aos portugueses – e ao mundo.”

Normalmente, é-me muito difícil encontrar as palavras certas para falar daquilo que um livro me oferece, quando o livro em questão é muito bom (talvez a expressão “ficar sem palavras” faça aqui algum sentido). “Sophia”, biografia não autorizada da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen – que faria hoje cem anos, caso fosse viva -, é uma das raras excepções a esta regra deveras pessoal. Não é custoso verter em palavras um olhar repleto das mais belas imagens, fruto de uma escrita generosa e que acrescenta história, cultura e conhecimento ao leitor. O gozo que me deu descobrir (!) Sophia. O quanto intuí nos seus silêncios, o quanto vibrei com a coragem da sua escrita, o quanto me ri com algumas das suas tiradas lapidares, o quanto sofri com a sua dor.

Atravessando o século XX português, a história de Sophia de Mello Breyner Andresen confunde-se com a do próprio país e disso nos dá conta esta sua biografia. Desse longínquo 6 de Novembro de 1919, dia do nascimento da poeta, aos alvores do século XXI e à sua morte, sobrevinda em 02 de Julho de 2004, é ao seu encontro que vamos, numa viagem por mares nem sempre bonançosos. Através de olhos que poderiam ser os seus, espreitamos o ambiente depauperado da Nação na primeira República, a ascensão e consolidação do Estado Novo, as “mãos horrorosas dos fascistas”, a resistência feita palavra e presença; e, depois, “o dia inicial inteiro e limpo”, os trabalhos na Constituinte, os conturbados momentos do PREC com um sequestro pelo meio, até à defesa da cultura, do alto da bancada socialista ou ao Prémio Camões, em 1999, pela primeira vez outorgado a uma mulher.

Mas “Sophia” não é apenas História e não é apenas política. É igualmente uma viagem que une o Porto, Lisboa e Lagos, três vectores em solo pátrio, a uma Grécia pela qual se apaixonou, que passou a ver em tudo e que serviu de inspiração a uma significativa parte da sua obra. É também uma viagem ao encontro da sociedade aristocrática na qual nasceu e viveu, mas também da gente comum, como a empregada Luísa, autêntica “coluna de Hércules” da família, ou os pescadores que, de barco a remos, a levavam a visitar as grutas da Ponta da Piedade. É privar com alguns dos maiores vultos da nossa história recente, como Mário Soares ou Manuel Alegre, Jorge de Sena ou Graça Morais, Eduardo Lourenço ou José Saramago, entre tantos e tantos outros. É mergulhar no espaço conjugal de “Tareco e Xixa”, descobrir em Francisco Sousa Tavares o “pior condutor de automóveis do mundo” e, recuando gerações, conhecer o avô Thomaz de Mello Breyner, o médico das “moléstias vergonhosas”, ou ir ao início de tudo quando, numa manhã de verão de 1840, Jan Hinrich Andresen, com 14 anos apenas, chegou ao Porto para dar início a uma bela história. Tudo isto envolto na sua obra, sempre presente, dos contos infantis e dos textos de não ficção à poesia. Sobretudo à poesia.

As últimas palavras vão para Isabel Nery, autora de “Sophia”, uma biografia que faz jus ao nome e à relevância da poeta. Nela soube a autora encontrar o tom certo para oferecer ao leitor a novidade da descoberta, os factos que acrescentam conhecimento, a emoção que gera empatia, transformando a leitura destas mais de trezentas páginas num enorme prazer. Perante ela me curvo pela forma como, inspiradamente, soube trabalhar e montar um verdadeiro “puzzle” - de pesquisa, viagem e encontros feito – para o tornar límpido e puro, “livre como o vento e repetido / como o florir das ondas ordenadas”. Louvo ainda Isabel Nery pela sua honestidade moral e intelectual posta ao serviço da obra e da poeta, mas sobretudo dos leitores. A forma como a autora nos introduz “Sophia” é desarmante. Mais do que mostrar-nos ao que vamos, dá-nos a absoluta confiança, a certeza, desde a primeira linha, de estarmos perante uma biografia superlativa. “Numa altura em que tantas vezes parecemos moralmente dormentes, aprofundar o conhecimento sobre a autora e os seus escritos é o melhor tributo que lhe podemos deixar”, diz Isabel Nery. A vontade de ler mais Sophia, de saber mais de Sophia, cresceu em mim, reforçou-se, é agora imensa. A mensagem passou!