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segunda-feira, 14 de julho de 2025

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (II)



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (II)
Com | CRUA, Juliana Linhares, Fogo Fogo e Mário Lúcio
Parque Urbano de Ovar
12 Jul 2025 | sob | 16:00 às 00:00


Tal como havia começado, chegou ao fim em festa o FESTA - Sons da Lusofonia, que este ano viu cumprida a sua décima edição. E se ontem trouxe aqui as impressões do primeiro dia, no qual pontificaram A garota não, os Cara de Espelho e os Cacique 97, hoje falo dos concertos das CRUA, de Juliana Linhares, dos Fogo Fogo e de Mário Lúcio. De fora, porque não tive oportunidade de os apreciar, ficam Asa Cobra e os Sétima Legião. Mas comecemos pelas CRUA, belíssimo conjunto de cinco vozes no feminino, que se apresentaram com a proposta de uma viagem pela música tradicional, do Minho à Galiza, de Monsanto ao Paúl. De adufe na mão (ou de peneira, vá, que é uma prova de diversidade democrática), Diana Ferreira Martins, Liliana Abreu, Rita Só, Silvana Dias e Rita Sá puxaram pelas vozes e mostraram o quanto de belo pode haver na tradição, ao mesmo tempo que trocaram ideias “sobre este mundo que anda bem louco, mas se calhar consegue estar aqui um bocadinho melhor”. “Moleira”, “Meninas” e “Burriña” abriram o concerto, tornando mais quente a tarde e mais próximos os amigos. Amigos que se se fizeram presentes no bombo de Tiago Sami ou na (maravilhosa) voz de Sara Yasmine, ou que, mesmo ausentes, estiveram na FESTA, casos da Barcia de Mera, Maria Teresa Horta ou uma comunidade sénior do Porto, nesse muito belo “Em Casa”. “Eu hei-de morrer cantando, já que chorando nasci” deu o tom à “Moda da Tosquia”, o concerto fechando com “Ceifeira” e muitos amigos em palco, de longe e de aqui, de agora e de sempre.

Juliana Linhares preencheu o segundo concerto da tarde e foi, garantidamente, uma das maiores surpresas do Festival. Cantora, compositora e actriz, foi mulher e foi coragem nas músicas que interpretou, carregando-as de beleza e de uma alegria incontidas. Tirando partido de uma voz potente e de uma presença em palco fortemente teatral, a artista soube cruzar os ritmos tradicionais nordestinos com a grandeza melódica e poética de compositores como Alceu Valença, Zé Ramalho, Chico César, Zeca Baleiro ou Tom Zé, condimentando-os com um conjunto de notas operáticas e vaudevilescas. Mas nem só de música e performance se fez o concerto, visto Juliana Linhares ter na sua poesia outro ponto forte, com muitos dedos apontados ao preconceito e às diferenças que a sociedade teima em estabelecer no seu seio. Fazendo incidir o alinhamento no seu álbum “Nordeste Ficção” - um Hino ao Nordeste e à afirmação do seu lugar na imensa nação que é o Brasil -, a cantora ofereceu-nos verdadeiras pérolas em “Meu Amor Afinal de Contas” e “Embrulho” - duas parcerias com Zeca Baleiro e Chico César, respectivamente -, “Armadilha” (extraordinário o intróito instrumental do guitarrista Elísio Freitas) e “Tareco e Mariola”. Piscando o olho ao próximo trabalho de estúdio, Juliana Linhares mostrou “Emaranhado”, para logo “regressar ao passado” com “Aburguesar”, “Nordeste Ficção” e “É Mais em Baixo / Lambada da Lambida”. “Frivião” fechou o concerto, mas não termino sem falar de “Bolero de Isabel”, com poemas pintalgados do linguajar nordestino, em rimas verdadeiramente deliciosas.

Se Juliana Linhares navegou nas asas da surpresa, os Fogo Fogo vieram com a certeza de um concerto inesquecível. Primeira banda a repetir a presença no FESTA (depois de uma participação memorável em 2022), os Fogo Fogo puseram a carne toda no assador, mostrando o porquê de serem lídimos representantes do funaná, mas não só. Cultores da lusorritmía, na sua música confluem o samba e o semba, a morna e a marrabenta, o carimbó e o fado. Mas, ainda que o ritmo seja o pai de tudo, a palavra traduz o ritmo e daí que a música dos Fogo Fogo, sendo para dançar, seja igualmente para cantar. E foi isso que pudemos apreciar ao final da tarde de sábado, num concerto que encerrou um conjunto de momentos inesquecíveis. Voltar ao baile, voltar à pista, ser ponto de encontro de corpos que se dão em gesto e partilha, foi esta a proposta da banda à qual o público aderiu de forma incondicional. Dançou, dançou, dançou, cantou e voltou a dançar, levantou o pó do chão e, depois de tanta comunhão e partilha, concluiu que “isto já ninguém nos tira”. Francisco Rebelo no baixo, João Gomes nos teclados, Danilo Lopes e David Pessoa nas guitarras e voz e Edu Mundo na bateria foram incríveis no compromisso com a sua música e com o seu público, elevando a FESTA a um patamar de grandeza superior. Para que conste, “Shaft” abriu o concerto e “Sentimento” colocou-lhe um ponto final. Pelo meio ficaram “Nhô Buli”, “Ca Ta Da”, “Nha Riqueza” (tema que dá nome ao último álbum da banda), “Pomba”, Terra Bufa” ou “Oh Minina”. E ainda “É Si Propi”, o palco invadido pelos fãs, numa demonstração única de festa e amizade.

Falo, enfim, do concerto de Mário Lúcio, cantautor, pintor, poeta e político cabo-verdiano, que praticamente encerrou esta edição do FESTA - Sons da Lusofonia. Natural do Tarrafal, na Ilha de Santiago, Mário Lúcio trouxe a Ovar os sons de “Independance”, o seu novíssimo trabalho, num regresso às danças folclóricas anteriormente proibidas e à abertura do país às músicas populares urbanas de Angola, Congo, Guiné, Nigéria, Gana e Senegal. Foi um concerto decididamente festivo, através do qual Mário Lúcio teve o prazer de recordar os primórdios da independência, uma época da sua infância cheia de alegria e de música. No preciso dia em que S. Tomé e Principe festejou os 50 anos da sua independência, os países lusófonos não ficaram esquecidos, Cabo Verde à cabeça, “Cabo Verde, a casa do Mundo”. Com Jery Bidan na guitarra, Dilson Groove na bateria e Ricardo Campos no baixo, o artista trouxe-nos o tema que dá nome ao novo álbum logo a abrir o concerto, ao qual se seguiram “Rabidante”, “Maka Maka” e “Mati Mati”. “Tema de Minis”, “Tabankabé”, “Nha Bio” e “Doce Guerra” aqueceram ainda mais os ânimos e foram muitos aqueles que, na mole imensa de público, fizeram questão de entregar os corpos à dança. “Ilha de Santiago”, talvez o tema mais conhecido do cantor, fez as delícias de todos, o concerto a fechar com a interpretação de “Tabankamor”, “Goré” e “Amo Xintadu”. Uma despedida do FESTA em grande, com a organização a merecer um forte aplauso pela forma como soube levar avante dois dias de grande animação, muita música e comunhão entre todos. Para o ano há mais!

domingo, 15 de janeiro de 2023

LIVRO: "A Última Lua de Homem Grande"



LIVRO: “A Última Lua de Homem Grande”,
de Mário Lúcio Sousa
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Maio de 2022


“A psicose da perfeição atrapalha-o sempre. Está com duas mudas de roupa nos braços e ainda não decidiu com qual vai. É de sua natureza. E isto lembra-lhe a caixa de lápis de cor. Eram doze lápis para dois irmãos e acertaram que do preto até o lilás constituía o mar da gama de Ivo, e da violeta até o branco a terra de Amílcar e, para evitar que os desenhos de um fosse sempre do mesmo tom, podiam intercambiar lápis, mediante empréstimo expresso e consentimento inequívoco, não por tacanhez, mas por acérrima disciplina implementada pela mãe, lápis para quatro anos, como mandava a tradição. Com o tempo, a caixa parecia de um lado a casa de David e do outro a de Golias, arquitectura ditada pela obsessão de Amílcar em ter os lápis sempre aparados, o aparador era cego, o menino perfeccionista e não dava o aparo por concluído enquanto a mina estivesse irregular como dente de criança, e partia o miolo uma, duas, três, sete vezes, até conseguir o cone invertido indefectível: os lápis de Amílcar ficaram liliputianos, os de Ivo ainda exibiam metade da marca Faria, Cacheux & C.ª.”

Quem foi Amílcar Cabral? Faço a pergunta numa roda de amigos e a resposta vem com um encolher de ombros envergonhado, as palavras “guerra do ultramar”, “movimentos independentistas” ou “dirigente político” a aflorarem timidamente. Talvez a nova geração saiba mais sobre Amílcar Cabral do que as duas ou três anteriores, assim o espero. Muitos de nós, os que nascemos antes do 25 de Abril, vimos sempre ser-nos vedado o acesso aos dois lados de uma história absurda, infinitamente triste, um erro, um crime. É, pois, com grande surpresa minha, que, no abraço deste “romance historiado”, desta “história romanceada”, me é dada a conhecer a pessoa de Amílcar Cabral, do momento em que nasceu até à sua morte, aos 48 anos, na Guiné-Conacri, assassinado por aqueles que lhe eram mais próximos. “A Última Lua de Homem Grande” fala-nos do menino e sua mãe, do jovem e suas paixões, do homem e sua luta. Dos seus estudos de Agronomia em Lisboa e do que era ser negro no meio académico de então, do seu envolvimento nas acções oposicionistas ao regime e no movimento da negritude de Léopold Senghor, da sua participação na fundação do PAIGC e na luta armada pela auto-determinação e independência dos dois países, das lutas internas no Partido, da eterna rivalidade entre guineense e cabo-verdianos, da contestação à liderança de “Homi Garande”, enfim, do acto traiçoeiro que redundou no seu assassinato.

A morte do dirigente num dia 20, número “inacreditável, cabalístico”, serve de ponto de partida a um monólogo contado, de forma original, na terceira pessoa. A opção de Mário Lúcio Sousa por esta linha narrativa revela-se de uma enorme coerência, visto Amílcar Cabral, no seu dia a dia, referir-se geralmente a “ele” quando falava de si, colocando os seus pontos de vista exteriormente à sua pessoa, como se em constante escrutínio de si mesmo. De resto, a coerência e consistência desta abordagem à vida e obra de Amílcar Cabral mostram-se fortemente consolidadas na verdade dos factos, datas, nomes, lembranças, acontecimentos e seus conteúdos, na forma como ocorreram e se encontram bem documentados. Ao autor coube a tarefa de organizar o material recolhido, estabelecer uma ordem literária, harmonizá-lo sob a forma de romance. “A Última Lua de Homem Grande” resulta num livro belíssimo, com um cunho biográfico fortemente impresso nas suas páginas, mas com o perfume da ficção a suavizar a leitura, a facilitar a aproximação do leitor à História, sem que daí resulte qualquer diminuição da sua força e interesse.

A par da importância e significado de uma obra que nos abre a vida e o mundo daquele que, segundo o BBC History Magazine, emergiu do tempo como o segundo maior líder da História, há no livro uma dinâmica narrativa que merece ser igualmente valorizada. A história de Amílcar Cabral é contada num arco de tempo muito curto, tornado longo pelas sucessivas regressões que acompanham os passos de uma vida, na esfera pública como na privada. Este artifício permite acompanhar pausadamente uma existência que corre como se de uma vertigem se tratasse, o “filme” de uma vida passado em revista agora que o fim se aproxima de forma inexorável. Mário Lúcio Sousa revela-se igualmente exímio na construção de um verdadeiro puzzle, enriquecendo-o com o uso parcimonioso do crioulo e a exploração das possibilidades que a língua portuguesa oferece, mediante uma apropriação espirituosa e imaginativa de palavras e expressões de uso corrente, transformadas em novos ditos de forte conotação política, de “a bando dados” (“abandonados”) a “os disses e os dentes” (“dissidentes”). Finalista do Prémio LeYa em 2021, “A Última Lua de Homem Grande” é um livro surpreendente, extraordinariamente bem escrito e talhado para que ninguém fique indiferente perante a generosidade, verdade e alcance da sua escrita.

sábado, 28 de março de 2020

LIVRO: "O Diabo Foi Meu Padeiro"



LIVRO: “O Diabo Foi Meu Padeiro”, 
de Mário Lúcio Sousa 
Edição | Maria do Rosário Pedreira 
Ed. Publicações Dom Quixote, Setembro de 2019


“Amanheço no Mindelo, S. Vicente. Está um crepúsculo tão boreal que só me apetece despir, abraçar o mar, ver a orla azul e amar ela. A brisa manhaneira salpica meu rosto, e os meus olhos de água abaixo estão. Passamos pelo Porto Grande, pela linda baía, subimos uma ladeira e parámos. Chegamos à cadeia. Dois guardas fisgam-me com cara de porcos amigos. Hirtos diante deles estão dois agentes da PIDE com cara de cães.”

Gabriel Pedro, Edmundo Pedro, Pedro Santos Soares, Pedro José da Conceição, Pedro Benge, Pedro Pacavira, Pedro Chimbinda, Preto Mancanha e Pedro Martins. A coincidência no nome e as histórias que se descobrem por detrás de cada uma destas figuras são o fio condutor de “O Diabo Foi Meu Padeiro”, romance centrado no viver e sentir dos presos políticos que, ao longo de quase quatro décadas, passaram pelo Campo de Concentração do Tarrafal, aí deixando a saúde e, em muitos casos, a vida. Centrado nos Pedros que, no “campo da morte lenta”, comeram o pão que o diabo amassou, o livro oscila entre o real e o ficcionado, convergindo na história dos perto de 340 antifascistas portugueses e dos 226 nacionalistas africanos (106 angolanos, 100 guineenses e 20 cabo-verdianos) que, por seu livre pensamento, enfrentaram condições de reclusão bárbaras e desumanas.

Preservar a memória e passar o testemunho. Tal será, porventura, a maior virtude de “O Diabo Foi Meu Padeiro”, visto os crimes cometidos no Tarrafal permanecerem como um dos mais fortes libelos acusatórios contra o regime fascista de Salazar e Caetano. O ignominioso tem como marco fatídico o dia 29 de Outubro de 1936, com a primeira leva de 152 presos políticos a inaugurarem formalmente o Campo de Concentração do Tarrafal e o seu brutal reduto: uma vasta área cercada de arame farpado e fortemente vigiada, numa zona inóspita, com condições climáticas adversas, sem água potável e cujos princípios orientadores estabelecidos para o seu funcionamento eram marcados pela violência e arbitrariedade permanentes. “Daqui ninguém sai com vida... quem vem para o Tarrafal vem para morrer”, diziam os responsáveis do Campo, sentença complementada pela afirmação do médico de que a sua função não era tratar da saúde dos presos, antes passar certidões de óbito.

Numa altura em que se cumprem 45 anos do fecho do Campo de Concentração do Tarrafal, Mário Lúcio Sousa presta, com este livro, uma sentida homenagem a todos quantos passaram pela mais sombria prisão do Estado Novo, recuperando histórias e memórias que dizem muito do engenho e da coragem, da solidariedade e da resiliência, destes homens que aqui cumpriram penas elevadas, muitos deles sem sequer terem sido julgados, e que, nalguns casos, lá permaneceram para além das penas determinadas. Da infame frigideira aos livros que Luandino Vieira aqui escreveu e que saíram da prisão graças à cumplicidade de uma mulher analfabeta, do fel constante na boca por conta da biliosa às “notícias da retrete” que chegavam via Rádio Moscovo, são infindáveis as histórias narradas neste livro que nos falam duma verdade que alguns teimam em querer ver apagada. Mário Lúcio Sousa é disto o oposto. Nascido no Tarrafal há 55 anos, no seio de uma família praticamente analfabeta, aprendeu a viver com parcos recursos, a conviver com a morte desde muito pequeno e a escrever histórias desde cedo. A sua escrita, forte, emotiva, visceral, é o reflexo das suas vivências e da sua forma de estar, comprometida com a justiça e a liberdade. Ler “O Diabo Foi Meu Padeiro” é percorrer, com a razão e o coração, caminhos de luta e resistência.