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segunda-feira, 22 de junho de 2026

CONCERTO: Raquel Tavares



CONCERTO: Raquel Tavares
Com | Raquel Tavares (voz), Pedro Viana (guitarra portuguesa), Bernardo Viana (viola de fado), Fernando Araújo (viola baixo)
Auditório Municipal de Gondomar
20 Jun 2026 | sab | 21:30


Cinco anos após ter interrompido o seu percurso discográfico e de palco enquanto fadista, Raquel Tavares regressou ao Fado com a convicção de quem nunca verdadeiramente dele se afastou. No Auditório de Gondomar, perante uma sala cheia e manifestamente predisposta a acolher este reencontro, a cantora apresentou-se com uma segurança artística desarmante, fazendo da noite uma homenagem ao Fado e às suas maiores referências, mas também um momento de catarse, emotivo e inspirador. O espectáculo abriu de forma particularmente feliz com “Lisboa”, ainda de cortinas fechadas, deixando que a voz surgisse antes da figura e que versos como “Vejo do cais mil janelas / da minha velha Lisboa” desenhassem, na imaginação do público, a geografia sentimental da capital fadista. Quando o palco finalmente se revelou, já Raquel Tavares tinha conquistado a plateia. Ao longo da noite, foi alternando temas emblemáticos do seu repertório, como “Zanguei-me com o Meu Amor”, “A Janela do Meu Peito” ou “Fama de Alfama”, com momentos de partilha pessoal que ajudaram a contextualizar o seu percurso. Fê-lo sempre com uma humildade rara em artistas da sua dimensão, evocando as suas origens nos “tascos” e “botecos” de Lisboa e levando os espectadores de Gondomar numa viagem às colectividades e casas de fado de Alfama. “Não há público como o do Norte”, afirmou, arrancando uma das muitas ovações da noite. E percebeu-se que não era uma frase feita: havia uma cumplicidade genuína entre artista e audiência, alimentada por uma comunicação espontânea e por uma presença em palco de enorme intensidade.

Um dos aspectos mais interessantes do concerto centrou-se na forma como Raquel Tavares transformou o espectáculo numa evocação da sua própria história. Falar na vitória na Grande Noite do Fado, aos doze anos de idade, foi uma forma de lembrar as raízes de uma carreira construída desde muito cedo. Particularmente emocionante foi a recuperação de “Olhos Garotos”, fado gravado numa cassete de 1997 e posteriormente incluído no seu álbum de estreia, em 2006. A audição de excertos dessas diferentes etapas constituiu um dos momentos mais reveladores da noite, permitindo observar a evolução de uma voz que soube manter intacta a sua identidade expressiva. Acompanhada com rigor e sensibilidade por Pedro Viana, na guitarra portuguesa, Bernardo Viana, na viola de fado, e Fernando Araújo, na viola baixo, a fadista prestou igualmente homenagem a algumas das maiores figuras da história do género, de Amália Rodrigues a Alfredo Marceneiro, de Lucília e Carlos do Carmo a Ada de Castro, Anita Guerreiro e Fernanda Maria, reservando uma especial reverência para Beatriz da Conceição. Foi igualmente nesse contexto que ganhou particular significado a apresentação dos temas que compõem “Deles Por Mim (e à antiga)”, um disco assumidamente tradicional, gravado ao vivo em estúdio e centrado numa ideia tão simples quanto ousada: uma mulher interpretar poesia originalmente escrita para vozes masculinas. Em “Ai Se os Meus Olhos Falassem”, “O Amor é Água que Corre” ou “Pontas Soltas”, Raquel Tavares não se limitou a revisitar clássicos; reinterpretou-os à luz da sua personalidade artística, revelando novas leituras e novas ironias, particularmente evidentes na mordaz “Mulher Deixada”.

Foi já na recta final que o concerto atingiu uma dimensão verdadeiramente memorável. Em “Fado da Ironia”, Raquel Tavares confrontou directamente os anos de ausência, transformando em arte as dúvidas e comentários que acompanharam a sua pausa. Os versos “Olhem só, eu não morri / eu só fiz mesmo uma pausa” soaram como uma declaração de princípios e um ajuste de contas sereno com quem apressadamente decretara o fim do seu percurso fadista. A resposta do público foi imediata e calorosa, preparando o caminho para uma interpretação arrebatadora de “Meu Amor de Longe”, recebida como um dos grandes momentos da noite. A sensação que ficou foi a de um regresso pleno, sem necessidade de proclamações grandiosas, sustentado apenas pela evidência do talento e da maturidade artística. Num muito reclamado “encore”, e num registo mais festivo, a marcha “São João Bonito” colocou toda a sala de pé, numa celebração colectiva dos Santos Populares a unir palco e plateia num mesmo coro. Entre balões imaginários e refrões populares, encerrava-se uma noite que teve tanto de reencontro como de afirmação. Raquel Tavares regressou ao fado sem procurar reinventá-lo nem reinventar-se. Fê-lo, como o título do seu novo disco sugere, “à antiga”: com verdade, com respeito pela tradição e com a consciência de que, no fado, a autenticidade continua a ser o valor mais difícil de imitar. Em Gondomar, ficou a prova de que a pausa terminou, mas a voz permaneceu intacta.

terça-feira, 19 de abril de 2022

CONCERTO: Pedro Viana, João Martins, Bruno Cardoso



CONCERTO: Pedro Viana, João Martins, Bruno Cardoso
ROTAS DO SOM
Capela de S. Geraldo, S. Vicente de Pereira
18 Abr 2022 | seg | 18:30


Pensei em escrever estas palavras tendo como ponto de partida as actividades promovidas pela Câmara Municipal de Ovar a propósito do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, instituído há precisamente quatro décadas e assinalado a 18 de Abril. O destaque iria para a visita guiada ao projeto ARHK | Espaço Memória, espaço adquirido em 2018 pela Câmara Municipal de Ovar e que é, desde 2020, um bem cultural de Interesse Público. A finalizar, num breve parágrafo, dedicaria algumas palavras ao concerto de música ibérica e mediterrânica que, mesmo ali ao lado, viria a ser protagonizado por Pedro Viana, João Martins e Bruno Cardoso. Afinal, o impacto em mim causado pelos dois eventos obrigou-me a repensar a estrutura da mensagem. Não porque a visita guiada fosse desprovida de interesse, ainda que o projecto se encontre ainda numa fase inicial, com muitas questões à procura de uma resposta. Sobretudo porque o concerto ultrapassou todas as expectativas, não apenas pela excelência dos temas escolhidos, como pelas sonoridades e pelo virtuosismo das interpretações. É sobre ele que me debruçarei.

Programar um concerto para uma segunda feira ao final da tarde, num local distante da sede do Concelho, terá tido o seu quê de arrojado. Ainda para mais porque a proposta musical, embora fundada na tradição, tem uma “costela” da chamada música erudita, tão incompreensivelmente desvalorizada pelos nossos públicos. A verdade é que o concerto aconteceu, para gozo e gáudio dos que a ele assistiram. “Longo Camino Branco” ou “Bento Airoso” foram o pontapé de saída, pondo-nos em contacto com o melhor que os cancioneiros da Galiza ou de Trás os Montes têm para oferecer. A rematar o concerto, “Durme” mergulhou-nos no melhor da tradição musical sefardita e “Ilha dos Vidros” transportou-nos ao Baixo Alentejo. Pelo meio, “A dos Adufes”, “Escancaras” ou Mandilatos” mostraram-nos a qualidade das composições originais de Pedro Viana e João Martins. De repente, foi como se recuasse algumas décadas no tempo, ao saudoso Festival Intercéltico e à música dos Malicorne ou dos Garmarna, dos Four Men and a Dog ou da Márta Sebestyén, dos Realejo ou dos Dervish.

Fecho os olhos e parece-me escutar, ainda, a voz bem timbrada de Bruno Cardoso a pairar por sobre os suaves acordes da viola braguesa de Pedro Viana e da sanfona de João Martins. “Ó bento airoso / Mistério divino / Encontrei a Maria à beira do rio / E lavando os cueiros do bendito Filho”. Ouvi este tema dezenas de vezes – na voz do Janita Salomé ou de Né Ladeiras, pela Brigada Vitor Jara ou, muito recentemente, no piano de Filipe Raposo – e não me lembro de uma tão bela interpretação como a escutada ontem, na Capela de S. Geraldo. Para tal muito contribuiu o talento dos músicos, o cuidado e empenho posto em cada uma das interpretações, a tocar para um público escasso numa recôndita capela de aldeia como se estivessem no palco da Sala Suggia da Casa da Música perante um auditório com lotação esgotada. Acrescente-se à música as explicações de Pedro Viana sobre a sua universalidade, as particularidades dos instrumentos e a importância de preservar usos e costumes e digam lá se haveria mais bela forma de assinalar data tão importante.