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domingo, 25 de maio de 2025

CONCERTO: “Variações do Brancø” | Filipe Raposo



CONCERTO: “Variações do Brancø”,
de Filipe Raposo
Teatro Viriato
23 Mai 2025 | sex | 21:00


“Precisamos para começar de um ponto de partida:
Costa ou paisagem, porto ou acontecimento, navegação ou relato.
O lugar donde partimos importa menos que aquele aonde chegamos.
Porque ora todos os mares parecem formar um só,
sobretudo quando é longa a viagem,
Ora cada um deles nos parece ser outro mar.”
Predrag Matvejevitch, in Breviário Mediterrânico

Terceiro volume da “Trilogia das Cores”, projecto do pianista, compositor e orquestrador Filipe Raposo, “Variações do Brancø” acaba de ver a luz do dia e o lançamento ao vivo teve lugar na noite da passada sexta-feira, em Viseu. Reflexão artística sobre a influência da cor ao longo da História, a “trilogia” teve o seu início com o vermelho (“Øcre” vol. 1, 2019), prosseguiu com o preto (“Øbsidiana vol. 2, 2022) e conclui-se agora com o branco (“Variações do Brancø” vol. 3, 2025). Para Filipe Raposo, “as cores surgem como chave do processo criativo, que, ao evocar o próprio nascimento da arte, se encontram presentes nas pinturas e gravuras rupestres, e ganham uma dimensão metafórica e simbólica na mitologia clássica”. Neste trabalho em particular, o branco evoca paisagens alvas, distâncias monótonas, vastas planícies geladas ou desertos de areias claras. Simbolicamente, representa o renascimento, a simplicidade e a restauração. Tanto pode ser luto e resiliência, tal como é entendido nalgumas culturas orientais, como a cor da página em branco que se abre à criatividade e à imaginação.

À semelhança dos volumes anteriores, “Variações do Brancø” é uma viagem, com a carga simbólica que tal desígnio carrega em si. Depois do “negro mais negro” da obsidiana, o branco representa um caminhar em direcção a sul, ao encontro da grande bacia mediterrânica e da sua cultura milenar. Tema de abertura do concerto, “A Idade do Pão” evocou um alimento presente em todas as geografias e que é tido como um símbolo de hospitalidade e partilha. A mesma hospitalidade e partilha gerada entre o artista que, numa sala de espectáculos, tem para oferecer o fruto do seu trabalho, recebendo do público atenção e aplauso. “Entre a cal e o sul” trouxe-nos esse elemento tectónico que, saído do interior da terra, embeleza e protege os espaços que habitamos. O elemento solsticial abriu-se em “Manhãs de S. João”, dividido entre o dia e a noite, a ordem e o caos, a luz e as trevas. “Da minha janela vejo o grande sul” foi um abraço a um sul latino e católico, que bebe vinho e é pobre, deixando para traz um norte germânico e protestante, amigo da cerveja e que é rico.

Simbólica, a lista vai-se afirmando ao longo da viagem: o branco-cal, o branco-pão, o branco-gelo, o branco-linho, o branco luz, ou a noite branca. Com “Búzios mudos, maus agouros”, foi de “sinistros prenúncios de um crime da humanidade contra si mesma” que nos falou uma música feita dos silêncios e dos “sibilinos murmúrios” que neles se insinuam. “Crepúsculo da tarde” foi errância e efemeridade da vida, fim de um ciclo, despedida. Já “Fiadas”, com a sua roca e o seu fuso, simbolizou a mulher e foi bem-estar futuro, abundância e mesmo fecundidade. “Noite branca”, enfim, foi a lua que surge no céu e que ilumina todos os homens - os de hoje e os de outrora. O sentido do trabalho de Filipe Raposo, a sua intencionalidade, as palavras que evoca, a sua qualidade discursiva, vão muito além da música que podemos escutar. Mostra-nos esse sul tão nosso, tão afectuoso e tranquilo, quanto arrebatado e exaltado. “Suão” colocou um ponto final no alinhamento, dizendo, como Mahmoud Darwish, que “os ventos mudam contra nós”. Um abraço à Palestina e ao seu povo, a coroar um concerto inesquecível.

sábado, 26 de março de 2022

TEATRO: "Orgia"



TEATRO: “Orgia”
Texto | Pier Paolo Pasolini
Tradução | Pedro Marques
Direcção | Nuno M. Cardoso
Instalação | Ivana Sehic
Interpretação | Albano Jerónimo, Beatriz Batarda, Marina Leonardo
Produção | Teatro Nacional 21
120 Minutos | Maiores de 16 anos
Teatro Viriato
19 Mar 2022 | sab | 17:00


Uma semana passou sobre a minha ida ao Viriato (a minha estreia no Viriato) e continuo sem saber situar “Orgia” no universo das representações que tenho vindo a coleccionar. Mais fácil seria passar-lhe por cima, esquecê-la. Mas como esquecer uma peça que faz questão de se fazer lembrada todos os dias? Lembrada pela espacialidade e pelo cenário, pela relação dos actores com a matéria que os envolve, pelo movimento dos corpos, pelos diálogos obsessivos, por um texto denso, hermético, repleto de códigos por desvendar. Pois é, melhor seria ter sido previdente o suficiente para me documentar sobre a peça, de preferência lendo previamente o texto ou até a folha de sala. Quero acreditar que teria percebido um pouco melhor acerca do que se estava a passar no palco, que teria tirado um outro partido da peça. Acreditei que bastaria aquilo que conheço de Pasolini e do seu cinema. Nada mais enganador. Avisadas palavras, as de uma querida amiga ao lembrar-me que “Pasolini não é para fins de semana”.

Fundado no teatro da palavra, com uma fortíssima carga de tragédia grega, “Orgia” fala-nos de identidade pessoal e da procura por liberdade numa sociedade opressora, controladora e reguladora como a que encontrávamos no tempo de Pasolini, nos anos sessenta do século passado, e que, bem vistas as coisas, não se distancia assim tanto daquela que temos nos dias de hoje. “É uma tragédia contemporânea sobre a diversidade e sobre os impulsos obscuros e violentos que movem o ser humano. Mais do que uma peça de teatro, Orgia pode ser definido como um poema a várias vozes, ou um oratório laico que exprime, entre lirismo e declaração, a crise da sociedade contemporânea, representada através de uma obsessão individual. Em “Orgia”, o mistério da fertilidade e os problemas da identidade encontram a obsessão do sexo, objeto de culpa e meio de conhecimento: eis então o delírio de um casal, uma orgia sangrenta de palavras que encontra a sua essência no reconhecimento da diversidade. Não é, no entanto, uma história pornográfica ou erotizada, “Orgia” pertence ao terreno das ideias”, pode ler-se na apresentação da peça.

Ao convidar o público a reflectir num suicídio como homicídio social, “Orgia” representa “um desafio para pensar a dualidade entre o ‘eros’, nos seus níveis do corpo, do coração e do sagrado, e o ‘tânatos' na sua dimensão de morte”. No ano em que se assinala o centenário do artista italiano, o Teatro Nacional 21, o encenador Nuno M. Cardoso e os actores Albano Jerónimo, Beatriz Batarda e Marina Leonardo revisitam o texto de Pasolini, num exercício de representação com tanto de entrega como de cumplicidade. É notável a forma como, ao longo de duas horas, nos prendem às suas figuras e nos levam a mergulhar na arte da representação naquilo que tem de mais fascinante: a capacidade de dizer o texto. Há, depois, a forma como se relacionam com o meio, como tiram partido desse elemento primordial que é a terra, simultaneamente sujeito e objecto de corpos que, no seu despojamento, se misturam e se estendem, espectrais, sobre a plateia. O texto, bem, isso já é outra história. Vou ter de o ler!

[Foto: Bruno Simão | Culturgest | https://en.calameo.com]