A Sala 2 da Casa da Música foi palco, na noite da passada sexta-feira, da estreia portuense de “O Fado”, a nova aventura musical de LINA_ & Marco Mezquida. Na base deste projecto está o encontro “intenso, criativo e apaixonado” da dupla artística, o que fez com que o concerto se revestisse de emoção, sensibilidade, cumplicidade e intimismo. Ao longo de quase uma hora e meia, “O Fado” abriu-se em certeza e diálogo, unindo e reinventando, revelando uma simbiose perfeita com outros géneros e ritmos - da música tradicional aos sons do Brasil, da canção espanhola às marchas de Santo António. Reconhecidamente rica e expansiva, a voz de Lina_ ofereceu-se pura e límpida, ganhando asas e elevando-se nos acordes cristalinos do piano, tecnicamente irrepreensível, ainda que redundante e menos contido aqui e ali. Mesmo assim, Marco Mezquida soube encontrar o equilíbrio entre o lirismo subtil e uma abordagem quase sinfónica, criando uma tensão estrutural que encheu o palco e seduziu o público. A promessa de uma fusão natural, nascida da profunda admiração mútua entre cantora e pianista, acabou por soar de forma convincente nas palavras e na sua materialização sonora, sobretudo quando as canções pediram silêncio, contenção e uma respiração comum.
O alinhamento escolhido, descrito por Lina_ & Marco Mezquida como “orgânico e fluído”, revelou-se perfeito nos seus propósitos de combinar qualidade e variedade. Tema inaugural do concerto, “Não é Fácil o Amor”, com letra de Luís de Andrade e música de Janita Salomé, veio mostrar uma clara intenção de viajar por repertórios desafiantes, enriquecê-los com abordagens inovadoras e, ao mesmo tempo, apostar na redescoberta de poemas e músicas maiores do nosso cancioneiro. “O Fado”, um tema original da dupla inspirado em Florbela Espanca, revelou-se de uma enorme força poética, confirmando a capacidade de Lina_ como compositora e a sua ambição de ultrapassar fronteiras sem trair a tradição. “Algemas”, do poeta e compositor Álvaro Duarte Simões, teve aqui uma aproximação excitante à voz de Amália, sobretudo pela abordagem contida ao poema, preenchendo-o de angústia e saudade. Outro momento enorme foi “El Rosario de Mi Madre”, um tema celebrizado por Maria Dolores Pradera e que os amantes do cinema recordarão do filme “Em Carne Viva”, de Pedro Almodóvar, onde o diálogo entre o fado e a melancolia castelhana soou extraordinariamente fértil e natural.
Sublime na sua essência, intencional nos seus propósitos, o concerto prosseguiu com “Alma”, de Sueli Costa, e “Ausência em Valsa”, de Vitorino, dividindo o público entre o fascínio pela técnica de Mezquida e a expressividade de LINA_. De forma intensa e viva, os aplausos foram-se sucedendo, atingindo um dos pontos mais altos com a interpretação do “Fado da Defesa”, o único fado tradicional interpretado ao longo da noite. “Gota d’Água”, do muito jovem poeta e compositor Flávio Gil, abriu-se em brilho e risco, mostrando o lugar poético próprio do fado e uma transparência emocional verdadeiramente comovente. Os caminhos da grande poesia portuguesa cruzaram-se com Miguel Torga em “Confidencial”, uma composição inspirada de Lina_ & Marco Mezquida, na qual piano e voz voltaram a atingir patamares de excelência. Grande marcha de Lisboa que Amália soube imortalizar, a “Lisboa dos Manjericos” foi um momento descontraído e leve que antecedeu “Senhora do Almortão”, um tema respigado da tradição e que colocou um ponto final no concerto. O público aplaudiu com vigor e emoção e a dupla regressou ao palco com a oferta de “No Volveré”, um novo tema cantado em castelhano a encerrar o momento da melhor forma. Em suma, um daqueles concertos que guardamos num lugar especial, o das coisas belas e simples, feitas de intimidade, sensibilidade e amor.
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