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sábado, 1 de novembro de 2025

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #99



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #99
Com | Chico Noras, Diogo Costa e João Antunes
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
30 Out 2025 | qui | 21:30


Pé ante pé, muito ao de leve, como quem se compraz em saborear a jornada e não tem pressa de chegar ao fim, o Shortcutz Ovar atingiu, na noite da passada quinta-feira, a bonita soma de noventa e nove sessões. Uma marca relevante, a prova provada do empenho em dar a ver cinema português de qualidade, em fazer da inovação peça-chave de uma programação cuidada e atenta ao detalhe e que persiste em conquistar espectadores, encontrando neles os guardiões de uma identidade própria e particularmente bem-sucedida. Em vésperas de Halloween, a programação voltou-se, uma vez mais, para o cinema de género ligado ao fantástico e ao terror, brindando o público com três curtas-metragens que tiveram na morte - gentil e reconfortante para uns, um mal inimaginável para outros - um denominador comum. Presentes pela primeira vez no Shortcutz Ovar, um deles de forma virtual, os três realizadores mantiveram animadas conversas com o público, satisfazendo a sua curiosidade, revelando os pormenores que se escondem, por vezes, nas dobras de uma sequência aparentemente simples e fazendo da sessão mais um momento privilegiado de comunhão de interesses e partilha de conhecimentos.

Pela quinta vez na presente temporada, o cinema de imagem animada voltou a marcar presença no Shortcutz Ovar graças ao filme “A Caçada”, de Diogo Costa. Perdidos na floresta, três soldados vêem-se obrigados a gerir os traumas do passado, ao mesmo tempo que procuram escapar às forças malignas que os perseguem. Embora possa não ser claro, a narrativa alimenta-se de uma forte componente autoficcional (o rosto de uma das personagens indica estarmos perante o próprio realizador) e encontra inspiração nos ambientes tensos e densos dos videojogos. Este é um universo muito querido a Diogo Costa - ele próprio artista conceptual e ilustrador que vem estendendo as suas colaborações à produtora Lucasfilm e à série Star Wars –, entendido como perfeito para abordar a natureza dos conflitos e a forma como lidamos com eles. Fortemente estilizado, o filme é revelador de um realizador criativo e perfeccionista, que aposta na componente visual para impactar o espectador, ao mesmo tempo que rende homenagem a um conjunto de filmes de culto onde poderemos ver “Carrie”, “Full Metal Jacket”, “A Noite dos Mortos Vivos” ou a saga “Alien”. Entre a Guerra do Vietname e a ameaça de uma III Guerra Mundial, Diogo Costa mostra como o cinema pode ser uma arma poderosa no confronto com os nossos fantasmas.

Coube a João Antunes e ao filme “Os Terríveis” assumirem o segundo momento da sessão, trazendo consigo uma história de vingança no seio de uma família. Franco e Agostinho são dois irmãos ligados pela violência e que guardam na memória o suicídio da sua mãe. Ao fim de décadas na sombra, o confronto com o pai, a fonte dos seus pesadelos, irá pôr em causa a natureza das suas convicções. “Filme de escola” com a marca da Lusófona Filmes, “Os Terríveis” vai beber ao “western” o seu formalismo, expandindo o género por terrenos do drama familiar, do thriller e do terror. Ao invés de o fragilizar, a desconstrução do género é sabiamente explorada por João Antunes para se aproximar do espectador, envolvendo-o na trama do filme e levando-o a, também, ele, a fazer escolhas. O cunho operático, nas sequências de maior tensão, é outro dos pontos fortes do filme, tirando partido da música de Verdi e Delibés, sobretudo, e trazendo à memória cenas icónicas de algum do melhor cinema que realizadores como Francis Ford Coppola, Brian De Palma, Peter Greenaway ou Quentin Tarantino nos legaram. Uma última palavra para a excelente fotografia de João “Pepe” Pereira e para a superior interpretação de David Medeiros e Eduardo Frazão no papel dos dois irmãos.

Chico Noras colocou um ponto final no serão com “O Procedimento”, uma comédia negra que faz girar a narrativa em torno da morte, mas neste caso medicamente assistida, vulgo “eutanásia”. A acção decorre num futuro que se pretende (?) próximo, no qual o suicídio e a morte assistida são procedimentos moralmente aceites, introduzidos com naturalidade no nosso quotidiano. De forma bem humorada, o filme funciona como um mediador entre o pensamento e a emoção, ajudando-nos a reflectir sem dogmatismos. Ao transformar um tema sério em comédia, Chico Noras não está a banalizá-lo, antes a convidar-nos a abordá-lo com leveza crítica, desarmando preconceitos e pondo em evidência o absurdo da vida e da morte. Mais provocador do que moralista, o filme é de uma enorme riqueza nas camadas que o compõem, da problemática religiosa em momentos decisivos da nossa existência ao negócio que se abriga à sombra das clínicas de “ajuda” na aproximação ao momento derradeiro. No papel de Maria Eugénia, Paula Só é um espectáculo dentro do espectáculo e o uso da cor, ao evidenciar o kitsch que o nacional foleirismo encerra, é outro dos trunfos do filme. As sequências estão recheadas de momentos divertidos e, para animar a festa, não falta sequer a música de José Pinhal. Um belo filme, a merecer o voto do público como a melhor curta da noite.

sábado, 16 de dezembro de 2023

CONCERTO: Orquestra Clássica de Espinho convida Kandace Springs



CONCERTO: Orquestra Clássica de Espinho convida Kandace Springs
Direcção musical | Diogo Costa
Auditório de Espinho
15 Dez 2023 | sex | 21:30


Repetindo a receita de 2022, coube à Orquestra Clássica de Espinho fechar a programação anual do Auditório, convidando para o efeito a pianista e vocalista norte-americana Kandace Springs. Tributo a Billie Holliday, o concerto debruçou-se sobre o penúltimo registo discográfico de Lady Day, o icónico “Lady in Satin”, permitindo recordar temas tão marcantes como “I’m a Fool to Want You”, “I Get Along Without You Very Well”, “You’ve Changed” ou “Strange Fruit”. Mas antes de avançar com a visão de um momento pleno de significado, cabe-me reafirmar, no final de mais um ano, o meu apreço e gratidão ao Auditório de Espinho e aos responsáveis pela sua programação nas mais diversas áreas, com particular ênfase na música clássica e no jazz. A minha admiração não é de agora, mas consolida-se a cada ano, adivinhando-se uma enorme ginástica financeira e uma sábia gestão de recursos que encontram, na paixão que os responsáveis dedicam às artes e à música, o verdadeiro contraponto. É isto que permite, em tempos que não são de desafogo, oferecer nomes tão sonantes como os de Henri Texier, Django Bates, Dave Douglas, Joey Baron, Susana Baca, Louis Sclavis, Seun Kuti, Stanley Clarke, Michael Wollny, Wim Mertens, Hauschka ou John Scofield, sem esquecer os “nossos” Carlos Bica, Daniel Bernardes, Selma Uamusse, Tó Trips, João Barradas, João Paulo Esteves da Silva e A Garota Não, entre muitos outros. Absolutamente espantoso!

Emoções desencontradas. Talvez seja esta a forma mais adequada para definir o concerto da noite de ontem, pelo menos do meu ponto de vista. Foi já no “encore” que Kandace Springs, depois de muito instada pelo público, se sentou ao piano e, a solo, emprestou a sua voz a “Solitude”. O momento foi especialmente marcante, não apenas por ser este um dos mais belos temas da carreira de Billie Holliday e da própria história do Jazz, mas também porque a voz de Springs pôde ser escutada em toda a sua plenitude, numa preciosa combinação de elegância, graça, delicadeza, harmonia e ritmo. Secretamente, desejei que o concerto tivesse sido apenas de voz e piano, mas logo me arrependi, tão bons foram alguns momentos de que se revestiu, tão intensos e vivos. Se Kandace Springs é merecedora do maior aplauso - à voz cuidada somam-se a descontração em palco e o seu sentido de humor -, a secção rítmica, com Carlos Azevedo no piano, José Carlos Barbosa no contrabaixo e Gonçalo Ribeiro na bateria, não o é menos. Omnipresentes, Barbosa e Ribeiro mostraram-se ao mais alto nível no acompanhamento dos trabalhos, o seu sentido de oportunidade e do ritmo a serem uma constante. Já Carlos Azevedo foi igual a si próprio, os seus apontamentos a emprestarem ao concerto notas de sedução e brilhantismo que em muito o enriqueceram.

Dito isto, podemos concluir que o problema esteve na Orquestra? Diria que sim e que não. Recordando as intervenções plenas de intencionalidade e de virtuosismo de um Daniel Dias no trombone ou de um Nuno Magalhães no clarinete, de um Miguel Dantas na guitarra ou de Beatriz Alves, Catarina Gouveia, Luís Oliveira e Guilherme Oliveira nos coros, enfim, de Maria Eduarda Sousa na harpa, de Miguel Coelho nas percussões e de todos os restantes elementos da Orquestra, seria profundamente injusto dizer que foi ela “a má da fita”. Mas mais de sessenta músicos em palco, numa sala relativamente pequena, foi desafio com o qual a voz de Kandace Springs mal pôde ombrear, vendo-se frequentemente abafada pelos instrumentos. Não fossem os momentos mais suaves e íntimos que vestem os temas de “Lady in Satin” e teríamos o caldo completamente entornado (pense-se no voto de Boas Festas que foi, a encerrar o concerto, o “Adeste Fidelis”, e o modo como os quatro elementos do coro não conseguiram fazer-se ouvir, para se perceber onde quero chegar). Sei que o grande compromisso da Orquestra é com a Escola de Música e a todos é devida uma oportunidade mas… Com trinta músicos no primeiro dia e outros trinta no segundo, saíamos todos a ganhar. Mas isto sou eu a dizer, com a minha mania de esperar sempre o melhor de dois mundos.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

domingo, 15 de outubro de 2023

CONCERTO: A garota não



CONCERTO: A garota não
Com | Ensemble de Cordas da Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção | Trevor McTait (arranjos de Nuno Peixoto e Francisco Ribeiro)
Auditório de Espinho
14 Out 2023 | sab | 21:30


“Espinho recebe Setúbal para a 38ª jornada do campeonato. O árbitro já avisou que em vez de cartões amarelos e vermelhos levará consigo uma cartolina a dizer “Casa comigo, Sérgio Miendes!” O Setúbal preparou um alinhamento fortíssimo e vai entrar em palco num esquema de 3 + 15 com o maravilhoso Ensemble de Cordas da Escola Profissional de Música de Espinho. A treinadora justifica a opção do extraordinário número de players com a necessidade de fazer frente à exigente plateia de espinhenses que esgotaram o estádio antes mesmo dos bilhetes terem sido postos à venda (sensacionalismo).”

Foi desta forma - ousada, irreverente, carregada de humor e ironia - que Cátia Mazari Oliveira, A garota não, se fez anunciar na sua vinda a Espinho, para um concerto há muito tempo esgotado. Um concerto que foi, todo ele, um manancial de livre pensamento, feito de químicas e dilúvios, de amores urgentes e canções sem final. Interventiva, contestária, insatisfeita, inquieta, ao longo de quase duas horas A garota não partilhou com o público a força das palavras e a beleza da música, entremeando-as com saborosas histórias onde couberam, entre outros, um cdzito a rodar constantemente e a massacrar clientes de um restaurante “com músicas que não valem uma bufa”, um carola que perfez 50 concertos de A Garota Não (“o que diz muito da sua sanidade mental”), canções do amor que correu bem e canções do amor que correu mal, relações falhadas mas bons amigos, a bancada mais à direita do parlamento substituída por uma bancada de poetas, o futebol filosófico dos Monty Python, os discos do Sérgio Miendes ou a vingança dos técnicos de som.

Na esteira das histórias de A garota não, conto também uma história. Há um mês atrás fui à FNAC. Queria comprar o 2 de Abril, o CD de que tanto se tem falado, não só para poder ouvi-lo sempre que o entendesse mas, também, para poder levá-lo para o concerto e, quem sabe, colher um autógrafo. Na loja disseram-me que não, que nem em vinil, que o 2 de Abril não conheceu suporte físico, apenas nas plataformas digitais poderia ser encontrado. Ontem soube que é falsa a informação. Comprei o CD (comprei também o anterior CD da cantora e ainda o do Sérgio Mendes) e, para espanto meu, vinha assinado e tudo. Importa agora dizer o seguinte: Este disco é todo feito à mão, sai à cantora os olhos da cara. Se ela pusesse os seus discos à venda nas FNAC’s e em lojas assim, “de peso”, ainda teria de pagar para os ter lá. Por isso prefere manter o processo em modo caseiro, tipo trabalhos manuais, “de mãos dadas com uma menina em Setúbal que se chama Ana Polido e que faz deliciosos trabalhos de costura, unidade a unidade.” A liberdade não está à venda. Conquista-se. Mas dá muito trabalho.

Na companhia de Diogo Costa (bateria e percussão) e Sérgio Mendes (guitarras), a cantora deu-se a ver de forma limpa e livre, revelando influências que vão do hip hop ao reggae, da música cabo-verdiana à música popular brasileira. No fundo das letras e das músicas descobrimos os genes do arrojo e da bravura, da arte e do talento. Também os genes da verdade, do peito aberto, que a mostram em brandura e sonho, vontade de lutar e vontade de vencer. Foi comovente a forma como soube agradecer o empenho dos 15 elementos do Ensemble de Cordas da Escola Profissional de Música de Espinho, que enriqueceram temas como “Prédio mais alto”, “Não sei o que é que fica” e Dilúvio”. Com ela, o público soube que há vozes que não se calam, que acreditam em lugares melhores do que aquele em que nos encontramos e que procuram, com as suas canções, servir de veículo para que esses lugares possam estar mais perto de nós. Lugares que cantem um dia mais claro e um tempo mais doce, lugares de todos - pretos, baixos, velhos, tortos -, lugares onde não se tenha de chorar a morte da Maria das Dores (e da Sara, da Cássia, da Madalena, da Assunção, da Maria, da Elsa, da Conceição, e de todas as outras mulheres mortas, vítimas de violência doméstica em 2022). O caminho é longo, a viagem é comprida, mas A garota não está a fazê-lo.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

CONCERTO: Orquestra Clássica de Espinho convida Isabella Lundgren



CONCERTO: Orquestra Clássica de Espinho convida Isabella Lundgren
Direcção musical | Diogo Costa
Com Filip Ekestubbe (piano), Niklas Fernqvist (contrabaixo), Daniel Fredriksson (bateria)
Auditório de Espinho
17.Dez.2022 | sab | 21:30


O concerto poderia chamar-se “Uma Noite com Judy Garland”, que o título cair-lhe-ia como uma luva. Foi esta a proposta do Auditório de Espinho para fechar um ano absolutamente extraordinário ao nível da sua programação. Abrindo um parêntesis, arrisco-me mesmo a dizer que, se houvesse forma de premiar o mais eclético, coerente, influente e precioso conjunto de propostas musicais em sala do país, o Auditório estaria na linha da frente a bater-se de igual para igual com as melhores pelo galardão. Retomando o fio à meada, foi de sonho o concerto oferecido pela Orquestra Clássica de Espinho e pela sua ilustre convidada, Isabella Lundgren, uma das mais importantes vozes do jazz da Suécia. Com ela vieram também o pianista Filip Ekkestubbe, o contrabaixista Niklas Fernqvist e o baterista Daniel Fredriksson, completando um maravilhoso conjunto de sete dezenas de intérpretes em palco. Tudo o mais foi a magia da música, assente na história daquela que, no silêncio da noite, desejou muitas vezes “apenas algumas palavras verdadeiras de amor de um homem, em vez dos aplausos de milhares de pessoas.”

A abrir o concerto, um medley instrumental serviu para espevitar os sentidos, mas a primeira grande surpresa surgiu quando Isabela Lundgren, irrompendo pelo palco como se quisesse passar despercebida, juntou à música a sua voz. E que voz! Potente, profunda e, ao mesmo tempo, doce e delicada, deu a primeira nota de encanto nesse intenso “Rock-a-Bye Your Baby”, colando-se à voz e à presença de alguém cuja vida e música, como veremos, vão muito além de “Over the Rainbow” e de “O Feiticeiro de Oz”. Ao longo de uma hora e meia, Isabella Lundgren cantou e encantou. Ofereceu o maior carinho e desfez-se em elogios à Orquestra e ao seu Director, Diogo Costa; abraçou duas jovens vozes femininas, Beatriz Alves e Catarina Gouveia, com quem partilhou o palco numa maravilhosa rapsódia; e falou, como se de um documentário fosse, da atribulada vida de Judy Garland, onde cabem a lenda e o mito, o poder e controlo da voz, a intuição e inteligência em palco, mas também os problemas devidos ao abuso do álcool e dos medicamentos, a exploração por quem se arvorou em dono do seu destino, a profunda depressão e a morte acidental por overdose de barbitúricos aos 47 anos.

“You Made Me Love You” levou o público ao encontro de uma Judy Garland que, com apenas 15 anos, foi apresentada a Hollywood ao cantar a sua admiração por Clark Gable numa festa de aniversário do actor promovida pelos Estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer. “Zing! Went The Strings of My Heart” foi uma explosão de vida no vigor da juventude e “Me and My Shadows”, além de falar de Mickey Rooney, com quem a actriz e cantora viria a estabelecer uma sólida relação de amizade, fala também de obstinação, resistência e rebeldia. “The Trolley Song” traz-nos outro momento marcante na vida de Judy Garland, um momento de afirmação interior e reforço da auto-estima pela forma como Vincent Minelli, o seu primeiro marido, a filmou no extraordinário “Meet Me In St. Louis”. Em palco, com um coro de suporte formado por Beatriz Alves, Catarina Gouveia, Fabiano Oliveira e Pedro Simões, Isabella Lundgren soube realçar o lado romântico e, ao mesmo tempo, divertido, de uma canção que nunca teve o reconhecimento merecido, condenada a viver à sombra desse incontornável clássico de Natal que é “Have Yourself a Merry Little Christmas”.

“Judy Garland Medley” constituiu um dos momentos mais altos do concerto, não apenas pela graça de vermos Lundgren a cantar em dueto ou em trio com Beatriz Alves e Catarina Gouveia, mas sobretudo pela forma como Beatriz Alves mostrou ter a música na alma. É verdadeiramente invulgar aquilo de que é capaz esta jovem com apenas 15 anos e, se o futuro fizer com que siga a via do palco, muito vamos ouvir falar desta extraordinária cantora. O resto do concerto foi de confirmação, não apenas dos dotes vocais da convidada, mas também da qualidade de uma Orquestra que soube tocar “com o coração”. Completamente rendido, o público bebeu a beleza da música e a emoção que dela se desprende em temas como “The Man That Got Away”, “I Don’t Care”, “Get Happy”, “By Myself” ou “It Was Never You”, este último envolto em raro intimismo, cantado com o acompanhamento exclusivo do piano de Filip Ekestubbe. Guardado para o final, “Over The Rainbow” foi o remate perfeito de uma noite de sonho. Nos nossos corações ficam a Orquestra Clássica de Espinho e Isabella Lundgren que, em ternura e dádiva, renderam a mais sentida homenagem a Judy Garland. Ficam, ainda, as palavras que James Mason proferiu na cerimónia fúnebre: “A grande dádiva de Judy foi ter conseguido com que as lágrimas brotassem do próprio coração das pedras. Ela deu-se tão rica e generosamente que não há moeda nenhuma no mundo com a qual possamos retribuir-lhe”.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

sexta-feira, 24 de junho de 2022

CONCERTO: "Ravel et le Jazz"



CONCERTO: “Ravel et le Jazz”
Belmondo Quintet | Orquestra Clássica de Espinho
Direcção musical | Diogo Costa
48º FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Praça do Progresso, Espinho
17 Jun 2022 | sex | 22:00


O Festival Internacional de Música de Espinho vestiu-se com as cores do jazz no arranque da sua 48ª edição. Do jazz, mas também da música clássica, numa combinação arrojada que teve o condão de harmonizar as duas grandes matrizes da entidade organizadora do Festival, a Academia de Música de Espinho. Ambiciosa, a aposta num concerto iminentemente eclético teve nos compositores modernistas franceses, sobretudo em Maurice Ravel, mas também em Claude Debussy e Erik Satie, uma extraordinária âncora, com base na qual Lionel Belmondo modelou um conjunto de arranjos subtis e de enorme qualidade e bom gosto. Lionel Belmondo que, com os seus saxofones e flauta, liderou o quinteto que pontificou neste concerto de abertura, tendo a seu lado o irmão Stéphane Belmondo (trompete e fliscorne), Laurent Fickelson (piano), Sylvain Romano (contrabaixo) e Tony Rabeson (bateria), coadjuvantes perfeitos numa noite inspirada. Em torno do quinteto, a parte e o todo em simultâneo, a Orquestra Clássica de Espinho, sob a direcção do maestro Diogo Costa, mostrou-se igual a si própria: sóbria, sólida, irrepreensível.

Escrita inicialmente para piano por Claude Debussy, em 1914, a suite “Six Épigraphes Antiques” tem em “Pour l’Egyptienne” um dos seus mais belos movimentos. Foi este o tema de abertura do concerto, ficando desde cedo demonstrada a adequação de géneros no seu desenvolvimento, muito por culpa do virtuosismo de Lionel Belmondo e restantes membros do quinteto. A Orquestra soube envolver em sonoridades doces os apontamentos jazzísticos, o todo resultando num momento de puro prazer a prenunciar um concerto inesquecível. Seguiu-se “Berceuse sur le nom de Gabriel Fauré”, de Maurice Ravel, e o êxtase repetiu-se. Stéphane Belmondo expressou a sua enorme qualidade num longo solo de trompete, mas foi Laurent Fickelson quem mais se fez notar, o piano dividido entre a dolente linguagem clássica e os ritmos vibrantes do jazz. Prelúdio do 1º acto de “Les Fils des Étoiles”, de Erik Satie, “La Vocation” foi mais um momento mágico, tal como o foram “Le Plus Que Lent”, de Debussy, ou “Yusef’s Tree”, uma peça escrita por Lionel Belmondo e que é um tributo a Yusef Lateef, a par de Milton Nascimento uma das figuras do jazz que mais tem influenciado o agrupamento.

Exploração empolgante dos cruzamentos entre universos musicais, “Ravel et le Jazz” foi, já o disse, um enorme concerto. Sob o manto da modernidade, os temas clássicos tomam formas inesperadas. Rompendo com a tradição, os sons e ritmos desenvolvidos de um e outro lado do Atlântico no primeiro quartel do século passado mostram, afinal, ter muito mais em comum do que aquilo que poderíamos supor. Só por isto, todas as palavras de reconhecimento que possa dirigir à organização do Festival serão poucas. Mas há também esse pormenor de vital importância que é a oferta do Concerto à cidade, prosseguindo no extraordinário esforço de valorizar a cultura e, em particular, a música, aproximando-a daqueles que menos acesso têm a ela. O novo espaço da Praça do Progresso albergou um numeroso público, mostrando-se perfeitamente adequado a este tipo de manifestações. Resta falar dos mais novos, dos alunos da Academia, os músicos de amanhã. Foi deles o primeiro grande momento, cantando em conjunto um tema que foi, em si mesmo, um hino à alegria. Que venham mais concertos como este!

[Foto: Filipe Pereira, Festival Internacional de Música de Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho]