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domingo, 15 de novembro de 2020

CERTAME: CINANIMA - Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho



CERTAME: CINANIMA – Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho
09 a 15 Nov 2020


Chega hoje ao fim a 44ª edição do CINANIMA - Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho. Levado a cabo em plena crise pandémica, o certame teve que se adaptar a um número enorme de constrangimentos, tendo decorrido exclusivamente online (na plataforma https://cinanima.kinow.tv), mediante uma subscrição simbólica. Perdeu-se o ambiente em sala, o convívio, a partilha, as palavras dos convidados ligados à produção e realização dos filmes e tudo o mais que faz do cinema um acontecimento social por excelência, mas ter-se-á ganho em número de espectadores que tiveram a oportunidade de visionar as mais de trinta sessões e as quase duas centenas de filmes apresentados nas secções de competição e não-competitivas.

“Altötting”, filme do alemão Andreas Hykade que contou com a colaboração de Regina Pessoa na direção artística e supervisão de pintura, foi o meritório vencedor desta edição. Profundamente autobiográfico – o próprio título remete para uma pequena aldeia da Baviera onde nasceu o realizador e que é, simultaneamente, um dos mais importantes locais de peregrinação da Alemanha -, o filme conta-nos a história de um rapaz que se apaixona pela Virgem Maria. De enorme beleza plástica, com um sentido de humor refinado e uma mensagem fortíssima face aos tempos que vivemos, o filme conquistou, muito justamente, o júri, constituído por Manuel Mozos, Florence Miailhe e Jayne Pilling. Destaque ainda, na competição internacional, que teve em exibição 68 filmes, para “Rivages” , da realizadora e ilustradora francesa Sophie Racine, que levou para casa o Prémio Especial do Júri com uma curta-metragem de cariz naturalista, onde sobressai o enorme rigor do desenho, num preto e branco sem concessões, que nos devolve a beleza dos pássaros no seu vôo, das plantas ondulando ao vento, das brincadeiras e risos das crianças ou dos rigores de uma tempestade de Verão.

Falando ainda da competição internacional de curtas metragens, de fora dos prémios ficaram outros filmes de grande beleza e significado que destacaria sumariamente. “Casa”, da letã Anita Bruvere, fala-nos do nº 19 de Princelet Street, no leste de Londres, uma casa de refugiados que, ao longo de três séculos, recebeu Huguenotes, Irlandeses e Judeus e é hoje um Museu da Imigração e Diversidade. “Carne”, da brasileira Camila Kater, mostra-nos cinco momentos-chave na vida da mulher, cada um deles narrado por uma personagem diferente que se relaciona com o seu corpo. É um filme onde o valor da mensagem suplanta a qualidade da animação mas cuja força não deixa ninguém indiferente. Realizado pala canadiana Robin McKenna, “Thanadoulos” relata a experiência pessoal de uma mulher que acompanha pessoas nos seus últimos instantes de vida e constitui um tributo à sua irmã Anne Eskenazy, que morreu sozinha num hospital psiquiátrico. Finalmente, “Depois do Eclipse”, da argentina Bea R. Blankenhorst, uma parábola sobre o preconceito e a forma como os nossos defeitos, ao invés de nos aproximarem, nos afastam um dos outros.

Na competição nacional, entre os 29 filmes a concurso, “Elo”, de Alexandra Ramires, foi galardoado com o Prémio António Gaio. Também aqui o painel de jurados, que incluiu Bruno Caetano, Paulo Gomes e Vier Nev, esteve bem, visto ser este um filme que combina na perfeição a originalidade do tema com o virtuosismo e a qualidade da animação. Pegando em duas personagens em tudo diferentes uma da outra, Alexandra Ramires explora a perfeita simbiose que ambas conseguem alcançar para nos dar a ver o esforço de superação em toda a sua dimensão. Importa referir nesta secção outros dois filmes que me impressionaram vivamente, “Nós, Os Lentos”, de Jeanne Waltz, e “Repensar – Muhammad Munir”, de Pedro Serrazina, este último debruçando-se sobre questões relacionadas com a exclusão social e parte integrante do projecto “ReThink – Heróis da Comunidade”, uma campanha contra a discriminação patrocinada pela União Europeia. O Prémio Jovem Cineasta Português foi atribuído, ex-aequo, a “Decapitada”, do Coletivo Escola Básica e Secundária Dr. Machado de Matos (Felgueiras), e a “Walkthrough”, de Sofia Salt. Dos restantes dezoito filmes a concurso nesta secção, destacaria ainda “During December”, “Rachado”, de António Lucas, Rita Branco e Ana Rodrigues e, sobretudo, o poético “Palavras Gastas”, de Maria Giraldes.

Referentes a filmes que não tive oportunidade de ver, a secção “Estudantes – Competição Internacional” teve em “White Horse”, de Yujie Xu, do Reino Unido, o grande vencedor. “The Nose or the Conspiracy of Mavericks”, de Andrey Khrzhanovsky, foi eleita a melhor longa-metragem. Fora da secção competitiva, o CINANIMA ofereceu um vasto conjunto de filmes, com especial destaque para as longas-metragens “Velhas Lendas Checas”, uma jóia da animação do mestre Jirí Trnka (1953) e “As Andorinhas de Cabul”, dos franceses Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec, um filme que teve uma aclamada estreia na edição de 2019 do Festival de Cannes, na secção Um Certain Regard. De The Animation Workshop, departamento da VIA University College (Aahrus, Dinamarca) puderam ser vistos oito curtas, tantas quantas as propostas pela Estonian Academy of Arts (Tallinn, Estónia). Do Festival de Cinema de Zlin (República Checa) e o cipriota AnimaFest pudemos ver alguns destaques das suas mais recentes edições, enquanto nas restrospectivas temáticas o programa reuniu filmes que ilustraram “Uma Década de Animação Europeia” e reflectiram sobre os “75 Anos Depois do Fim da Segunda Grande Guerra Mundial”. O programa completou-se com os 22 filmes da secção Panorama e com uma retrospectiva dos filmes premiados na edição de 2019.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #15



1. Ao longo da próxima semana, a cidade de Espinho volta a ser a Capital Nacional do Cinema de Animação. Trata-se da 44ª edição do CINANIMA – Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho que, de 09 a 15 de Novembro, se derrama nos ecrãs do Centro Multimeios de Espinho, estendendo-se aos espaços da Junta de Freguesia de Espinho, Biblioteca Municipal e às nossas casas por subscrição na plataforma Kinow, em https://cinanima.kinow.tv. Os quadros competitivos nacionais e internacionais mantêm-se no formato dos anos anteriores, destacando-se, na competição nacional, o Prémio António Gaio ao melhor filme e também o Prémio Jovem Cineasta Português. O Countryside Animafest (Chipre) e o Zlín Film Festival (República Checa) são os festivais convidados desta edição. Dentre o vasto conjunto de iniciativas, destaque ainda para a retrospectiva do trabalho da realizadora francesa Florence Miailhe. Saiba tudo em https://www.cinanima.pt/.

2. Iniciativa do coletivo de galerias FORUM fotografia/filme PORTO, o MIP - Mês da Imagem do Porto arrancou no passado dia 31 de Outubro e vai estender-se até ao final do ano, ocupando os espaços do MIRA FORUM, OPPIA, Espacio Jhannia Castro, Espiga, Galeria Adorna, Salut au Monde! e The Cave Photography. Inicialmente agendada para Abril, esta terceira edição do certame traz com ela um conjunto de exposições imperdíveis, das quais destacaria “Transa, Baladas do Último Sol”, de Ângela Berlinde, co-fundadora dos Encontros da Imagem de Braga, Curadora do Museu da Fotografia de Fortaleza (Brasil) e Curadora convidada da Bienal de Fotografia de Pequim (China). Renata Siqueira, Pedro Cadilhe, Adélia Gonçalves, Gregor Sailer, José Sérgio, Lionel Jusseret, Maria Oliveira e Mathilde Cudeville são outros nomes cujos trabalhos podem ser vistos no âmbito do certame. Visitas comentadas, workshops, mostras de cinema, apresentações de livros e um vasto de conjunto de conversas completam o programa que pode ser consultado na íntegra em https://www.mesimagemporto.pt/.

3. De 11 a 14 de Novembro, em Tondela, celebra-se a 26ª edição do FINTA - Festival Internacional de Teatro ACERT. Projectos teatrais, tanto nacionais como internacionais, espectáculos de sala, exposição Cut & Paste, formação e apresentação de livros são ingredientes de uma iniciativa marcante para a ACERT e que se pretende igualmente marcante para todos quantos tiverem o ensejo de nela participar. “Antevôo da Passarola”, uma criação do Trigo Limpo teatro ACERT a partir da adaptação do romance “Memorial do Convento”, de José Saramago, será a peça de abertura do Festival. Acontecimento ímpar, esta festa do teatro vem ao encontro da necessidade de “sermos alimentados de sonhos, de magia, de cumplicidade, de outras vivências… “, conforme se pode ler na apresentação do Festival. O programa do festival pode ser detalhado em https://acert.pt/finta/.

domingo, 21 de julho de 2019

CONCERTO: Yamandú Costa & Orquestra Clássica de Espinho



CONCERTO: Yamandú Costa & Orquestra Clássica de Espinho
Festival Internacional de Música de Espinho
Praça Dr. José Salvador, Espinho
20 Jul 2019 | sab | 22:00


Yamandú Costa cresceu envolvido pela música regional gaúcha de Passo Fundo e seu entorno, no meio de milongas, tangos, zambas e chamamés. Paulatinamente, o seu território musical foi-se expandindo, para abrigar choros, ritmos nordestinos, um pouco de Villa-Lobos e diversas outras paisagens musicais. À técnica e ao virtuosismo explosivo que desde cedo foram as suas marcas no violão de sete cordas, agregou o artista outros contrastes, passagens singelas e uma expressividade mais intimista. O resultado pôde ser apreciado na fresca noite de ontem, a encerrar a 45ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho, com o suporte da Orquestra Clássica de Espinho e perante um público completamente rendido à criatividade e facilidade do artista em extrair do violão, muitas vezes em simultâneo, ritmos, harmonias e melodias de cortar a respiração.

A abrir o concerto, o 1º movimento da “Fantasia Popular”, um tema do próprio Yamandú Costa, mostrou o quão fortemente a sua música se encontra enraizada na tradição popular brasileira. O mote estava dado para uma noite inesquecível, com uma Orquestra superiormente dirigida pelo jovem maestro Jan Wierzba a dar o devido acompanhamento ao turbilhão de sons derramado de um violão que fala, chora, dança e ri. No segundo momento da noite, Yamandú Costa revisitou um tema que lhe é muito querido e que remonta a 2000. Ouvido em êxtase absoluto, “Mariana” é de uma beleza esmagadora, poema musical embebido em emoção e fantasia, as palavras tornadas acordes harmoniosos e sensíveis, tocando-nos como um beijo ou uma carícia. Seguiu-se “Decarisimo”, um tema de Astor Piazolla e que, graças ao talento de Yamandú Costa, mostrou como a música do génio argentino se expande ao novo fado, de tal forma é impossível escutar esta peça sem pensar em Marco Rodrigues, Ana Moura ou António Zambujo.

Prosseguindo agora a solo, Yamandú Costa abordou dois géneros musicais distintos. “Samba Pro Rafa” constituiu uma homenagem a Raphael Rabello, compositor e instrumentista considerado por Costa como o pai musical da sua geração. A segunda peça foi o “IV Porro da Suite Colombiana n. II”), do compositor Gentil Montana, tal como a anterior de uma expressividade única, o ritmo e a harmonia à flor da pele. A caminhar para o final, o concerto teria em “Bachbaridade” um novo ponto alto, a abordagem às sonoridades clássicas convertida em inspirado tango. Última peça do alinhamento, “Concerto Fronteira” foi mais um momento único, uma viagem pela região fronteiriça do sul do Brasil ao encontro do compositor gaúcho e acordeonista Luís Carlos Borges, do compositor e violonista argentino Juan Falú e ainda da memória do pai do artista, Algacir Costa, um latino-americano apaixonado pelas diversas riquezas culturais do continente sul-americano. O final perfeito que só não foi final porque o público reclamou o “encore” e o músico viu-se forçado a corresponder ao vibrante aplauso. “Carinhoso”, uma das mais importantes obras da música popular brasileira, composta por Pixinguinha entre 1916 e 1917, esse sim, foi o final perfeito numa noite perfeita e num Festival perfeito!

sábado, 20 de julho de 2019

CONCERTO: Pérez Cohen Potter Quintet



CONCERTO: Pérez Cohen Potter Quintet
Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
19 Jul 2019 | sex | 22:00


“(...) Leaving behind nights of terror and fear / I rise / Into a daybreak that's wondrously clear / I rise / Bringing the gifts that my ancestors gave / I am the dream and the hope of the slave / I rise / I rise / I rise.”

Colocando um ponto final na sua digressão europeia, o Pérez Cohen Potter Quintet esteve na noite passada em Espinho para um daqueles concertos que valem por uma vida. Co-liderado por esse pianista de excepção que é Danilo Pérez, pelo trompetista Avishai Cohen e pelo saxofonista Chris Potter, e contando ainda com Larry Grenadier no contrabaixo e Jonathan Blake na bateria, o grupo fez da sua música o vaso onde se beberam todas as emoções, perante um Auditório lotado e completamente rendido à sua superior sensibilidade criativa e qualidade interpretativa. E como se a música, por si só, não fosse suficiente para elevar o nível do concerto a patamares de excelência, o quinteto fez questão de fazer deste um concerto de causas, dedicando-o às mulheres, “porque são elas o presente e o futuro”, diria Pérez a propósito.

Construir uma aventura musical pessoal inspirada em figuras como Toni Morrison, Angela Davis ou Maya Angelou, para citar apenas algumas mulheres que, com a sua icónica presença e a força dos seus trabalhos, souberam vencer todas as fronteiras de estilo e influências, tal foi a proposta para uma noite de festa e de celebração. Escrito por Danilo Pérez e dedicado à escritora Toni Morrison, “Beloved” deu o pontapé de saída e revelou a medida da ambição do grupo, capaz de exprimir musicalmente pensamentos densos e profundos que nos falam da vida, dos sonhos ou do amor, transformando-os em sons e harmonia. Foi uma experiência única, de energia rítmica e coerência musical feita, a música a brotar livre e inspiradora, a plateia suspensa, subjugada, em êxtase.

Seguiu-se “Tea Cake”, um tema inspirado na personagem do celebrado romance de Zora Neale Hurston, “Their Eyes Were Watching God” (1937) e escrito por Chris Potter, Aqui, de novo, se devolvem, em forma de música, os movimentos emocionais de uma obra literária, num todo pleno de harmonia, Jonathan Blake a revelar-se um baterista de excepção e com um sentido do ritmo absolutamente prodigioso. O terceiro tema saiu da mente inspirada de Avishai Cohen e remete para “Innovation: Africa”, projecto de desenvolvimento tecnológico e agrícola liderado pela israelita Sivan Ya'ari junto de comunidades rurais do Uganda, Etiópia, Malawi, Tanzânia, Zimbabwé e outros cinco países africanos. Na mente de todos, para além do incrível diálogo entre trompete e saxofone, ficarão os minutos iniciais desta composição única e que mimetizam, de forma impressiva, os sons de um amanhecer em África.

“Lament for Jojo”, escrito por Chris Potter e baseado numa personagem do romance “Sing, Unburied, Sing”, de Jesmyn Ward, foi um momento de saborosa tranquilidade. O concerto é agora um mar de águas calmas onde Pérez se espraia em notas tímbricas que prolongam a viagem e Cohen e Potter elevam o diálogo entre os respectivos instrumentos a um lirismo arrebatado, Larry Grenadier a pontuar o conjunto com os acordes graves do seu contrabaixo. Quanto a Blake, é cada vez mais um caso à parte neste concerto, assumindo-se como um verdadeiro líder. Com inexcedível coerência, um tom intimista cai sobre o Auditório quando Avishai Cohen recita “All The Things You Have to Say Goodbye Before the End”, um poema de Zelda Schneurson Mishkovsky. Tema final do alinhamento, “Alternate Realities”, escrito por Danilo Pérez e dedicado a Angela Davis, põe de lado o impressionismo pastoral do quinteto, dando lugar a uma alegre cacofonia sinfónica digna de um Charles Mingus no seu melhor. No “encore” ainda ouviremos, inebriados, “Still I Rise”, tema inspirado no poema homónimo de Maya Angelou e que reforçou, uma vez mais, ter sido este um concerto de causas. E de mulheres!

[Foto: facebook.com/fimespinho/]

domingo, 14 de julho de 2019

CONCERTO: Kronos Quartet



CONCERTO: Kronos Quartet
Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
08 Jul 2019 | seg | 22:00


Passados 45 anos sobre a sua fundação, o Kronos Quartet partilha com o Festival Internacional de Música de Espinho o mesmo tempo de actividade. Originária de S. Francisco, a formação liderada pelo violinista David Harrington, e que inclui ainda John Sherba (violino), Hank Dutt (viola) e Sunny Yang (violoncelo), combina um espírito de exploração destemida com o compromisso de reinventar continuamente as suas próprias experiências musicais. Neste processo, o Kronos Quartet tornou-se num dos mais celebrados e influentes grupos a nível mundial, apresentando-se em milhares de concertos, lançando mais de seis dezenas de registos, colaborando com muitos dos mais aclamados compositores e artistas e encomendando cerca de mil obras e arranjos para quarteto de cordas. Foi precisamente este agrupamento, por muitos considerado o mais famoso do mundo, que esteve em Espinho na passada segunda-feira, oferecendo a uma plateia rendida um concerto a todos os títulos memorável.

Mais do que essa curiosa sugestão de “visão turva causada pela forte luz que atinge a retina”, “Zaghlala”, de Islam Chipsy, abriu o concerto com a proposta implícita de uma viagem musical à volta do mundo, da “new wave” da música Shaabi, verdadeira instituição cultural do Egipto, aos “Different Trains” que atravessam a Europa e a América, peça que valeu ao compositor Steve Reich o Grammy para a Melhor Composição Clássica Contemporânea em 1989. Pelo meio, paragens na “casa do Sol nascente” (“The House of the Rising Sun”, inspirado na versão dos Everly Brothers), em diferentes estações dos Estados Unidos com peças de Philip Glass (“Quartet Satz”), Laurie Anderson (“Flow”) e John Coltrane (“Alabama”), no Iémen com “Ya Mun Dakhal Bahr Al-Hawa”, de Fatimah Al-Zaelaeyah, na Colômbia com “Tolo Midi”, de Mario Galeano Toro e mesmo no espaço sideral, com “One Earth, One People, One Love from Sun Rings”, de Terry Riley. Portugal não foi esquecido, com uma interpretação sublime de “Os Verdes Anos”, de Carlos Paredes, já no “encore”.

Na sua simplicidade e quase despojamento, o Kronos Quartet ofereceu um concerto único, deslumbrando a audiência pela qualidade da sua música e pela adequada gestão dos temas propostos. Particularmente significativo é o facto de muitas das músicas interpretadas serem parte integrante de um programa educativo promovido pela Kronos Performing Arts Association, intitulado “Fifty for the Future: The Kronos Learning Repertoire” e com distribuição online gratuita. Verdadeira biblioteca de aprendizagem de repertório contemporâneo para quarteto de cordas, o programa está pensado expressamente para o ensino de alunos e profissionais em ascensão e foi promovido ao longo do concerto, com David Harrington a aconselhar os espectadores a irem para casa, descarregarem as peças e começarem a praticar. Em suma, um momento de grande música a pontuar com nota muito alta esta 45ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho.

[Foto: facebook.com / auditoriodeespinhoacademia]

terça-feira, 9 de julho de 2019

CONCERTO: Mozart Group



CONCERTO: Mozart Group
Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
05 Jul 2019 | sex | 22:00


Provando o eclectismo da sua extraordinária programação, a 45ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho propôs ao público, desta vez, uma combinação de virtuosismo musical com a mais pura diversão, convidando para o efeito o talentoso quarteto polaco Mozart Group. E a surpresa não poderia ser maior. Nos seus trajes absolutamente formais, Filip Jaślar, Michał Sikorski, Paweł Kowaluk e Bolesław Błaszczyk deram um recital de gargalhadas do primeiro ao último momento, mesclando a música de Haydn, Mozart ou Beethoven, com a de Michael Jackson, Beatles ou os Abba. Com a dose exacta de non sense, muito humor e imaginação e um domínio fabuloso dos respectivos instrumentos, lograram, assim, juntar o útil ao agradável, seduzindo os amantes da boa música, mas também os aficcionados da mímica e do burlesco, através duma explosão irresistível e contagiante de ritmos e de risos.

Com os acordes clássicos do Minuetto de Luigi Boccherini e da Pequena Serenata Nocturna de Mozart a ecoarem na sala a abrir o Concerto, rapidamente a música “resvalou” para as suas “versões” western, tirolesa, iídiche e flamenca. O mote estava dado, saindo reforçado com a revelação de que “o rock'n'roll nasceu nos anos 50... do século XVIII”. A prova disso foram a Toccata e Fuga de Bach ou a valsa Danúbio Azul de Strauss interpretadas como se de Chick Webb, Big Joe Turner ou Jim Allen e os seus Cometas se tratasse. Voltando-se para um repertório mais contemporâneo, o quarteto voltou a arrancar do público saborosas gargalhadas com My Heart Will Go On de Céline Dion para o filme Titanic, com uma versão muito própria de Beat It de Michael Jackson ou com o “sketch” Como Impressionar uma Mulher, vindo ao de cima uma enorme capacidade de arrancar aos instrumentos – que não apenas violinos, viola e violoncelo - os mais improváveis sons.

Evidenciando a universalidade da música nas suas formas mais variadas, o Mozart Group fez do tempo do concerto um tempo de boa disposição. Ainda que tocando os instrumentos como se de um grupo de Mariachis se tratasse, marcando o ritmo ao toque de uma bola de pingue-pongue, extraindo música de um balão, batendo os pés a compasso ou fazendo do violoncelo uma bela mulher com quem se dança o tango, nunca deixaram de impressionar pela qualidade da sua música, os excertos do Bolero de Ravel, do Peer Gynt de Grieg ou da ária da Rainha da Noite da ópera A Flauta Mágica de Mozart sendo disso a prova provada. O número final, já no encore, trouxe da plateia para o palco um muito aclamado “Luciano Pavarotti”, para uma interpretação estonteante de O Sole Mio, ao lado de outros dois “tenores”. Foi a cereja no topo do bolo de uma noite que não se irá apagar da memória por muito tempo.

[Foto: facebook.com/auditoriodeespinhoacademia/]

terça-feira, 2 de julho de 2019

CONCERTO: Elicia Silverstein




CONCERTO: Elicia Silverstein
Festival Internacional de Música de Espinho
Capela de Santa Maria Maior, Espinho
28 Jun 2019 | sex | 22:00


Local singelo e de enorme significado para os espinhenses – para quem as histórias e memórias se fundem na relação íntima com o mar –, a Capela de Santa Maria Maior acolheu a violinista Elicia Silverstein, na noite da passada sexta feira, para um concerto no âmbito da 45ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho. Colocando obras de Salvatore Sciarrino e Luciano Berio ao lado das de Johann Sebastian Bach, Heinrich Biber e Antonio Maria Montanari, a jovem violinista nova-iorquina trouxe implícita uma proposta de cruzamento entre a vanguarda italiana e os sons de um certo barroco mais progressista, explorando as conexões filosóficas, estruturais e técnicas da grande música separada três séculos entre si.

Foi sob o signo da espiritualidade que Elicia Silverstein iniciou o concerto, tocando a passacaglia “O Anjo da Guarda” de Biber, resultando numa demonstração da plasticidade tímbrica do violino, para a qual muito contribuiu o virtuosismo da artista e o próprio ambiente, um local de oração e de meditação sobre o que de mais elevado encontramos nos caminhos da féItem maior do repertório violinístico e uma preciosa jóia para os melómanos, a “Sonata nº 1, em sol menor, para violino solo, BWV 1001” de Bach foi a peça seguinte e veio reforçar a certeza de estarmos perante uma talentosa violinista, capaz de estabelecer uma relação muito pessoal com o metro e com o ritmo, a dinâmica de expressão da música de Bach fortemente vincada na sua interpretação, a polifonia latente.

Partilhando com a peça de Biber toda uma abordagem melancolicamente etérea, o “Capricho nº 2” de Sciarrino constituiu uma experiência única, através duma paleta extraordinariamente rica, feita de longos arranhados, breves momentos de harmonia perfeita e silêncios subtis, convidando o espectador a uma imersão no som. Com Montanari e a sua vibrante “Giga (senza basso), da Sonata de Dresden, em ré menor” regressamos por instantes ao barroco para logo escutarmos aquele que viria a ser o momento alto do concerto, a “Sequenza VIII” de Berio. Exemplo de virtuosismo de composição e de interpretação, a peça relaciona-se, de forma indirecta, com o princípio da chaconne, remetendo obliquamente para a “Partita nº 2, em ré menor, para violino solo, BWV 1004” de Bach, com a qual Elicia Silverstein encerrou o concerto. E se a peça barroca foi como o “regresso à calma”, o perfeito encerrar de um ciclo, é a música de Berio, a sua tensão crescente, as explosões de sons, a jubilante música, que preenche por completo o espectador e o acompanha muito para além de um tempo de fruição e deleite ímpar. Inesquecível!

[Foto: facebook.com/fimespinho]

sexta-feira, 28 de junho de 2019

CONCERTO: Lisboa String Trio



CONCERTO: Lisboa String Trio
Festival Internacional de Música de Espinho
Biblioteca José Marmelo e Silva (Jardim Interior), Espinho
27 Jun 2019 | qui | 22:00


No arranque da segunda semana do FIME – Festival Internacional de Música de Espinho, o Lisboa String Trio partilhou com o público, na noite passada, o espaço do jardim interior da Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva para um concerto que viria a revelar-se memorável. Três adoráveis oliveiras e as estrelas do céu como elementos decorativos ofereceram o necessário ambiente intimista para este concerto, em cujo seio se veio abrigar um programa pleno de encanto e sedução. Em palco, Bernardo Couto (guitarra portuguesa), Carlos Barreto (contrabaixo) e José Peixoto (guitarra clássica) lançaram mão de doze temas extraídos dos seus álbuns “Matéria” (2014) e “Lisboa” (2016), “salteando” o fado com o jazz, o todo “condimentado” com uma pitada de mornas, chorinhos e outros ritmos quentes e chamativos.

“Variações em Ré”, desse enorme compositor que foi Francisco Carvalhinho, foi o primeiro tema interpretado, lançando o concerto numa toada de fado “puro e duro”, Alfama e Mouraria abertas de par em par, os acordes a transportarem-nos para “A Severa”, casa onde o compositor falecido em 1990 por certo terá tocado esta que é uma das suas mais brilhantes composições. Carvalhinho não seria o único compositor lembrado ao longo do concerto, a ele se juntando Jaime Santos, Casimiro Ramos, Domingos Camarinha e José Nunes em temas todos eles extraídos do mais recente álbum do trio. Nestas, como nas restantes músicas, aquilo que de mais relevante se percebeu foi a enorme cumplicidade entre os três instrumentistas e a sua contagiante alegria em tocarem música instrumental, uma tendência que já conheceu melhores dias.

Todos com assinatura de José Peixoto, os restantes temas escutados ao longo do concerto provaram o eclectismo da música deste fantástico agrupamento, a paleta de sonoridades e ritmos a alargar-se e a diversificar-se, para gozo do público que não se cansou de aplaudir o trio. Exemplos maiores da maestria do compositor, “Impasse”, “Outubro 3” ou “Camel”, temas extraídos do álbum “Matéria” foram escutados com devoção, pese embora o irritante ruído dos aviões e de um ou outro escape aberto na avenida ali ao lado. Particularmente inspirado, “Cinzento” mostrou ter raízes árabes e “Desagarrado”, interpretado já na fase final do concerto, foi recuperado para um muito reclamado “encore”, conhecendo então uma versão mais livre, os músicos a darem asas à improvisação. Um excelente concerto numa 45ª edição do FIME que ainda tanto tem para oferecer!

sexta-feira, 14 de junho de 2019

CERTAME: 5ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho


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CERTAME: 5ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho
Museu Municipal de Espinho
25 Abr > 22 Jun 2019


Está a chegar ao fim a 5ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho, certame que, ao longo de dois meses, juntou na extraordinária galeria de exposições do Museu Municipal de Espinho criadores de ambos os sexos - recorde-se que as quatro edições anteriores, designadas “Bienal Internacional Mulheres d’Artes”, faziam uma certa distinção de género, algo que foi agora, muito justamente, abolido. Importa desde já partilhar uma ideia que mais não é do que uma repetição daquilo que afirmei no espaço do blogue sobre a Bienal de Gaia, há duas semanas atrás: É que não é todos os dias que, num mesmo espaço, qualidade e quantidade se oferecem aos nossos olhos sob a forma de arte. Foi, pois, imerso em criações de enorme interesse e beleza que percorri o espaço que acolhe este certame, ao encontro do muito que de bom se vai fazendo entre nós.

Mário Vitória, Isabel e Rodrigo Cabral e Sofia Areal foram os artistas convidados desta mostra, apresentando os seus trabalhos ao lado de um conjunto de obras de 41 artistas nacionais e estrangeiros, selecionados a partir de 268 candidaturas de criadores de 17 países. O peso dos nomes dos convidados, porém, não toldam aqueles dos concorrentes, alguns porque também já conquistaram o seu espaço no meio artístico e têm o “seu público”– citaria Balbina Mendes e Maria Beatitude a título de exemplo –, e outros que, por via de trabalhos magníficos e que o júri desta Bienal viria a distinguir, se revelam plenos de genialidade e talento.

“It Was Yesterday”, um óleo sobre tela do jovem vimaranense Rafael Oliveira representando o interior em ruínas de uma habitação, é um trabalho notável, o enorme rigor da composição a remeter para a fotografia e a prender o visitante pela sua beleza intrínseca. Ombreando com ele, podemos ver “Salomé”, outro óleo sobre tela da autoria de Manuel Rodrigues Almeida, “Oscilações”, uma composição de Fábio Araújo sobre pano cru cosido, “Ninho”, de Carmo Diogo, usando técnica mista sobre lençol de linho e o sublime “Composição com Tecidos 4-18”, um trabalho em acrílico sobre juta e lona de algodão cosidos, da autoria de Daniela Ribeiro, isto para citar apenas alguns dos trabalhos expostos. Mas o melhor é passar pelo Museu Municipal de Espinho e fazer a sua própria avaliação. A mostra encerra a 22 de Junho.

domingo, 19 de agosto de 2018

CONCERTO: Rubel



CONCERTO: Rubel
Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva, Espinho
Festival Oito24
18 Ago 2018 | sab | 16:00


O verdejante e acolhedor espaço do jardim interior da Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva, em Espinho, mostrou-se curto para as mais de duas centenas de pessoas que fizeram questão de “assinar o ponto” no derradeiro dia do Festival Oito24. Em palco, sozinho com a sua viola, Rubel veio contar-nos uma história. Ou várias histórias, se assim o quisermos, oferecendo uma tarde inspirada, sussurrada, intimista, com a sua música dolente e as suas palavras feitas de ternura e delicadeza. Do lado da plateia, abraçando o cantor num gesto de partilha e cumplicidade, o público desfrutou de momentos de enorme beleza musical, deixando-se embalar pelos acordes suaves e pela poesia vivida e sentida, como quem se entrega nas asas do vento, vogando no mar calmo da felicidade.

Numa breve tournée em solo nacional para a promoção do seu segundo álbum, “Casas” (2018), o cantor carioca começou por dar a conhecer “Sapato”, logo aí se percebendo um gosto muito particular pelos ritmos brasileiros em torno da MPB, do samba e da bossa nova, para além de um cuidado especial posto nas letras - “Depois a gente apaga o estomago / depois a gente corre p'ra pedir socorro / mas hoje a noite espera p'ra girar com o mundo”. Esta ideia saiu reforçada com “Dindi” e “Tristeza”, revisitação de duas das suas referências essenciais, Tom Jobim e Elis Regina, para logo se cantar “Casquinha”, Rubel a confessar seus maiores defeitos – ficar nervoso, amar demais e desafinar (!) – e a pedir perdão: “Deixa / Que o canto saia ruim / Desde que venha do coração”. Com uma grande dose de intimidade, “Cachorro” e “Mantra” voltaram a ser confissões duma certa forma de estar perante a vida, precedendo “Ben”, do álbum de estreia do cantor (“Pearl”, 2013), letra e música escritas para o seu sobrinho, então com dois anos de idade, muito amor e alguns conselhos à mistura numa narrativa divertida e ternurenta.

O concerto caminha para o final e Rubel regressa aos “mestres”, homenageando desta vez Seu Jorge com a interpretação de “Pretinha”. Do primeiro álbum, o cantor interpretou então “O Velho e o Mar” - “Lança o barco contra o mar / venha o vento que houver / e se puder, voa” - e, logo de seguida, “Pinguim”, “a mente forte de um jedi / a cuca fresca de um pinguim / os olhos virgens da criança / e a flor de uma mulher”. Para o final estavam guardadas as duas canções mais conhecidas de Rubel, o público a entoar o refrão de “Partilhar” - “Eu quero partilhar / a vida boa com você” - e a acompanhar com gosto e muito querer “Quando Bate Aquela Saudade”, do álbum “Pearl”, uma verdadeira pérola no seio da música que se faz do lado de lá do Atlântico. Um “encore” meio apressado fez-nos recuar a Jorge Ben e a 1963 com o seu “Mas Que Nada”, mas realmente aquilo que fica no ouvido e enche o coração são as palavras bonitas duma declaração de amor como “Olha bem, mulher / eu vou te ser sincero / eu tô com uma vontade danada / de te entregar todos beijos que eu não te dei /e eu tô com uma saudade apertada de ir dormir bem cansado / e de acordar do teu lado pra te dizer / que eu te amo / que eu te amo demais”. Como uma saudade que bate forte!

CONCERTO: Surma



CONCERTO: Surma
Parque João de Deus, Espinho
Festival Oito24
18 Ago 2018 | sab | 17:00


Um piparote vigoroso numa caixa de ritmos e logo um som se abre, como uma onda, juntando-se ao restolhar das folhas das árvores batidas pela nortada fresca do final de tarde em Espinho. Espalhados sobre a relva, os espectadores aguardam, atentos, os desenvolvimentos daquele som ao qual se vão somando, sucessivamente, outros sons que emanam dos sintetizadores, da guitarra, do baixo, duns pequenos sinos coloridos ou da própria voz da artista. De súbito, sem sequer darmos por isso, embarcámos já numa viagem de cores e sons únicos, ao encontro de paisagens interiores feitas de lagos gelados ou de areias quentes que se esfumam no alto de dunas de vento batidas, de florestas sombrias povoadas por seres misteriosos ou de campos de flores coloridas e vivas que se abrem em alegres Primaveras. E pensamos que isto não está a acontecer!...

Falo de Débora Umbelino e do seu projecto, Surma, nome de ponta do panorama da nova música portuguesa e que ontem se apresentou em Espinho, no derradeiro dia da edição de 2018 do Festival Oito24. Uma apresentação que constituiu, na verdade, uma deliciosa surpresa, de tal maneira aquele corpo franzino e aquela voz de desenho animado impressionam pela harmonia e talento das suas composições. Mas para além da música – forte, densa, penetrante -, é impossível não nos deixarmos levar pela presença física da cantora, pela sua doçura num sorriso que se abre franco, pelo seu “malta, obrigada”, por um coração que se adivinha enorme e pela inocência contida onde cabe a materialização de muitos sonhos acumulados desde que, com cinco anos de idade, desejou ser baterista.

Seguindo um alinhamento que privilegiou o seu disco de estreia - “Antwerpen”, lançado a 13 de Outubro de 2017, considerado um dos melhores do ano pela grande maioria dos meios de comunicação social nacionais e nomeado para melhor disco europeu independente do ano -, a “one-woman-band” juntou ao pulsar delirante de “Hemma”, “Kisnet”, “Voyager” ou “Nyika”, a força de composições mais antigas, casos de “Wanna Be Basquiat”, “Lo-Fi” ou do iniciático “Maasai”. Temas que fazem recuar, desde logo, aos anos 70 e 80 e a referenciais incontornáveis como os Doors, Jimi Hendrix Experience, Jefferson Airplane ou aos inefáveis Pink Floyd, para depois nos mergulharem em sonoridades mais actuais, muito nórdicas, os islandeses Amiina à cabeça – curiosamente escutados também em Espinho, há seis meses atrás -, ainda Heilung Krigsgaldr ou Björk a espreitarem por detrás da cortina.

Duma rapariga que se afirma pessimista, que nunca pensou sair da cave da sua casa de aldeia perto de Leiria e muito menos tocar onde já tocou, o menos que se pode dizer é que um projecto como “Surma” é obra. Nesta viagem agora iniciada, é difícil prever o quando e o onde do ponto de chegada, tal o potencial desta música, tal a energia, vontade e entrega de Débora Umbelino à sua “causa”. Entretanto, aproveitem-se os portos de escala. Espinho foi um desses portos, da visita sobrando a vontade de saber mais, de escutar mais, de sentir mais.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

CONCERTO: Carminho



CONCERTO: Carminho
Avenida Maia Brenha, Espinho
Festival Oito24
14 Ago 2018 | ter | 22:00


Quase podia repetir neste texto as palavras escritas no passado dia 18 de Fevereiro, a propósito do concerto de Carminho no Cine-Teatro António Lamoso, em Santa Maria da Feira [AQUI]. Com um alinhamento em tudo semelhante e apenas uma substituição na composição da banda de suporte (Diogo Santos a substituir Rúben Alves nos teclados e no acordeão), o concerto de Espinho voltou a ser um momento de prazer e júbilo, o fado cantado na voz daquela que é a sua melhor intérprete da actualidade.

De concerto para concerto, Carminho está mais solta, a sua voz mais poderosa, a sua presença em palco mais descontraída, a sua qualidade interpretativa em permanente evolução. Foi aquilo que se viu e ouviu na noite de ontem, em fados como “Contra a Maré” ou “As Pedras da Minha Rua”, “Meu Amor Marinheiro” ou no exaltante “Fado Adeus”, o diálogo com o acordeão a tecer lamentos de vidas que já não voltam. Gargantas ao alto, “Bom dia, amor”, “Saia rodada” ou “Bia da Mouraria” arrancaram palmas a compasso, mas o tom geral foi de intimismo, “Escrevi teu nome no vento”, “Senhora da Nazaré” ou “Chuva no Mar” a transformarem a longa Avenida, paredes meias com o mar, numa gigantesca sala de fado.

A última referência vai para a mole de gente que se juntou para ouvir Carminho e para a “religiosidade” com que se escutou a cantora, um silêncio sepulcral quando, à capella, se interpretou “As Minhas Penas”, um fado de D. António da Câmara e Carlos da Maia, já no “encore”. À emoção não contida na voz nua de Carminho, as lágrimas a soltarem-se dos seus olhos vivos e doces, respondeu o público com a maior ovação da noite. Ali ficou bem patente o poder do fado, desta música que é nossa, quando cantado numa voz de excepção. Única, brilhante, formidável!