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domingo, 14 de janeiro de 2024

LIVRO: "O Nome Que a Cidade Esqueceu"



LIVRO: “O Nome Que a Cidade Esqueceu”,
de João Tordo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Novembro de 2023


“Ao mesmo tempo, eu começava a entender a solidão das grandes cidades. A sobrevivência num lugar como Manhattan não dependia tanto da proximidade como da distância; não dependia tanto do afecto como do desapego. Tal como Nikolai, ou George B., ou Dorah, ou as pessoas que andavam nas ruas e no metropolitano, eu começara a construir uma redoma em meu redor. Tornara-me um pouco menos sensível, um pouco menos doce, um tanto mais esquiva. Um dia, tal como George ou Dorah ou Nikolai, não deixaria entrar na minha vida ninguém que pudesse magoar-me, e também ninguém que pudesse fazer-me bem.”

“O Nome Que a Cidade Esqueceu” traz-nos a história de Natasha, uma jovem mulher que deixa o país onde nasceu, a Georgia, e emigra para os Estados Unidos depois de uma bomba ter caído no seu quintal. Da lenta recuperação sobrou uma terrível gaguez, que a ataca com força nos momentos mais inoportunos. A essa dificuldade juntam-se outras, só em parte colmatadas graças ao seu estatuto de refugiada e ao dinheiro que recebe das Nações Unidas. A solidão, essa, veio para ficar. É na lavandaria do senhor Fu, na esquina da rua onde vive, que têm lugar os poucos contactos sociais que mantém. Pessoas como Dorah, Clive ou Nikolai ajudam-na, aos poucos, a afastar da lembrança as imagens impressivas do seu tempo de infância e juventude, a saudade dos pais e do irmão, militar da Guarda Nacional a lutar na Ossetia do Sul. A grande mudança na sua vida, porém, dá-se quando conhece Julie e, através dela, George B., que a contratará para um tarefa peculiar.

A celebrar duas décadas de vida literária, João Tordo regressa à cidade onde tudo começou, oferecendo-nos uma narrativa recheada de mistério, solidão e ternura. Partindo de uma história verídica publicada no New York Times, o autor constrói um romance enigmático, impulsionado pelo acaso e pela memória. O resultado é “uma narrativa que disseca a solidão, grande doença dos nossos tempos, confrontando as suas personagens e os leitores com o passado com que todos tentamos reconciliar-nos”. Aquilo que João Tordo nos vem dizer é que o drama de Natasha é um drama colectivo, a sua condição de refugiada como algo ao qual nenhum de nós escapa, solidários que somos na desconfiança, reféns da angústia e do medo, entregues aos caprichos de um acaso onde brincam a sorte e o azar, um verdadeiro jogo do gato e do rato que faz com que cada vez mais nos fechemos ao mundo e a nós próprios.

Construída com enorme sensibilidade, a história é o retrato de uma sociedade em vias de desumanização, mas que ainda conserva algumas bolsas de bondade e de esperança, onde a solidariedade e a cumplicidade ainda mantêm algum significado. Com um forte sentido visual, “O Nome Que a Cidade Esqueceu” faz do tempo e da memória um elemento vital, encerrando a acção em espaços concentracionários e lúgubres, onde o calor, quando chega, é sempre excessivo, opressivo, asfixiante. Ao contrário dos filmes de Coppola ou Scorsese, povoados por uma fauna ululante de italianos ou irlandeses, os ruídos aqui mais não são do que ecos da grande cidade, longínquos e deformados. Tal como o passado se faz presente nuns Adidas Sputnik vermelhos ou numa imagem de Steve McQueen, num cromo desbotado do Yogi Berra ou na sucessão de nomes inscritos nas Páginas Amarelas. Um dos melhores livros de João Tordo.

domingo, 26 de setembro de 2021

LIVRO: "Felicidade"



LIVRO: “Felicidade”,
de João Tordo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Outubro de 2020


“Quando saímos do Condes, Esperança fez o caminho até casa muito calada, a carteira ao colo, os olhos postos na janela do carro. Enquanto eu estacionava o Opel, ela perguntou: Acreditas em fantasmas? Puxei o travão de mão; reparei nas pernas nuas da minha mulher a emergirem da saia de xadrez. Apeteceu-me tocá-las; apeteceu-me levá-la para Monsanto, mas havia alguns anos que não o fazíamos. Claro que não, acabei por responder, os fantasmas não existem.”

Mesmo correndo o risco de me repetir, João Tordo e a sua escrita ocupam um lugar muito especial nas minhas preferências de leitura. A fórmula infalível de entremear o certo com o incerto, o palpável com o etéreo, convidando o leitor a seguir até ao fim os caminhos da dúvida com as certezas possíveis, são nele uma marca distintiva muito forte e que faz com que cada um dos seus livros seja uma viagem de busca e descoberta, de prazer sempre renovado. “Felicidade”, romance que conta praticamente um ano desde que foi publicado, é disso um dos mais acabados exemplos. Nele se condensam, em doses generosas e perfeitamente equilibradas, aquilo que admitimos como sendo real e o seu ficcionado contraponto, o que é consubstanciável e o que pertence ao domínio do oculto, as geografias precisas (e reconhecíveis) e os lugares sem nome que a mente constrói e alimenta. Nele estão, num processo de continuidade com os seus anteriores livros, a existência enquanto passagem sem propósitos claros, o prazer e o sexo como meios dos quais nem sempre se percebem os fins e o medo e a morte como verdadeiros motores do acto de existir.

Nesta história de um rapaz que, aos dezassete anos, vê a sua vida ligar-se irrevogavelmente à de três irmãs gémeas, “bonitas, seguras, determinadas, fonte de desejos e fantasias inalcançáveis”, aquilo que verdadeiramente conta é o imponderável, o destino e as suas partidas, o riso descarado de um deus manipulador que puxa os cordelinhos a seu bel-prazer para nos ver “às aranhas” numa vida a descambar para a morte. João Tordo fala-nos daquilo que tanto gosta de falar, das encruzilhadas que se abrem à existência de cada um, de um certo livre-arbítrio que na sua origem tem muito pouco a ver com a razão e tudo a ver com o “pathos”, a sua ferida mais primordial. Daí que não seja difícil para o leitor colar-se à personagem deste rapaz, identificar-se com ela, viver a sua aventura naquilo que tem de bom, mas também no que de funesto e desditoso vem a afligi-lo, intuindo que nesta coisa de sortes e azares cada um terá guardado o seu próprio bocado.

Nascida de um sonho que o autor teve na sua adolescência tardia, “Felicidade” é mais um exemplo de ficção com traços autobiográficos, a componente imaginária fortemente esotérica ou não fosse este sonho a história de um jovem casal em que a mulher morre em pleno acto sexual. Este é o gatilho para uma série de peripécias que acabam por condicionar toda a existência do parceiro sobrevivente, mergulhando-o numa espiral auto-destrutiva, o seu mundo a ruir aos bocadinhos, as forças para torcer a desdita a deixarem-no para trás e a fitarem-no do outro lado da rua. Mestre na arte da escrita, João Tordo leva ao extremo a condição deste homem, fazendo-o derrapar em ambientes manhosos, a roçar o absurdo e o non sense. No limite, o autor deixa cair a máscara, revelando um lado omnipotente e omnisciente que o torna no deus de que falava há pouco. Repleto de tiradas hilariantes, misturadas com outras bem negras, “Felicidade” oferece momentos de deliciosa leitura, sem, contudo, deixar de nos convidar a reflectir naquilo que somos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

LIVRO: "As Três Vidas"



LIVRO: “As Três Vidas”,
de João Tordo
Ed. Companhia das Letras, Maio de 2018


“O cabelo caía-me sobre o rosto em madeixas húmidas, a água escorria-me do queixo. Tinha olheiras profundamente marcadas e, na perna esquerda das calças, um enorme rasgão que não me recordava de ter feito. Parecia um vagabundo, e fiquei quase perplexo com a figura bizarra que me retribuía o olhar. Ali estava a terceira vida, pensei, recordando o nome da livraria; ali estava ela perante os meus olhos, em toda a sua miséria, directamente a seguir à primeira, passando à frente de uma irrevogável existência já perdida – a minha existência com Camila. Uma segunda vida impossível, a mais valiosa, demasiado valiosa para ser deste mundo.”

Por muito previsível que possa ser, a vida tem sempre o seu quê de funambolismo, um caminhar na corda bamba, titubeante e calculista, o risco sempre presente em cada passada, a constante ameaça de uma queda que poderá revelar-se fatal. Assim se nos apresenta a vida deste narrador sem nome, jovem lisboeta de origens modestas tornado secretário e homem de confiança de um obscuro “mentalista”, o seu tempo feito fábula onde cabe a morte do pai, o jardineiro que o contratou, uma quinta que já não existe, guerras sangrentas, espiões, comunistas e fascistas, livros esvoaçando pelos quartos, um corcunda perdido na noite, fantasmas à luz do dia, uma viagem insólita, um hotel bafiento, doenças e milagres, amores e desilusões, mortes e perdas, um baú, uma carta. E uma corda bamba sobre a qual ninguém se consegue suster.

Praticamente em início de carreira – antes, João Tordo tinha publicado apenas “O Livro dos Homens Sem Luz” (Novembro, 2004) e “Hotel Memória” (Fevereiro, 2007) -, “As Três Vidas” constituiu um importante momento de consagração na carreira do escritor ao arrebatar o Prémio Literário José Saramago 2009. Aquilo que se intuía no seu romance anterior e que ficaria sobejamente vincado nos recentes “A Mulher Que Correu Atrás do Vento” e “A Noite em Que o Verão Acabou”, ambos de 2019, confirma João Tordo como um excelente contador de histórias, com um apurado domínio dos tempos da narrativa e, sobretudo, uma capacidade enorme de manter o leitor atento e interessado, fechando umas portas e abrindo outras no momento certo, guiando-o em sobressalto por corredores húmidos de luz mortiça, entre sombras esquivas, o tão desejado clarão ao fundo do túnel tardando em surgir.

O “mundo desconhecido, que pouca gente suspeitaria existir, e no qual muitos se recusariam a acreditar”, é uma artimanha que se repete ao longo do livro, destinado a tornar irreal uma história com contornos de verdade. Escritor versátil e de uma imaginação prodigiosa, João Tordo mistura figuras e factos reais – autodidacta do funambolismo, Philippe Petit cruzou realmente as Torres Gémeas na manhã de 6 de Agosto de 1974 -, com as suas personagens ficcionadas, oferecendo-nos uma história plena de questões que, em larga medida, ficarão por resolver. Como num bom filme de Howard Hawks ou John Huston – e é com propriedade que falo em cinema, de tão visual que é a escrita de João Tordo -, o final do livro tem um tom moralista que muito o engrandece. Tal como este livro, “todos os mistérios, os pequenos e os grandes, os resolvidos e os por resolver, os da vida e os da morte”, chegarão ao fim quando chegarem.

domingo, 14 de junho de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #1



1. Com a exibição dos três filmes correspondentes à nona sessão, chegou ao fim o Shortcutz Ovar na sua versão online. Fazendo incidir a sua atenção sobre as obras exibidas ao longo da temporada de 2019, a iniciativa permitiu ver ou rever um total de vinte e nove curtas-metragens, muitas delas de enorme qualidade e que atestam bem o valor do cinema português neste particular formato. Destaque para os superlativos “Agouro”, de David Doutel e Vasco Sá, “Red Hill”, de Laura Carreira e “Sleepwalk”, de Filipe Melo, todos eles galardoados na mostra ovarense. Mas o bom cinema não se quedou por aqui e ao júri terá cabido a ingrata tarefa de deixar de fora dos prémios os notáveis “California”, de Nuno Baltazar, “A Era das Ovelhas”, de Eva Mendes, Joana de Rosa e Sara Augusto, “Náufragos”, de Pedro Neves, “Calipso”, de Paulo Oliveira e Pedro Martins, “Pixel Frio”, de Rodrigo Areias e sobretudo “Declive”, de Eduardo Brito. De regresso às salas e ao público, a quarta temporada do Shortcutz Ovar é retomada já na próxima quinta-feira, dia 18 de Junho, devendo os interessados inscrever-se na página do evento em https://www.facebook.com/events/266746531203497/.

2. Chama-se “Manual de Sobrevivência de Um Escritor” e é o mais recente livro de João Tordo. Partindo das suas memórias do ofício, nele o autor esboça uma espécie de manual para todos aqueles que se interessam pelo mundo da escrita — sejam escritores a dar os primeiros passos ou leitores curiosos. “Esta viagem pelos meandros de um ofício que recusa deixar-se ensinar — e de muitas das suas vertentes e consequências, como a técnica, o enredo, as personagens, a edição, a crítica, o fracasso, a sobrevivência — é também uma incursão no lado mais íntimo de um escritor entregue à sua mais dilacerante paixão”, pode ler-se na sinopse. Editado pela Companhia das Letras, o livro foi lançado na passada terça feira, em formato online, com a presença do autor, do jornalista João Gobern e da editora Clara Capitão, das quais destaco as palavras elogiosas. Para adoçar a boca, assista à conversa em https://www.facebook.com/joaotordoescritor/videos/557750588257335/. E depois vá a correr comprar o livro. 

3. Autor de “O Meu Irmão” (Prémio Leya 2014) e “Pão de Açúcar” (Prémio José Saramago 2019), Afonso Reis Cabral percorreu os quase 739 quilómetros da Estrada Nacional 2, numa caminhada de 24 dias por aquela que é uma das maiores estradas do mundo. Entre Abril e Maio de 2019, Afonso cruzou montanhas e planícies, mergulhou em rios, caminhou debaixo de tempestades e sob sol ardente. Mas sobretudo parou para conversar com quem encontrava. No fim de cada dia, publicava na sua página do Facebook um diário escrito no telemóvel relatando os principais eventos da viagem. Com milhares de leitores, comentários e partilhas, os seus textos geraram grande entusiasmo, vindo a ganhar a forma de livro em 2019. Agora, a experiência do escritor na maior estrada do país ganha uma nova dimensão com o documentário “Leva-Me Contigo”, produzido por Vasco Galhardo Simões e realizado por João Pedro Félix, o qual reúne filmagens inéditas do percurso e testemunhos de algumas das pessoas com quem Afonso Reis Cabral se cruzou. Para ver na RTP Play, em https://www.rtp.pt/play/p7368/leva-me-contigo-o-documentario.

terça-feira, 10 de março de 2020

TERTÚLIA LITERÁRIA: João Tordo



TERTÚLIA LITERÁRIA: João Tordo
Ponto de Luz – Pólo de Souto da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira 
07 Mar 2020 | sab | 21:30


O “Ponto de Luz”, Pólo de Souto da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, abriu as portas, na noite do passado sábado, ao escritor João Tordo, para uma conversa em torno do seu mais recente livro, “A Noite em que o Verão Acabou”. Com a sala cheia de gente ávida de conhecer o escritor e a sua obra, o serão encerrou momentos de enorme interesse, centrados sobretudo no ofício da escrita e naquilo que representa, tanto para quem escreve como para quem lê. “Ao contrário da generalidades dos ofícios, ser escritor não é coisa que se aprenda. Acordo todos os dias com a sensação de que não sei o que estou a fazer. Como tem uma margem infinita, também gera uma angústia infinita. Nesse sentido, é algo muito particular”, referiu o escritor. Mas qual a tradição literária que transformou o escritor naquilo que é hoje? Porque é que faz isto e não outra coisa qualquer? A resposta surge de forma livre: “Escrevo porque sinto necessidade de me fazer passar pelo processo de encontrar uma espécie de lugar que não seja a minha vida e no qual possa colocar o ‘pathos’, o meu sofrimento, as minhas aflições”, conclui. 

Pegando nestas impressões, o escritor estabelece uma ponte com o tema seguinte no qual relaciona o útil com o conceito de criação artística. “Que relação temos com um livro que lemos e do qual gostamos, com uma peça de música que nos emociona ou com os objectos que nos causam o tal ‘pathos’ ”, interroga-se.“Se pensarmos nos séculos XVII ou XVIII, toda a educação de um jovem, por exemplo, era feita através do belo. O útil estava associado ao belo, à arte. Sobretudo a partir de meados do século XIX, com a Revolução Industrial, de repente o útil passa a estar associado às coisas que consideramos úteis, enquanto a arte passou para o domínio do inútil, o que leva hoje as pessoas a interrogar-me porque é que escrevo, a pergunta ganhando total legitimidade visto a escrita ser algo que não tem serventia”, disse. Tendo atrás de si todo um percurso ligado à escrita e que terá começado em criança, João Tordo falou de sua vida pessoal e do seu trabalho enquanto escritor, afirmando que “a literatura é algo que me enche a alma, com a qual tenho uma ligação completamente espiritual”. 

Entrando no assunto que o trouxe a São Miguel do Souto, o autor desvendou um pedacinho da escrita de “A Noite em que o Verão Acabou”, começando por dizer que o livro é baseado, em grande parte, na sua adolescência e nas vivências em família nesse particular período. “Queria muito escrever sobre esses tempos de férias que passava no Algarve. O Verão era exactamente assim, com todas aquelas características dos anos 80, quando toda a gente ia para os mesmos lugares, todos víamos a Fórmula 1 e o Ténis colados ao televisor, a forma como se estava na praia com a avó a descascar fruta para os netos... e essas referências estão lá todas, são coisas das quais me lembro muito bem. Inspirei-me muito nisso porque queria escrever acerca desse tempo, mas queria escrever também acerca de uma coisa que eu acho que é muito engraçada que são os amores de Verão”, adiantou. 

Depois de referir algumas curiosidades – a origem do nome “Lagoeiro”, uma terra que não existe e cujo nome surge da junção do nome de duas terras algarvias, o nome da avó e da tia-avó, respectivamente Eduarda e Alexandrina, no livro tal como na vida real, ou o local onde decorre parte da acção, Chatlam, aqui uma ligeira alteração no nome de uma cidade americana que existe na realidade -, João Tordo frisa que, tal como ele, também este Pedro Taborda, a personagem principal do livro, decide ir estudar para os Estados Unidos, em busca dos autores que mais admirava. Mas o facto de este ser um livro que nasce de experiências muito concretas, não significa que seja assim com todos os seus livros: “Já escrevi livros que nascem de experiências muito tolas, que não têm nada de profundo e muito menos de literário”, dando como exemplo “O Paraíso Segundo Lars D.”, inspirado num evento que teve como ponto de partida a instalação de uma aplicação no seu iPhone pelo irmão mais novo e que facilitava encontros entre pessoas. “De repente percebi que as mulheres disponíveis à minha volta tinham todas para cima de 60 anos”, disse, provocando a gargalhada geral na sala. 

Aberta às questões do público, a segunda parte desta tertúlia trouxe mais um belo punhado de momentos. Entre outros assuntos, falou-se dos tempos da escrita – “começo por um rascunho, durante quatro ou cinco meses, mas que ‘é barro ainda por moldar’, depois deixo repousar antes de começar a ‘moldar’, a reescrever uma e outra vez, até alcançar o resultado desejado, ao fim de um ano ou mais” -, mas também da importância da contenção no processo – “gosto cada vez mais de contenção, acho que o que quero dizer pode ser dito, normalmente, com menos palavras” – e até da necessidade de mentir, esse lugar onde nascem todas as histórias, necessidade essa que, neste livro, se estende aos agradecimentos. Antes ainda do último acto – o autografar dos livros, “sem apertos de mão e sem beijinhos, por causa do coronavírus” – tempo ainda para uma reflexão, em resposta à última questão. Socorrendo-se de uma passagem do livro “Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida”, de Haruki Murakami, João Tordo estabelece a diferença entre “um tipo normal” e um escritor: “Dois homens chegam ao sopé do Monte Fuji. O homem ‘normal’ olha em volta e mostra-se satisfeito com a vista, considera o momento épico, glorioso, regressando em seguida a casa. Por seu lado, o escritor é o tipo que não se mostra convencido e começa a subir a montanha”.

quinta-feira, 5 de março de 2020

LIVRO: "A Noite em que o Verão Acabou"



LIVRO: “A Noite em que o Verão Acabou”, 
de João Tordo 
Edição | Clara Capitão 
Ed. Companhia das Letras, Novembro de 2019


“Jerome David recebeu-me em roupão e chinelos. Sentámo-nos no alpendre da casa e ele disse-me que tinha lido o meu primeiro romance. Imediatamente intuíra quem eu era. Não fez qualquer apreciação ao livro, limitou-se a dizer que conhecia a razão pela qual eu escrevia e que sabia que eu atravessaria o deserto que ele atravessara havia décadas. Foi ele que me ensinou que a literatura não é o princípio, mas o fim; aquilo que só se alcança quando já estamos praticamente mortos, e as palavras são a única coisa que ainda nos liga à vida, o fio invisível que nos mantém à superfície.”

Admirador confesso de João Tordo e habituado a enfrentar a sua escrita ao longo de quinhentas ou mais páginas, foi com entusiasmo que me atirei a este seu último trabalho e me deixei enredar na densa malha de acontecimentos que terão, como fim último, descobrir quem matou Noah Walsh. Com base numa confissão voluntária, o tribunal dá como provado que as seis facadas que desfiguraram e tiraram a vida ao milionário foram desferidas pela sua filha Levi, uma adolescente de 16 anos, mas talvez as coisas não sejam tão lineares assim. É isso que Laura, a irmã de Levi, e Pedro Taborda, amigo da família Walsh e aspirante a escritor, irão desvendar, mergulhando irremediavelmente num mar de segredos que envolve a pequena comunidade de Chatlam.

Sem pretender interferir com a leitura que cada um fará de “A Noite em que o Verão Acabou”, importa dizer que este é um daqueles livros que mantêm o leitor em suspenso até à última página. João Tordo evidencia-se uma vez mais pela qualidade da sua escrita, doseando com conta, peso e medida os ingredientes do thriller, a acção sem deslizes, omissões ou contradições, a intensidade e emoção em crescendo até ao desfecho final. Marcando os diálogos pela naturalidade da linguagem e pelos apontamentos bem humorados, fazendo deslocar a acção por geografias precisas e detalhando com rigor pessoas e lugares – da perfeição das formas do corpo de uma adolescente, às sombras de um esconso quarto de hotel ou a uma invasão de borboletas monarcas –, o livro adquire um tom marcadamente cinematográfico, uma pitada de “O Silêncio dos Inocentes” entre a ética de Alfred Hitchcock e a estética de David Lynch. 

Apesar deste livro ser apresentado como o primeiro thriller de João Tordo, nada do que aqui surge é propriamente novo. Quem leu “Hotel Memória”, o seu segundo livro, saberá muito bem do que falo e, sobretudo, o próprio autor, que não dispensa em “alojar-se” no Memory Hotel na sua passagem por Nova Iorque. De facto, para além de toda uma trama judiciosamente orquestrada e com propósitos bem definidos, “A Noite em que o Verão Acabou” oferece-nos também deliciosos apontamentos sobre o processo de escrita e sobre “a nossa necessidade de mentir”, afinal “o lugar de onde nascem todas as histórias”. Chega a ser comovente a forma como o escritor se despe de preconceitos e, assumindo o egoísmo, a monomania e a sofreguidão de aplauso face aos méritos que acha que deve merecer mais do que ninguém, acaba por confessar que “o sucesso é o pior de todos os males”. Fá-lo através de um escritor mais velho, uma espécie de mentor, abrindo novos caminhos à leitura do livro, tornando-o mais denso e profundo, ainda. Mais fascinante!

sábado, 22 de junho de 2019

LIVRO: "A Mulher Que Correu Atrás Do Vento"



LIVRO: “A Mulher Que Correu Atrás Do Vento”,
de João Tordo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Março de 2019


“Porque haveria um escritor português de se interessar por uma compositora alemã que é praticamente desconhecida?
Porque é isso que os escritores fazem, respondeu Eduardo, interessam-se pelas coisas que não interessam a mais ninguém.”

Não sei se deva invocar o “alinhamento dos astros” ou uma “química especial”, a verdade é que há na escrita de João Tordo algo que me atrai e me faz ficar agarrado aos seus livros desde o primeiro instante. É uma arte, reconheço, feita de cabeça e coração em partes iguais e que neste “A Mulher Que Correu Atrás Do Vento” se traduz na subtileza com que nos introduz no universo das personagens de Beatriz, Lisbeth, Graça e Lia, nessa forma de nos dar a ver estas mulheres pelo seu lado mais fascinante. Mas não era assim também nos anteriores “Ensina-Me A Voar Sobre Os Telhados”, “Crónica dos Amantes Involuntários” ou “Hotel Memória”, para citar apenas alguns?

Eis-me, pois, preso ao livro desde a primeira página e a mergulhar num objecto que é, mais do que uma história (ou várias histórias) muito bem contada, uma irónica reflexão sobre o acto da escrita e as infindáveis possibilidades que se abrem ao escritor no exercício da sua arte. “A Mulher Que Correu Atrás Do Vento” é, se o quisermos ver desta forma, um “manual da manipulação” ou “de como levar o leitor pela trela” ao longo de mais de quatrocentas e cinquenta páginas, dando-lhe apenas a “rédea” necessária para que não se espalhe (e, com ele, o livro). E assim, a par das quatro mulheres já referidas, vamos encontrar também um escritor, personagem que João Tordo recupera de um dos seus livros anteriores, um tipo que personifica o próprio autor, criatura e criador unidos para nos virem dizer que a vida é um livro, ou o livro dentro de um livro.

Dividida em múltiplas perspectivas, escrita em vários tons, repleta de vozes diferentes e, por vezes, contraditórias, “A Mulher Que Correu Atrás Do Vento” serve para João Tordo baralhar as cartas da realidade e da ficção e nos vir dizer, em tom professoral, “que esta narrativa – como todas as narrativas – não trata do que é, mas do que poderia ter sido; não do que foi, mas do que poderia ser”. O cinismo com que o escritor (o criador) se revela acima do comum dos mortais, o seu lado irritantemente narcisista que não se coíbe de exibir, passeiam-se aqui de mãos dadas com os reflexos de vidas perdidas, enjauladas em si mesmas, afastadas de tudo e de todos e para quem, na morte, reside a única salvação. Citando James Joyce – de quem este livro está impregnado -, recordarei: “Life is too short to read a bad book.” Com João Tordo não se corre nunca este risco!

sábado, 25 de agosto de 2018

LIVRO: "Hotel Memória"



LIVRO: “Hotel Memória”,
de João Tordo
Copyright © João Tordo, 2007
Ed. Companhia das Letras, Abril de 2018


A culpa será das fitas, daquelas “à americana”, tudo muito sombrio, o vapor que se escapa das sarjetas, um vulto que se esgueira na sombra, uma morte violenta, sirenes e polícias, vidas no fio da navalha, Nova Iorque envolta num lânguido solo de saxofone. É neste ambiente de “bas fond”, onde uma simples palavra pode fazer puxar o gatilho, que se insere a leitura de “Hotel Memória” e, quero acreditar, também a sua escrita, o autor a buscar a inspiração no “film noir”, numa altura em que dava ainda os primeiros passos na escrita.

Encaixado entre “O Livro dos Homens Sem Luz” (Novembro de 2014), o primeiro romance de João Tordo, e “As Três Vidas” (Setembro de 2008), Prémio Saramago 2009 e verdadeira mola propulsora da carreira do autor, “Hotel Memória” é uma intrigante história, no domínio do romance policial, envolvendo, entre outros personagens ziguezagueantes, um estudante de Literatura, um coleccionador de arte russo, um produtor discográfico americano, um mafioso de ascendência polaca (pelo menos a julgar pelo apelido) e ainda um fadista português.

Nas menções que faz a Edgar Allan Poe ou a Herman Melville (há mesmo uma apropriação do nome Bartleby pela personagem principal), João Tordo deixa pistas quanto àquelas que são as suas referências literárias, embora parece haver ali também um “cheirinho” de Ruth Rendell, Dashiell Hammett, Donald E. Westlake ou outros. Desenvolvendo o romance de forma centrípeta, voltado sobre essa personagem sem nome, protagonista da sua própria história, João Tordo parece apostar tudo na desconstrução das causas que determinam um processo de auto-destruição.

É curioso analisar este livro dum ponto de vista cronológico, já que a sua leitura é posterior à de “O Paraíso Segundo Lars D.”, “Biografia Involuntária dos Amantes” e do soberbo “Ensina-me a Voar Sobre os Telhados”. Percebe-se que a desenvoltura na escrita e a preferência pelas personagens desditosas, vestindo-lhes a pele e escrutinando-lhes a alma torturada, já está toda ali. Convirá dizer que nem tudo é claro neste livro – sobretudo, a personagem de Daniel da Silva, o fadista português, parece muito pouco resolvida –, mas a narrativa grave e a extraordinária capacidade de recriar ambientes e desenhar as personagens valem, por si só, o tempo investido em “Hotel Memória”.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

LIVRO: "Ensina-me a voar sobre os telhados"



LIVRO: “Ensina-me a voar sobre os telhados”,
de João Tordo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Março de 2017


Lembro-me de ser criança e de ter um sonho recorrente no qual era capaz de voar. Tomado de tal leveza, o meu corpo elevava-se no sono, atravessava a placa da casa e o telhado e, erguendo-se a grande altura, permitia-me ver, com uma nitidez única, os campos onde brincava com os meus amigos, o coradouro onde jogávamos à bola, os pardais que voavam em bando por baixo de mim, o rio com os seus peixes que apanhávamos à mão no auge das férias grandes. E eu sorria, sorria sempre. Não posso mais esquecer a felicidade que sentia quando “levitava”. Ainda que em sonhos, estava ali a materialização desse secreto desejo de voar que anima o homem desde que se lembra de ser homem. O tempo foi passando, os sonos tornaram-se mais leves e curtos, os sonhos esparsos, quase raros. Nunca mais “levitei”. Só agora voltei a fazê-lo, graças à leitura de “Ensina-me a voar sobre os telhados”.

De João Tordo recordo, para além dos livros que lera anteriormente – “O Paraíso segundo Lars D.” e “Biografia Involuntária dos Amantes” –, uma conversa pela noite fora no Museu de Ovar, em Dezembro de 2017, na qual o escritor disse esta coisa espantosa: “Escrever é deixar que todas as vozes que temos dentro de nós venham ao de cima e falem”. Procurando concretizar a ideia, falou das vozes que, surgidas do nada, ia anotando em pedacinhos de papel e que, “na hora da verdade”, reunia e escutava. É assim que gosto de imaginá-lo, à secretária, a escrever este livro, o tampo da mesa a transbordar de papelinhos de diferentes tamanhos, alguns de cores que não o branco. É nesses, mais chamativos, que julgo encontrar uma espécie de lembrete com “diálogos de Ménon, de Platão”, ainda “o dilema não é não sabermos, é não saber que sabemos”, ou mesmo “a vida humana não é marcada pela ignorância, mas pelo esquecimento”.

Nas breves citações do final do parágrafo anterior encontrei eu um fio condutor desta história que percorre a vida duma família ao longo de três gerações, à medida que nos vamos dando conta de um terrível segredo. Trata-se dum fio muito ténue, talvez de seda, difícil de perceber, mais difícil ainda de alcançar, mas que anda por ali para nos lembrar que não devemos desistir de acreditar no impossível. Estou certo que outros leitores farão do livro outras leituras, escutarão outras vozes, chorarão outros choros e rirão outros risos. Mas todos encontrarão no livro espaço para que as vozes que existem em cada um venham ao de cima e falem também.

“Observo o meu rosto no vidro, inundado pela luz, e descubro que estou a sorrir”. É a última frase do livro de João Tordo, mas nenhuma outra poderia traduzir melhor o estado de felicidade em que me encontro, tornada que foi a derradeira página de “Ensina-me a voar sobre os telhados”. Foram dias de prazer e devaneio, de sonho e de reflexão, sobretudo duma profunda emoção perante prosa tão límpida e leve, tão rica de imagens e de emoções, tão bem articulada nos tempos distintos em que se desenvolve, ritmada como um poema, intensa como o aroma da terra molhada após uma tempestade de Verão. Agora que chego ao fim, é realmente com um sorriso que aperto o livro entre as mãos para o depositar em seguida na estante, deixando-o a descansar num lugar do lado esquerdo, do lado do coração.

domingo, 24 de dezembro de 2017

LIVRO: "Biografia Involuntária dos Amantes"



LIVRO: “Biografia Involuntária dos Amantes”,
de João Tordo
Edição | Clara Capitão
Ed. Alfaguara, Abril 2014


Conseguimos ver nesta “Biografia Involuntária dos Amantes” uma fábula da condição humana, naquilo que contempla de mais precário. Com minúcia de detective, João Tordo faz-nos seguir no rasto uns dos outros, dando a ver os nossos próprios passos, incertos, hesitantes, atabalhoados, ao encontro de amores desencontrados, sonhos frustrados, existências perdidas. Peões num tabuleiro de linhas tortas e quadrículas imperfeitas, navegantes sem norte nas mãos da fortuna, somos convidados a jogar o jogo do Eu na descoberta do que fomos, de quem somos.

É na mó de baixo que vamos encontrar as duas personagens principais deste livro, dois homens tomados pelo desânimo, descrentes de si mesmos e do mundo que os rodeia. Cedo compreenderemos que esta condição de miséria interior só em parte é sobreponível a ambos, já que um deles perdeu-se em absoluto de si mesmo, cabendo ao outro resgatá-lo (e resgatar-se). Em busca da redenção, mergulhamos num universo subversivo habitado por uma mulher, ao mesmo tempo frágil e forte, revelando a sua faceta obscura, destruidora, fatal.

Na complexidade das personagens e nas suas motivações dificilmente escrutináveis, reside o fascínio deste livro. Nesta anatomia do pesadelo, João Tordo não depura ou concentra para chegar à fórmula perfeita, aquela que responde aos problemas de todos e de cada um; antes abre, expande e explora sensações, sem medo de cair em excessos. O romantismo chega a parecer ridículo, a perversão é uma comédia, o sexo é violento. As paixões derramam-se no fio da navalha. Tudo é incerto, inesperado. Como um javali que corre para a morte, ao encontro dum carro a grande velocidade em plena auto-estrada.

domingo, 10 de dezembro de 2017

TERTÚLIA: "Conversas Úteis" com João Tordo



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com João Tordo
Museu de Ovar
09 Dez 2017 | sab | 21:30


Continuando a apostar na diversificação da oferta cultural da cidade, o Museu de Ovar trouxe até nós o escritor João Tordo para um momento único de “conversas úteis”. Mais uma oportunidade para conhecermos o homem e o escritor, naquilo que tem de metódico e de racional no que à escrita diz respeito, e que admitiu ter na preguiça um dos seus grandes defeitos. Carlos Nuno Granja foi, de novo, o moderador desta tertúlia, naquela que constituiu a segunda presença do escritor entre nós, uma vez que já nos tinha dado o prazer da sua companhia em 12 de Abril de 2014, a propósito do romance “Biografia Involuntária dos Amantes”. Entretanto, João Tordo teve a oportunidade de publicar uma trilogia composta pelos romances “O Luto de Elias Gro” e “O Paraíso Segundo Lars D”, ambos de 2015 e, já em Maio deste ano, “O Deslumbre de Cecília Fluss”. Ora, foi precisamente este último livro o pretexto para a presença do escritor entre nós na noite de sábado. Conforme veremos, porém, nem só do “Deslumbre...” se falou neste serão que se prolongou para lá da meia noite.

Perante uma plateia atenta, conhecedora e interventiva, ainda que escassa em número, João Tordo começou por se afirmar um “romancista” e por fazer a distinção entre os romancistas e os escritores de outros géneros da literatura. Para tal, socorreu-se duma parábola do antigo Japão, segundo a qual “dois amigos caminham até ao Monte Fuji para comprovar a sua grandiosidade. Finalmente chegados ao sopé, um dos amigos olha para cima e, convencido da grandiosidade e imponência do Monte, prepara-se para regressar. O outro, porém, não ficou convencido e, enfrentando toda a sorte de desafios, escalou o Monte, só então se rendendo à evidência”. “O romancista é aquele que sobe o monte”, concluiu João Tordo, acrescentando que tal propósito perante os livros implica “inteligência lenta e uma enorme resistência para continuar a escrever romances”.

Para João Tordo, “os livros são o momento”, admitindo que “se tivesse de voltar ao princípio das coisas já não seria capaz de escrevê-las da mesma maneira”. “Quando se fala de romances, fala-se de histórias; mas eu acho que, mais do que histórias, deveríamos falar de vozes”, diz, acrescentando que “escrever é deixar que todas as vozes que temos dentro de nós venham ao de cima e falem”. Considerando que “temos em Portugal literatura que é só linguagem e livros que são só história, sendo estes os best-sellers, os que vendem”, João Tordo vinca que “o mais difícil de alcançar é aquilo que está no meio, o equilíbrio entre uma história que se quer contar e o domínio da linguagem”. Já no período de perguntas e respostas, viria a enunciar Afonso Cruz, David Machado, Gonçalo M. Tavares, Alexandra Lucas Coelho, Patrícia Portela, o incontornável José Saramago e, “para mim o maior de todos”, José Cardoso Pires, como exemplos de escritores que conseguem alcançar este equilíbrio. João Tordo falou ainda do Prémio Literário José Saramago, em 2009, um marco importante na sua vida literária, um autêntico ponto de viragem em termos de projeção e de livros vendidos (com as mãos faz um gesto que indica que, se antes vendia “oito”, passou a vender “oitenta”), mas também um Prémio que fez dele, demasiado de repente, uma figura pública, para a qual não estava preparado.

Mas porque “O Deslumbre de Cecília Fluss” era o pretexto para estarmos ali, o romancista levantou uma pontinha do véu e confidenciou que “o eixo da história é um tio, Elias – “que não é o Elias Gro do primeiro livro da trilogia” -, um tipo enlouquecido que vive com dois cães, o Vivo e o Morto e que tem um hamster chamado Coma. Elias tem uma relação muito forte com o sobrinho, de 14 anos, e que é o narrador desta história. As partes em que o livro toca a relação entre tio e sobrinho são as partes emocionais do livro”. Não deixa de ser curioso que o livro abra com a citação “pequena é a parte da vida que vivemos”, de Séneca, e que motiva uma última reflexão: “É fácil fugir ao caminho. O Facebook e o Futebol são coisas que fazem parte da vida, mas não são fundamentais. Se lhes damos demasiada importância, corremos o risco de passarmos a vida na periferia daquilo que ela deveria ser. É por isso que digo a mim mesmo que a vida é curta e que um dia vou morrer. E eu, que sou estóico, lá volto para a secretária de regresso à escrita, em vez de ficar para ali a ver o Trio de Ataque”.

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Nascido em Lisboa em 28 de Agosto de 1975, João Tordo formou-se em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa e estudou Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e Nova Iorque. Estreou-se na escrita em 2004 com o romance “O Livro dos Homens Sem Luz”, tendo sido galardoado com o Prémio Literário José Saramago 2009 com “As Três Vidas”, o seu terceiro romance, publicado no ano anterior. Da lista de livros publicados em 14 anos de dedicação à escrita, fazem parte ainda “Hotel Memória” (2007), “O Bom Inverno” (2010), “Anatomia dos Mártires” (2011), “O Ano Sabático” (2013) e “Biografia Involuntária dos Amantes (2014), para além dos livros da trilogia anteriormente mencionados.