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domingo, 2 de agosto de 2026

CONCERTO: “Uniko” | Kimmo Pohjonen & Orquestra Clássica de Espinho



CONCERTO: “Uniko”
Kimmo Pohjonen & Orquestra Clássica de Espinho
Com | Kimmo Pohjonen (acordeão), Teppo Ali-Mattila (concertino), Juusu Hannukainen (samples)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Praça Dr. José de Oliveira Salvador (Câmara Municipal de Espinho)
31 Jul 2026 | sex | 21:30


A verdadeira identidade de uma obra revela-se, as mais das vezes, na forma como sobrevive ao contexto que lhe deu origem. Concebida por Kimmo Pohjonen e Samuli Kosminen para o Kronos Quartet e estreada em Helsínquia, em 2004, “Uniko” faz parte desta rara categoria. Poderia ter permanecido prisioneira da extraordinária personalidade do agrupamento norte-americano, mas a sua apresentação no concerto de encerramento do Festival Internacional de Música de Espinho veio demonstrar precisamente o contrário. A substituição do Kronos Quartet pela Orquestra Clássica de Espinho não constituiu uma simples alteração de efectivos, antes modificou profundamente o modo como a obra continua a respirar, como distribui o peso das tensões e se mostra capaz de organizar o espaço sonoro. Onde o Kronos privilegiava a transparência da linha e a circulação do detalhe, a Orquestra Clássica de Espinho, embora numa formação mais reduzida que o habitual, soube projectar uma matéria mais compacta e de maior gravidade acústica. A escrita poderá ter perdido alguma delicadeza, mas realçou a plasticidade de um organismo vivo cuja força resulta menos do detalhe do que da energia acumulada em cada sucessiva vaga sonora. Descobriu-se, assim, uma segunda natureza de “Uniko”: menos íntima, quiçá, mas não menos verdadeira.

Essa transformação só foi possível porque Kimmo Pohjonen continua a afirmar-se como o centro de gravidade de uma obra seminal no âmbito da música contemporânea. Poucos intérpretes possuem hoje uma relação tão física com os seus próprios ambientes sonoros. O acordeonista finlandês não se limita a tocar, antes parece arrancar a música ao instrumento, como quem procura uma matéria primordial anterior à própria linguagem do som. O instrumento expande-se muito para além daquilo que dele habitualmente se espera, confundindo-se com a respiração, com o grito, com a ressonância metálica da electrónica ou com o rumor quase telúrico que nos é oferecido por Samuli Kosminen. Longe de ser ornamento ou demonstração de virtuosismo técnico, a tecnologia é aqui prolongamento natural do gesto instrumental, dilatando o espaço acústico e multiplicando perspectivas auditivas sem quebrar a continuidade do discurso. A Orquestra Clássica de Espinho compreendeu essa lógica com inteligência rara, abrindo espaço à exuberância cénica do solista e respondendo com a afirmação de uma sonoridade ampla, homogénea e generosa, sem perder densidade nem abdicar da sua própria identidade. A relação deixou de ser a de um solista acompanhado por uma orquestra, para se tornar a de um único corpo sonoro em permanente diálogo e mutação.

Essa capacidade de transformar a percepção do tempo faz de “Uniko” uma obra singular. Não há verdadeiras cesuras entre os seus oito andamentos, nem momentos de pausa que permitam ao ouvinte recuperar qualquer distância crítica. Tudo decorre como um fluxo contínuo, feito de acumulações, erosões e metamorfoses, cada episódio parecendo conter já a semente daquele que se lhe sucederá. É uma música que não procura agradar nem surpreender; limita-se a existir com uma coerência tão absoluta que acaba por impor as suas próprias regras de escuta. Na praça fronteira à Câmara Municipal de Espinho, completamente preenchida por um público que acompanhou o concerto com invulgar concentração, essa experiência adquiriu uma dimensão quase ritual. A prolongada ovação final celebrou, naturalmente, a extraordinária prestação de Kimmo Pohjonen, de Samuli Kosminen e da Orquestra Clássica de Espinho. Mas celebrou também algo mais difícil de definir: a confirmação de que o Festival Internacional de Música de Espinho continua a ser um dos raros lugares onde a curiosidade artística prevalece sobre a convenção e onde o risco continua a encontrar, felizmente, um público disposto a escutá-lo.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

CONCERTO: Orquestra Clássica de Espinho | Fiona Monbet & Jazz Trio



CONCERTO: Orquestra Clássica de Espinho | Fiona Monbet & Jazz Trio
Direcção musical | Fiona Monbet (violino)
Com Auxane Cartigny (piano), Zacharie Abraham (contrabaixo), Philippe Maniez (bateria)
Auditório de Espinho - Academia
20 Dez 2024 | sex | 21:30


No culminar de mais um ano de muita e boa música, o Auditório de Espinho engalanou-se para receber a Orquestra Clássica de Espinho, convidando a violinista, compositora e maestrina Fiona Monbet para assumir a sua direcção. Lançada na música através do jazz, Monbet concluiu os estudos de violino clássico no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris em 2015, abraçando então a área da direcção musical. Curiosamente, foi em Portugal, mais propriamente em Leiria, na Academia de Verão organizada anualmente por Jean-Sébastien Béreau, que Fiona Monbet aprendeu a dirigir e onde conduziu a sua primeira orquestra. Sem demérito para os demais actores de um concerto memorável, foi ela a estrela da noite, pela sua garra e energia, organização e talento. Fosse a solo com o seu violino - a costela irlandesa a mostrar-se em engenho e arte, no forte e ritmado bater do pé -, fosse à frente do trio onde pontificaram o pianista Auxane Cartigny, o contrabaixista Zacharie Abraham e o baterista Philippe Maniez ou na condução de uma orquestra empenhada em dar o melhor de si, Monbet encantou pela simpatia e cumplicidade que estabeleceu com os músicos e que se estendeu a uma plateia totalmente rendida à sua vivacidade e virtuosismo.

“Suite para orquestra de variedades n.º 1”, de Dmitri Shostakovitch, preencheu a primeira parte do programa. Fortemente influenciado pelas obras de Modesto Mussorgsky, Anton Bruckner, Gustav Mahler e Igor Stravinsky, Shostakovitch foi produtor e encenador, para além de compositor versátil e inovador, pianista aclamado e exímio diretor musical. Para orquestra, escreveu quinze sinfonias e cinco concertos. As suas outras composições incluem cantatas e oratórias, sete óperas e operetas, quatro bailados, doze comédias musicais e música para teatro, trinta e seis partituras originais para filmes, quinze quartetos e outras músicas de câmara para piano, violino e violoncelo. Identificada erroneamente durante muitos anos como “Suite para orquestra de jazz n.º 2”, a peça interpretada é composta por oito andamentos e nela sobressai uma forte ligação ao mundo das artes do espectáculo, aspecto reforçado pela familiaridade dos temas e das memórias que associamos aos momentos felizes da infância. Em particular a “Valsa n.º 2” revelou-se (como sempre) preciosa, desafiante na sua complexidade melódica, deslumbrante nas suas nuances rítmicas e na forma equilibrada como relaciona a valsa clássica com outras artes de palco.

Deixando de lado esta quase revisitação de lugares onde fomos (e somos) felizes, Fiona Monbet escolheu brindar-nos com três peças da sua autoria, nas quais é patente a marca classicista de Shostakovich, Ravel e outros autores, mas impregnada de um modernismo que vai beber à tradição e onde se percebe, na fronteira entre o jazz sinfónico e a herança da música francesa, influências irlandesas, tanto na sua escrita como na forma de tocar. “Faubourg 23” constituiu uma longa viagem com início na Paris da “Belle Époque” e fim nas paisagens esmeralda de Galway ou do Donegal. Pelo meio visitamos as densas florestas de Benim ou do Congo, entramos no rebuliço mariachi de Guadalajara e sambamos com os maiores blocos de carnaval do Rio de Janeiro (incrível o mano a mano entre o naipe de percussionistas da orquestra e a bateria de Maniez). Seguiu-se “We All”, um tema aberto à improvisação e que parte do muito nostálgico “Que Reste-t-il de nos Amours?”, de Charles Trenet. “Irish Gospel” fechou o concerto em graça e júbilo, de novo a fusão de estilos a evidenciar-se, a orquestra a abraçar briosamente a sua vocação clássica e a assumir com igual esmero a vertente de big band sempre que foi chamada a fazê-lo, com apontamentos solísticos de enorme qualidade. Surpreendente, fascinante, revigorante, um concerto memorável a fechar o ano em grande estilo.

sábado, 16 de dezembro de 2023

CONCERTO: Orquestra Clássica de Espinho convida Kandace Springs



CONCERTO: Orquestra Clássica de Espinho convida Kandace Springs
Direcção musical | Diogo Costa
Auditório de Espinho
15 Dez 2023 | sex | 21:30


Repetindo a receita de 2022, coube à Orquestra Clássica de Espinho fechar a programação anual do Auditório, convidando para o efeito a pianista e vocalista norte-americana Kandace Springs. Tributo a Billie Holliday, o concerto debruçou-se sobre o penúltimo registo discográfico de Lady Day, o icónico “Lady in Satin”, permitindo recordar temas tão marcantes como “I’m a Fool to Want You”, “I Get Along Without You Very Well”, “You’ve Changed” ou “Strange Fruit”. Mas antes de avançar com a visão de um momento pleno de significado, cabe-me reafirmar, no final de mais um ano, o meu apreço e gratidão ao Auditório de Espinho e aos responsáveis pela sua programação nas mais diversas áreas, com particular ênfase na música clássica e no jazz. A minha admiração não é de agora, mas consolida-se a cada ano, adivinhando-se uma enorme ginástica financeira e uma sábia gestão de recursos que encontram, na paixão que os responsáveis dedicam às artes e à música, o verdadeiro contraponto. É isto que permite, em tempos que não são de desafogo, oferecer nomes tão sonantes como os de Henri Texier, Django Bates, Dave Douglas, Joey Baron, Susana Baca, Louis Sclavis, Seun Kuti, Stanley Clarke, Michael Wollny, Wim Mertens, Hauschka ou John Scofield, sem esquecer os “nossos” Carlos Bica, Daniel Bernardes, Selma Uamusse, Tó Trips, João Barradas, João Paulo Esteves da Silva e A Garota Não, entre muitos outros. Absolutamente espantoso!

Emoções desencontradas. Talvez seja esta a forma mais adequada para definir o concerto da noite de ontem, pelo menos do meu ponto de vista. Foi já no “encore” que Kandace Springs, depois de muito instada pelo público, se sentou ao piano e, a solo, emprestou a sua voz a “Solitude”. O momento foi especialmente marcante, não apenas por ser este um dos mais belos temas da carreira de Billie Holliday e da própria história do Jazz, mas também porque a voz de Springs pôde ser escutada em toda a sua plenitude, numa preciosa combinação de elegância, graça, delicadeza, harmonia e ritmo. Secretamente, desejei que o concerto tivesse sido apenas de voz e piano, mas logo me arrependi, tão bons foram alguns momentos de que se revestiu, tão intensos e vivos. Se Kandace Springs é merecedora do maior aplauso - à voz cuidada somam-se a descontração em palco e o seu sentido de humor -, a secção rítmica, com Carlos Azevedo no piano, José Carlos Barbosa no contrabaixo e Gonçalo Ribeiro na bateria, não o é menos. Omnipresentes, Barbosa e Ribeiro mostraram-se ao mais alto nível no acompanhamento dos trabalhos, o seu sentido de oportunidade e do ritmo a serem uma constante. Já Carlos Azevedo foi igual a si próprio, os seus apontamentos a emprestarem ao concerto notas de sedução e brilhantismo que em muito o enriqueceram.

Dito isto, podemos concluir que o problema esteve na Orquestra? Diria que sim e que não. Recordando as intervenções plenas de intencionalidade e de virtuosismo de um Daniel Dias no trombone ou de um Nuno Magalhães no clarinete, de um Miguel Dantas na guitarra ou de Beatriz Alves, Catarina Gouveia, Luís Oliveira e Guilherme Oliveira nos coros, enfim, de Maria Eduarda Sousa na harpa, de Miguel Coelho nas percussões e de todos os restantes elementos da Orquestra, seria profundamente injusto dizer que foi ela “a má da fita”. Mas mais de sessenta músicos em palco, numa sala relativamente pequena, foi desafio com o qual a voz de Kandace Springs mal pôde ombrear, vendo-se frequentemente abafada pelos instrumentos. Não fossem os momentos mais suaves e íntimos que vestem os temas de “Lady in Satin” e teríamos o caldo completamente entornado (pense-se no voto de Boas Festas que foi, a encerrar o concerto, o “Adeste Fidelis”, e o modo como os quatro elementos do coro não conseguiram fazer-se ouvir, para se perceber onde quero chegar). Sei que o grande compromisso da Orquestra é com a Escola de Música e a todos é devida uma oportunidade mas… Com trinta músicos no primeiro dia e outros trinta no segundo, saíamos todos a ganhar. Mas isto sou eu a dizer, com a minha mania de esperar sempre o melhor de dois mundos.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

CONCERTO: Orquestra Clássica de Espinho convida Isabella Lundgren



CONCERTO: Orquestra Clássica de Espinho convida Isabella Lundgren
Direcção musical | Diogo Costa
Com Filip Ekestubbe (piano), Niklas Fernqvist (contrabaixo), Daniel Fredriksson (bateria)
Auditório de Espinho
17.Dez.2022 | sab | 21:30


O concerto poderia chamar-se “Uma Noite com Judy Garland”, que o título cair-lhe-ia como uma luva. Foi esta a proposta do Auditório de Espinho para fechar um ano absolutamente extraordinário ao nível da sua programação. Abrindo um parêntesis, arrisco-me mesmo a dizer que, se houvesse forma de premiar o mais eclético, coerente, influente e precioso conjunto de propostas musicais em sala do país, o Auditório estaria na linha da frente a bater-se de igual para igual com as melhores pelo galardão. Retomando o fio à meada, foi de sonho o concerto oferecido pela Orquestra Clássica de Espinho e pela sua ilustre convidada, Isabella Lundgren, uma das mais importantes vozes do jazz da Suécia. Com ela vieram também o pianista Filip Ekkestubbe, o contrabaixista Niklas Fernqvist e o baterista Daniel Fredriksson, completando um maravilhoso conjunto de sete dezenas de intérpretes em palco. Tudo o mais foi a magia da música, assente na história daquela que, no silêncio da noite, desejou muitas vezes “apenas algumas palavras verdadeiras de amor de um homem, em vez dos aplausos de milhares de pessoas.”

A abrir o concerto, um medley instrumental serviu para espevitar os sentidos, mas a primeira grande surpresa surgiu quando Isabela Lundgren, irrompendo pelo palco como se quisesse passar despercebida, juntou à música a sua voz. E que voz! Potente, profunda e, ao mesmo tempo, doce e delicada, deu a primeira nota de encanto nesse intenso “Rock-a-Bye Your Baby”, colando-se à voz e à presença de alguém cuja vida e música, como veremos, vão muito além de “Over the Rainbow” e de “O Feiticeiro de Oz”. Ao longo de uma hora e meia, Isabella Lundgren cantou e encantou. Ofereceu o maior carinho e desfez-se em elogios à Orquestra e ao seu Director, Diogo Costa; abraçou duas jovens vozes femininas, Beatriz Alves e Catarina Gouveia, com quem partilhou o palco numa maravilhosa rapsódia; e falou, como se de um documentário fosse, da atribulada vida de Judy Garland, onde cabem a lenda e o mito, o poder e controlo da voz, a intuição e inteligência em palco, mas também os problemas devidos ao abuso do álcool e dos medicamentos, a exploração por quem se arvorou em dono do seu destino, a profunda depressão e a morte acidental por overdose de barbitúricos aos 47 anos.

“You Made Me Love You” levou o público ao encontro de uma Judy Garland que, com apenas 15 anos, foi apresentada a Hollywood ao cantar a sua admiração por Clark Gable numa festa de aniversário do actor promovida pelos Estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer. “Zing! Went The Strings of My Heart” foi uma explosão de vida no vigor da juventude e “Me and My Shadows”, além de falar de Mickey Rooney, com quem a actriz e cantora viria a estabelecer uma sólida relação de amizade, fala também de obstinação, resistência e rebeldia. “The Trolley Song” traz-nos outro momento marcante na vida de Judy Garland, um momento de afirmação interior e reforço da auto-estima pela forma como Vincent Minelli, o seu primeiro marido, a filmou no extraordinário “Meet Me In St. Louis”. Em palco, com um coro de suporte formado por Beatriz Alves, Catarina Gouveia, Fabiano Oliveira e Pedro Simões, Isabella Lundgren soube realçar o lado romântico e, ao mesmo tempo, divertido, de uma canção que nunca teve o reconhecimento merecido, condenada a viver à sombra desse incontornável clássico de Natal que é “Have Yourself a Merry Little Christmas”.

“Judy Garland Medley” constituiu um dos momentos mais altos do concerto, não apenas pela graça de vermos Lundgren a cantar em dueto ou em trio com Beatriz Alves e Catarina Gouveia, mas sobretudo pela forma como Beatriz Alves mostrou ter a música na alma. É verdadeiramente invulgar aquilo de que é capaz esta jovem com apenas 15 anos e, se o futuro fizer com que siga a via do palco, muito vamos ouvir falar desta extraordinária cantora. O resto do concerto foi de confirmação, não apenas dos dotes vocais da convidada, mas também da qualidade de uma Orquestra que soube tocar “com o coração”. Completamente rendido, o público bebeu a beleza da música e a emoção que dela se desprende em temas como “The Man That Got Away”, “I Don’t Care”, “Get Happy”, “By Myself” ou “It Was Never You”, este último envolto em raro intimismo, cantado com o acompanhamento exclusivo do piano de Filip Ekestubbe. Guardado para o final, “Over The Rainbow” foi o remate perfeito de uma noite de sonho. Nos nossos corações ficam a Orquestra Clássica de Espinho e Isabella Lundgren que, em ternura e dádiva, renderam a mais sentida homenagem a Judy Garland. Ficam, ainda, as palavras que James Mason proferiu na cerimónia fúnebre: “A grande dádiva de Judy foi ter conseguido com que as lágrimas brotassem do próprio coração das pedras. Ela deu-se tão rica e generosamente que não há moeda nenhuma no mundo com a qual possamos retribuir-lhe”.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

CONCERTO: Estrella Morente | Orquestra Clássica de Espinho



CONCERTO: Estrella Morente | Orquestra Clássica de Espinho
Direcção musical | Sergio Alapont
48º FIME – Festival Internacional de Música de Espinho
Praça do Progresso, Espinho
30 Jul 2022 | sab | 22:00


Festa. Fiesta. Festa. Foi em ambiente de verdadeira f(i)esta que chegou ao fim a 48ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho. Numa Praça do Progresso repleta de público, em noite de Verão, o programa prometia o melhor da música clássica espanhola do romântico tardio, na viragem do século XIX para o século XX. Escutou-se Joaquín Turina e Isaac Albeniz. Também Federico García Lorca, Enrique Granados e Gerónimo Giménez. Sobretudo Manuel de Falla, talvez o maior e o mais influente de todos. Tamanha exigência pedia uma grande orquestra e os mais de setenta instrumentistas da Clássica de Espinho mostraram-se particularmente inspirados. A tão extraordinária performance não terá sido alheia a direcção musical enérgica e segura de Sérgio Alapont, actual maestro titular da Orquestra Clássica do Centro e que já trabalhou com quase meia centena de orquestras de França, Itália, República Checa, Alemanha, Reino Unido, Dinamarca e Israel, entre outros países. Estrela entre estrelas, a cantora Estrella Morente emprestou ao conjunto a sua voz e a sua presença carregada de flamenco, ampliando a festa e tornando a noite inesquecível.

“Orgia”, terceiro andamento de “Danzas Fantásticas”, a obra mais popular de Joaquín Turina, teve o condão de agarrar o público desde o primeiro instante, tão intensa e viva se mostrou a sua interpretação em trechos alegres e carregados de lirismo. Já com Estrella Morente em palco, o espírito andaluz saiu reforçado com a interpretação orquestral de cinco das “Canciones Españolas Antíguas”, de Federico García Lorca. À conjugação harmónica da voz com a orquestra, acrescentou Estrella Morente uma enorme expressividade dramática, transformando em verdadeiras pérolas momentos como “Las Morillas de Jaén”, “Los Pelegrinitos” ou “Sevillanas del Siglo XVIII”. Seguiram-se excertos da “Suite Española, Op. 47 / Castilla”, de Isaac Albéniz, “El Sombrero de Três Picos / Danza Final”, de Manuel de Falla, “Goyescas / Intermedio”, de Enrique Granados e “La Boda de Luis Alonso / Intermedio”, de Gerónimo Giménez, quatro momentos de puro prazer que vieram tornar maior e mais emotivo o ambiente de festa e de celebração da música.

O melhor estava guardado para o final com excertos da ópera “El Amor Brujo”, de Manuel de Falla. Irrepreensível no papel de Candela, sensual e exuberante num négligé vermelho-sangue, Estrella Morente foi essa jovem cigana cuja relação com Carmelo é atormentada pelo fantasma de seu antigo amor. A cantora ampliou ao máximo o caráter andaluz da música, reforçando-o com o texto falado no dialeto cigano característico da Andaluzia. Profundamente intimistas, momentos houve que foram quase sussurrados, com o sublinhado cuidadoso e subtil do acompanhamento orquestral. Infelizmente, uma parte do público que se encontrava nas imediações do espaço do concerto revelou-se particularmente audível nestes momentos, perturbando enormemente os trechos mais contidos da obra. Pasodoble dos pasodobles, “El Gato Montés”, de Manuel Penella, foi a verdadeira apoteose, já no encore. Palmas a compasso, pares de dança formados espontaneamente e sorrisos rasgados em todos os rostos mostraram o quanto este concerto foi uma grande festa. Que venham mais edições do FIME e que, se não puderem ter um programa mais ambicioso do que o deste ano, pelo menos que o possam igualar. O público, reconhecido, agradece.


sexta-feira, 24 de junho de 2022

CONCERTO: "Ravel et le Jazz"



CONCERTO: “Ravel et le Jazz”
Belmondo Quintet | Orquestra Clássica de Espinho
Direcção musical | Diogo Costa
48º FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Praça do Progresso, Espinho
17 Jun 2022 | sex | 22:00


O Festival Internacional de Música de Espinho vestiu-se com as cores do jazz no arranque da sua 48ª edição. Do jazz, mas também da música clássica, numa combinação arrojada que teve o condão de harmonizar as duas grandes matrizes da entidade organizadora do Festival, a Academia de Música de Espinho. Ambiciosa, a aposta num concerto iminentemente eclético teve nos compositores modernistas franceses, sobretudo em Maurice Ravel, mas também em Claude Debussy e Erik Satie, uma extraordinária âncora, com base na qual Lionel Belmondo modelou um conjunto de arranjos subtis e de enorme qualidade e bom gosto. Lionel Belmondo que, com os seus saxofones e flauta, liderou o quinteto que pontificou neste concerto de abertura, tendo a seu lado o irmão Stéphane Belmondo (trompete e fliscorne), Laurent Fickelson (piano), Sylvain Romano (contrabaixo) e Tony Rabeson (bateria), coadjuvantes perfeitos numa noite inspirada. Em torno do quinteto, a parte e o todo em simultâneo, a Orquestra Clássica de Espinho, sob a direcção do maestro Diogo Costa, mostrou-se igual a si própria: sóbria, sólida, irrepreensível.

Escrita inicialmente para piano por Claude Debussy, em 1914, a suite “Six Épigraphes Antiques” tem em “Pour l’Egyptienne” um dos seus mais belos movimentos. Foi este o tema de abertura do concerto, ficando desde cedo demonstrada a adequação de géneros no seu desenvolvimento, muito por culpa do virtuosismo de Lionel Belmondo e restantes membros do quinteto. A Orquestra soube envolver em sonoridades doces os apontamentos jazzísticos, o todo resultando num momento de puro prazer a prenunciar um concerto inesquecível. Seguiu-se “Berceuse sur le nom de Gabriel Fauré”, de Maurice Ravel, e o êxtase repetiu-se. Stéphane Belmondo expressou a sua enorme qualidade num longo solo de trompete, mas foi Laurent Fickelson quem mais se fez notar, o piano dividido entre a dolente linguagem clássica e os ritmos vibrantes do jazz. Prelúdio do 1º acto de “Les Fils des Étoiles”, de Erik Satie, “La Vocation” foi mais um momento mágico, tal como o foram “Le Plus Que Lent”, de Debussy, ou “Yusef’s Tree”, uma peça escrita por Lionel Belmondo e que é um tributo a Yusef Lateef, a par de Milton Nascimento uma das figuras do jazz que mais tem influenciado o agrupamento.

Exploração empolgante dos cruzamentos entre universos musicais, “Ravel et le Jazz” foi, já o disse, um enorme concerto. Sob o manto da modernidade, os temas clássicos tomam formas inesperadas. Rompendo com a tradição, os sons e ritmos desenvolvidos de um e outro lado do Atlântico no primeiro quartel do século passado mostram, afinal, ter muito mais em comum do que aquilo que poderíamos supor. Só por isto, todas as palavras de reconhecimento que possa dirigir à organização do Festival serão poucas. Mas há também esse pormenor de vital importância que é a oferta do Concerto à cidade, prosseguindo no extraordinário esforço de valorizar a cultura e, em particular, a música, aproximando-a daqueles que menos acesso têm a ela. O novo espaço da Praça do Progresso albergou um numeroso público, mostrando-se perfeitamente adequado a este tipo de manifestações. Resta falar dos mais novos, dos alunos da Academia, os músicos de amanhã. Foi deles o primeiro grande momento, cantando em conjunto um tema que foi, em si mesmo, um hino à alegria. Que venham mais concertos como este!

[Foto: Filipe Pereira, Festival Internacional de Música de Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho]

domingo, 21 de julho de 2019

CONCERTO: Yamandú Costa & Orquestra Clássica de Espinho



CONCERTO: Yamandú Costa & Orquestra Clássica de Espinho
Festival Internacional de Música de Espinho
Praça Dr. José Salvador, Espinho
20 Jul 2019 | sab | 22:00


Yamandú Costa cresceu envolvido pela música regional gaúcha de Passo Fundo e seu entorno, no meio de milongas, tangos, zambas e chamamés. Paulatinamente, o seu território musical foi-se expandindo, para abrigar choros, ritmos nordestinos, um pouco de Villa-Lobos e diversas outras paisagens musicais. À técnica e ao virtuosismo explosivo que desde cedo foram as suas marcas no violão de sete cordas, agregou o artista outros contrastes, passagens singelas e uma expressividade mais intimista. O resultado pôde ser apreciado na fresca noite de ontem, a encerrar a 45ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho, com o suporte da Orquestra Clássica de Espinho e perante um público completamente rendido à criatividade e facilidade do artista em extrair do violão, muitas vezes em simultâneo, ritmos, harmonias e melodias de cortar a respiração.

A abrir o concerto, o 1º movimento da “Fantasia Popular”, um tema do próprio Yamandú Costa, mostrou o quão fortemente a sua música se encontra enraizada na tradição popular brasileira. O mote estava dado para uma noite inesquecível, com uma Orquestra superiormente dirigida pelo jovem maestro Jan Wierzba a dar o devido acompanhamento ao turbilhão de sons derramado de um violão que fala, chora, dança e ri. No segundo momento da noite, Yamandú Costa revisitou um tema que lhe é muito querido e que remonta a 2000. Ouvido em êxtase absoluto, “Mariana” é de uma beleza esmagadora, poema musical embebido em emoção e fantasia, as palavras tornadas acordes harmoniosos e sensíveis, tocando-nos como um beijo ou uma carícia. Seguiu-se “Decarisimo”, um tema de Astor Piazolla e que, graças ao talento de Yamandú Costa, mostrou como a música do génio argentino se expande ao novo fado, de tal forma é impossível escutar esta peça sem pensar em Marco Rodrigues, Ana Moura ou António Zambujo.

Prosseguindo agora a solo, Yamandú Costa abordou dois géneros musicais distintos. “Samba Pro Rafa” constituiu uma homenagem a Raphael Rabello, compositor e instrumentista considerado por Costa como o pai musical da sua geração. A segunda peça foi o “IV Porro da Suite Colombiana n. II”), do compositor Gentil Montana, tal como a anterior de uma expressividade única, o ritmo e a harmonia à flor da pele. A caminhar para o final, o concerto teria em “Bachbaridade” um novo ponto alto, a abordagem às sonoridades clássicas convertida em inspirado tango. Última peça do alinhamento, “Concerto Fronteira” foi mais um momento único, uma viagem pela região fronteiriça do sul do Brasil ao encontro do compositor gaúcho e acordeonista Luís Carlos Borges, do compositor e violonista argentino Juan Falú e ainda da memória do pai do artista, Algacir Costa, um latino-americano apaixonado pelas diversas riquezas culturais do continente sul-americano. O final perfeito que só não foi final porque o público reclamou o “encore” e o músico viu-se forçado a corresponder ao vibrante aplauso. “Carinhoso”, uma das mais importantes obras da música popular brasileira, composta por Pixinguinha entre 1916 e 1917, esse sim, foi o final perfeito numa noite perfeita e num Festival perfeito!

domingo, 22 de julho de 2018

CONCERTO: "Orchestra in Blue"




CONCERTO: “Orchestra in Blue”
Orquestra Clássica de Espinho
Mário Laginha | Piano
Jan Wierzba | Direcção musical
44º Festival Internacional de Música de Espinho | FIME 2018Praça Dr. José Salvador (Câmara Municipal de Espinho)
21 Jul 2018 | sab | 22:00


O cosmopolitismo duma cidade como a de Espinho não é coisa de agora. O seu Casino e Piscina Solário de água salgada, o seu Aeródromo e o Campo de Golfe mais antigo da Península Ibérica, juntando-se à simpatia e hospitalidade das suas gentes, fazem da cidade, de há cem anos a esta parte, destino de eleição da bela região da Costa Verde. É neste cenário, de certa forma elitista, que gosto de ver inserido o Festival Internacional de Música de Espinho, um certame que este ano ofereceu à cidade um programa absolutamente luxuoso - ao qual tenho vindo a referir-me aqui nas páginas do blogue - e que ontem mesmo chegou ao fim. No espaço nobre da Praça Dr. José Salvador, em frente à Câmara Municipal, a Orquestra Clássica de Espinho, conduzida pelo maestro Jan Wierzba e tendo Mário Laginha como convidado especial, apresentou-se perante um numeroso público com “Orchestra in Blue”, nome feliz para dois concertos para piano e orquestra, o primeiro do próprio Mário Laginha e o segundo de George Gershwin.

Quem, como eu, se deslocou a Espinho pelo Gershwin, veio de lá rendido ao Laginha. Preenchendo a primeira parte do programa, o seu Concerto para Piano e Orquestra (2009) constituiu um momento de enorme intimidade e beleza, as paisagens sonoras a sucederem-se alegres, delicadas e coloridas. Misturando modernidade e classicismo com a inspiração e o virtuosismo que apenas aos maiores acode, Mário Laginha revelou a muitos dos presentes, seguramente, um verdadeiro tesouro escondido. À dolência dum primeiro andamento, entrecortada por momentos de grande emotividade e dinamismo, seguiu-se um segundo andamento intimista, em diálogo constante entre piano e orquestra, para tudo terminar de forma absolutamente empolgante, o jazz e a música étnica à espreita, o piano a tomar conta da peça e a fazer brilhar o solista na sua dupla condição de autor e intérprete.


Com menos cordas mas com mais metais, o segundo grande momento da noite estava guardado para Gershwin, a sua “Rhapsody in Blue” (1924) a fazer recuar os presentes aos “loucos anos 20”. De novo Mário Laginha a brilhar na forma como tintou de mil cores esta rapsódia, superiormente suportado por uma jovem Orquestra que merece todos os aplausos e que soube constituir-se no verdadeiro “ouro” sobre o “azul” duma noite inesquecível. Mas havia um terceiro grande momento guardado para o público – para ele também uma palavra de enorme apreço pela forma respeitosa como soube estar, conseguindo transformar um espaço ao ar livre numa imensa sala de concertos -, com a vinda de Laginha ao palco para não um, não dois, mas três “encores” que fizeram as delícias dos presentes. Interpretando as composições “Um Amor” e “Um Choro Feliz”, ambas do álbum “Chorinho Feliz” (2007) e tendo ainda espaço para “Tanto Espaço”, do álbum “Espaço”, também de 2007, o artista correspondeu da melhor forma às calorosas ovações que o público lhe votou, ficando nos corações de todos pela sensibilidade e beleza da sua música. O FIME chegou ao fim da melhor forma. Viva o FIME!