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quarta-feira, 10 de setembro de 2025

LIVRO: "Na Medida do Impossível" | Tiago Rodrigues



LIVRO: “Na Medida do Impossível”,
de Tiago Rodrigues
Tradução | Joana Frazão
Ed. Edições Tinta-da-china, Março de 2025


“E pensei na facilidade com que nos habituamos a viver entre dois mundos, o possível e o impossível, entre a abundância e a absoluta falta de tudo. E pensei em como, nas minhas primeiras missões, voltava do impossível, onde as pessoas careciam das coisas mais básicas, e, ao entrar numa qualquer loja do possível, me desfazia em lágrimas ao ver as centenas de cores diferentes de verniz das unhas nas prateleiras, ao passo que hoje ando quase sempre com as unhas pintadas, saltando de um mundo para o outro com a maior facilidade, sem sofrimento. Por isso, ao ver a ração de gato que o caro colega tinha deixado para trás, sorri.”

Sudão, Gaza, Afeganistão, República Democrática do Congo, Somália, Síria, Iémen ou Haiti. Estes são apenas alguns dos países onde estão em curso conflitos armados e aos quais as organizações internacionais procuram fazer chegar a tão necessária ajuda humanitária. São países onde a fome e a falta de acesso a serviços básicos são prevalentes, a insegurança é extrema, os sistemas de saúde praticamente colapsaram e os surtos de doenças alastram continuamente. São aos milhares os mortos e feridos que se contam nos vários teatros de guerra, aos quais se somam milhões de deslocados. As catástrofes naturais, como os terramotos no Afeganistão ou a seca na Somália, só vêm agravar ainda mais a situação. Neste ambiente de enorme tensão, carência e sofrimento, os profissionais humanitários arriscam a vida diariamente, desafiando a falta de segurança, as dificuldades logísticas e a necessidade de manter o distanciamento emocional para levar por diante o seu trabalho. Mas é no meio do caos que quase todos eles encontram satisfação pessoal ao sentirem que fazem a diferença na vida de pessoas em situações extremas.

Disto nos fala Tiago Rodrigues em “Na Medida do Impossível”, um livro que, antes de o ser, foi peça de teatro estreada a 1 de Fevereiro de 2022 na Comédie de Genève, com encenação do próprio Tiago Rodrigues e interpretação de Adrien Barazonne, Beatriz Brás, Baptiste Coustenoble, Natacha Koutchoumov e do músico Gabriel Ferrandini. Os mesmos Adrien, Beatriz, Baptiste e Natacha com quem nos cruzamos ao longo do livro e cujos testemunhos resultam de entrevistas feitas a um conjunto de pessoas pertencentes a organizações como o Comité Internacional da Cruz Vermelha ou os Médicos Sem Fronteiras. Aceitam regressar por momentos aos teatros de guerra e partilhar um quotidiano hostil num território que o dramaturgo convencionou baptizar de Impossível – “mas que é tão real como decidir quem vive e quem morre, e é de tal maneira possível que já esteve em todo o lado e pode sempre voltar a qualquer lugar”. Apesar de saberem melhor do que a maioria que não vão conseguir salvar o mundo, qualquer um deles continua a arriscar a vida e a bater-se por um dia melhor, por um momento de dignidade, por pelo menos alguns minutos em que os tiros param e se ouve apenas silêncio.

Quem conhece o trabalho de Tiago Rodrigues sabe que a condenação arrasta consigo a redenção. As histórias nunca são simples ou fáceis, porquanto o mundo não é simples, a violência não é simples, o sofrimento tampouco é simples. Não é turismo, não são férias, é um trabalho a sério o destas pessoas. Cheio de ilusão no início, na certeza de que irão salvar o mundo, para logo perceberem que não vão salvar o mundo, porque o mundo não pode ser salvo. Espera-os longas horas retidos em checkpoints, ruínas e cadáveres, a adrenalina a rivalizar com o cheiro da gangrena, “corpos, suor, roupa velha, cabelo, fezes, humidade, o cheiro a mar em pleno deserto”. À sua volta descobrirão pessoas humanas e brilhantes, mas também os maiores idiotas. Ainda um hospital de campanha improvisado e dezenas de mães com os seus bebés, uma criança com um nome de futebolista mitológico, lençóis brancos e limpos como bandeiras de dignidade, uma noite passada a vigiar uma vala comum, o silêncio na montanha enquanto decorre o resgate de um ferido, um fado na voz de Amália. E que nunca mais esquecerão.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

LIVRO: “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”



LIVRO: “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”,
de Tiago Rodrigues
Posfácio | Gonçalo Frota
Ed. Edições tinta-da-china, Abril 2024


“Quando matamos, damos sentido ao nosso gesto. Como quando cozinhamos. Quando trabalhamos a terra. Quando fazemos o que nos apaixona. O sentido está no gesto. Tem de haver carinho, cuidado, detalhe. Mesmo na violência. Mesmo no assassínio. Se reconhecermos a beleza de matar, fazemos parte da História e estamos com todas as que morreram às mãos dos fascistas, a lutar pela liberdade e por um mundo mais justo.”

A 19 de maio de 1954, em Baleizão, Catarina Eufémia foi assassinada pela Guarda Nacional Republicana com três tiros pelas costas. Paz, trabalho e pão eram o motivo da sua luta, e nesse dia participava numa greve de trabalhadores rurais alentejanos clamando por melhores salários. No momento do crime, ao lado de Catarina estava uma mulher. Do lado oposto, de pé junto ao assassino, estava um soldado. O soldado era marido desta mulher e pai dos seus filhos. Foi morto com a própria pistola, disparada pela mulher ao cair da noite. Com a morte, uma promessa. Com a promessa, uma herança: “Enquanto viva, no dia em que mataram a minha Catarina, cairá um fascista que não tenha feito nada ao ver cair uma mulher. Os que disparam carregam um peso maior e talvez os castigue a justiça. Os cúmplices voam leves como andorinhas. Nenhuma assassinada esquecida. Nenhum cúmplice perdoado. Espero o mesmo de vós. A partir deste dia, todas vós, as que nascerdes do meu sangue, sereis Catarina.”

“Quem viu morrer Catarina, não perdoa a quem matou”. As palavras de Zeca Afonso parecem atravessar este texto, da autoria de Tiago Rodrigues, ao longo do qual uma família reunida numa casa de campo, no sul de Portugal, se prepara para dar cumprimento ao dever de matar um fascista, no dia em que se cumpre mais um aniversário da morte de Catarina Eufémia. Baseando o texto nos ataques que as democracias vêm sofrendo um pouco por todo o lado, o autor lança um olhar certeiro sobre a tolerância com que são tratados os intolerantes e interroga-se até que ponto podemos quebrar as regras da democracia para melhor defender as suas causas. Num ambiente de tensão crescente, o fantasma de Catarina Eufémia a tocar-nos nas mãos com as suas mãos frias, esgrimem-se opiniões, partilham-se dúvidas, pesa-se o medo e a cobardia, o dever e a justiça, enquanto a História nos segreda ao ouvido que “qualquer fascista pode ser o fascista que tem a ideia de enfiar um povo inteiro numa carruagem de comboio”.

“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” tem no posfácio, da autoria de Gonçalo Frota, um precioso documento que contextualiza a peça e a enriquece. Aquilo que estava fadado para não ir além de um artigo de jornal com algum fôlego, viria a transformar-se num ensaio com uma centena de páginas, testemunho vivo de um processo criativo subjacente a uma questão fulcral: “Como chegámos aqui?” Da notícia de um acórdão do juiz Neto de Moura, de que todos estamos lembrados pelas piores razões, à peça que viria a subir à cena no Centro Cultural Vila Flor em Setembro de 2020, há um longo caminho feito de residências, workshops, muitos livros, séries, filmes, discursos, uma playlist em permanente construção, debates e ensaios, com muitos cortes e acrescentos à mistura. À criação da peça não foi alheio o ambiente social e político vivido, com uma pandemia de permeio e a eleição do primeiro deputado pela extrema-direita nas legislativas de 06 de Outubro de 2019. O tempo passou e a peça fez o seu caminho, deixando um rasto de plateias incendiadas pela ideia de que “a democracia não está a salvo só porque a ditadura ainda é uma memória viva”. Hoje, o partido de extrema-direita vem de eleger cinquenta deputados para o parlamento!

sábado, 23 de abril de 2022

TEATRO: "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas"



TEATRO: “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”
Texto e encenação | Tiago Rodrigues
Cenografia | F. Ribeiro
Figurinos | José António Tenente
Desenho de luz | Nuno Meira
Sonoplastia, desenho de som e música original | Pedro Costa
Interpretação | António Fonseca, Beatriz Maia, Carolina Passos Sousa, Isabel Abreu, Marco Mendonça, Pedro Gil, Romeu Costa, Rui M. Silva
Produção | Teatro Nacional D. Maria II
150 Minutos | Maiores de 16 anos
Casa da Cultura de Ílhavo
22 Abr 2022 | sex | 21:00


Que fascistas são estes de que nos fala o título da peça? Seguramente, os que fazem do populismo e do discurso racista e xenófobo uma autêntica “vacina” contra os maus políticos que nos vêm governando desde que Portugal é uma democracia. Seguramente, aqueles que se mostram, “ao lado dos polícias e dos militares que garantem a nossa segurança”, a favor de um sistema livre dos que nada fazem nem querem fazer, isento de impostos que travam a economia e deixam os empresários manietados, sem políticos que chafurdem na lama e sem parlamentares que não sejam autênticos palhaços, a favor de regimes imunes ao “veneno da corrupção”, à “doença” da homossexualidade e às mulheres que não são “boas donas de casa”. Afinal, tudo começa por uma opinião, “uma opiniãozinha que todos temos o direito de exprimir” e que, como um cancro, acabará por crescer desmesuradamente até contaminar tudo à sua volta. Há que extirpar as vozes e as pessoas por detrás das vozes antes que seja tarde. Há que calá-las, enquanto é tempo. Há que matá-las, se for esse o remédio.

O nosso tempo mudou e é talvez tempo de o teatro usar os seus artifícios para nos transportar a um tempo futuro que melhor nos fale do tempo presente. Foi este olhar alegórico que Tiago Rodrigues tomou como premissa da sua peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”. Uma família reúne-se numa casa perto da aldeia de Baleizão para cumprir uma tradição anual: raptar e matar fascistas. Acabada de completar 26 anos, hoje é o dia de Catarina, um dos mais “promissores” elementos da família. Adivinha-se um dia de festa, beleza e morte. Mas Catarina é incapaz de matar e o conflito instala-se, enquanto o fantasma de uma outra Catarina, Eufémia de apelido, assoma. O que é um fascista? Há lugar para a violência na luta por um mundo melhor? Podemos violar as regras da democracia para melhor a defender? Como um poema distópico, o espetáculo afasta-se da realidade para melhor nos aproximar dela, ensaiando uma negociação poética com a cultura popular. Forma coletiva de projeção num futuro que nos compete construir, o teatro mostra-se, inteiro e livre, na sua dimensão mais interventivamente política, intrometida, inquietante, inquisidora.

Nunca uma peça mexeu tanto comigo como este “Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas”. O texto, de Tiago Rodrigues, esmaga-nos pela sua actualidade e alcance. Os elementos que vão sendo dispensados dizem-nos que este é o nosso tempo, que o lugar da História é o país onde vivemos, que os actores somos todos. Em crescendo, a peça redunda num vendaval de emoções que se estende à plateia, incapaz de assistir aos factos de forma impávida, levada a erguer a voz e a gritar “Não Passarão” ou “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”. De um lado soam gritos exaltados, do outro escutam-se vozes que entoam a “Grândola, Vila Morena”. Descendo pela coxia, são muitos os espectadores que abandonam a sala. Outros permanecem mudos, dominados pelo medo de uma ficção tornada realidade. Uma ficção tornada realidade! De uma inteligência superior, Tiago Rodrigues e a peça atingem os seus propósitos. A mensagem é implacável para com uma enorme esquerda distanciada da acção, demitida da sua vocação, expectantemente cobarde. Os actores são preciosos, de sangue e nervo feitos, assim o texto o exige. Os espectadores estão siderados. A peça termina com uma ovação de pé, por larguíssimos minutos. Saio da sala a tremer. Dêem-me uma arma!

segunda-feira, 17 de junho de 2019

TEATRO: "Sopro"



TEATRO: “Sopro”,
de Tiago Rodrigues
Texto e encenação | Tiago Rodrigues
Cenografia e desenho de luz | Thomas Walgrave
Figurinos | Aldina Jesus
Sonoplastia e operação de som | Pedro Costa
Interpretação | Cristina Vidal, Isabel Abreu, Romeu Costa, Vítor Roriz, Beatriz Brás e Sofia Dias
Produção | Teatro Nacional D. Maria II
Teatro Nacional S. João
16 Jun 2019 | dom | 16:00


A peça chega ao fim e o aplauso do público, de princípio tímido, faz-se agora ouvir com força. Levanto-me do lugar de um pulo e junto o meu ao aplauso geral que ecoa pela sala. Tenho os olhos embaciados. Quero dizer algo mas o nó na garganta, apertado, torturante, impede-mo. Os actores regressam uma segunda vez ao palco para agradecer a ovação que se prolonga. E então lá sai, estranho e rouco, quase indistinto, um muito emocionado “bravo”. Vem isto a propósito de “Sopro”, com texto e encenação de Tiago Rodrigues, uma peça estreada no prestigiado Festival de Avignon em Julho de 2017 e que chega agora ao Teatro Nacional de S. João, onde irá permanecer até ao próximo sábado.

É do ponto, essa espécie em vias de extinção, que nos fala “Sopro”. Serve-se, para tanto, das histórias e memórias de Cristina Vidal, que sai da sombra ao fim de quatro décadas como ponto profissional no Teatro Nacional D. Maria II, oferecendo a palidez da sua pele às luzes e ao público. Obedecendo a um desígnio inerente à sua profissão – “a discrição do ponto deve ser proporcional à indiscrição do actor” -, ela consegue o “milagre” de passar incógnita no seio dos restantes actores, apesar de ser o denominador comum de todas as sequências, o único elemento em palco da primeira à última fala. Para tanto beneficia dum texto escrito com uma sensibilidade e uma doçura que é, em si mesmo, um hino ao teatro.

Mas se o texto é – já o disse – uma preciosa pérola, ressumando teatro por todos os poros, espalhando pelo palco Sófocles e Ésquilo, Tchekhov e Molière, Racine e António Patrício, é em Cristina Vidal que repousam o olhar e a atenção do público. No seu desempenho, está o desempenho de todos aqueles que, no palco como na vida, trabalham na sombra, fazendo-o de forma árdua e abnegada porque amam aquilo que fazem. Resgatando o conhecimento, a sabedoria e o afecto que há no ofício de ponto, ela é ponto e contra-regra, encenadora quando é preciso sê-lo, mas também amiga e confidente, alguém que está sempre ali, com quem se pode sempre contar, uma presença que é, em si mesma, uma segurança para qualquer actor.

Podia falar deste espectáculo interminavelmente, da enorme dimensão humana do texto, da solução cénica de colocar três pontos e não um em palco, de como nas marcações há todo um sofisticado enredo coreográfico, das situações mais burlescas e que arrancam ao público saborosas gargalhadas, de como o desenho de luzes é um espectáculo dentro do espectáculo, escondendo sem esconder Cristina Vidal ou desse momento, já perto do final, em que a sequência de frases sopradas adquire uma dimensão épica. Fico-me por Cristina Vidal. Com Cristina Vidal. Penso em como o espectador de teatro – o verdadeiro, o que ama o teatro - se está a tornar também numa espécie em vias de extinção. Então volto-me e confirmo aquilo que há muito tempo sei. Ao meu lado caminha uma Cristina Vidal, um ponto que me acompanha e que estará sempre ali para me soprar a frase certa quando a “branca” surgir. Entretanto, o teatro vai-se desmoronando e o vento, impiedoso e agreste, assobia cada vez com mais força através das brechas cavadas na minha existência!

[Foto: Christophe Raynaud de Lage | pontosj.pt]