TEATRO: “La Distance”,
de Tiago Rodrigues
Encenação | Tiago Rodrigues
Cenário | Fernando Ribeiro
Figurinos | José António Tenente
Desenho de luz | Rui Monteiro
Música original e desenho de som | Pedro Costa
Interpretação | Alison Dechamps, Adama Diop
Produção | Festival d’Avignon
90 Minutos | Maiores de 12 Anos
Centro Cultural Vila Flor
25 Set 2026 | sex | 21:30
2077. A Terra tornou-se um território de sobrevivência e Marte a promessa ou a miragem de uma nova humanidade, Nesse lugar incerto, onde o futuro se confunde com a consequência, instala Tiago Rodrigues “La Distance”. Mas esta não é uma peça sobre Marte, nem sequer sobre o fim do mundo: é sobre aquilo que fazemos uns aos outros enquanto o mundo se encaminha para o abismo. O seu carácter de “ficção científica” é, nesse sentido, uma lente apontada ao presente. As alterações climáticas, a desigualdade, a concentração do poder económico, a tentação do poder tecnológico, a transformação das pessoas em mercadoria das plataformas digitais, tudo aquilo que parece pertencer às grandes narrativas do nosso tempo vai entrando na peça pela porta estreita de uma relação entre um pai e uma filha. O pai permanece na Terra; a filha parte para Marte. Separa-os duzentos milhões de quilómetros, semanas de espera, mensagens que atravessam o vazio e uma pergunta que nos chega com a força de uma ameaça: que futuro estamos a preparar para aqueles que virão depois de nós? Ao reduzir o apocalipse à escala de uma conversa familiar, Tiago Rodrigues não profetiza, antes interroga da forma mais incómoda possível. Nas suas palavras, reconhecemos o futuro como quem reconhece uma casa que ainda não ardeu, mas onde se sente já o cheiro do fumo.
A distância do título não é apenas geográfica. É sobretudo uma distância entre gerações, entre memórias, entre duas maneiras de compreender a responsabilidade e a esperança. A filha tornou-se uma das “Esquecidas”. Para construir em Marte uma nova humanidade, aceita apagar as memórias da Terra, da sua história, da sua família, de si própria, conservando apenas os conhecimentos necessários à sua sobrevivência. O gesto é de uma violência extraordinária, ao mesmo tempo que encerra uma lógica profundamente contemporânea. Se herdámos um mundo em ruínas, será possível construir outro com as mesmas pedras? Ou será precisamente a memória que nos condena a repetir aquilo que gostaríamos de deixar para trás? A peça abre aqui uma das suas camadas mais perturbadoras: o conflito entre memória e futuro, entre a obrigação de recordar e o desejo de começar de novo. E há ainda a ironia dolorosa de uma tecnologia capaz de aproximar dois planetas, mas incapaz de aproximar duas pessoas que viveram na mesma casa. Só depois de milhões de quilómetros de distância, pai e filha parecem encontrar uma linguagem comum. A comunicação torna-se assim uma espécie de arqueologia dos afectos: cada mensagem procura escavar aquilo que ficou soterrado muito lá para trás. O amor, essa coisa aparentemente simples, revela-se então como uma forma de resistência à amnésia. Talvez seja isso que “La Distance” nos peça: que imaginemos o futuro, não para fugirmos do presente, mas para percebermos aquilo que, no presente, já estamos a perder.
Tudo isto acontece graças a dois actores que recusam qualquer grandiloquência e, justamente por isso, alcançam uma intensidade devastadora. Adama Diop e Alison Dechamps fazem da palavra matéria viva: cada silêncio parece conter uma resposta que não chegou, cada pausa mede a extensão de uma ausência, cada aproximação é imediatamente ameaçada pela distância. Diop compõe um pai devastado, no qual encontramos amor, incompreensão, orgulho ferido, medo e uma espécie de teimosia luminosa de quem ainda acredita que é possível convencer a filha a regressar. Dechamps constrói uma mulher cuja segurança vai revelando fissuras, sem nunca transformar a personagem numa simples desertora. Entre ambos estabelece-se uma tensão admiravelmente ambígua: não sabemos exactamente quem abandonou quem. A cenografia de Fernando Ribeiro, com o seu grande círculo de terra vermelha, a árvore tombada e a rocha, transforma o palco num planeta e, simultaneamente, numa espécie de relógio cósmico. A plataforma gira, os corpos aproximam-se e afastam-se, ficam de costas, perdem-se de vista e reencontram-se. A luz de Rui Monteiro acompanha essa deriva entre a memória e o sonho. O próprio movimento cria vertigem: à medida que o palco roda, também a relação parece perder o seu eixo. E essa vertigem dói porque os actores nunca deixam que esqueçamos o essencial. Não estamos a assistir a uma alegoria abstracta, mas a duas pessoas que se amam, mas que mostram a sua incapacidade de se salvarem uma à outra.
É talvez por isso que “La Distance” permanece connosco depois de a plataforma parar e de as luzes se apagarem. A peça começa por parecer uma história sobre o colapso climático, a colonização de Marte, a desigualdade ou a sobrevivência da espécie; acaba, porém, por colocar uma pergunta ancestral e muito mais complexa: o que devemos àqueles que amamos e o que devemos àqueles que ainda não nasceram? Tiago Rodrigues faz aquilo que sabe fazer com particular agudeza: toma uma questão monumental, reduzindo-a à dimensão de um gesto, de uma voz, de uma memória, de uma relação. É nessa miniaturização que a peça ganha a sua força política e poética. O futuro deixa de ser uma abstracção distante e passa a ter o rosto de uma filha que parte, de um pai que fica, de uma mensagem que demora semanas a chegar. E o teatro, pela sua própria natureza, oferece a resposta mais paradoxal à distância que a peça encena: dois seres humanos estão ali, diante de nós, no mesmo espaço, respirando o mesmo ar, obrigados a partilhar o tempo. Quando o mundo exterior parece empurrar-nos para o isolamento, para os ecrãs, para a velocidade e para a amnésia, “La Distance” devolve-nos à presença. Saímos da sala com menos certezas, mas com uma inquietação mais funda, uma espécie de vertigem que se acentua à medida que as palmas se vão extinguindo. É nesse momento que a peça começa verdadeiramente a trabalhar em nós: na pergunta sobre se queremos simplesmente sobreviver ao futuro ou se ainda somos capazes de o imaginar, construir e passar às gerações vindouras.
