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terça-feira, 25 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Bandopipo: Da Aduela ao Brinde" | Mário Lisboa



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde”,
de Mário Lisboa
Videoarte | Carla Varanda
Escola de Artes e Ofícios
15 Out > 31 Dez 2025


Surgida no âmbito do Ovar Expande, “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde” é uma exposição sobre “a fusão da tanoaria com a música”, e que pode ser vista por estes dias na Escola de Artes e Ofícios. Nela, o fotógrafo Mário Lisboa desloca-se do gelo primordial para o calor íntimo da madeira trabalhada e do dedilhar das cordas de um instrumento musical, trocando a vastidão hipnótica do extremo sudoeste da Sibéria pela respiração concentrada das tanoarias, onde o ferro e as madeiras dialogam entre si e o artefacto se faz música. Depois de décadas a cartografar geografias exteriores — povos, paisagens, rituais, atmosferas — o fotógrafo volta-se agora para o espaço interior, onde a escala se reduz mas a intensidade permanece. O que aqui se vê é menos a representação das artes e ofícios e mais a revelação de uma alquimia que transforma matéria em som. Na Escola de Artes e Ofícios, as imagens constroem um percurso que acompanha a génese do Bandopipo, esse híbrido improvável nascido de um pipo e destinado ao convívio com a família do bandolim. Lisboa observa o fazer e o ensaiar, o gesto paciente do tanoeiro e a precisão do luthier, como quem acompanha o amadurecimento de um fruto raro. Entre fotografias, estações sonoras, videoarte e entrevistas, o visitante percorre um território onde as fronteiras entre artes e ofícios se dissolvem, e onde cada imagem parece conter, adormecido, o primeiro sopro de música.

Aquilo que começou como instrumento torna-se pretexto, e aquilo que se apresenta como exposição converte-se em narrativa de criação, partilhada em camadas de luz e som. O diálogo entre tanoaria e luteria, registado com a minúcia de quem deduz os ritmos secretos da matéria, surge aqui transfigurado em composição visual. Herdeiro de cinco gerações de fotógrafos, Mário Lisboa conhece a gramática própria que cada ofício encerra: o fogo que curva a aduela, o metal que fixa o arco da forma, a lâmina que afina o corpo ressonante, a corda que vibra em embalos sublimes. As suas vinte imagens percorrem esses gestos como quem decifra uma pauta, revelando o paralelismo entre fabricar pipos, construir instrumentos de corda e dar a ver as muitas sonoridades que neles se encerram. Se a madeira é a mesma, também é semelhante a tensão interna que conduz ao som: Primeiro contida, depois liberta, é a vibração que dá voz ao Bandopipo, acrescentando-lhe o pressentimento de uma ressonância futura. A instalação multissensorial acentua este parentesco: A videoarte de Carla Varanda devolve o ritmo dos gestos à orquestra; as estações de escuta expandem a Suite Bandopipo para além da imagem; as entrevistas restituem o timbre humano à técnica. No centro, como um coração que pulsa em silêncio, está o instrumento conceptualizado por Eurico Silva e materializado por Agostinho Rodrigues, meio bandolim, meio pipo, inteiro na ousadia de assumir o lugar de benjamim na distinta família dos cordofones.

No encontro entre matéria e metáfora, atinge a exposição a sua plenitude. O Bandopipo, instrumento improvável que faz passar a música para o vinho, reintroduz o visitante num território onde criação e celebração são indissociáveis. Se o pipo amadurece o líquido, aqui é a música que o acompanha no estágio, como se cada nota depositasse no néctar uma memória adicional. Mário Lisboa capta essa ideia com subtileza: as garrafas especiais — colheitas musicais que evocam os concertos da Orquestra de Bandolins de Esmoriz — erguem-se como testemunhos de uma alquimia final, onde a imagem se faz memória, o som se torna sabor e o gesto artesanal se converte em rito coletivo. A exposição culmina, assim, num brinde simbólico à tradição reinventada, à persistência dos ofícios e à imaginação que os reconfigura. O fotógrafo, habituado a percorrer o mundo em busca do extraordinário, encontra-o agora na intimidade da madeira, no sopro quente da tanoaria, na vibração que se faz música. E ao fazê-lo, confirma que a verdadeira viagem nunca depende da distância percorrida, mas da capacidade de olhar. Em “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde”, Mário Lisboa devolve-nos esse olhar: preciso, sensível e profundamente enraizado na convicção de que a arte — como o vinho — se faz de tempo, gesto e partilha.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '25 (IV)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’25 (IV)
Com Agostinho Rodrigues, Eurico Silva, Mário Lisboa e Joaquim Margarido
Escola de Artes e Ofícios
15 Out 2025 | qua | 21:30


Depois das emoções em torno dos oito concertos que fizeram a sexta edição do Ovar Expande, esta última mensagem tem como foco uma das várias conversas que atravessaram o evento. Mas antes, é tempo de olhar para trás e fazer um breve balanço de cinco dias extraordinários, com a figura do “cantautor” em pano de fundo. Tal como nos anos anteriores, a organização primou pelo ecletismo e qualidade das propostas, mantendo a preocupação em elevar o padrão de proximidade com o público, o que resultou em três noites de concertos com salas cheias e uma forte adesão às conversas e formações que ocuparam uma parte importante do programa. Daí que o mais caloroso aplauso seja devido a Gil Godinho, figura destacada no trabalho de preparação e concretização do evento, apoiado na sólida, empenhada, conhecedora e imensamente disponível equipa Ovar / Cultura, chefiada por José Licínio Pimenta. Ano após ano, a eles se deve o conhecimento de uma variedade gigante de projectos relevantes no panorama da nova música portuguesa, geralmente inacessíveis ao público em geral.

O envolvimento da comunidade, com a criação do coro que acompanhou a cantora Bia Maria, foi um momento de enorme relevância nesta edição do Ovar Expande, reunindo dez vozes a quem foi dada a oportunidade de ser parte integrante de um projecto enriquecedor a muitos títulos. Conhecimento, dádiva e partilha foram vectores essenciais de um processo formativo que culminou com a presença do Coro em palco, acompanhando com brio a preciosa música de Bia Maria e mostrando que “qualquer um pode cantar”. Outros momentos fundamentais desta edição do certame foram as formações e masterclasses. “Palavra cantada: Compor é cantar”, com Luca Argel, e “Palavras para outras vozes”, com Carlos Tê, ofereceram aos participantes a possibilidade de mergulhar no universo da escrita e da composição musical, conhecer os bastidores dos processos criativos e explorar as palavras, melodias e narrativas que transformam histórias pessoais em canções universais. Houve ainda lugar a um showcase de Luca Argel, no espaço exterior da Escola de Artes e Ofícios, no qual o cantor encetou uma “conversa de fila” com o público, cantando numa voz límpida e harmoniosa e encantando com as histórias da vida real transformadas em belíssimas canções.

Num evento recheado de grandes momentos, destaque para a conversa que juntou os músicos Manel Cruz e Mazela e esse enorme comunicador que é Fernando Alvim, numa emissão do programa Prova Oral transmitido em directo na Antena 3. Enfim, a conversa que justifica este texto reuniu o luthier Agostinho Rodrigues, o instrumentista Eurico Silva e o fotógrafo Mário Lisboa. Intitulado “A fusão das artes, dos ofícios e a música”, o momento assentou num cordofone “multidisciplinar” designado bandopipo, um exemplo perfeito de como a tradição e a experimentação podem dialogar entre si de forma criativa e significativa. Com sala cheia e em ambiente informal, a conversa foi precedida da inauguração da exposição de fotografia “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde”, da autoria de Mário Lisboa, viagem fotográfica ao interior de uma tanoaria transformada em palco num concerto da Orquestra de Bandolins de Esmoriz. No centro da fusão entre as artes e os ofícios está o Bandopipo — meio bandolim, meio pipo —, cordofone conceptualizado por Eurico Silva e construído por Agostinho Rodrigues. O percurso expositivo inclui ainda videoarte de Carla Varanda, entrevistas aos protagonistas e a presença física do instrumento.

Com o Bandopipo como elemento orientador, a conversa juntou música e vinho, elementos indissociáveis num percurso milenar, entrelaçados em celebrações religiosas, festas populares e rituais sociais. E porque esta relação se exprime de forma ímpar como um mecanismo de coesão e identidade comunitária, nada melhor do que um brinde com vinho servido directamente do próprio instrumento para dar início à conversa. Assumindo-se como um “experimentalista”, mais do que “um luthier, um violeiro ou o que me queiram chamar”, Agostinho Rodrigues afirmou a sua emoção em dar corpo e vida a um objecto carregado de simbolismo, algo que “foi construído para ser tocado, que não é um brinquedo”. Falando dos desafios à sua construção, “Tico” referiu as “questões de escala do objecto, a sua ergonomia”, acrescentando que o Bandopipo “tem o braço ligeiramente mais comprido que o dos bandolins convencionais, aproximando-o da bandola”. Mas também a parte acústica levantou questões de ordem vária, o problema a ser ultrapassado “com a criação de uma caixa de ressonância exterior, com uma membrana que, ao vibrar, permite que as cordas se façam ouvir”.

O paralelismo entre a construção de pipos e de instrumentos musicais, aliado ao facto da Orquestra de Bandolins de Esmoriz ter vindo a desenvolver, desde 2013, uma série de concertos no interior de uma tanoaria da cidade, está na origem da concepção do Bandopipo. “De um momento para o outro, um espaço de trabalho transformou-se num espaço de um concerto”, lembra Eurico Silva, para quem esses momentos foram um “lançar da semente”, o impulso para a criação de um instrumento que homenageia “a fusão de duas artes, de dois ícones de Esmoriz”. Entre o popular e o erudito, a polivalência do instrumento permite a criação de sonoridades diversas em função dos diferentes ambientes, do cuidar das cepas ao copo que vai à boca. Um conceito novo que, para o instrumentista e médico de profissão, “permitirá chegar a mais públicos”, curiosos de ver, sentir e provar a música estagiada num recipiente tradicionalmente ligado ao acondicionamento e conservação do vinho.

Já Mário Lisboa começou por referir o privilégio que é poder fotografar numa tanoaria e viver um ambiente muito particular, feito de objectos, sons e aromas invulgares. Para o fotógrafo, a exposição traça um percurso sensorial que documenta o nascimento de um instrumento, mas é também um embate entre o mundo da música e do vinho, entre o terreno e o celestial: “Senti aqui, por instantes, como se tivesse saído de mim próprio, como se a fotografia me transcendesse e tomasse, ela própria, conta do trabalho.” Falando das imagens mais marcantes, Mário Lisboa refere uma fotografia de grupo – “ainda hoje não sei como é que consegui pôr na imagem aquelas pessoas todas e todas felizes” – e uma outra da tanoaria, com uma janela em fundo, “como se fossem os vitrais de uma catedral”. A terminar, refira-se que a exposição de fotografia “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde” irá permanecer patente ao público até ao final do ano e que o ciclo experimental de criação de novos instrumentos não se fecha com o Bandopipo. Com efeito, Eurico Silva anunciou estar na calha um instrumento à base de azulejo, ainda sem nome definido e que poderá ser ouvido na 24.ª edição do CONCORDAS, no dia 22 de Novembro, no Centro de Artes de Ovar.

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/ovarcultura]

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ‘25 (III)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ‘25 (III)
Com Lana Gasparøtti, IBSXJAUR e The Legendary Tigerman
Escola de Artes e Ofícios
18 Out 2025 | sab | 21:30


Energia, ritmo, performance, alta rotação, muito suor e, por certo, algumas lágrimas, marcaram o fim desta sexta edição do Ovar Expande. Palco aglutinador dos interesses e vontades de uma organização atenta, de músicos empenhados em dar o melhor de si na defesa dos seus projectos e de um público empático e entusiasta, a Escola de Artes e Ofícios esteve ao rubro com três concertos em crescendo, três propostas vibrantes que fizeram do serão um momento único, daqueles que ficam para a história do certame como um dos mais apelativos e aclamados de sempre. Assumindo-se como pianista, compositora e produtora, Lana Gasparøtti abriu a noite em festa, trazendo consigo “Dimensions” (2024) e com ele uma estética sonora e visual rica em detalhes e de escuta intensa e viva. Com uma forte presença em palco, a artista mostrou ambição na forma de conciliar o espírito exploratório do jazz e a sua vertente de improvisação, com a pulsação rítmica e a estética da electrónica e do hip-hop, construindo um “jazz dançável”, disposto a lançar pontes tanto entre os músicos como com público. Percebe-se um cheirinho de Chick Corea e Herbie Hancock, do jazz de fusão dos anos 1970, em temas como “Missing Files”, “Dreaming”, “Mar” ou “Dimensions”, mas Gasparøtti arrisca numa linguagem musical que ousa desafiar classificações convencionais, apostada que está numa experiência sonora moderna e de fronteiras abertas. 

Depois de um muito prometedor e aplaudido início de noite, o público foi convidado a descer um piso e a ouvir a dupla IBSXJAUR, tendo à sua espera um momento fortemente performativo em torno do novíssimo “Sanity”, álbum lançado no dia anterior com o carimbo Cuca Monga e a fazer no Ovar Expande a sua estreia ao vivo. Atravessando a sala com um chapéu de chuva aberto, JAUR (leia-se “Jôr”) enfrentou o auditório disposta a deixar tudo em palco e a transformar a Sala Galeria da Escola de Artes e Ofícios numa pista de dança subterrânea. Irreverente, destemida, de uma energia ilimitada, a artista transmite uma autenticidade e uma carga emocional gigante à sua música, ligando-se a uma parte da audiência num plano altamente empático, enquanto a batida e a produção de INFRABASSESATURE conduz a uma imensidão de estados de euforia rítmica que fazem do concerto um espectáculo dentro do espectáculo. Temas como “The Molt”, “Echo” ou “Sangfroid” mostram o quanto de techno e drum & bass habitam a música dos IBSXJAUR, mas há também “Circles” ou o belíssimo “Up! ft. Marianne” a revelar a sua matriz pop, vector orientador e parte intrínseca do projecto. O que verdadeiramente impressionou na música da dupla foi a sua capacidade de transitar entre os conceitos de “concerto” e de “clube”, de articular uma narrativa lírica com a produção underground e de levar a música a assumir, em simultâneo, o palco e a pista de dança.

Se foi muito o público presente na Sala Galeria, foi muito mais aquele que encheu de emoção e aplauso a belíssima Sala Expande para escutar um dos cabeças de cartaz do certame, The Legendary Tigerman. Despojado das habituais cadeiras, o espaço foi pista de dança no concerto que encerrou a sexta edição do certame, acolhendo um carismático Paulo Furtado e a uma sonoridade muito própria, fonte de redescoberta e projecção do blues para o século XXI. Escusado será dizer que, mal ecoaram na sala os primeiros acordes de “New Love”, os corpos não mais tiveram sossego. É impossível permanecer imune à estética provocadora e performativa do artista em palco - extraordinariamente acompanhado, diga-se, por Mike Ghost na bateria e Sara Badalo na voz -, numa fusão de blues, rock, punk e elementos electrónicos. Crua, sensual e cinematográfica, a sua música convoca universos de estrada, solidão e rebeldia. “Ghost Rider”, “Naked Blues”, “Motorcycle Boy” ou “These Boots Are Made For Walkin’”, a última numa revisitação de um clássico de Nancy Sinatra da década de 1960, são disto exemplos acabados. Como o são “The Saddest Thing to Say” ou “True Love Will Find You in the End”, dois temas que integram esse marco incontornável na música portuguesa que é o álbum “Femina”. Entre a autenticidade e a inovação, o fecho ideal de uma edição de grande nível, prova da afirmação do Ovar Expande num plano superior do panorama de certames do género no nosso país.

domingo, 19 de outubro de 2025

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ‘25 (II)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ‘25 (II)
Com Bia Maria + Coro da Comunidade, Ela Li e Afonso Cabral
Escola de Artes e Ofícios
17 Out 2025 | sex | 21:30


O segundo dia de concertos do Ovar Expande teve para oferecer três propostas surpreendentes, mas com um notável sentido de complementaridade, próximas e distantes entre si ao mesmo tempo. Assumindo a figura de “irmão do meio” no alinhamento da noite, Ela Li ocupou a Sala Galeria da Escola de Artes e Ofícios para uma hora de concerto baseado no seu álbum “Choradeira” (2023). Com Zé Cruz no trompete e percussões e Luis Sanches na guitarra, a cantora mostrou o quanto as intensas vivências no lado de lá do grande lago Atlântico se mostram presentes na sua música, pontuada de ritmos quentes — da bossa nova ao funk, do groove afro-brasileiro à electrónica subtil —, movendo-se entre a leveza de um suave “sunset” e a profundidade das emoções mais genuínas. Essa mistura resulta numa música que se escuta com facilidade, mas que não deixa de surpreender pela riqueza de cores e texturas e pelos arranjos cativantes. Distante dos palcos há bastante tempo por questões de maternidade - “Vamos Lá Mudar a Fralda” terá sido a música que mais cantou nos últimos tempos -, Ela Li está de regresso e ainda bem. Fê-lo em Ovar, preenchendo uma boa parte do serão com um misto de descontração de um dourado pôr-do-sol e a profundidade de um olhar interior que faz do amor e da amizade o caminho a seguir.

Os de memória mais afinada lembrar-se-ão de Afonso Cabral na primeira edição do Ovar Expande, altura em que apresentou o seu projecto em nome próprio, depois de uma década à frente dos “You Can’t Win Charlie Brown”. E se o fez então em “versão reduzida” - pandemia “oblige” -, a noite de ontem foi de celebração com um regresso em força que juntou em palco os companheiros de estrada habituais: António Vasconcelos Dias (piano, rhodes, moog, guitarra acústica), Pedro Branco (guitarra eléctrica), David Santos (baixo), João Correia (bateria) e Inês Sousa (voz e sintetizador). Saltitando entre “Morada” (2019) e “Demorar” (2024), os seus dois trabalhos de estúdio até ao momento, Afonso Cabral mostrou à saciedade as suas qualidades de enorme cantautor, capaz de permanecer fiel a si próprio e explorar a língua portuguesa com frescura, elegância e sentido. Temas como “Entre as Palavras e os Actos”, “Resistir”, os inevitáveis “Morada” e “Demorar”, “Indivisível” ou um muito belo e significativo “Manel”, distinguem-se pela subtileza e pelo modo como articulam entre si forma e emoção, sofisticação e proximidade, se enraizam num minimalismo elegante e se mantêm relevantes numa altura em que o “indie” nacional busca novas vozes, novas texturas, outro nível de ambição. Um momento repleto de muita e boa música a encerrar uma noite rica em emoções.

Por razões óbvias, deixei para o fim o concerto de abertura do serão, preenchido pelo concerto de Bia Maria + Coro da Comunidade. O “óbvio” prende-se com o facto de eu próprio ter integrado o Coro da Comunidade e ter podido acrescentar ao sentir de um momento musical a emoção da cumplicidade e da partilha. A apresentar em Ovar “Qualquer Um Pode Cantar”, o seu mais recente álbum, Bia Maria foi capaz de unir a beleza da voz à força da comunhão colectiva num projecto que é um verdadeiro sopro de frescura no panorama da música portuguesa contemporânea. Enraizadas no cancioneiro popular, com um “cheirinho” de fado e de bossa nova, as suas melodias fazem da voz — da dela e de todos — instrumento primordial e elo de partilha. Com Alberto Hernandez na guitarra e Samuel Louro na bateria, a artista vestiu de cumplicidade e inclusão temas como “Roupa Velha”, “O Corpo”, “Aconchegos de um Sujeito”, “Marcha da Paridade” ou “Qualquer Um Pode Cantar”, juntando em palco um coro de dez pessoas de diferentes gerações e transformando o concerto num acto de encontro com o outro e consigo própria. A combinação de tradição e inovação, intimidade e comunhão, música e cidadania, resultou num trabalho vibrante de conhecimento, escuta, partilha e comunidade, ao qual o público não ficou indiferente. Entre o acto da escuta e o de cantar mediou um pequenino passo que fez de “qualquer um pode cantar” não apenas título, mas vibrante bandeira.

sábado, 18 de outubro de 2025

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2025 (I)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2025
Com Mazela e Manel Cruz
Escola de Artes e Ofícios
16 Out 2025 | qui | 21:30


Foi no Verão de 2020, em plena crise pandémica, que o Ovar Expande soltou amarras e juntou esforços, decidido a “desconfinar” a nova música portuguesa e a dar palco às suas vozes singulares e projectos inovadores. Ao mesmo tempo, assumia com veemência a ideia de transformar espectadores em protagonistas de uma experiência cultural única, de valorização do talento nacional e de celebração da força da canção enquanto arte viva. Cinco anos decorridos, o certame mostra-se imparável. Ano após ano, tem sabido repensar-se e reinventar-se – estendeu-se a novos espaços, cativou e consolidou um público apaixonado e afirmou-se como uma forte marca identitária da cultura em Ovar e uma referência incontornável no panorama musical do nosso País. Celebrando os cantautores, esta sexta edição traz à Escola de Artes e Ofícios nomes como os de Manel Cruz, Afonso Cabral, The Legendary Tigerman, Mazela, Bia Maria, Ela Li, Lana Gasparøtti e IBSXJAUR, apostada em fazer de cada concerto um encontro emotivo e intimista entre a dádiva da música e o abraço do público.

Natural de Castelo Branco, Maria Roque abriu a série de concertos da presente edição do Ovar Expande, trazendo consigo o projecto Mazela, através do qual lança um olhar sobre as imperfeições humanas, mas também sobre o acto de cuidar e curar. Acompanhada pela produção atenta de Alexandre Mendes, igualmente encarregue do acompanhamento com a guitarra, a voz suave e introspectiva de Maria Roque impôs-se ao longo do concerto em temas como “Naveguei”, “Luz no Escuro” e “Entre Amor e Ódio”, extraídos do seu primeiro EP, intitulado “Desgostos em Canções de Colo” (2024). O destaque vai para a riqueza poética de Mazela, para a sua capacidade de devolver um olhar delicado sobre temas como a dor, a perda ou a esperança, e de o fazer com uma sensibilidade que ressoa profundamente no público. Introspectivas e carregadas de emoção, as letras convidam à reflexão pessoal e à empatia. Consiga ela soltar-se de constrangimentos – mais acústica e menos eco, mais naturalidade e menos eletrónica - e cantar da forma límpida como fez em “Canção sem Final”, e rapidamente se afirmará como uma das gratas certezas da nova música portuguesa.

O final do primeiro dia de concertos do Ovar Expande foi assegurado por Manel Cruz. E que final! Em dia de aniversário, aquele que é um dos mais geniais músicos portugueses brindou o público com um leque vasto de canções, respigadas de um repertório pouco conhecido, em grande parte não editado em disco e apenas à disposição dos sortudos que têm a possibilidade de o escutar em palco. “Onde Estou Eu” e “Beija Flor”, do álbum “Vida Nova” (2019) foram os primeiros temas da noite, abrindo espaço a uma hora e um quarto da mais pura sedução. Estabelecendo um ponto de equilíbrio entre a sofisticação musical e a crueza emocional, o cantor prendeu o público de forma intensa (quase apetece dizer que o amordaçou), induzindo nele uma escuta quase reverencial. Tratando como ninguém os seus poemas, carregou-os de intimismo e de uma expressiva sensibilidade emocional em temas universais como o amor e a dor, a melancolia e a nostalgia, mas também a natureza e o quotidiano. Seria redutor destacar esta ou aquela canção, de tal forma cada uma delas se mostrou como um "ramo" diferente da experiência humana, nessa "árvore" maior da existência e do conhecimento, da dádiva e da partilha. Um concerto inesquecível, revelador do porquê de ser Manel Cruz um dos maiores cantautores portugueses de hoje e de sempre.

domingo, 20 de outubro de 2024

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2024 (III)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2024
Com Emmy Curl, Gobi Bear e Mirror People
Escola de Artes e Ofícios
19 Out 2024 | sex | 21:30


Chegou ao fim a quinta edição do OVAR EXPANDE. Por força das circunstâncias, uma edição que “ganhou” um dia, chamando à Escola de Artes e Ofícios, entre quarta-feira e sábado, um elevado número de admiradores, aficionados ou simples curiosos do fenómeno da nova música portuguesa. Da pop ao rock, passando pelo jazz e pela electrónica, pela soul ou pela música de raíz tradicional portuguesa, o certame deu a ver, escutar e sentir muito do (muito) bom que se faz no nosso país em matéria musical. Criatividade, vontade de inovar, ousadia, ambição e muita energia, foram predicados da música que Emmy Curl, Mazgani, Margarida Campelo, Bardino, Gobi Bear, Sara Cruz, Laura Rui e Mirror People tiveram para oferecer ao público, fazendo de cada concerto um feliz momento de cumplicidade e partilha. Mas o OVAR EXPANDE não se limitou aos oito concertos, chamando outros e novos actores na forte relação existente entre a música e o cinema. À faceta formativa, vertida numa masterclasse e numa oficina, juntou-se a conversa, outra das imagens de marca do certame, abordando temas como a estreita ligação entre a música e os videoclips, os meios de promoção, o papel da rádio e das redes sociais num contexto de difusão ou a essência do cinema que faz com que o autor e cantor seja, também ele, produtor, realizador e actor.

A abrir a última noite do OVAR EXPANDE, Emmy Curl chamou “Pastoral” ao palco, vestindo de ritmo, harmonia e bom gosto um conjunto de músicas enraizadas na nossa tradição. Em doze inspirados temas, dois dos quais inéditos e pensados para um novíssimo trabalho que está em marcha, a artista abraçou a magia da música, mostrando as sinergias que folclore, jazz e electrónica podem estabelecer entre si, misturando-as no caldeirão da experimentação onde tudo é permitido. Entre a salutar irreverência e o profundo respeito pela tradição, Emmy Curl revelou ao público a genuinidade de um ADN sonoro que ressoa “em cada guitarra, em cada bombo electrónico e em cada voz que se ergue para cantar a nossa história”. Se dúvidas houvessem, “Poetas à Solta” (dedicada ao poeta e pensador Agostinho da Silva), “Mudança”, “Macelada” ou “Botar Água na Vinha” lá estariam para as dissipar. O destaque, no entanto, vai para as notáveis interpretações de “Maio Maduro Maio” e “Senhora do Almortão”, com Emmy Curl a acrescentar valor a dois temas maiores do nosso cancioneiro. E houve, também, a naturalidade e espontaneidade em palco, a voz única, a sinceridade que emana de frases como “o sentido da vida é a arte de estarmos juntos”, “gostava que houvesse mais amor próprio pela música portuguesa” ou “vamos todos plantar florestas”. Bravíssimo!

“Chamo-me Diogo e hoje tocamos todos juntos”. Descendo à Sala Galeria, o público pode escutar Gobi Bear, nome artístico de Diogo Alves Pinto numa alusão directa a uma espécie criticamente ameaçada de extinção. Não parece ser o caso do artista, já que a intensidade da sua música e a sua forte presença em palco têm o condão de garantir um crescente leque de fiéis seguidores. A mostrar “3”, o seu mais recente trabalho, o músico apresentou-se sozinho em palco, “desconstruindo as músicas em múltiplas camadas de guitarra e omnichord”. Músicas imersivas, intimistas, como viagens idílicas e tranquilas ao mais fundo da nossa alma, como bem se percebe em “Deepest Plains” ou “Under Flashes of White”. Como manda a tradição, o OVAR EXPANDE encerrou com a chamada música de dança. Em palco, Mirror People, alter ego do músico produtor e DJ Rui Maia, fez-se acompanhar por Rö (nome artístico de Maria do Rosário), dando a ver um conjunto de temas do seu mais recente trabalho discográfico, “Heartbeats etc.”, aos quais acrescentou muitos outros, num todo imaginativo, com muito de improviso e mais ainda de ritmo e energia. O público “obedeceu” à ordem de “arrastar as cadeiras, que isto é concerto para estar de pé” e fez da Sala Expande a sua pista de dança. O final perfeito de um OVAR EXPANDE fortemente consolidado e cada vez melhor.

sábado, 19 de outubro de 2024

CONCERTOS & CONVERSAS: OVAR EXPANDE 2024 (II)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2024
Com André Tentúgal, Bardino, Gil Godinho, Jaime Valente, Margarida Campelo, Rui Martins e Sara Cruz
Escola de Artes e Ofícios
18 Out 2024 | sex | 10:30, 18:30 e 21:30


Arrancou durante a manhã com André Tentúgal a orientar a masterclass “Música e Cinema”, prosseguiu ao final da tarde com uma conversa que, entre a música e o cinema, se expandiu também à rádio, e terminou com dose tripla de concertos, num serão que se prolongou muito para lá da meia-noite. Foi este o “alinhamento” do terceiro dia do OVAR EXPANDE, um dia repleto de momentos de alta intensidade e que voltou a dar ao público a possibilidade de perceber o quanto de ousadia, criatividade, energia e talento se abriga na nova música portuguesa. Da conversa que Gil Godinho manteve com Rui Martins (do colectivo Bardino), Sara Cruz e Margarida Campelo, artistas que viriam a subir ao palco horas mais tarde, e ainda com o radialista Jaime Valente, reflectiu-se sobre a forte ligação entre a imagem e a música em termos de promoção artística, vincando-se a importância da rádio na divulgação dos artistas e dos seus trabalhos. O cantor como actor, a má música que nenhum vídeo salva ou a certeza de que o vídeo, ao invés de matar a rádio, criou ambientes propícios a que esta se reinventasse e revitalizasse, foram tópicos de uma conversa viva e enriquecedora a abrir espaço a uma noite de muita e boa música.

Naquele que foi o primeiro grande momento da noite, o colectivo portuense Bardino subiu ao palco para apresentar “Memória da Pedra Mãe”, um trabalho editado no final de Fevereiro com o carimbo da Jazzego. Com Rui Martins nos teclados, Diogo Silva no baixo, Rafael Gomes no saxofone e Nuno Fulgêncio na bateria, a banda ensaiou uma viagem por lugares extremos, onde o etéreo e o telúrico se fundem em energia e beleza. A “Pedra Mãe” - uma alegoria inspirada nas pedras parideiras, fenómeno geológico raro que acontece aqui bem perto, na Serra da Freita - funciona como um catalisador de memórias, dispostas em temas com os sugestivos nomes de “Giesta” ou “Tília”, “Fumo” ou “O Semeador”. Nas múltiplas camadas de que se reveste a música dos Bardino, percebem-se as cores da mais elementar matéria, cuja pureza e a dureza confluem num mundo subterrâneo, insólito e ameaçador. Entre o rock e a electrónica, a música dos Bardino abre igualmente espaço ao Jazz, numa salutar linha de experimentação que desafia convenções e desvenda novos horizontes. Um belíssimo concerto, a predispor para uma noite com muito ainda para oferecer.

As convulsões do magma e a violência dos fenómenos eruptivos, tão presentes na música dos Bardino, estendem a viagem até S. Miguel. Açoreana de gema, Sara Cruz abre-nos as portas da sua ilha com “Fourteen Forty-Five”, um trabalho com a chancela da Locomotiva Azul acabadinho de publicar. Também aqui, é intensa a ligação entre o etéreo e o telúrico, embora estejamos muito longe dos mistérios crus e densos que se abrigam nas profundezas, como sugerido no momento anterior. Inspirada, feita de leveza e fantasia, a música de Sara Cruz convoca as paisagens verdes e azuis das ilhas, o ondulado das suas colinas, os caminhos bordejados de hortênsias, os pastos da erva mais verde que se estendem a perder de vista. É nos caminhos da pop que os temas se expandem, tirando o melhor partido da bonita voz da cantora e do ambiente acústico que a sua viola proporciona, muito bem acompanhada em palco pela viola de Miguel Garcia e pela bateria de Francisco Santos. Rompendo com a hegemonia da música inglesa nos temas que compõem o disco, Sara Cruz trouxe-nos “Na Ponta da Madrugada”, um tema que integrou o projecto dos picarotos “Mar e Ilha” e que é cantado na língua de Camões. Um momento que acrescentou beleza a um concerto intimista e de uma grande sinceridade.

No sobe e desce entre a Sala Galeria e a Sala Expande da Escola de Artes e Ofícios, a ideia da viagem prolongou-se com Margarida Campelo a assumir o último momento da noite. Acompanhada por Raquel Pimpão (teclas), João Correia (bateria) e António Quintino (baixo eléctrico), a cantora apresentou “Supermarket Joy”, o seu primeiro trabalho a solo, publicado em Maio de 2023 pela Discos Submarinos. Com “Maegaki”, as primeiras notas elevam-nos no ar, as sucessivas vagas sonoras e os loops vocais a convocarem o espaço sideral. A batida forte não se faz esperar e, com ela, uma descida abrupta à superfície das águas com “Physali Fit” em dose dupla, um tema que conjuga na perfeição as vertentes instrumental e coral. Está dado o mote para um concerto marcado por um registo “entre terra e céu”, com momentos verdadeiramente impactantes como aquele rap de Raquel Pimpão em “Mapa Astral” ou o solo intenso de Margarida Campelo em “Aura de Panda”. “Tropicais”, “Gemma”, “Deusa”, “Love Will Never Be Enough” ou “Mexe-te Mais um Pouco”, levaram-nos por caminhos da pop, mas também do R&B, da Bossa Nova, da Soul e do Jazz, numa paleta de géneros eclética e de um bom gosto inexcedível. O final perfeito de um dia feliz no OVAR EXPANDE.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

CONCERTOS & CONVERSAS: OVAR EXPANDE 2024 (I)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2024
Com Bernardo Freire, Joaquim Margarido, Laura Rui, Mazgani, Miguel Araújo, Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
16 e 17 Out 2024 | qua e qui | 18:30, 21:30 e 22:30


Nascido da vontade de expandir horizontes à nova música portuguesa e de, num enquadramento inovador, trazê-la para mais perto do público, o OVAR EXPANDE está de regresso para a sua quinta edição. Concertos, conversas, oficinas e masterclasses, são, ao longo de quatro dias, vectores de entretenimento, criatividade, inovação e conhecimento, evocando “a arte e o ofício” de fazer e conhecer a música. Numa edição que explora a ligação da música e da palavra à sua dimensão cinematográfica, o certame arrancou na noite da passada quarta-feira com uma conversa moderada por Tiago Alves e que teve como convidado o músico Miguel Araújo. O visionamento de um punhado de videoclips abriu espaço a um saboroso momento de partilha de ideias, opiniões e algumas curiosidades, dando a ver uma faceta menos conhecida de Miguel Araújo, a de (excelente) conversador, disfarçando muito bem a sua timidez (assumida) e aceitando abrir o jogo sobre o seu processo criativo, a ligação entre a música e as imagens dos seus videoclips, as grandes referências musicais (e não só), o desconforto de estar em palco sem uma guitarra ou os medos de quem não sabe dançar.

O segundo dia do OVAR EXPANDE voltou a explorar o cruzamento do cinema com a música, através de uma conversa que reuniu o cantor Mazgani e o crítico de cinema Bernardo Freire. Centrado no filme documental de Rui Pedro Tendinha, “Estrada para Mazgani”, o momento teve moderação de Joaquim Margarido e permitiu desvendar a “estrada” a que o título se refere. De uma humildade tocante, o músico partilhou as histórias que se abrigam em duas décadas de carreira, o olhar apontado em frente. Bernardo Freire ajudou a descodificar o lado “road movie” que o filme de Tendinha ostenta e Mazgani, entre o compromisso com os seus fãs e a aventura de cantar em português, concluiu que “queria era ser Wagner, ser Beethoven, escrever a Sagração da Primavera”. Ainda que sem o estatuto de génio, é um artista carismático, talentoso, com uma forte presença em palco, contagiante de energia e intencionalidade. Foi isso que o público presente na bonita Sala Expande da Escola de Artes e Ofícios pode constatar, no concerto que fechou a noite, no qual o artista revisitou temas como “River of Stone” e “Glowing Horses” ou, recuando um pouco mais, “The Poet’s Death” ou “The Traveler”. A grande novidade esteve, porém, em “A Avenida”, que abriu o concerto, mas também em “Frente Leste” ou “Romanceiro”, a “Chama” ou o fabuloso “Cidade de Cinema”, dando a escutar algumas das pérolas do seu último trabalho discográfico.

Entre a conversa e o momento musical que fechou a noite em verdadeira apoteose, o OVAR EXPANDE abriu a série de oito concertos, como é da tradição, com a chamada “prata da casa”. A dar os primeiros passos, mas já com um conjunto de prestações que abrem em promessa e certeza uma carreira que se adivinha recheada de momentos felizes, Laura Rui chamou à Sala Galeria da Escola de Artes e Ofícios um respeitoso número de aficionados, que a acompanharam entusiasticamente ao longo de uma hora de belíssima música. Com Sofia Queirós no contrabaixo e Sónia Sobral no acordeão, Laura Rui fez do alinhamento deste seu concerto uma sequência de poemas cantados, dos quais emergiu a vontade e a força do ser mulher. Em composições inspiradas, com uma voz feita sussurro breve ou intenso grito, a artista de Ovar levou-nos por caminhos de firmeza e coragem, ao encontro das mulheres de Maria Teresa Horta e de Sophia de Mello Breyner, de Fausto Bordalo Dias, José Afonso e António Gedeão. No breve espaço de uma hora, Laura Rui pôs em palco todo o seu querer, ao mesmo tempo mostrando que conhece bem a estrada que decidiu percorrer. O reconhecimento do público fez-se sentir em ovações prolongadas e sentidas. “Há mulheres que são maré em noites de tardes… e calma”.

domingo, 22 de outubro de 2023

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '23 Dia 3



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’23
S. Pedro
Lika
Best Youth
Escola de Artes e Ofícios
21 Out 2023 | sab | 21:30


Ponto final na quarta edição do Ovar Expande! Em tempo de balanço, destaque para a aposta na qualidade e diversidade do evento, materializado em propostas de enorme interesse e que deram a ver o quanto a nova música portuguesa segue os melhores caminhos neste processo de inovação, crescimento e afirmação da sua identidade. Programando inteligentemente uma série de oito concertos - aos quais se deve acrescentar um vasto programa paralelo onde as conversas assumiram um papel relevante -, os organizadores conseguiram o milagre de adequar os espaços e os tempos às características de cada momento, criando sinergias e potenciando processos que permitiram acompanhar o certame de forma integrada e vivê-lo em modo de alta-voltagem. O entusiasmo e carinho do público foi uma constante ao longo dos três dias do Festival e o resultado final é extraordinariamente positivo, devendo deixar programadores, produtores e organizadores particularmente orgulhosos do seu trabalho e certos da excelência do Ovar Expande como um certame único e diferenciador.

No arranque do último dia, S. Pedro subiu ao palco e encheu de graça uma sala espande a abarrotar de público. Com os primeiros acordes veio a suspeita de uma música muito bem feita e melhor interpretada, que o tempo acabaria rapidamente por confirmar. Num alinhamento repartido por temas dos álbuns “O Fim” e “Mais Um”, o público foi levado por caminhos pessoais e íntimos ao sítio do primeiro beijo, a um miúdo medricas, a uma bebida ao balcão ou a uma espera em Campanhã. Em geografias de terra batida ou alcatrão, vielas estreitas e quartos de aluguer, a música do S. Pedro vive do pragmatismo e do golpe de cintura, do desenrascanso e do dia de hoje. Se é amor, é amor. Se é merda, é merda. A vida tem coisas muito boas e não podemos dar-nos ao luxo de desperdiçar o momento. “O mundo é onde eu calcar o chão”. Pedro Pode, Tó Barbot, Cláudio Tavares e Sérgio de Bastos trouxeram-nos um rock mais puro que duro, daquele que sabe bem e faz bem. Perdermo-nos nos porquês de não conhecermos tanto umas bandas e tão pouco outras seria o mote para uma bela conversa (talvez os organizadores queiram pegar na dica e pô-la em prática no próxima edição do Festival), mas apetece dizer que, se mais motivos não houvesse, S. Pedro justificaria por si só a existência de um festival como o Ovar Expande. “Podia ser sempre assim.”

Lika, cantora originária do Cazaquistão que vive há oito anos em Portugal e se fez notada pela sua participação no The Voice em 2021, assumiu o concerto do meio, nele reunindo um conjunto de temas que fazem parte do seu álbum “Back To Zero”. Foi bom sentir gratidão nas palavras que dirigiu ao público e a sua simpatia não terá deixado ninguém indiferente, mas em matéria de música ficou tudo um pouco aquém do esperado. Letras algo pueris, muita insegurança na voz e solos instrumentais demasiado longos (em loop, enquanto a cantora trocava de guitarra de forma incessante), levaram a que o interesse no concerto fosse decaindo, apesar do esforço louvável de compor e cantar em português. Para o fim ficam os Best Youth, banda portuense assente no duo Rocha Gonçalves e Catarina Salinas, a quem coube a responsabilidade de encerrar o Ovar Expande. Do momento ficou a ideia de uma música muito bem desenhada, ancorada nos ritmos voláteis do indie rock e do dream pop electrónico, uma música apelativa e particularmente dançável. O público não se fez rogada e a sala espande foi, pelo espaço de uma hora, pista de dança animada e sacudida. Um final alegre e contagiante, a resumir o tom deste ciclo de oito concertos em três noites ricas de palavras e de música.

sábado, 21 de outubro de 2023

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’23 Dia 2



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’23
Sean Riley
Evaya
Ana Lua Caiano
Escola de Artes e Ofícios
20 Out 2023 | sex | 21:30


Domando a “cena instrumental” que tomou conta do primeiro dia do Ovar Expande ’23, a voz, esse instrumento por excelência, foi marca distintiva comum aos três concertos deste dia intermédio. O público voltou a preencher por completo os espaços da Escola de Artes e Ofícios e a generosidade dos artistas e o valor das suas propostas foram evidências maiores de uma noite que teve de tudo para agradar a todos. Sean Riley (Afonso Rodrigues) assumiu o primeiro momento e, em palco com a sua guitarra acústica e o seu forte carisma, ofereceu-nos um conjunto de temas que constituíram, em si mesmos, uma viagem a dois lugares que lhe são particularmente queridos e que percorreu recentemente na companhia de Paulo “The Legendary Tigerman” Furtado, deles fazendo títulos de trabalhos discográficos: California e Andaluzia. Paisagens desérticas e horizontes a perder de vista casam na perfeição com a voz de Sean Riley, puxando para primeiro plano a música de tradição americana, em particular a folk e os blues. Temas como “L.A.”, “Every Star”, “One Day” ou “Good Kids” cativaram pela sua intencionalidade e despojamento, os vivos aplausos dispensados no final sendo prova de admiração e gratidão por parte do público.

Com uma carreira a dar os primeiros passos (produziu a primeira canção em 2018), a Evaya (Beatriz Bronze) coube a espinhosa missão de suceder a um “peso pesado” e segurar a fasquia num nível particularmente elevado. Desafio aceite, desafio ganho, a artista pôs no Palco Galeria o experimentalismo da sua música e a força das suas palavras, carregando de lirismo o segundo momento da noite. Com Polivalente (“a minha banda”) num plano recuado, Evaya surpreendeu pela sua expressividade e graça, mas sobretudo pela beleza da sua voz e riqueza dos seus poemas. Cantando quase exclusivamente em português, a artista trouxe com ela as certezas de quem tem os pés bem assentes na terra e sabe o que quer. Extraído do tema “Doce Linguagem”, “(…) escolho a Paz / em vez de querer estar certa”, é verso de canção e ideal de vida, arrastando para outra dimensão a intencionalidade do poema. Reveladoras de uma maturidade surpreendente, as mensagens vão-se fazendo anunciar e, devagarinho, acabam por entrar e sentar-se ao nosso lado. “Pertences às palavras / és livre do não-ser.”

A encerrar a noite, Ana Lua Caiano e a sua loop station deram mostras do que são capazes. Com recurso a uma panóplia de instrumentos populares de percussão - o bombo e o adufe, a pandeireta, o brinquinho ou a melódica - e a vocalizações muito simples, a artista cria o ambiente de fundo sobre o qual se derrama uma música de raíz tradicional portuguesa, com versos inspirados num quotidiano feito de mal (me) quereres e corpos em mudança, lembretes e pessoas indecisas, mãos nas mãos e dores de cabeça, malas feitas e adeus. Juntando a uma voz bastante versátil, a harmonia e o bom gosto das composições e uma forte presença em palco, Ana Lua Caiano teve para oferecer uma hora de excelente música, reservando ainda algum tempo para explicar ao público um conjunto de pormenores que estão na base do seu processo criativo. “Cheguei Tarde a Ontem” e “Se Dançar É Só Depois”, títulos dos seus primeiros trabalhos, estiveram na base de um alinhamento onde tiveram igualmente lugar alguns temas originais e que farão parte de um novo álbum a editar no próximo mês de Fevereiro. À saída, a satisfação do público era bem patente nos rostos como nas conversas. Não cessa de se expandir este Ovar Expande!

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '23 Dia 1



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’23
Bonifácio
Tó Trips
Escola de Artes e Ofícios
19 Out 2023 | qui | 21:30


Está em marcha a quarta edição do Ovar Expande. Em palco ou em sala, entre concertos, conversas, oficinas de experimentação, ações de formação técnica e masterclasses, “a ‘arte e o oficio’ de pensar, fazer e trabalhar a música”, expande-se por universos criativos surpreendentes e inspiradores que se abrem ao que de melhor a nova música portuguesa tem para oferecer. O “pontapé de saída” foi dado ao final da tarde de ontem no Bar do CAO e colocou no centro das atenções o livro “Ínfimas Coisas”, Road & Roll Book editado em parceria pela Cutelo e pela Revolve e que viu a luz do dia no passado mês de Março. Juntando perto de uma centena de fotografias a um conjunto de textos minimalistas que abrem a porta a alguns dos momentos ínfimos e íntimos das duas últimas décadas de vida e carreira de Tó Trips, o livro mostra-se em música e poesia, singelos detalhes e ternas memórias, representando uma forma de “arrumar ideias”, abraçar aqueles que foram (e são) fundamentais na vida do autor e virar a página após o terrível período pandémico e o fim dos Dead Combo. Moderada por Joaquim Margarido, a conversa teve cobertura da Rádio AVFM e pode ser escutada na íntegra AQUI.

O Palco Galeria da Escola de Artes e Ofícios recebeu o concerto de abertura do Ovar Expande ’23 e, tal como no ano anterior, a responsabilidade do momento inaugural coube a um artista “da casa”. Com uma consola, uma panóplia de fios, cabos, entradas e luzes de todas as cores, Bonifácio trouxe-nos uma experiência musical que recorre a técnicas de composição de música generativa, propondo ao público um conjunto de viagens no espaço e no tempo ao sabor da imaginação e do estado de alma de cada um. Foi tempo de fechar os olhos e relaxar, deixar o pensamento fluir em voo livre e abraçar a música. Mergulhados numa labiríntica floresta de imagens que se vão formando na nossa cabeça, sentidos alerta na sugestão de um saxofone ou de uma guitarra, de uma bateria ou de um órgão, entramos nesta oficina de sons que é simultaneamente espaço físico e virtual, à vez palco e espaço sideral. A harmonia e o ritmo passeiam-se de mais dadas, em melodias que se sucedem umas após outras e nos arrastam para as mais diversas dimensões. A experiência acaba, mas as ondas prolongam-se, como réplicas que não cessam de se fazer sentir.

Subimos um piso e ocupamos o espaço da Sala Espande. A noite encerra com Tó Trips e a apresentação de “Popular Jaguar”, o seu mais recente trabalho. Com ele estarão António Quintino no contrabaixo e guitarra acústica e Helena Espvall no violoncelo, para uma hora de concerto que se revelará único, na sua música intimista como naquilo que transmite, profundamente intenso e inspirador. De momento só Tó Trips está em palco e “Península dos Índios” é o tema de abertura do concerto. O pé esquerdo bate com força no estrado. Marca o ritmo, marca a raiva. Há Lisboa na música, como há fado e há tango. Há canoas no Tejo, há miúdo da Bica e há homem do Saldanha. Os momentos sucedem-se, assim como as memórias que se derramam em acordes de saudade e melancolia. As cordas do violoncelo e do contrabaixo emprestam calor e envolvência às músicas e são elas que nos levam por paisagens inesperadas, de Nápoles a Marrakech, do Porto a Cartagena das Índias. Com elas vêm imagens, como no cinema: Paixões tórridas, perseguições a alta velocidade, “bombas” para a piscina às 3 da manhã, o futuro lido em borras de café. Imagens como ínfimas coisas, que nos lembram os nadas de que a vida é feita.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '22 Dia 3



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’22
Escola de Artes e Ofícios
20, 21 e 22 Out 2022


Com o rock puro e duro dos Twist Connection, chegou ao fim a terceira edição do Ovar Expande. Uma edição que, recorde-se, marcou um ponto de viragem na filosofia de um certame que começou por se assumir como a forma possível de resposta aos constrangimentos causados pela pandemia e surge, enfim, “desconfinado”, apostando em mais artistas e mais concertos, em mais salas e numa programação paralela capaz conferir ao todo o carácter de um verdadeiro festival. Aposta feita, aposta ganha, Ovar junta mais um produto de qualidade a uma oferta cultural que não cessa de crescer, revelando talentos e seduzindo o público. Entre a programação paralela, vale a pena começar por falar na iniciativa que deu o pontapé de saída deste último dia de programação do Ovar Expande e que juntou à conversa João Martins e Surma, sob a moderação deste que escreve estas linhas. Leve e descontraído, o momento permitiu conhecer um pouco melhor estes dois excelentes artistas, mostrando haver entre eles mais pontos de contacto do que seria de supor. A começar pela bateria - ponto de chegada para João Martins; ponto de partida para Surma -, com o rol de histórias e memórias que o instrumento convocou.

Banda de Coimbra formada por Carlos “Kaló” Mendes na bateria e voz, Samuel Silva na guitarra e Sérgio Cardoso no baixo, os Twist Connection puseram um ponto final no Ovar Expande. Ligados os instrumentos ao amplificador, a música espalhou-se a uma velocidade vertiginosa, fluindo com a mesma espontaneidade com que vi o público levantar-se das cadeiras e deixar-se ir numa onda feita de soul e blues, de algum punk e muito rock. Fiéis à sua própria identidade, os Twist Connection animaram a plateia com um conjunto de temas extraídos em grande parte de “Anywhere But Here”, o seu mais recente trabalho, fechando da melhor forma um festival que teve na variedade das propostas um dos seus maiores trunfos. A equilibrar as coisas, Madalena Palmeirim ofereceu-nos uma música doce e delicada, em grande medida feita de ritmos quentes de paragens atlânticas, com as mornas e o crioulo de Cabo Verde a impregnarem temas como “M ‘Câ Sabê”, “Lembrança di Nha Cretcheu” e “Teus Braços de Embalar”. No ouvido ficaram também “Right as Rain”, que dá o nome ao disco de estreia da artista, “Limbo” e essa extraordinária balada que é “Farewell”. Uma palavra para Manuel Dordio que, na guitarra, foi um acompanhante de luxo de Madalena Palmeirim, e, ainda, para “Morna Mansa”, o tema que fechou o concerto e que dará título ao segundo álbum da artista.

Em “horário nobre”, Surma trouxe-nos a sua música e a sua voz, lançada num idioma imaginário ao qual a artista gosta de chamar “surmês”. Com a saída de “Alla”, o seu segundo trabalho de estúdio, prometido para o início do próximo mês, seria de esperar o levantar da ponta do véu, por pouquinho que fosse. Tal não aconteceu e a artista focou-se exclusivamente no aclamado “Antwerpen”, o álbum de estreia, revisitando temas verdadeiramente icónicos como o elegante “Hemma”, o árido “Saag”, o intimista “Nyika”, o festivo “Drög” ou o tribal “Voyager”. Tal como tive oportunidade de dizer durante a tarde, na conversa acima referida, na música de Surma escuta-se a surda e lenta agonia de um glaciar, o mar a desfazer-se de encontro às rochas, o nevoeiro que envolve a floresta, o murmúrio gutural da primeira palavra alguma vez proferida pelo Homem, a chuva incessante que cai sobre um tapete de folhas mortas ou os sons que, vindos do espaço, nos dizem que a vida não é exclusiva deste planeta cada vez menos azul. Percorrendo paisagens sonoras fascinantes e arrebatadoras, o público mostrou-se permeável à viagem e ao sonho, rendendo à artista o seu aplauso e a sua gratidão. E agora que venha “Alla” - que quer dizer “todos”, em sueco -, para que todos possamos voltar a escutá-la e a aplaudi-la.

[Foto: Ovar/Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

domingo, 23 de outubro de 2022

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '22 Dia 2



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’22
Escola de Artes e Ofícios
20, 21 e 22 Out 2022


Rita Braga a abrir, os Fumo Ninja a fechar e, pelo meio, Valter Lobo, figura maior do cartaz deste ano do Ovar Expande, preencheram da melhor forma o segundo dia do certame. De forma calorosa, o público abraçou quatro horas de música para três concertos com tanto de diversidade como de complementaridade, o denominador comum centrado na generosidade e entrega dos artistas e na qualidade intrínseca da sua música. Começando pelo fim, os Fumo Ninja trouxeram-nos as sonoridades mais dançáveis da noite. A dar os primeiros passos, o projecto que junta Norberto Lobo no baixo, Leonor Arnaut na voz, Raquel Pimpão nas teclas e Ricardo Martins na bateria, mostrou o belo caminho que se abre à sua frente, consubstanciado, desde já, em “Olhos de Cetim”, o seu álbum de estreia. Espartanos nas letras, colocando todo o peso da sua música em sons inscritos claramente na pop, a banda tem na emoção de temas como “Django Hair” e “Chapada Da Deusa” ou na dolência e harmonia de “Segredo”, “Sim / Não” e, sobretudo, “Mangas de Camisa”, uma bandeira de esperança e entusiasmo que voa bem alto. E nós a vê-los voar, “numa nuvem de fumo ninja / a desaparecer // só tu e eu / em mangas de camisa”.

A abrir este segundo dia, Rita Braga trouxe ao Palco Galeria um verdadeiro divertimento em forma de música. Feiticeira de sons, a cantora, compositora e multi-instrumentista colocou, no mesmo saco, orgão e sintetizadores, percussões e um ukelele, cabarés em Paris e ambientes paranormais, ficção científica e a Branca de Neve, charleston e punk sinfónico, alter egos virtuais, sonhos e pesadelos, um prato de sardinhas portuguesas na companhia de um bom vinho verde e um café (“por cinco euros não há heróis”) e pozinhos de perlimpimpim. Fechou tudo muito bem fechado, agitou três vezes, três vezes bateu com a sua varinha mágica e… bum! Em francês ou japonês, em alemão, inglês ou na língua de Camões, ofereceu-nos três quartos de hora de música ousada e sedutora, provocante nas suas mensagens e assente numa voz de desenho animado, um bom-bom de coqueterie, toda anos 20, a piscar o olho ao jazz de Dorothy Fields, Irene Higginbotham ou Billie Holiday. Nesta mistura complexa, tornada simples graças à arte de fazer boa música, aliada a uma forte presença de mulher-menina, constrói Rita Braga o seu audaz e irreverente mundo musical. Um mundo que importa conhecer e onde sabe bem estar.

Sala cheia para escutar Valter Lobo no momento mais esperado da noite. Dito assim, pode soar a injustiça, já que Rita Braga e os Fumo Ninja “também são gente”. Mas quando a voz se cala e só as guitarras se fazem ouvir, o clamor cresce na sala e são muitas as gargantas que entoam “da terra para a lua / da lua para o mar / se o teu corpo é mar inteiro / o que eu quero é naufragar”. À força deste verdadeiro hit que é “Quem Me Dera”, juntou o artista uma série de temas de “Mediterrâneo”, o seu primeiro álbum de estúdio, entre os quais “Tenho Saudades”, que abriu o concerto, “Supernós”, que o rematou, ou o imensamente belo e pleno de significado “Guarda-me Esta Noite”. Entretanto, foi mesclando o alinhamento com temas do seu mais recente trabalho, “Primeira Parte de Um Assalto”, editado no passado mês de Abril, e do qual pudemos escutar o tema que dá título ao álbum e também “Fizeste-me Sonhar”, “Menina-Mulher”, “Uma Melodia” e “Para T.”, este último emocionante, a dizer-nos que “a vida é mais que um sopro / maior que o furacão / é o que tu quiseres”. Pelo meio, tivemos um arrepiante momento à capella com “Quero Que Me Acordes”, recuperado de “Lobos de Barro” (2018), o resultado feliz de uma parceria com André Barros. Lançado na base da sedução, o momento ultrapassou as margens de um mero concerto. Foi uma catarse para estados de alma à deriva, um guia de como sobreviver a um coração despedaçado. E foi tão bom!

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '22 Dia 1



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’22
Escola de Artes e Ofícios
20, 21 e 22 Out 2022


Com a ambição legítima de quem busca um lugar de referência no circuito de festivais da melhor música que se faz hoje entre nós, o Ovar Expande surge nesta terceira edição completamente renovado. Menos dias, mais concertos e a aposta de sempre em “projectos e artistas com identidade”, são os ingredientes que definem o certame neste momento determinante de viragem. Acrescente-se um novo palco e a experiência imersiva entre música e audiovisual que daí pode resultar, duas oficinas - uma de manipulação electrónica de instrumentos acústicos e outra de escrita de canções e produção musical - e ainda um momento dominado pela palavra e pelas conversas e fica-se com a noção clara do quanto de dinamismo e estimulo pode advir de uma “programação com bons predicados, num espaço único e diferenciado, onde os concertos são, por todo o contexto e ambiente, momentos que se pretendem memoráveis, de comunhão entre artistas, público e equipas de produção”.

O primeiro dos dois momentos da noite inaugural do Ovar Expande ’22 assinalou a estreia do Palco Galeria da Escola de Artes e Ofícios enquanto espaço de concertos. A aposta em João Martins, um artista “da casa”, revelou-se particularmente feliz, não apenas pela oportunidade de nos dar a conhecer “Bios”, o seu segundo trabalho de estúdio depois de “Hundred Milliseconds” (2020), mas sobretudo pela qualidade da sua música, combinando, em partes iguais, sobriedade e desordem, harmonia e agitação. Com Xavier Marques nos sintetizadores, João Martins fez de “Bios” um verdadeiro “activador do hardware” que em nós existe, preenchendo-nos de energia e vitalidade. Acrescentando a flauta e a melódica à sua bateria e a uma panóplia de gongos e outros instrumentos de percussão, Martins desafiou-nos a sentir a força dos elementos naquilo que têm de impetuosidade e violência, mas também de deslumbre e arrebatamento. Cavalos em tropel, ventos em fúria e pás de helicópteros alternaram com chuva a cair de mansinho, ovelhas que pastam no imenso verde e o absoluto silêncio das fossas abissais, convidando à viagem ao mais fundo de cada um de nós.

Já na Sala Expande, Minta & The Brook Trout foram uma força contrastante face à impulsividade e efusão do concerto anterior. Se quisermos usar a imagem da viagem, Francisca Cortesão e a sua banda levaram-nos num terno e suave voo em balão de ar quente sobre um mar de girassóis que se estende a perder de vista. A apresentar “Demolition Derby”, o seu quarto trabalho de estúdio, a banda estendeu o alinhamento do concerto a “Slow”, álbum de 2016, e a “Olympia”, que acaba de completar uma década de existência. Combinando temas mais antigos, como “Blood and Bones” ou “The Right Boulevards”, com outros do novo álbum, casos de “International Loss Adjusting”, “Neighbourhood” ou “Easy”, os “Mintas” mostraram aquilo de que são capazes, tratando cada uma das músicas de forma depurada e com enorme bom gosto. Não houve aleatoriedade nesta escolha, antes o cuidado de mostrar o trabalho de continuidade em torno de um projecto nascido em 2009 e que continua a dar frutos. De olhos fechados, escutamos aquelas vozes e acordes e é como se recuássemos décadas, ao tempo mágico de todas as descobertas, de Eliza Gilkyson ou Ani DiFranco a Johnny Cash ou aos Beatles. Percebemos, então, que há todo um mar escuro e inquieto por debaixo daquela capa de calma aparente. Que também aqui os quatro elementos se erguem, desordenados e aflitos. Minta & The Brook Trout e João Martins estão, afinal, muito mais próximos do que pensávamos.