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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

CONCERTO: "Inspirar" | Danças Ocultas



CONCERTO: “Inspirar”
Danças Ocultas
Com | Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo, Francisco Miguel
Misty Fest 2025
Teatro Aveirense
12 Dez 2025 | sex | 21:30


Há mais de três décadas que os Danças Ocultas ocupam um lugar singular no panorama da música portuguesa, erguendo o acordeão diatónico, de instrumento associado ao folclore, para uma linguagem de câmara subtil e profundamente emotiva. Fundado em 1989 por Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel, o quarteto tem sabido construir uma obra coerente e exigente, onde o minimalismo e o lirismo se vestem de contenção expressiva e de um virtuosismo envolvente e sedutor. A sua música, tantas vezes descrita como “folk impressionista”, vive de equilíbrios delicados entre o popular e o erudito, entre o enraizamento na tradição e uma vocação universal que os tem levado a percorrer as mais diversas geografias e a pisar dezenas de palcos um pouco por todo o mundo. Ao longo de álbuns como “Ar”, “Pulsar”, “Amplitude” ou “Dentro Desse Mar”, e de colaborações com coreógrafos, orquestras e músicos de diferentes latitudes, os Danças Ocultas foram afinando uma gramática própria, feita de escuta mútua, emoção colectiva e uma rara inteligência do silêncio. Não tocam para danças existentes, mas para movimentos ainda por inventar, nessa suspensão residindo grande parte do seu magnetismo.

Foi com esse património artístico bem presente que os Danças Ocultas regressaram a um Teatro Aveirense completamente esgotado, ao mesmo palco onde se estrearam em maio de 1989 num Sarau Académico. A apresentação de “Inspirar”, o seu décimo álbum de estúdio e o primeiro após um ciclo marcado por colaborações mais expansivas, soou como um regresso à essência: quatro músicos, quatro cadeiras em semicírculo, e uma música que respira para dentro antes de se expandir no ouvido de quem escuta. A abertura com “Pulsar” estabeleceu desde logo o tom meditativo do concerto, seguida de “Pedra do Sol” e da recuperação de temas como “Tarab”, “Bulgar” ou “Alento”, num alinhamento que cruzou o presente com diferentes momentos de uma extraordinária carreira. Houve especial destaque para “Amplitude”, álbum charneira, de onde surgiram seis temas, culminando num final com “Diatónico”, recebido com o mais longo e caloroso aplauso. Atento e cúmplice, o público soube responder com uma escuta quase ritual, quebrada apenas por manifestações de entusiasmo destinadas a agradecer não só a música, mas também a fidelidade a uma visão artística sem concessões.

A música dos Danças Ocultas nunca é sombria, mesmo quando se move na melancolia. Nela encontramos sempre uma fresta de luz, uma promessa de clareza no meio da contenção. Não é música para consumo rápido, mas para escuta profunda, exigente e, paradoxalmente, reconfortante. Mais do que um simples concerto, o que se viveu no Teatro Aveirense foi uma experiência de partilha sensível, onde os acordes pareceram procurar um lugar íntimo na memória daqueles que tiveram o privilégio de os escutar. Inspirar, como o título bem sugere, foi gesto de recolha, de interiorização, contrastando com a trilogia de álbuns anteriores, mais voltados para fora, para o “respirar” como movimento de saída. Na noite da passada sexta-feira, em Aveiro, confirmou-se uma evidência antiga: poucas formações conseguem transformar um instrumento de limitações técnicas assumidas num território tão vasto de emoção partilhada. Daí o espanto, daí o aplauso devido a um agrupamento apostado em provar que a tradição, quando pensada com rigor e imaginação, não é um lugar de nostalgia, mas de empatia. Um espaço vivo, contemporâneo, aberto ao mundo e a cada um de nós.

domingo, 16 de novembro de 2025

CONCERTO: Lina_ & Marco Mezquida



CONCERTO: Lina_ & Marco Mezquida
Misty Fest
Casa da Música - Sala 2
14 Nov 2025 | sex | 21:30


A Sala 2 da Casa da Música foi palco, na noite da passada sexta-feira, da estreia portuense de “O Fado”, a nova aventura musical de LINA_ & Marco Mezquida. Na base deste projecto está o encontro “intenso, criativo e apaixonado” da dupla artística, o que fez com que o concerto se revestisse de emoção, sensibilidade, cumplicidade e intimismo. Ao longo de quase uma hora e meia, “O Fado” abriu-se em certeza e diálogo, unindo e reinventando, revelando uma simbiose perfeita com outros géneros e ritmos - da música tradicional aos sons do Brasil, da canção espanhola às marchas de Santo António. Reconhecidamente rica e expansiva, a voz de Lina_ ofereceu-se pura e límpida, ganhando asas e elevando-se nos acordes cristalinos do piano, tecnicamente irrepreensível, ainda que redundante e menos contido aqui e ali. Mesmo assim, Marco Mezquida soube encontrar o equilíbrio entre o lirismo subtil e uma abordagem quase sinfónica, criando uma tensão estrutural que encheu o palco e seduziu o público. A promessa de uma fusão natural, nascida da profunda admiração mútua entre cantora e pianista, acabou por soar de forma convincente nas palavras e na sua materialização sonora, sobretudo quando as canções pediram silêncio, contenção e uma respiração comum.

O alinhamento escolhido, descrito por Lina_ & Marco Mezquida como “orgânico e fluído”, revelou-se perfeito nos seus propósitos de combinar qualidade e variedade. Tema inaugural do concerto, “Não é Fácil o Amor”, com letra de Luís de Andrade e música de Janita Salomé, veio mostrar uma clara intenção de viajar por repertórios desafiantes, enriquecê-los com abordagens inovadoras e, ao mesmo tempo, apostar na redescoberta de poemas e músicas maiores do nosso cancioneiro. “O Fado”, um tema original da dupla inspirado em Florbela Espanca, revelou-se de uma enorme força poética, confirmando a capacidade de Lina_ como compositora e a sua ambição de ultrapassar fronteiras sem trair a tradição. “Algemas”, do poeta e compositor Álvaro Duarte Simões, teve aqui uma aproximação excitante à voz de Amália, sobretudo pela abordagem contida ao poema, preenchendo-o de angústia e saudade. Outro momento enorme foi “El Rosario de Mi Madre”, um tema celebrizado por Maria Dolores Pradera e que os amantes do cinema recordarão do filme “Em Carne Viva”, de Pedro Almodóvar, onde o diálogo entre o fado e a melancolia castelhana soou extraordinariamente fértil e natural.

Sublime na sua essência, intencional nos seus propósitos, o concerto prosseguiu com “Alma”, de Sueli Costa, e “Ausência em Valsa”, de Vitorino, dividindo o público entre o fascínio pela técnica de Mezquida e a expressividade de LINA_. De forma intensa e viva, os aplausos foram-se sucedendo, atingindo um dos pontos mais altos com a interpretação do “Fado da Defesa”, o único fado tradicional interpretado ao longo da noite. “Gota d’Água”, do muito jovem poeta e compositor Flávio Gil, abriu-se em brilho e risco, mostrando o lugar poético próprio do fado e uma transparência emocional verdadeiramente comovente. Os caminhos da grande poesia portuguesa cruzaram-se com Miguel Torga em “Confidencial”, uma composição inspirada de Lina_ & Marco Mezquida, na qual piano e voz voltaram a atingir patamares de excelência. Grande marcha de Lisboa que Amália soube imortalizar, a “Lisboa dos Manjericos” foi um momento descontraído e leve que antecedeu “Senhora do Almortão”, um tema respigado da tradição e que colocou um ponto final no concerto. O público aplaudiu com vigor e emoção e a dupla regressou ao palco com a oferta de “No Volveré”, um novo tema cantado em castelhano a encerrar o momento da melhor forma. Em suma, um daqueles concertos que guardamos num lugar especial, o das coisas belas e simples, feitas de intimidade, sensibilidade e amor.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

CONCERTO: Brandee Younger



CONCERTO: Brandee Younger
Com Rashaan Carter, Allan Mednard
Misty Fest 2024
Auditório de Espinho – Academia
16 Nov 2024 | sab | 21:30


Evento de referência no panorama nacional de festivais de Outono, o Misty Fest continua a ter em Espinho um dos seus polos anuais de programação. Nesta 15ª edição, a aposta recaiu na norte-americana Brandee Younger, jovem artista conhecida por ampliar as fronteiras do som da harpa rumo a géneros tão diversos como o jazz, a soul ou o funk. Acompanhada pelo baixista e contrabaixista Rashaan Carter e pelo baterista Allan Mednard, Younger apresentou-se perante um Auditório com lotação esgotada, correspondendo às expectativas pela espontaneidade e presença fortemente empática e pela qualidade da sua música. O público foi brindado com uma selecção de temas do seu mais recente álbum de originais, “Brand New Life”, mas também com um conjunto de releituras de composições de ídolos confessos, casos de Stevie Wonder e Marvin Gaye, mas sobretudo de Alice Coltrane e Dorothy Ashby, dois nomes consensuais no topo da curta lista de harpistas de jazz.

A harpa está longe de ser um instrumento comum neste género musical e a prova é que esta foi a primeira vez que assisti ao concerto de um agrupamento de jazz liderado por uma harpista. Revelando um conhecimento profundo do instrumento e sabendo tirar partido das suas múltiplas potencialidades, Brandee Younger trouxe-nos uma música envolta em sonoridades melódicas e contidas, nisso sendo particularmente bem acompanhada por Carter e Mednard. “Brand New Life”, o tema que dá nome ao álbum, deu o mote para uma viagem feita de serenidade e harmonia, que se prolongaria por uma hora e um quarto de boa música. Seguiu-se “Unrest”, um tema original em dois movimentos, com a artista a explicar ter sido a música escrita durante a pandemia e inspirada por eventos muito próximos, passados do lado de fora da sua janela. Uma música que vive de um longo e inspiradíssimo solo de harpa e que abre espaço, na sua segunda metade, ao frenesim e virtuosismo da bateria.

As músicas foram-se sucedendo e a boa disposição também - a quase loucura ao falar da comida portuguesa ou a busca de um título para uma música sem título arrancaram saborosas gargalhadas à plateia. O tributo a Alice Coltrane veio com uma balada intitulada “Turiya e Ramakrishna”, um momento profundamente meditativo e espiritual transportado na sonoridade etérea da harpa de Younger. A batida ritmada de “Spirit U Will” ofereceu um delicioso momento de jazz, ao qual se seguiu “Untitled Song” (sugestão de um assistente na plateia), um novíssimo tema pleno de ressonâncias andinas. “If It's Magic”, de Stevie Wonder, homenageou não apenas o seu autor mas também Dorothy Ashby, já que foi ela a responsável pelos momentos de harpa na gravação original de Wonder, do álbum “Songs in the Key of Life”. O concerto terminou com “I Want You”, desse ícone da soul que é Marvin Gaye, em mais um momento revelador da magia que o dedilhar ondulante das cordas de uma harpa pode espalhar.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

CONCERTO: Francisco Sassetti | Wim Mertens com Ward Hoornaert



CONCERTO: Francisco Sassetti | Wim Mertens com Ward Hoornaert
Misty Fest 2023
Auditório de Espinho
19 Nov 2023 | dom | 21:30


Figura emblemática da mais avançada música contemporânea, Wim Mertens é um artista com uma obra de referência que se espalha por quatro décadas de intensa criatividade, um compositor que possui uma tão vasta quanto rica discografia, recheada de prémios, aplausos e distinções várias. Mertens começou a criar música em 1980, depois de trabalhar como musicólogo e produtor de rádio. “For Amusement Only”, o seu primeiro lançamento, é uma gravação de música eletrónica que utilizava exclusivamente o som das máquinas de pinball. Nestes quarenta anos de carreira, Mertens desenvolveu uma linguagem musical variada, escrevendo para diferentes conjuntos instrumentais, composições vocais e até peças sinfónicas. Hoje, o seu catálogo de gravações conta com mais de setenta álbuns, o último dos quais, “Voice Of The Living”, nascido de uma encomenda da Chancelaria do primeiro-ministro belga como parte das comemorações da Primeira Grande Guerra, esteve em foco na passagem do artista pelo Auditório de Espinho, na noite do passado domingo.

Que dizer de “Voice of the Living” e da prestação de Mertens? Sobretudo que, pessoalmente, passei ao lado desta “guerra”, contada do ponto de vista do homem que se vê confrontado com a experiência abissal de um quotidiano de violência e destruição, cara a cara com o inaudito, o absurdo, o impensável. Nas premissas desta sua visão sobre um cenário bélico, não encontrei o fogo e a água, a terra e o ar, elementos que deveriam trazer consigo as trincheiras, a lama, os rebentamentos, o gás mortífero a espalhar-se sobre os campos. Guiadas pela voz, as diferentes partes da composição levam-nos por caminhos imprevistos, interrupções inesperadas, distorções, rupturas, embora nada disto seja novo em Mertens. Vi, apenas e só, o mesmo Mertens que vi há uns anos atrás na Casa da Música e que será o mesmo que poderia ter visto há umas décadas atrás, um Mertens que, ou muito me engano, ou já muito pouco de novidade tem para oferecer. A presença do trompetista Ward Hoornaert não chegou a ser uma mais-valia, as mais das vezes sobrepondo a sua “voz” à de Mertens, anulando mais do que acrescentando.

Valha-nos S. Francisco, apetece dizer. Não o de Assis, mas, também de origem italiana, [S.] Francisco Sassetti, que fez as honras da primeira parte do serão, abrindo as portas da sua casa e oferecendo-nos momentos de tranquilidade e conforto. Irmão de Bernardo Sassetti, Francisco começou a compor compulsivamente em 2012, quase como se quisesse continuar a obra dele, tão tragicamente deixada a meio. São temas dessa altura, combinados com alguns mais recentes, que corporizam o seu primeiro trabalho a solo, abrindo as portas para um lado mais íntimo e secreto da sua personalidade. Foram pouco mais de trinta minutos, mas intensos e imensamente belos, envoltos em pequeninas histórias que o pianista fez questão de contar. Histórias de descoberta e deslumbramento, da magia do regresso a casa, de céus estrelados e meninas com balões, cavaleiros andantes e sorrisos contagiantes. Também alguns dramas e a falta que sentimos de alguém que já não está. O álbum intitula-se “Home” e é uma pequenina pérola. 

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

domingo, 19 de novembro de 2023

CONCERTO: Hauschka



CONCERTO: Hauschka
Misty Fest 2023
Auditório de Espinho
18 Nov 2023 | sab | 21:30


Volker Bertelmann, dizem, é um madrugador. Durante essa hora azul, quando tudo é paz e sossego, o compositor-pianista alemão - cujo nome artístico é Hauschka - faz dos seus dedos uma extensão da mente e, de forma inspirada, transforma em música o que lhe vai na alma. A verdadeira magia, porém, acontece quando despeja sobre a bancada o “cesto do lixo”, de lá retirando fita adesiva, alfinetes, bolas de ping-pong, peças de dominó, pinças de madeira, parafusos, pandeiretas, pedaços de corda, um lenço de feltro. Tudo isto ele incorpora no piano, alterando tons e sons, provocando os efeitos mais inesperados e descobrindo nele as potencialidades de um contrabaixo ou de uma bateria. John Cage, o inventor desta técnica, já espantava o público em finais da década de 1930, com o atrevimento das suas criações, não sendo raro, nos dias de hoje, vermos um pianista fazê-lo nalgumas composições (Amaro Freitas é o nome que me acorre de imediato à memória). Mas Hauschka vai mais longe e faz do concerto um exercício de “piano tuning” integral. O resultado pode ser surpreendente.

Foi justamente Hauschka que, à boleia da edição de 2023 do Misty Fest, visitou Espinho, cidade onde passeou “em recolhimento” à beira-mar, o que o levou a estabelecer uma improvável comparação com as florestas da sua Alemanha natal, pela tranquilidade que transmitem. Em frente a um piano já totalmente “armadilhado” e com uma pequena mesa de mistura ao lado, o vencedor deste ano do Óscar para Melhor Banda Sonora Original (pelo filme “A Oeste Nada de Novo”, de Edward Berger) começou por traçar as linhas gerais do seu mais recente trabalho, “Philanthropy”, apresentado num único “take” ao longo de pouco mais de uma hora. Falou, sobretudo, do que o inspira, de empatia para com o outro, afinal aquilo que resta depois de sermos abalados por uma catástrofe, seja ela de causas naturais ou tenha origem numa guerra, por exemplo. Daí os votos para que o tempo do concerto pudesse constituir uma viagem, um tempo de preciosa partilha em torno daqueles que nos são mais queridos, mas também daquilo que nos aproxima uns dos outros, a magnanimidade, o altruísmo, a compaixão, a generosidade e a dádiva.

O meu olhar pessoal sobre o concerto é o de quem esteve a apreciar um belíssimo carro, último modelo do topo dos topos de gama. Nas suas linhas, vejo a eficácia aliada à técnica. Na “bizarria” dos acessórios há o potenciar das performances. As cores inquietam mais do que serenam. Do motor saem sons estranhos que me fazem recuar dois passos antes de voltar a chegar-me à frente. Acomodados os sentidos, é com admiração que encaro o objecto. Sem ser belo, é admirável, sim. Imagino uma viagem neste carro, mas não consigo que os sentidos se conjuguem na minha mente. Que tipo de veículo é este? Não sinto que se alce num voo e me leve a atravessar as nuvens ou, mais além, a viajar pelo espaço sideral. Também não me vejo a descer nele às profundezas do mar. Não há cidade onde o seu som se encaixe, tão pouco vales ou montanhas onde possa aliar o prazer da viagem às paisagens que me rodeiam. Fico-me pela contemplação do objecto. Uma bela máquina, sem dúvida, mas que não me leva a lado nenhum.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

CONCERTO: "The Turning Year" | Roger Eno



CONCERTO: “The Turning Year”,
de Roger Eno
Misty Fest 2022
Auditório de Espinho
24 Nov 2022 | qui | 21:30


Quase a chegar ao fim, o Misty Fest 2022 trouxe ao Auditório de Espinho o compositor britânico Roger Eno para a apresentação de “The Turning Year”, o seu mais recente trabalho discográfico, numa edição da prestigiada Deutsche Gramophone. De gargalhada fácil, com duas Super Bock na mão, o artista começou por esclarecer que o concerto teria a duração de “exactamente uma hora e três minutos” e seria acompanhado pela projecção de imagens colhidas nas imediações da pequena aldeia onde vive, no condado de Norfolk, no Reino Unido. Inspirando-se na história de Penélope, esposa de Ulisses, e naquele amor que não se cansa de esperar, recomeçando tudo de novo a cada dia, Roger Eno pôs em palco o seu particular talento de melodista, oferecendo um conjunto de composições como pequenas vinhetas musicais que foram, na sua essência, um convite à viagem interior e à reflexão.

Os acordes sucedem-se, cadenciados e dolentes, enquanto o nosso olhar vai pousando numas agulhas de croché que conduzem fios e fazem nascer uma peça, num campo despido que termina num pequeno bosque, num mosteiro em ruínas ou num corvo que, apanhado no laço, jaz morto e apodrece. Profundamente melancólica, de uma tristeza infinita, a música de Roger Eno lembra-nos o quão efémera é a vida, o quão inevitável é o declínio que acaba por tomar conta de tudo. Temas como “A Place We Once Walked”, “Hymn”, “Clearly”, “Innocence” ou “An Intimate Distance” arrastam-nos na emoção que delas se desprende, trazendo à memória as mais vívidas imagens, aquelas que ciosamente guardamos como jóias preciosas. De súbito, é como se desaparecesse o caos em que o nosso mundo se afunda aos poucos e só existisse a beleza e a comoção que a música convoca e imprime.

Cerramos os olhos por um breve instante. Perdem-se as imagens que vão fluindo na tela mas abre-se espaço na mente para o despertar pleno dos sentidos. A sensação de fragilidade e vulnerabilidade acentua-se, mas a certeza de estarmos vivos e capazes de sentir e abraçar tanta beleza é incomparavelmente maior. As notas soltam-se e são penas que caem levemente do céu, delicados flocos de neve que se derretem num espasmo líquido, grossas gotas de chuva que se desprendem das folhas das árvores e nos atingem sem molhar. Um pequenino trecho parece conduzir-nos ao “Adágio para Cordas” de Samuel Barber, outro como que nos abre a “Terceira Sinfonia” de Gorecky. Grieg e Satie passeiam-se por aqui. O piano range a cada movimento das mãos de Roger Eno e é como se ele estivesse aqui ao lado, a tocar exclusivamente para mim. Assombroso, etéreo, introspectivo, misterioso e imensamente belo, assim foi o concerto de Espinho. “Exactamente uma hora e três minutos” que tão cedo não se apagarão da memória.


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

CONCERTO: Matthew Halsall



CONCERTO: Matthew Halsall
Misty Fest 2021
Museu do Oriente
11 Nov 2021 | qua | 21:00


Compositor, trompetista, produtor e DJ, Matthew Halsall deu no Museu do Oriente o primeiro de dois concertos agendados para o nosso país no âmbito do Misty Fest. Rodeado por seis outros músicos, trouxe com ele um jazz “espiritual”, reflectido num conjunto de temas de enorme força introspectiva que convidam à meditação e ao silêncio, a sentir o pulsar da energia vital, a saudar o sol e todos os espíritos do universo, a olhar as estrelas e a libertar a mente de tudo quanto de pernicioso e mau a possa preencher. Foi uma noite de felicidade em torno de temas cujo registo se mostrou profundamente enraizado nas concepções de vida de Halsall, ligadas à ecologia, ao ambiente, à natureza e à harmonia que dela se desprende.

Bem apoiado no saxofone e flauta de Matt Cliffe, com quem partilhou a frente de palco, Matthew Halsall ofereceu ao público que preencheu por completo o Auditório Dr. Stanley Ho uma hora e meia de música inebriante com temas extraídos do seu mais recente álbum, “Salute To The Sun”, mas também dos anteriores “Oneness”, “On The Go”, “Sending My Love” e “Colour Yes”. Esta abertura ao seu universo permitiu encontrar nele influências do jazz britânico das décadas de 60 e 70, bem como de grandes músicos como Alice Coltrane, Pharoah Sanders ou Miles Davis. Todavia, o seu registo foi revelador de uma dimensão mais global, a tocar franjas da world music, sublinhado por notas da música eletrónica tão ao seu gosto (uma “cover” da Cinematic Orchestra não poderia faltar).

Encorajado pelos aplausos do público, Matthew Halsall explanou a sua música com um misto de sensibilidade e energia, mergulhando os presentes em sons com uma grande dose de primitivismo, terrenos e orgânicos, sons da natureza, das profundezas da selva amazónica ou dos vastos campos de bambu do Japão, aos quais as percussões de Jack McCarthy emprestaram energia, ritmo e uma enorme verdade. Rendidos à força da música, os presentes deixaram-se levar numa espiral de arrebatamento e deleite, escutando o piano de Liviu Gheorghe, a harpa de Alice Roberts, o contrabaixo de Gavin Barras ou a bateria de Alan Taylor. Sentado no chão do palco, entre o expectante e o extasiado, Matthew Halsall deixava-se levar também.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

CONCERTO: NOPO Orchestra



CONCERTO: NOPO Orchestra
Misty Fest 2021
Auditório de Espinho
03 Nov 2021 | qua | 21:30


A história da NOPO Orchestra pode ser contada a partir do momento em que os passos da música levaram o norueguês Karl Seglem e o português Rão Kyao a cruzarem o mesmo caminho. Desde então, terão passado dez, onze anos, período de tempo ao longo do qual os laços entre os dois músicos se foram estreitando, as sonoridades aproximando e o desejo de partirem para algo em conjunto crescendo. Assim nasce a NOPO Orchestra, à qual o guitarrista português Francisco Sales vem dar um impulso fundamental. Apoiado na qualidade e inspiração destes três enormes compositores e intérpretes, o alinhamento do concerto da noite de ontem, no Auditório de Espinho, foi composto por doze temas, doze momentos de sedução e fascínio a unir os extremos norte e sul da Europa, a mergulhar no seu mais íntimo e a mostrar que os extremos, invariavelmente, acabam por se tocar.

Quanta magia pode abrigar-se no toque de um corno de cabra? Karl Seglem abre o jogo com o tema “Old Movement” (“Gammal Rørsle”, no original), respondendo à questão com um som envolvente onde cabem grandes extensões geladas, trolls desconcertantes, festas pagãs e auroras boreais. “Sunrise” e “Respeito pela Natureza”, composições de Francisco Sales e Rão Kyao, respectivamente, fazem deslocar o eixo geográfico para paisagens mais amenas, mais nossas, searas a ondular ao vento, ondas que se desfazem na praia, casas caiadas, o voo da cegonha. Mantendo as atenções centradas no meridião, “Alcalar”, de Karl Seglem, pisca o olho a paragens mais a sul, tendência que Rão Kyao e o seu “Em Aljezur” confirma, o oud, o âmbar e o almíscar a encherem o ar de fragrâncias orientais.

Marcadamente sensorial, o concerto foi balançando entre o Norte e o Sul, oferecendo o prazer de sonoridades a meio caminho entre a world music, a folk e o jazz. Sales, Kyao e Seglem mostram-se imparáveis. Os solos instrumentais sucedem-se, abrindo espaço aos restantes músicos e permitindo perceber a sua altíssima qualidade, bem como a enorme cumplicidade e envolvimento com este projecto. Erlend Viken no violino, Hallvard Gaardloes no baixo, Kaare Opheim na bateria e Ruca Rebordão nas percussões agigantam-se e dão ainda mais vida a St. Moritz, um tema de Francisco Sales, e Mahatma, composição extraída do último trabalho de Rão Kyao e que é uma homenagem a esse ser humano extraordinário que foi Gandhi.

Completamente rendido à qualidade da música e às imagens convocadas, o público pode ainda escutar duas composições de Karl Seglem, “Gå mot nord” e “Blå Botn”, “Festejando”, de Rão Kyao, “Sky”, de Francisco Sales, e ainda um tema composto pelos três, com a colaboração de Ruca Rebordão, intitulado “The Noposong”. No final da viagem, o conforto. Conforto pelo encontro e comunhão de géneros. Conforto pela celebração daquilo que nos une. Conforto pela mensagem de paz e esperança que a NOPO Orchestra sobre nós derramou. Naquela que foi a estreia absoluta desta formação luso-norueguesa, todas as expectativas foram ultrapassadas. Um concerto memorável.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

CONCERTO: "24 Mila Baci"



CONCERTO: “24 Mila Baci”
Com Maria de Medeiros & The Legendary Tigerman
Misty Fest 2019
Casa da Cultura de Ílhavo
16 Nov 2019 | sab | 21:30


Cruzaram-se em “Femina”, adoptando o clássico de Nancy Sinatra “These Boots Are Made For Walkin'”. Dez anos volvidos, o guitarrista-cantor e a actriz-cantora reencontram-se em torno de uma série de músicas que marcaram a história do cinema, uma arte que diz muito a ambos os artistas. “24 Mila Baci”, assim se designa o novo encontro de The Legendary Tigerman com Maria de Medeiros e que os artistas – devidamente acompanhados pelo baterista Paulo Segadães, pelo baixista Filipe Rocha e pelo saxofonista João Cabrita – apresentaram ao público de Ílhavo no âmbito do Misty Fest 2019.

A fazer lembrar Ry Cooder e as extensões desérticas de “Paris, Texas”, a guitarra de Paulo Furtado marcou os primeiros acordes. Estava dado o pontapé de saída de um concerto cujo alinhamento teve a duração de uma escassa hora, prolongada por um muito reclamado “encore” a fechar da melhor maneira com “Fever”. Pelo meio, muita e boa música a juntar “monstros sagrados” do cinema, como Jim Jarmusch, Josef Von Sternberg ou Francis Ford Coppola, a grandes nomes da música, de Tom Waits a Peggy Lee, de Jeanne Moreau a Serge Gainsbourg, de Nino Rota a Marlene Dietrich, ao mesmo tempo evocando filmes como “O Anjo Azul”, “Down By Law”, “India Song” ou “O Padrinho”.

Do desempenho do “lendário homem-tigre”, Paulo Furtado, e dos seus músicos, o mais que se pode dizer é que foi de altíssimo nível, sobretudo pela forma como soube dar o devido espaço a Maria de Medeiros, fazendo-a brilhar. E que bem esteve Maria de Medeiros! Cantou na perfeição em cinco línguas diferentes, declamou com o coração “Aniversário”, de Álvaro de Campos, e “Amor Quântico”, do próprio Paulo Furtado, e mostrou um tremendo à vontade tanto nos graves de “Ich Bin Von Kopf Bid Fuss Auf Liebe Eingestellt”, como nos agudos de “Speak Softly, Love”. Comovente em “It's a Sad and Beautiful World”, contida no seu “Diz Que É Fado” ou emotiva em “Rock Around The Bunker”, dela se pode dizer que “do céu caiu uma estrela”.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

CONCERTO: Maria Gadú



CONCERTO: “Pelle”,
de Maria Gadú
Misty Fest 2019
Casa da Música
18 Nov 2019 | seg | 21:00


“Vou debruçar meu caráter
No Negro Rio mata híbrida
Quero contar aos meus filhos
Sobre um mergulho fantástico”

“Axé Acappella” irrompe feroz, como um fogo violento. “Pararam p'ra reparar? Estão ouvindo esse som?” pergunta a cantora, para nos dizer, de seguida, “é guerra, é dente por dente (...) e se bater vai matar!”. Mas a canção não se esgota nas palavras que a conformam e Maria Gadú faz questão de a estender num improviso carregado de intenção: “Em nome do nosso direito de ir e vir, de pensar, de falar, de agir; em nome do nosso direito de estudar, de aprender, de trabalhar, de se aposentar; em nome do nosso direito de votar, de escolher, de mudar de ideia e de lutar; em nome do nosso direito de estar, de permanecer; em nome do nosso direito de cultuar os 305 povos indígenas brasileiros; em nome do nosso direito de cultuar as nossas 274 línguas indígenas brasileiras; em nome dos nossos direitos de casar, de passear por aí com os nossos amores, sem apanhar, sem ser violentado, sem morrer; em nome do nosso divino direito de amar... BOLSONARO, NÃO!”. Uma explosão de palmas e gritos ecoou na sala. “Silente um bom Deus vela a terra sagrada da ingratidão / Um Axé acapella feroz insinua o batidão!”.

Antes disso, porém, mesmo muito antes, começámos por ter a estranheza dum cântico a desdobrar-se na sala, intenso e muito belo, fazendo o público mergulhar num “mundo líquido”. Depois veio a música, nua e crua, a derramar-se do violão e a provocar um arrepio na pel(l)e. Finalmente a poesia, firme e poderosa, catártica, de intervenção, num retorno às origens ancestrais da cultura indígena, clamando pela memória e pela pujança histórica do povo brasileiro. Sob a capa do fantástico e maravilhoso encontro com os sons e as cores deste “Mundo Líquido” - assim se chama a canção com que Maria Gadú abriu o concerto na Casa da Música – escondia-se o convite a que víssemos “a vida de olhos abertos”. Estava dado o mote para um concerto absolutamente incrível, com a palavra a ganhar uma força invulgar e a relegar a própria música para um plano secundário. À sentida homenagem ao povo indígena, sucederam uma saudação à ancestralidade e à infância, respectivamente com “Dona Cila” e “Shimbalaiê”. Com o concerto já em velocidade de cruzeiro, a plateia entoa “(...) quando vejo o sol beijando o mar / Shimbalaiê, toda vez que ele vai repousar” e, de seguida, “Bela flor, pouco disse / Gémea flor, que cresceu no Rio”. Temas como “Tudo Diferente”, “A História de Lily Braun”, “Lounge” ou “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, preencheram o miolo do concerto e serviram de preparação para o primeiro grande momento da noite e já descrito no parágrafo inicial.

A cantora solta-se no calor da sua mensagem e, logo após o extraordinário “Amor de Índio” - “Sim, todo amor é sagrado / E o fruto do trabalho / É mais que sagrado, meu amor”- oferece o segundo grande momento da noite, ao declamar o poema de Beto Guedes “O Sal da Terra”, convidando a uma reflexão profunda: “Vamos precisar de todo mundo / Um mais um é sempre mais que dois / P'ra melhor juntar as nossas forças / É só repartir melhor o pão / Recriar o paraíso agora / Para merecer quem vem depois / Deixa nascer, o amor / Deixa fluir, o amor / Deixa crescer, o amor / Deixa viver, o amor / O sal da terra.” Já no muito celebrado “encore”, Maria Gadú começou por saudar esse outro nome enorme da poesia e do mundo, Jacques Brel, com “Ne Me Quitte Pas”, aproveitando ainda para denunciar as queimadas na Amazónia e no Cerrado, que servem os “lobbies” da soja e do gado - “tem hoje mais gado no Brasil que gente” -, e sugerir que se pense melhor na hora de comer um bife. Do meio da assistência, alguém gritou “Altar Particular” e a cantora não se fez rogada, para gozo e gáudio do público. Com “Laranja” - “Ô menina, parece índia Yanomani seu cabelo preto breu / Simula um toque, que desabroche / Esse teu casto mastigado pelo meu” - Maria Gadú colocou um ponto final nesta noite memorável, mas antes ainda deixou no ar uma pergunta, a raiva na voz, a exigir resposta urgente: “Quem mandou matar Marielle Franco?” Saravá, Maria Gadú!

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

CONCERTO: Danças Ocultas com Jacques Morelenbaum e Dora Morelenbaum



CONCERTO: Danças Ocultas com Jacques Morelenbaum e Dora Morelenbaum
Misty Fest 2018
Casa da Música
21 Nov 2018 | qua | 21:00


Quando todos pensavam que, com o sublime “Amplitude” - álbum lançado em 2016 e que contou com a participação da Orquestra Filarmonia das Beiras -, os Danças Ocultas tinham atingido o topo duma carreira de duas décadas de enorme sucesso e já pouco mais teriam para dar, eis que surgem agora, com redobrado “fole”, oferecendo uma nova pérola à qual deram o nome de “Dentro Desse Mar”. Um mar que é o vasto e imenso Atlântico, esse mar que abraça, com mãos ambas, Portugal e o Brasil. Foi para nos dar conta desse “abraço” que Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel, quarteto de Águeda que trata as concertinas como ninguém, subiram ao palco da Casa da Música, trazendo na bagagem mil histórias para contar e mil imagens para mostrar. Mas não vieram sós. No seu seio, acolheram o violoncelista Jacques Morelenbaum – igualmente produtor deste novo trabalho -, Dora Morelenbaum e Carminho, que emprestaram a voz a quatro temas interpretados ao longo do concerto, um quarteto de cordas composto por Mafalda Vilan, Tiago Afonso, João Tiago Dinis e Raquel Andrade e ainda Quiné Teles nas percussões e Marco Figueiredo nas teclas.

Com o som e o ritmo de “Azáfama” a colorirem uma sala bem composta de público, dir-se-ia que o concerto não poderia ter tido melhor começo. Trata-se dum tema alegre e cheio de vida, que remete para sonoridades do centro da Europa, mais propriamente para os Balcãs (quem viu “Gato Preto, Gato Branco” e é fã de Emir Kusturica perceberá muito bem a particular geografia desta música). Entre “S. João”, a música seguinte, e o intimista e muito belo “Oniris” (também aqui podemos associar o cinema e a geografia a este tema, situando-o na Grécia e invocando “A Eternidade e um Dia”, um filme de Theo Angelopoulos com música de Eleni Karaindrou), Dora Morelenbaum marcou presença no palco para interpretar magistralmente “Dessa Ilha”, um poema de Arnaldo Antunes, e “As Viajantes”, com letra de Carlos Rennó. Seguiu-se “Esse Olhar”, um dos temas icónicos do trabalho anterior, e ainda duas músicas de cariz bem popular, “Moda Assim ao Lado” e “Queda d'Água”, do álbum de estreia que tomou o nome do grupo. Embora sem intervalo, devemos aceitar que “Sorriso” marcou o fim da primeira parte do concerto, revelando-se preciosa a forma como o grupo recuperou um tema surgido em 2004 com o álbum “Pulsar”, transformando-o, quiçá, no mais bem acabado exemplo desta ponte musical entre os dois países irmãos.

E se “Sorriso” fechou a primeira metade do concerto, “O Teu Olhar” deu o “pontapé de saída” para a segunda parte, na voz inigualável de Carminho. O resto do concerto foi um saltitar constante entre sons e ritmos, fazendo alternar temas como “Bailar em Silêncio” ou “Soldado”, do álbum mais recente, com autênticos clássicos dos Danças Ocultas, como “Bulgar” (do álbum “Ar”, de 2011), “Tristes Europeus” e “Casa do Rio”, ambos do já referido “Pulsar”, ou ainda “Dança II”, do álbum “Danças Ocultas”. Tempo ainda para um momento de erudição verdadeiramente inesquecível onde se fizeram sentir, um arrepio na pele, os acordes de “Summertime”. Já nos encores, com duas longas ovações e outras tantas vindas ao palco, o público teve o privilégio de voltar a escutar Carminho, recordando a sua participação em “Amplitude” com “O Diabo Tocador”. A finalizar, “No(c)Turno das 7”, talvez aquele que é o tema mais bonito de todos quantos os Danças Ocultas escreveram até hoje e que nos é oferecido logo no álbum de estreia. O mais belo final de todos, um bálsamo para o espírito e com ele a certeza de ter sido este um dos mais fantásticos concertos do ano!

[Foto: dn.pt]

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

CONCERTO: Avishai Cohen Trio



CONCERTO: Avishai Cohen Trio
Misty Fest 2018
Casa da Música
20 Nov 2018 | ter | 21:00


Após a épica digressão de apresentação de “1970”, o seu mais recente trabalho, Avishai Cohen “regressou à calma”, subindo ao palco da Casa da Música, na noite de ontem, para um concerto que viria a revelar-se memorável. Ao longo de uma hora e meia, o contrabaixista, vocalista e compositor israelita mostrou o porquê de ser uma das grandes figuras do jazz contemporâneo, convidando um entusiástico público que esgotou completamente a sala a uma viagem autêntica e meditativa através duma música que, respeitando a tradição, não se coibiu de mostrar novos e improváveis caminhos.

Dando provas dum virtuosismo inexcedível, Cohen revelou-se insaciável na hora de extrair do contrabaixo tudo o que ele pode dar, estabelecendo com o instrumento uma fisicalidade intensa, a roçar o erotismo. No frenético dedilhar das cordas, nos golpes seguros do arco ou na batida ritmada da caixa de ressonância, foi muito mais do que apenas musica aquilo que o público pôde receber, num exercício único de paixão e superação. Justo será dizer, no entanto, que a dimensão superior destes momentos exaltantes foi enormemente potenciada graças aos dois músicos que acompanharam em palco o líder. Elchin Shirinov fez do piano um interlocutor privilegiado dos diálogos com o contrabaixo enquanto Itamar Doari conseguiu a extraordinária proeza de pôr uma bateria a gritar bem alto sem quase se fazer ouvir.

Parco em palavras – retenho pouco mais do que essa novidade que quis partilhar com o público, a de que estará prestar a conseguir a cidadania portuguesa -, Avishai Cohen omitiu o nome dos temas que fizeram parte do alinhamento deste concerto. Resumiram-se a uma dúzia, o que permite afirmar, com toda a certeza, que uma enorme fatia da obra discográfica do artista ficou de fora. Aquilo que ouvimos, porém, é o melhor e mais significativo estímulo para a descobrirmos em toda a sua plenitude. Harmoniosa e delicada, plena de sonoridades reveladoras de influências múltiplas – do Leste Europeu ao Médio Oriente, dos ritmos africanos às ambiências urbanas do Novo Mundo –, a música de Avishai Cohen é um dos mais perfeitos lenitivos para a alma. Em suma, um concerto memorável, daqueles que valem por uma vida, que nos reconciliam com o mundo e connosco próprios!

[Foto: Jos L. Knaepen / avishaicohen.com/imggallery]

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

CONCERTO: Beatriz Nunes



CONCERTO: Beatriz Nunes
Misty Fest 2018
Auditório de Espinho – Academia
10 Nov 2018 | sab | 21:30


Há momentos assim, em que tudo parece conjugar-se no sentido da perfeição. Primeiro, uns acordes dispersos que ensaiam uma melodia sussurrada e logo a seguir uma voz muito límpida, cheia de doçura, que nos fala do vai e vem das andorinhas a marcarem o ritmo das estações. Como que por magia, à nossa frente abrem-se, de súbito, memórias duma infância feliz, as brincadeiras naqueles dias que pareciam não mais ter fim, banhos no rio, corridas de bicicleta, campeonatos de caricas, tudo envolto numa morna brisa, debaixo dum céu muito azul, repleto de andorinhas. E assim, escutando “Andorinhas”, permanecemos como que suspensos numa outra dimensão, tal como se nesse instante todo o universo convergisse naquela sala, concentrado na pureza da voz de Beatriz Nunes.

De encantamento se fez o concerto que a cantora ofereceu ao (pouco) público de Espinho, no âmbito do Misty Fest 2018. Do primeiro ao último acorde, a ilusão de caminhar num sonho vívido não se dissipou. Como o mais belo dos livros, que nos surpreende e extasia a cada página volvida, o concerto prosseguiu numa toada crescente de cumplicidade e deslumbramento, primeiro com “Ouroboros”, notável composição em contexto jazz e a prova provada de que a voz é o maior de todos os instrumentos, e depois com “Aurora Tem Um Menino”, com arranjos de Jorge Moniz, numa delicada interpretação que imortaliza esta composição do cancioneiro alentejano.

Seguindo um alinhamento que acompanhou, de forma quase fiel, o seu primeiro álbum, “Canto Primeiro”, Beatriz Nunes homenageou o “seu” Barreiro com “Sul e Sueste”, interpretou de forma sublime a “Canção da Paciência”, do maior de todos, Zeca Afonso, mostrou excepcionais dotes de letrista com os lindíssimos poemas que são “Rio Sem Margem”, “Resistência” e “Pedras”, terminando com “Senhora do Ó”, a partir de um poema maravilhoso de Margarida Vale de Gato. Importa dizer ainda que o reconhecimento por momentos tão especiais é devido, em apreciável medida, aos músicos que acompanharam a cantora em palco, do já referido Jorge Moniz na bateria, ao contrabaixista João Custódio e a esse pianista fabuloso que dá pelo nome de Luis Barrigas. A eles muito fica a dever a enorme amplitude e refinamento de sonoridades que, embora abrigadas sobretudo no aconchegante manto do jazz, não descuraram um distinto toque clássico, em sintonia com a formação da cantora. Em breves palavras, é este o retrato vivido e sentido duma inesquecível noite em Espinho. Ficam as memórias e fica, ainda, este “Canto Primeiro”, uma das mais extraordinárias propostas discográficas de 2018. Garantidamente!

[Foto: Auditório de Espinho - Academia / facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]