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domingo, 19 de outubro de 2025

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ‘25 (II)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ‘25 (II)
Com Bia Maria + Coro da Comunidade, Ela Li e Afonso Cabral
Escola de Artes e Ofícios
17 Out 2025 | sex | 21:30


O segundo dia de concertos do Ovar Expande teve para oferecer três propostas surpreendentes, mas com um notável sentido de complementaridade, próximas e distantes entre si ao mesmo tempo. Assumindo a figura de “irmão do meio” no alinhamento da noite, Ela Li ocupou a Sala Galeria da Escola de Artes e Ofícios para uma hora de concerto baseado no seu álbum “Choradeira” (2023). Com Zé Cruz no trompete e percussões e Luis Sanches na guitarra, a cantora mostrou o quanto as intensas vivências no lado de lá do grande lago Atlântico se mostram presentes na sua música, pontuada de ritmos quentes — da bossa nova ao funk, do groove afro-brasileiro à electrónica subtil —, movendo-se entre a leveza de um suave “sunset” e a profundidade das emoções mais genuínas. Essa mistura resulta numa música que se escuta com facilidade, mas que não deixa de surpreender pela riqueza de cores e texturas e pelos arranjos cativantes. Distante dos palcos há bastante tempo por questões de maternidade - “Vamos Lá Mudar a Fralda” terá sido a música que mais cantou nos últimos tempos -, Ela Li está de regresso e ainda bem. Fê-lo em Ovar, preenchendo uma boa parte do serão com um misto de descontração de um dourado pôr-do-sol e a profundidade de um olhar interior que faz do amor e da amizade o caminho a seguir.

Os de memória mais afinada lembrar-se-ão de Afonso Cabral na primeira edição do Ovar Expande, altura em que apresentou o seu projecto em nome próprio, depois de uma década à frente dos “You Can’t Win Charlie Brown”. E se o fez então em “versão reduzida” - pandemia “oblige” -, a noite de ontem foi de celebração com um regresso em força que juntou em palco os companheiros de estrada habituais: António Vasconcelos Dias (piano, rhodes, moog, guitarra acústica), Pedro Branco (guitarra eléctrica), David Santos (baixo), João Correia (bateria) e Inês Sousa (voz e sintetizador). Saltitando entre “Morada” (2019) e “Demorar” (2024), os seus dois trabalhos de estúdio até ao momento, Afonso Cabral mostrou à saciedade as suas qualidades de enorme cantautor, capaz de permanecer fiel a si próprio e explorar a língua portuguesa com frescura, elegância e sentido. Temas como “Entre as Palavras e os Actos”, “Resistir”, os inevitáveis “Morada” e “Demorar”, “Indivisível” ou um muito belo e significativo “Manel”, distinguem-se pela subtileza e pelo modo como articulam entre si forma e emoção, sofisticação e proximidade, se enraizam num minimalismo elegante e se mantêm relevantes numa altura em que o “indie” nacional busca novas vozes, novas texturas, outro nível de ambição. Um momento repleto de muita e boa música a encerrar uma noite rica em emoções.

Por razões óbvias, deixei para o fim o concerto de abertura do serão, preenchido pelo concerto de Bia Maria + Coro da Comunidade. O “óbvio” prende-se com o facto de eu próprio ter integrado o Coro da Comunidade e ter podido acrescentar ao sentir de um momento musical a emoção da cumplicidade e da partilha. A apresentar em Ovar “Qualquer Um Pode Cantar”, o seu mais recente álbum, Bia Maria foi capaz de unir a beleza da voz à força da comunhão colectiva num projecto que é um verdadeiro sopro de frescura no panorama da música portuguesa contemporânea. Enraizadas no cancioneiro popular, com um “cheirinho” de fado e de bossa nova, as suas melodias fazem da voz — da dela e de todos — instrumento primordial e elo de partilha. Com Alberto Hernandez na guitarra e Samuel Louro na bateria, a artista vestiu de cumplicidade e inclusão temas como “Roupa Velha”, “O Corpo”, “Aconchegos de um Sujeito”, “Marcha da Paridade” ou “Qualquer Um Pode Cantar”, juntando em palco um coro de dez pessoas de diferentes gerações e transformando o concerto num acto de encontro com o outro e consigo própria. A combinação de tradição e inovação, intimidade e comunhão, música e cidadania, resultou num trabalho vibrante de conhecimento, escuta, partilha e comunidade, ao qual o público não ficou indiferente. Entre o acto da escuta e o de cantar mediou um pequenino passo que fez de “qualquer um pode cantar” não apenas título, mas vibrante bandeira.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

CONCERTO: "Free Celebration" | João Lencastre



CONCERTO: “Free Celebration” | João Lencastre
Com | João Lencastre (bateria), Ricardo Toscano (saxofone alto), Pedro Branco (guitarra), João Bernardo (teclados e sintetizadores), Nelson Cascais (contrabaixo) e João Pereira (bateria)
Ovar em Jazz 2025
Centro de Artes de Ovar - Caixa de Palco
09 Abr 2025 | qua | 21:30


Depois de ter ousado revelar-se ao mundo em 2018, o Ovar em Jazz é hoje uma história de sucesso. Sete anos volvidos sobre esse momento inaugural, percebe-se que são muitas as apostas ganhas e reconhece-se o trabalho consistente que foi sendo desenvolvido e que faz com que ele seja hoje um dos mais apelativos e bem organizados Festivais de Jazz do país. Agora que está de volta, trazendo consigo, ao longo de quatro intensos dias, uma nova rodada de concertos, encontros, conversas, escuta e partilha, o certame abre-se de novo aos mais diversificados públicos, oferecendo a possibilidade de experimentar e vivenciar momentos únicos de gozo e fruição da melhor música. O pontapé de saída desta sétima edição teve lugar na noite de ontem com o projecto “Free Celebration”, do baterista João Lencastre, e que juntou em palco, para além do seu mentor, algumas das mais importantes figuras da cena jazzística nacional: Ricardo Toscano (saxofone alto), Pedro Branco (guitarra), João Bernardo (teclados e sintetizadores), Nelson Cascais (contrabaixo) e João Pereira (bateria). Foram eles que, no ambiente intimista da caixa de palco do Centro de Artes de Ovar, fizeram desta uma noite inesquecível, de liberdade e celebração.

Liberdade e celebração. Na força dos pressupostos que se abrigam nos dois conceitos reside a força do projecto de João Lencastre. Celebração, porque se trata de abraçar a música do saxofonista Ornette Coleman e dos pianistas Herbie Nichols e Thelonious Monk, estrelas maiores do firmamento do Jazz, no respeito pela verdadeira identidade das várias composições. A liberdade vem da abordagem a alguns dos temas referenciais deste trio de gigantes, fundada na veia criativa do sexteto, na capacidade de improvisação que a todos une, nas constantes mudanças de ritmo que sabem imprimir à música, no bom gosto dos arranjos coloridos e vibrantes. Se dúvidas restassem, o momento inteiramente livre que preencheu o início do concerto bastaria para as dissipar. Em modo dissonante, a combinação de solos foi-se “arrumando” num todo harmonioso, mostrando o quanto de intensidade e emoção pode estar contida numa peça de Jazz, sobretudo se é uma daquelas que, ao seu jeito, possui um carácter único e irrepetível. A levar com todo aquele “free” em cima, o público tinha aqui a possibilidade de tomar uma decisão. Entre o “ama-o ou deixa-o”, não se consta que alguém tivesse saído da sala.

Plástica, orgânica e íntegra, a música tomava conta de público e músicos, Ricardo Toscano a mostrar-se em grande forma ao arrancar do seu saxofone alto as mais sedutoras frases com “Giggin’ ” e “Congeniality”, de Ornette Coleman, enquanto João Bernardo a fazer magia com os teclados em “The gig”, de Herbie Nichols. Seguiram-se “Shuffle boil” e “Skippy”, dois temas tão deslumbrantes quanto desafiantes assinados no original por Thelonious Monk, para logo se regressar a Ornette Coleman com “Kathelyn Gray”, uma balada cuja dolência o saxofone de Toscano sublinhou na perfeição, oferecendo o mais delicado, pausado e distendido momento da sessão. Herbie Nichols fez-se de novo ouvir em “The Third World”, mas o melhor estava guardado para o final, com dois temas de Ornette Coleman, “Toy Dance” e “Forerunner”, sublinhados pelo diálogo contrastante entre as baterias de Lencastre e João Pereira e pelo trabalho empolgante de Pedro Branco em cima (e em baixo) da sua guitarra. Sem que os músicos abandonassem o palco, o “encore” trouxe-nos “Humph” de Thelonious Monk, fazendo dos “descontos” um dos momentos capitais do “jogo”. Jubilatório, exaltante, arrebatador, vivo e livre, o concerto coloca a fasquia do Ovar em Jazz 2025 a um nível muito alto. A coisa promete.