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quinta-feira, 9 de outubro de 2025

CONCERTO: Orquestra de Jazz do Douro & Júlio Pereira



CONCERTO: Orquestra de Jazz do Douro
Com | Júlio Pereira
Direcção musical | Paulo Martins
Festival Internacional Douro Jazz 2025
Teatro Municipal de Vila Real
03 Out 2025 | sex | 21:30


Júlio Pereira não precisa de apresentações… Figura incontornável no panorama musical português, destaca-se enquanto compositor, instrumentista, investigador e produtor. O seu trabalho tem sido determinante para a valorização e redescoberta dos instrumentos de corda tradicionais e estende-se à criação de escolas e instrumentistas, verificada em Portugal a partir dos anos 80. No seu percurso, destaca-se também a íntima ligação à carreira de José Afonso, a partir de finais dos anos 70, bem como a sua participação em trabalhos conjuntos com Pete Seeger, Kepa Junkera e The Chieftains. A partir da década de 1980, a sua obra assumiu um papel crucial na reabilitação do cavaquinho, instrumento que elevou a novos horizontes estéticos através do álbum homónimo, onde tradição e inovação se conjugam com uma notável sensibilidade artística. A sua acção tem contribuído de forma significativa para o reconhecimento institucional e académico de um conjunto particular de cordofones, afirmando-os como elementos centrais da identidade musical portuguesa. É num duplo eixo que se inscreve o seu legado: preservação e revitalização da tradição, aliadas a um impulso criativo que permite a sua reinterpretação e permanência no presente e no futuro.

Foi com estes pergaminhos que Júlio Pereira se apresentou no Teatro Municipal de Vila Real, na noite inaugural da 20.º edição do Festival Internacional Douro Jazz 2025. Ao seu lado esteve a Orquestra de Jazz do Douro, sob a direcção do maestro Paulo Martins, estabelecendo uma tão forte quanto insuspeita ponte entre a música de raiz tradicional e as virtualidade do jazz no que pode ter de inovação e improviso. Foi uma noite ao encontro de novas possibilidades tímbricas, formais e expressivas, que teve no álbum “Rasgar” a sua âncora e nos arranjos para orquestra o lastro de uma noite de sonho. “Rasgar”, tema que dá nome ao mais recente trabalho de Júlio Pereira, abriu o concerto, trazendo com ele a essência de uma música que soube afirmar-se ao longo dos tempos no que tem de inspiração, pureza e liberdade. Nela, cada acorde é um sopro de essência, um fio invisível que tece o silêncio em melodia viva. Seguiu-se “Pulga Saltitante” e, com este novo tema, uma viagem pela história ao tempo da emigração madeirense para o Havai, na bagagem a braguinha, o machete e o rajão, instrumentos que viriam a estar na origem do ukelele (no idioma havaiano, “ukulele” quer dizer “pulga saltitante”, por causa do movimento frenético das mãos do tocador).

O público começa a entrar na festa e ouvem-se as primeiras palmas a compasso. Os acordes que abrem o tema seguinte fazem lembrar o avançar dos ponteiros de um relógio. “Ler Devagar” é uma homenagem àquela que viria a ser considerada uma das vinte livrarias mais belas do mundo. Seguem-se incursões em universos menos explorados por Júlio Pereira, com “Museu do Fado” e “Noitada Extravagante”, este último dedicado ao Alentejo e que viria a receber a mais prolongada ovação da noite. Celebra-se a boa música e não podia faltar Zeca Afonso, com quem Júlio Pereira colaborou a partir de 1979, vindo mesmo a acompanhá-lo no último concerto da sua carreira, em 1983, no Coliseu do Porto. “Os Índios da Meia-Praia” foi o tema escolhido e nele o público teve uma acção importante, chamado a afinar as gargantas e a trautear o estribilho. Também Sara Tavares foi lembrada em “Malhão Morno”, bem como a galega Uxía, com o tema “Laranxa”. Num momento só seu, a Orquestra interpretou “Escrever o Sol”, um tema do álbum “Janelas Verdes”, mostrando a harmonia e o rigor que foram seu apanágio ao longo do concerto. Faltou apenas o rasgo de um ou outro solista a colocar a sempre desejada nota de irreverência num todo certinho, mas apenas isso. Um belo serão, a mostrar que Júlio Pereira continua a “rasgar” os melhores caminhos da melhor música.

[Foto: Teatro Municipal de Vila Real | https://www.facebook.com/teatrovilareal]

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

CONCERTO: “The Art of Song vol.2 - Between Sacred and Profane”



CONCERTO: “The Art of Song vol.2 - Between Sacred and Profane”
Com | Filipe Raposo (piano e composição musical), Rita Maria (voz e composição musical)
Auditório de Espinho – Academia
23 Fev 2025 | dom | 18h00


“Uma chuva não é só chuva no momento em que cai. Começou em água que o calor das emoções evaporou, nuvem que se foi deslocando, juntando momentos, sabedorias e afectos. Ao cair, desliza, inclina-se em leito de rio, campo de cultivo, braço de mar, montanha. São tantos os terrenos de onde parte. É a memória dos afectos evaporando. Vários tempos de escuta e de cultivo que, evaporando conhecimentos e outras águas, se foram juntando numa ou várias nuvens de ideias. Depois de caída, torna o chão mais permeável a novos plantios, a novas colheitas, a novas águas evaporando, subindo de novo ao céu do que mais importa.”
Amélia Muge

Regresso a Espinho e ao seu Auditório. Volto a uma casa que aprendi a respeitar e a amar, pelo cuidado com que me trata e pela excelência da programação que oferece. É a primeira visita este ano e sei que muitas mais se seguirão nos próximos tempos, sempre com renovada alegria e emoção. A proposta para este final de tarde de domingo não poderia ser mais aliciante. Depois do muito bem-sucedido primeiro volume de “The Art of Song”, Filipe Raposo e Rita Maria quiseram trazer-nos o segundo capítulo deste seu projecto, ao qual decidiram chamar “Between Sacred and Profane”. O conjunto de músicas escolhidas para integrar o álbum parte das influências musicais que moldaram artisticamente os dois músicos e que coabitam num território próprio, fundindo a música erudita, o jazz e o cancioneiro tradicional. Podemos ler no texto que acompanha o disco, e que Filipe Raposo tão bem ilustrou nas palavras dirigidas ao público, que “nas sociedades arcaicas, cada intervenção do homem no ambiente rural, como o abrir a terra com um arado ou o derrubar uma árvore da floresta, possuem os ritmos de uma sacralidade latente, não se sentindo diferenciação entre as actividades laico-profanas e a actividade sagrada. É como se vivessem numa permanente imersão no sagrado. Existe uma pulsão unificante, onde tudo é sagrado e profano.”

“The Art of Song, vol.2 - Between Sacred and Profane” pretende, através de canções colhidas de épocas e contextos distintos, evidenciar o papel do canto e da sua força telúrica como factor primordial na socialização, na passagem de conhecimento e no acompanhamento das actividades rituais do trabalho e da religião, do mundo dos homens e dos deuses. O repertório surge assim organizado por temáticas que nos conduzem pela bruma do tempo: as Deusas e os Homens, os Ritos e o Trabalho, as Mãos e os Frutos, da Vida e do Amor, do Berço à Cova, num Eterno Retorno revisitado geração após geração. Não é de espantar, pois, que ao cancioneiro litúrgico do barroco se junte um canto de trabalho tradicional de Penha Garcia, ou que um Hino sagrado coabite com uma cantiga de embalar, igualmente originária dessa localidade da Beira Baixa. Não é de espantar e é, já que tudo é espanto na colecção de treze momentos musicais que nos foram dados a ouvir, espelho da magia, dos mitos e das crenças tão próximos das dimensões existenciais do ser humano. Entre o sagrado sacrificial e o profano ritual, a música e as palavras de Filipe Raposo e Rita Maria dão-nos o conforto de uma visão ordenada da realidade, inseridos que estamos numa sociedade cada vez mais caótica e fragmentada como é a nossa.

“(…) Magistrada Nossa natural / Vitoriosa / Curandeira dos aflitos / Amante de mil maridos / Há mais de um milhão de idos / tormentosa”. Extraída de “Galinhas do Mato”, o último álbum editado em vida por Zeca Afonso, “Alegria da Criação” abriu o concerto e foi dele “pedra de toque”. Escutar em fundo a voz e adufe de Idalina Gameiro (também o adufe de Emília Antunes) como uma ladainha, sobre a qual se impõe a pureza das cordas (vocais de Rita Maria e do piano de Filipe Raposo), é no mínimo arrepiante. Os ritos e os mitos que se estendem ao longo do concerto levam-nos de regresso à origem, explicando mistérios, apaziguando e reconfortando, conferindo significado e valor à nossa existência. Escutar, em sequência, “Cantiga da Ceifa” e “Proserpina”, de Jean-Baptiste Lully, é uma experiência celestial. Já a “Suite em Lá menor, RCT 5, Gavotte et six doubles” de Jean-Philippe Rameau constituiu, para além do primor interpretativo, um divertimento sem par, com arranjos que “empurram” as variações para géneros insuspeitados, um choro aqui, um corridinho ali. E há também “Vai-te Cuca”, canção de embalar e, ao mesmo tempo, espécie de exorcismo sobre a morte que colhia as crianças no sono, da qual fica a doçura de uma sílaba que se prolonga, o amor que só um sussurro pode conter.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

CONCERTO: Egberto Gismonti



CONCERTO: Egberto Gismonti
Convidado especial | Daniel Murray
Auditório de Espinho – Academia
03 Dez 2024 | ter | 21:30


O concerto chegava ao fim. Egberto Gismonti pousava os dedos pela última vez nas teclas do piano e o público, o mesmo público que o chamou insistentemente ao palco e “forçou” dois encores, escutava-o agora num silêncio reverencial. A sequência de acordes levava-nos ao encontro de uma das valsas que António Gismonti, avô de Egberto, compôs “há 80 ou 90 anos”. Patriarca da família, foi ele o responsável pela música inculcada nos genes da numerosa descendência, que soube fazer dela um espaço de liberdade, partilha e gratidão. Num raro momento de coloquialidade - “dividir conversas”, chamou-lhe o artista -, foi emocionante ouvi-lo referir-se àquilo que cada um de nós, espectadores, faz com a música que escutamos, confessando-se “muito devedor” a todas as pessoas que, em sítios tão diferentes, “colocaram lá no seu caderninho, no seu telefone, uma marquinha dizendo espaço tal às tantas horas”. Olhando nos olhos os espectadores que, numa noite chuvosa, cansados após um dia de trabalho, enfrentando filas de trânsito, fizeram questão de o receber com um sorriso, Egberto Gismonti falou numa dívida que tem a ver com “responsabilidade, identidade e afecto”, que lhe dá a alegria de conhecer novas pessoas e que renova a sua esperança num mundo melhor. Um momento que marca, não apenas o concerto da noite da passada terça feira no Auditório de Espinho, mas toda uma temporada que está prestes a terminar. 

Neste regresso a Espinho, Egberto Gismonti não veio sozinho, trazendo com ele Daniel Murray, um profundo conhecedor do seu universo musical e um dos mais talentosos violonistas da sua geração. Ao longo de quase uma hora e meia de concerto, os dois artistas tiveram a oportunidade de se mostrarem a solo ou em diálogo, oferecendo uma música onde popular e erudito se misturaram e confundiram. Num exercício de entrega total à música, a abordagem primordial revelou-se do domínio da clássica, mas foi genial a forma como deixou que a mesma se escapasse para o campo da música tradicional, levando-a a percorrer os caminhos dos batuques dos índios amazónicos, do choro carioca, do frevo pernambucano, dos nordestinos forró e baião. E há, ainda, essa aproximação íntima ao jazz, com os (muitos) espaços abertos à improvisação e onde veio ao de cima a sua classe e experiência, cimentadas numa carreira de mais de cinquenta anos, com cerca de sete dezenas de álbuns gravados e colaborações com nomes incontornáveis como os de Charlie Haden, Jan Garbarek, John McLaughlin, Keith Jarrett ou Herbie Hancock, e outros menos previsíveis como Sapaim, mentor espiritual da tribo Yawalapiti. Desta mescla de géneros se fez o concerto, sem alinhamento definido mas com a certeza de que a música é o guia e o norte, a religião e a fé.

À excepção de “Retrato em Branco e Preto”, tema incontornável da discografia de António Carlos Jobim, não saberia identificar as músicas que fizeram parte do alinhamento do concerto. Sentado ao piano ou com o violão de dez cordas nas mãos, os longos cabelos brancos presos na inseparável touca, o que Egberto Gismonti fez foi empreender uma viagem afectiva pelo mundo da música, percorrendo um conjunto de temas que lhe são queridos - e onde marcam presença, além dos nomes já referidos, Chico Buarque e Dorival Caymmi, Villa-Lobos e Pixinguinha -, mistura do popular com o erudito - quase posso jurar que por aqui passou “Strawa no Sertão”, o seu maxixe, a sua zabumba. A sós em palco com o piano ou o violão, ou na companhia de Murray, Egberto Gismonti foi desfiando as suas influências indígenas e orientais, cruzando-as com a música clássica e a música de vanguarda, num caleidoscópio coeso e verdadeiramente original. Entre a admiração e a diversão, o público não se cansou de aplaudir calorosamente cada tema interpretado, mantendo uma enorme atenção ao longo de todo o concerto – o que não impediu, infelizmente, que um espectador passasse uma boa parte do tempo a descascar rebuçados e a poluir o sublime da música com os estalidos irritantes do celofane. E chegamos à parte final, àquele momento único cuja generosidade e humildade a todos tocou profundamente. Mas disso já aqui falei.

terça-feira, 4 de junho de 2024

CONCERTO: Pé na Terra



CONCERTO: Pé na Terra
Torneio e Mercado Medieval de Ansiães
Praça 6 de Abril, Carrazeda de Ansiães
31 Mai 2024 | sex | 21:30


A animação voltou às ruas de Carrazeda de Ansiães e ao vizinho Castelo de Ansiães, com uma nova edição do Torneio e Mercado Medieval. Do vasto programa que se estendeu por três dias, entre tabernas medievais, tendas com as mais diversas actividades, jogos e actuações várias, destaque para o concerto dos Pé na Terra a preencher o serão do primeiro dia do certame. Com quase duas décadas de existência e três discos editados, esta banda incontornável no panorama da música tradicional portuguesa trouxe à Praça 6 de Abril alguns dos seus temas mais emblemáticos, cativando o público com a sua enorme energia e ritmo e oferecendo momentos únicos numa inspirada fusão entre a tradição e a modernidade. Viras e malhões, muinheiras e valsas, deram ensejo a que Cristina Castro (voz, acordeão e percussões), Nuno Pacheco (baixo), Hélio Ribeiro (guitarra, braguesa, voz, percussões), Ricardo Coelho (sopros, gaita-de-foles, gralha, adufe) e Ricardo Leão (bateria, percussões), fizessem do tempo do concerto um tempo de festa.

“Aguardente”, um original que integra o disco “13”, abriu as hostilidades da melhor forma, o “ADN” do quinteto a revelar-se em gaitas-de-foles místicas, no trinar do acordeão, na força de uma batida filiada em correntes que vão beber ao rock a sua matriz. Apesar da “aguardente”, ainda o chão não nos foge dos pés e já escutamos “Olha P’ra Cima”, tema extraído do terceiro disco, “Sarilho”, o corpo a aquecer e a preparar-se para o muito que está para vir. “Gemem guitarras na rua / Voam cantigas no ar / E as almas sobem à lua / Por escadas de luar”, escuta-se, enquanto somos puxados a dar um pezinho de dança ou, simplesmente, a bater palmas a compasso, numas “Escadas de Luar” encantadas, sobre quadras escritas pelo bisavô de Cristina Castro, natural de Linhares de Ansiães, aqui bem perto. “Vira de Seis” é mais um tema inscrito na tradição popular e que reforça a beleza e riqueza da música dos Pé na Terra. “Fala do Homem Nascido”, emblemático poema de António Gedeão que, na voz de Adriano Correia de Oliveira, Samuel e tantos outros cantores, tem o seu lugar inscrito na chamada música de intervenção, é-nos trazido numa nova roupagem e resultou num dos momentos mais altos da noite, a par com “Menino Ó”, um tema do cancioneiro popular de Trás-Os-Montes e que tão bem conhecemos na voz de Né Ladeiras ou da Brigada Vitor Jara. 

A “Valsa Verde” chamou ao terreiro os pares mais afoitos, em pés de dança onde a presteza delas contrastou com a falta de jeito e a atrapalhação deles. Zeca Afonso não podia faltar nesta noite de festa e a “Balada do Sino” - “Lá vai roubada lá vai na mão / Dim Dão na barquinha do ladrão” - foi outro dos grandes momentos do concerto, a parte instrumental a mostrar-se em intensidade e energia na parte final do tema. Com o concerto a caminhar para o fim, “Leve Linho”, tema emblemático do álbum “Sarilho”, trouxe-nos um dueto fantástico nas vozes de Catarina Castro e Hélio Ribeiro e, ainda, a energia e o ritmo dos tambores. “Muinheira de Sarnada” foi um abraço à Galiza e à sua música, ao passo que “Farrapeira” homenageou o cancioneiro da Beira Baixa e, de forma implícita, as Adufeiras do Paúl. “Sentir” foi um momento mágico, as palavras e a música alinhadas nesse fantástico trabalho de ligação entre a tradição e as novas sonoridades. Com “Pur la Terra”, bombos e gaitas de foles tomaram conta da praça e foi já com os músicos fora do palco, em roda no meio do público, que se escutou “Montes”, a colocar um ponto final no concerto. O público insistiu, a organização anuiu e foi possível voltar a escutar “Escadas de Luar”. Definitivamente, as almas subiram à lua!

terça-feira, 15 de novembro de 2022

CONCERTO: Amélia Muge



CONCERTO: Amélia Muge
Auditório de Espinho
05 Nov 2022 | sab | 21:30


Quando a fome se junta à vontade de comer, o resultado só pode ser uma barrigada. No caso de Amélia Muge e do seu “Amélias”, uma barrigada da melhor música, amassada no pó da terra e na raíz das gentes, de braço dado com a tradição, um piscar de olhos às muitas margens do grande lago atlântico. Uma música tão viva e tão pura, tão nossa. Que fome de a escutar, tanto tempo depois de um saudoso “Maio Maduro Maio” no balcão do Carlos Alberto (no tempo em que o Carlos Alberto ainda tinha balcão), de um e do outro lado o João Afonso e o Zé Mário Branco. Sempre com ela nos geniais “Taco a Taco” e “Todos os Dias”, escutados vezes sem conta, auxiliares preciosos nos melhores momentos com os filhos bebés ou já crescidos. Que bom vê-la de novo ali, num Auditório de Espinho repleto, ela por nós e nós por ela, num momento cúmplice e solidário, peito pequenino para tanto coração, rosto estreitinho para tanta alegria e tanto sorriso. Com ela, três enormes parceiras destas andanças, “amélias” como ela, Rita Maria (voz), Maria Ceia (percussão e voz) e Catarina Anacleto (violoncelo e voz), multiplicando as muitas vozes que há na voz de Amélia Muge. E nós, claro, “amélias entre amélias”, que nisto ou há moralidade ou comem todos.

A pensar as vogais, embarcamos na viagem. Está tudo ali, naquele tema inaugural: a magia feita encanto, o encanto feito jogo, o jogo feito música. Vemos aquelas letras, como se abrem e fecham, como se transformam em grito ou chamamento. Tocamos-lhes com a voz e logo se repartem em mil sons, em mil tons. A canção é lengalenga, é litania, é ladainha. Nela se congrega o fascínio dos cantos em coro, com todo o seu sentido comunitário, o seu potencial harmónico, o poder do seu ritmo, a sua respiração em conjunto, a sua inestimável contribuição para o reforço de todo o tipo de colectivos. É, pois, com naturalidade que abrimos o coração a “Eito Fora” e sentimos a força da Brigada Vitor Jara num tema tradicional que é título de um dos mais emblemáticos álbuns da música portuguesa. Com a mesma naturalidade que abraçamos os temas seguintes - “Meu Coração Emigrou”, “D. Falcão” (os falcões de Hélia Correia, esses mesmos), “Às Portas do Céu”, “A Sta. Engrácia” e “Fica Mais Um Bocadinho” - e vemos que deles se levantam pontas de uma meada que se desdobra e nos revela as “galinhas do mato” do José Afonso, a “muhinhana” do Dilon Djindji, a “senhora dos remédios” do Grupo de Cantares de Manhouce ou a “canção dos despedidos” do José Mário Branco.

Em cada canção, é de si e do seu mundo que Amélia Muge nos fala. É ela quem nos pega pela mão e faz recuar no tempo, aos tempos da infância em Moçambique e ao alto de um miradouro sobre o mar onde as amas de diversos meninos se juntavam e onde os seus cantos ritmados, em língua ronga, eram diários. É nestes cantos que a artista revisita o seu primeiro sentimento plural, de uma pertença maior, a dança e o embalo como fundamentos desse respirar comum. São eles que vemos espraiados num emotivo “Chove Muito, Chove Tanto”, ao mesmo tempo que piscam o olho aos divertidos “Versão Condensada do Nascimento dos Desertos” ou “As Alcaparras” ou aos sensíveis “A Prenda dos Amantes”, “O Tempo Arrefece” e “Se a Vida é Pintura”. É por estas e por outras que Amélia Muge é, entre nós, uma das mais extraordinárias representantes do canto individual a vozes e de criação de ambientes vocais. E é por isso que escutá-la - e ao seu canto, simultaneamente plural e individual - é, para além de um prazer, um dever. Se ainda as houvesse, “Taco a Taco”, já no “encore”, encarregou-se de dissipar todas as dúvidas. “Com que coto catucão”. Enorme Amélia. Obrigado!


terça-feira, 5 de julho de 2022

CONCERTO: Gurdjieff Ensemble



CONCERTO: Gurdjieff Ensemble
48º FIME – Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
02 Jul 2022 | sab | 21:30


Sublime é, porventura, o adjectivo que melhor descreve o concerto do Gurdjieff Ensemble do passado sábado à noite, no Auditório de Espinho. Com um alinhamento assente em obras dos compositores arménios George Ivanovich Gurdjieff e Komitas, o concerto teve para oferecer um conjunto de temas de cariz folclórico e religioso, numa viagem às raízes da tradição musical da Arménia, com passagem pela música litúrgica ortodoxa russa, pelas canções trovadorescas do Cáucaso e pelas sonoridades curdas, persas ou assírias que cruzam as vastas regiões do Médio Oriente. Superiormente dirigidos por Levon Eskenian, director artístico do Gurdjieff Ensemble e responsável pelos arranjos de obras originalmente concebidas para piano, os oito intérpretes em palco mostraram-se irrepreensíveis no domínio da voz e dos instrumentos, embalando os presentes com as sonoridades únicas da zourna e da kamancha, do kanon e do santur, do oud e do tmbouk, do duduk e do tar.

Escutar a música do Gurdjieff Ensemble é mergulhar bem fundo na alma de um povo. É sentir o vento que atravessa o lago Sevã e erguer o olhar sobre os rebanhos que pastam nas colinas de Tsakhkadzor. É arrepiar-se com os cantos litúrgicos na Catedral de Echmiadzin e abraçar em festa os primeiros raios de sol a anunciar um novo dia nos montes Ararate. Mas é também sofrer com aqueles que, ao longo dos milénios, foram obrigados a deixar tudo para trás, fugindo do invasor e do opressor, e chorar as vítimas do genocídio que, em 1915 e 1916, levou ao desaparecimento de cerca de um milhão de arménios, quase apagando a identidade de uma cultura ímpar. Numa atmosfera de autenticidade e arrebatamento, a música do Gurdjieff Ensemble é um vector de unidade e harmonia, ao mesmo tempo história e tradição, emoção e liberdade.

Como a neve que cai na Primavera, pintando os campos de branco e deixando o ar mais fresco e leve, assim é a música deste agrupamento. Alva e pura, desenha-se de forma harmoniosa e mostra-se imensamente bela e rica de sonoridades que ora convidam ao recolhimento, ora se desenrolam em danças festivas. Como que em hipnose, cerramos os olhos e deixamo-nos tomar pela comoção de uma música que congrega em si a vida, a sabedoria e a espiritualidade que a todos une. Não raro, os seus acordes sugerem passagens que nos são familiares. Neles viajamos aos confins da Ásia, o que não será de todo estranho visto a Arménia ter sido ponto de passagem da importante “Rota da Seda”, provavelmente a rota comercial mais importante da História. Mas que dizer da linguagem festiva que remete para bem perto de nós, ao encontro da folia do entrudo por terras de Miranda? Pura coincidência, ou haverá mais de Arménio em nós do que aquilo que supúnhamos?

terça-feira, 19 de abril de 2022

CONCERTO: Pedro Viana, João Martins, Bruno Cardoso



CONCERTO: Pedro Viana, João Martins, Bruno Cardoso
ROTAS DO SOM
Capela de S. Geraldo, S. Vicente de Pereira
18 Abr 2022 | seg | 18:30


Pensei em escrever estas palavras tendo como ponto de partida as actividades promovidas pela Câmara Municipal de Ovar a propósito do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, instituído há precisamente quatro décadas e assinalado a 18 de Abril. O destaque iria para a visita guiada ao projeto ARHK | Espaço Memória, espaço adquirido em 2018 pela Câmara Municipal de Ovar e que é, desde 2020, um bem cultural de Interesse Público. A finalizar, num breve parágrafo, dedicaria algumas palavras ao concerto de música ibérica e mediterrânica que, mesmo ali ao lado, viria a ser protagonizado por Pedro Viana, João Martins e Bruno Cardoso. Afinal, o impacto em mim causado pelos dois eventos obrigou-me a repensar a estrutura da mensagem. Não porque a visita guiada fosse desprovida de interesse, ainda que o projecto se encontre ainda numa fase inicial, com muitas questões à procura de uma resposta. Sobretudo porque o concerto ultrapassou todas as expectativas, não apenas pela excelência dos temas escolhidos, como pelas sonoridades e pelo virtuosismo das interpretações. É sobre ele que me debruçarei.

Programar um concerto para uma segunda feira ao final da tarde, num local distante da sede do Concelho, terá tido o seu quê de arrojado. Ainda para mais porque a proposta musical, embora fundada na tradição, tem uma “costela” da chamada música erudita, tão incompreensivelmente desvalorizada pelos nossos públicos. A verdade é que o concerto aconteceu, para gozo e gáudio dos que a ele assistiram. “Longo Camino Branco” ou “Bento Airoso” foram o pontapé de saída, pondo-nos em contacto com o melhor que os cancioneiros da Galiza ou de Trás os Montes têm para oferecer. A rematar o concerto, “Durme” mergulhou-nos no melhor da tradição musical sefardita e “Ilha dos Vidros” transportou-nos ao Baixo Alentejo. Pelo meio, “A dos Adufes”, “Escancaras” ou Mandilatos” mostraram-nos a qualidade das composições originais de Pedro Viana e João Martins. De repente, foi como se recuasse algumas décadas no tempo, ao saudoso Festival Intercéltico e à música dos Malicorne ou dos Garmarna, dos Four Men and a Dog ou da Márta Sebestyén, dos Realejo ou dos Dervish.

Fecho os olhos e parece-me escutar, ainda, a voz bem timbrada de Bruno Cardoso a pairar por sobre os suaves acordes da viola braguesa de Pedro Viana e da sanfona de João Martins. “Ó bento airoso / Mistério divino / Encontrei a Maria à beira do rio / E lavando os cueiros do bendito Filho”. Ouvi este tema dezenas de vezes – na voz do Janita Salomé ou de Né Ladeiras, pela Brigada Vitor Jara ou, muito recentemente, no piano de Filipe Raposo – e não me lembro de uma tão bela interpretação como a escutada ontem, na Capela de S. Geraldo. Para tal muito contribuiu o talento dos músicos, o cuidado e empenho posto em cada uma das interpretações, a tocar para um público escasso numa recôndita capela de aldeia como se estivessem no palco da Sala Suggia da Casa da Música perante um auditório com lotação esgotada. Acrescente-se à música as explicações de Pedro Viana sobre a sua universalidade, as particularidades dos instrumentos e a importância de preservar usos e costumes e digam lá se haveria mais bela forma de assinalar data tão importante.