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domingo, 8 de novembro de 2026

DANÇA: “This is not a protest” | São Castro



DANÇA: “This is not a protest”
Direção coreográfica | São Castro
Direção musical | Rui Rodrigues
Música | Alexej Gerassimez, Ty Ellender, Pascal le Boeuf, Emma O’Halloran, Ivan Trevino, Giovanni Sollima, Viet Cuong, John Psathas, Joan Sebastian Bach Desenho de luz | Cárin Geada
Intérpretes / bailarinos | Diogo M. Santos, Matilde Barbas, Nara Gonçalves, Nuno Velosa
Intérpretes / músicos | Grupo de Percussão da Escola Profissional de Música de Espinho - António Ferreira, André Silva, Pedro Leal, Tomás Marques
Produção | Play False - Associação Cultural
80 Minutos | Maiores de 6 Anos
Auditório de Espinho - Academia
06 Nov 2026 | sex | 21:30


Uma mesa que é casa e abrigo, mas também lugar de confronto e medição de forças; vários copos que, tocados entre si, nos oferecem uma experiência sinestésica; uma marimba que nos leva numa viagem ao som de Bach. Foi assim o serão da passada sexta-feira, no Auditório de Espinho, com a estreia absoluta de “This is not a protest”, criação da coreógrafa São Castro, numa parceria entre a Play False - Associação Cultural e a Escola Profissional de Música de Espinho. Com direcção musical de Rui Rodrigues, o espectáculo parte de uma ideia tão elementar quanto sugestiva: o impacto. Quatro bailarinos e quatro percussionistas reúnem-se em torno de uma composição onde a intensidade física e sonora se afirma como matéria dramatúrgica. Não se pense, porém, que o impacto da peça se esgota numa dimensão sensorial que vive apenas de som e movimento. São Castro acrescenta-lhe um conjunto de objectos que, manipulados com intenção e imaginação, ultrapassam a barreira da sua própria utilidade, adquirindo novas formas, contextos e significados e provocando um enorme efeito surpresa no espectador. Este acaba por ser o ponto de partida para uma reflexão sobre aquilo que antecede a ruptura: a acumulação de tensões, a inquietação perante uma determinada ordem, o impulso que leva um indivíduo a reconhecer-se num colectivo. Mais do que representar um protesto, o espectáculo procura explorar o território que o torna possível, sem a necessidade de identificar uma causa ou de assumir uma posição discursiva. Interessa-lhe menos o acto de contestar do que a energia que o prepara e a forma como essa energia se manifesta nos corpos.

O som que irrompe do silêncio, o corpo que desafia o espaço, a presença que se impõe. A percussão não funciona aqui como mero acompanhamento da dança. É força actuante, interlocutora e, por vezes, antagonista do movimento. Os corpos respondem aos ritmos, procuram-nos, desafiam-nos e interrompem-nos, numa relação em que o diálogo tanto se constrói pela consonância como pelo conflito. O som ganha espessura física, quase táctil, enquanto o movimento parece adquirir uma dimensão acústica, como se cada deslocação, queda ou suspensão transportasse uma vibração própria. Há uma energia quase visceral nesta aproximação entre músicos e bailarinos, alimentada pelo choque dos instrumentos e pela fisicalidade dos gestos. A teatralidade emerge e é sem surpresa que reconhecemos o bailarino metamorfoseado no percussionista e o percussionista no bailarino. A escolha de um repertório de forte intensidade reforça esta atmosfera, criando uma tensão permanente entre disciplina e desordem, sincronização e ruptura, impulso individual e acção conjunta. Contudo, é na recusa de uma leitura unívoca que a coreografia encontra uma das suas linhas de maior interesse. Aquilo que se vê não se esgota naquilo que representa. Um gesto pode sugerir confronto, resistência ou afirmação de presença, mas também admitir sentidos inesperados, dependendo do olhar de quem o observa. A dança torna-se, assim, um território de possibilidades, onde a intenção de quem cria não determina inteiramente a interpretação de quem assiste.

É nessa margem interpretava de múltiplos significados que “This is not a protest” convoca a plateia e lhe atribui um papel que ultrapassa o de simples testemunha. Sem uma causa explícita, um slogan ou uma bandeira, a peça não deixa, porém, de transportar uma dimensão política que liga o corpo, enquanto território de expressão, à acção colectiva, enquanto possibilidade de ruptura. Num tempo em que os gestos públicos são frequentemente convocados para representar posições, identidades e reivindicações, a criação de São Castro parece interrogar a facilidade com que atribuímos significados àquilo que vemos. A ausência de uma mensagem fechada constitui simultaneamente o seu desafio e o seu risco. Ao privilegiar a sugestão sobre a afirmação, o espectáculo exige disponibilidade para aceitar a ambiguidade e reconhecer que nem todas as manifestações precisam de uma causa identificável para produzirem inquietação. A dramaturgia prolonga-se, por isso, para lá do palco, no modo como cada espectador organiza as imagens, escuta os silêncios e interpreta os movimentos. Por fim, uma palavra para Diogo M. Santos, Matilde Barbas, Nara Gonçalves, Nuno Velosa, António Ferreira, André Silva, Pedro Leal, Tomás Marques, intérpretes brilhantes de um espectáculo que perdura para lá do seu final. Ancorada no ritmo, a simbiose entre os vários intérpretes revelou-se perfeita, reforçando a coerência, a intencionalidade e a inteligência da proposta. São eles que nos dizem que nem sempre é necessário gritar para que uma inquietação se faça ouvir.

domingo, 1 de março de 2026

CONCERTO: Música de Câmara | Escola Profissional de Música de Espinho



CONCERTO: Música de Câmara
Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção musical | Trevor McTait
Com | Leonor Neves (piano), Pedro Castro (violino), Angel Luna (trompa), Luisa Margalho (violino), Maria Helena Perez (violino), Leonor Colaço (flauta), Beatriz Santos (fagote), Viviana Pereira (piano), Matilde Rocha (piano), Miguel Martins (violino) e Joana Pinto (violoncelo)
ReabilitaSons 2026
Centro de Reabilitação do Norte
26 Fev 2026 | qui | 17h30


No retomar da parceria entre a Escola Profissional de Música de Espinho e o Centro de Reabilitação do Norte, o “ReabilitaSons” voltou a afirmar-se, muito mais do que um ciclo de concertos, como uma declaração de princípios sobre a reabilitação integral. À luz das recomendações da Organização Mundial de Saúde e do sublinhar do papel determinante das artes na promoção da saúde mental e física, iniciativas desta natureza têm vindo a revelar-se instrumentos terapêuticos subtis, mas de profunda eficácia. Foi isso que se percebeu ao final da tarde da passada quinta feira, com a música a saber intrometer-se num espaço habitualmente marcado por rotinas clínicas e desafios exigentes e a introduzir uma suspensão no tempo, abrindo nele rasgos de beleza e transcendência. Utentes, familiares e profissionais tiveram o privilégio de partilhar o mesmo silêncio expectante e o mesmo aplauso caloroso, dissolvendo hierarquias na comunhão estética. A cultura foi, não ornamento, antes extensão do cuidar no que tem de estimulação da memória, convocação de emoções, reforço de vínculos e demonstração da capacidade de restituir aos doentes uma dimensão de participação activa na vida comunitária.

Fazer de cada concerto um gesto de inclusão e um exercício de esperança, levando a reabilitação física ao encontro de uma reabilitação emocional e social mais ampla e humanizada, voltou a ser o grande desígnio, com o programa a evidenciar inteligência na construção e diversidade nas propostas. A abertura com o Trio n.º 1 de Duvernoy, no diálogo entre piano, violino e trompa, trouxe clareza formal e elegância melódica, num Adagio de linhas cantáveis seguido de um Allegretto leve e comunicativo. De seguida, a célebre “Träumerei”, de Robert Schumann, aqui em arranjo para dois violinos, pairou sobre a sala com a delicadeza de uma confidência, explorando a respiração conjunta das intérpretes. O Larghetto do Trio (A.507) de Gaetano Donizetti revelou um lirismo operático transposto para a música de câmara, com flauta e fagote a entrelaçarem-se sobre o suporte atento do piano. Um momento de sublime beleza e encanto que nem uma arreliadora falha técnica conseguiu beliscar. A Sonata para dois violinos, Op.56, de Sergei Prokofiev, no seu Andante cantabile, expôs um equilíbrio subtil entre tensão e doçura, exigindo maturidade expressiva e rigor técnico que os dois violinos tão bem souberam assumir.

O fecho com o Trio com piano em Si bemol maior, K.254, de Wolfgang Amadeus Mozart, devolveu ao auditório a luminosidade clássica e a arquitetura transparente que caracterizam o génio de Salzburg. No Allegro assai, destacou-se a vivacidade do discurso e a articulação cuidada entre os três instrumentos, enquanto o Adagio trouxe recolhimento e nobreza de fraseado, num diálogo onde cada voz encontrou espaço e propósito. Ao longo de todo o concerto, os jovens músicos da Escola Profissional de Música de Espinho revelaram não apenas competência técnica, mas uma postura de entrega e consciência do contexto em que actuaram. Tocaram para um público particular, atento e emocionalmente investido, e souberam ajustar dinâmicas, respirações e silêncios a essa circunstância. Houve frescura, mas também responsabilidade artística; houve rigor, mas igualmente empatia. E nesse equilíbrio entre exigência e humanidade residiu a verdadeira grandeza da tarde: a música como ponte e cuidado, celebração e partilha.

domingo, 18 de maio de 2025

CONCERTO: Música de Câmara | Escola Profissional de Música de Espinho



CONCERTO: Música de Câmara
Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção musical | Trevor McTait
ReabilitaSons 2025
Centro de Reabilitação do Norte
15 Mai 2025 | qui | 17h30


O envolvimento com a arte é altamente benéfico para a saúde mental e física do ser humano. Quem o diz é a Organização Mundial de Saúde, num Relatório publicado em 2019 e que se baseia na interpretação de mais de novecentas publicações globais, a mais abrangente análise sobre o assunto até então. Nas instituições de saúde, por exemplo, o estudo indica que actividades como a música ou a leitura constituem um excelente complemento aos protocolos de tratamento, sendo vários países a trabalhar no desenvolvimento de sistemas de prescrição, mediante os quais os doentes são direccionados para actividades de âmbito social, cultural e artístico. No Centro de Reabilitação do Norte, há muito que a tomada de consciência para a importância da Arte e da Cultura nas dinâmicas e processos reabilitadores dos doentes é uma realidade, com a consequente promoção de iniciativas que congregam interesses e vontades e proporcionam momentos de união e partilha verdadeiramente enriquecedores e reabilitadores. Está neste caso o ciclo de concertos “ReabilitaSons”, resultado de uma parceria do Centro de Reabilitação do Norte com a Escola Profissional de Música de Espinho.

Iniciada no passado mês de Março, o ReabilitaSons viu cumprir-se, na tarde da passada quinta-feira, o quarto de cinco momentos musicais que o integram, voltado desta feita para a Música de Câmara. Perante um auditório cada vez mais vasto e atento, o concerto contou com a direcção musical de Trevor McTait e distribuiu-se por quatro momentos distintos, ligando a chamada música erudita à música de raiz tradicional, superiormente representada pelo Fado. Com Dinis Coimbra e Trevor McTait no violino e Dinis Augusto no contrabaixo, o primeiro momento trouxe Tomaso Albinoni ao encontro dos presentes, com dois andamentos - Adagio e Allegro - da Sonata n.º 1, Opus 8. O barroco voltou a ser a figura de proa do segundo momento da tarde, com a interpretação de excertos de duas peças de Johann Sebastian Bach. Leonor Colaço (flauta), Pedro Castro (violino) André Fernandes (vibrafone) e Beatriz Santos (fagote) trouxeram-nos, numa conjugação de instrumentos deliciosamente entrosados, o Contrapunctus VII, de “A Arte da Fuga”, e Fuga n.º 1 em Dó Maior, de “O cravo bem temperado”, duas peças reveladores do virtuosismo daquele que é considerado por muitos como o maior compositor de todos os tempos.

Um quarteto formado por Miguel Martins (violino), Leonor Cirne (violino), Marta Monteiro (viola d’arco) e Joana Pinto (violoncelo) foi responsável pelo momento seguinte, dando a escutar um andamento do “Quarteto de cordas, Opus 20 n.º 3 em Sol menor”, de Joseph Haydn, com ele expondo a rica e harmoniosa paleta de sonoridades do compositor vienense, uma das figuras mais marcantes do período Clássico. Integrando-se com graça e beleza num programa que teve na música erudita a sua pedra de toque, o Fado irrompeu na sala pela voz de Joana Pereira, devidamente acompanhada por Marta Alecrim (guitarra portuguesa) e Rodrigo Lopes (guitarra). O momento abriu com um tradicional “Fado Menor”, seguido de dois instrumentais, “Canto do Rio”, de Carlos Paredes e “Variações em Lá menor”, de João Bagão. “Fado do Ciúme” e “Naufrágio”, de, respectivamente, Frederico Valério e Alain Oulman - imortalizados na voz de Amália Rodrigues -, colocaram o ponto final num programa com direito a “encore” e que viu os presentes juntarem as suas vozes às da fadista na interpretação de “Uma Casa Portuguesa”. O final perfeito de uma tarde de música, com tudo para agradar a todos.

terça-feira, 15 de abril de 2025

CONCERTO: Grupo de Percussão da Escola Profissional de Música de Espinho



CONCERTO: Grupo de Percussão da Escola Profissional de Música de Espinho
Com | António Ferreira, Alexandre Barbosa, Gaspar Costa, Miguel Coelho, Hugo Oliveira, Tomás Marques, Pedro Leal e Catarina Gouveia
ReabilitaSons 2025
Centro de Reabilitação do Norte
10 Abr 2025 | qui | 21:30 


A marimba é um instrumento de percussão que se assemelha a um xilofone, com lamelas de madeira que ao serem tocadas por baquetas revestidas de lã ou feltro emitem um determinado som. De origem angolana, foi trazida para o Novo Mundo no século XVI, vindo a ganhar popularidade em países como a Guatemala, as Honduras, a Nicarágua ou o México. Foi este instrumento muito belo, possuidor de uma sonoridade quente e penetrante, o ponto fulcral do programa escolhido para preencher o terceiro concerto do ciclo ReabilitaSons, que desde o início do passado mês de Março tem vindo a decorrer no Centro de Reabilitação do Norte com assinalável êxito. A interpretação esteve a cargo do Grupo de Percussão da Escola Profissional de Música de Espinho, um agrupamento que acaba de completar 35 anos (tantos quantos a EPME) e que tem primado pela divulgação de obras referenciais da percussão, muitas delas em primeira audição em Portugal, assim como algumas estreias absolutas.

Perante uma assistência constituída na sua grande maioria por pessoas internadas no Centro de Reabilitação do Norte, os oito elementos do Grupo de Percussão da EPME articularam entre si a interpretação de um programa fortemente inspirado no folclore tradicional de um conjunto alargado de geografias, oferecendo ao público uma proposta de viagem pelos quatro cantos do mundo. Combinando a sua inegável qualidade interpretativa com uma forte presença em palco, perfeito na construção dos temas como nas coreografias que os vários elementos souberam desenvolver, o Grupo surpreendeu pela dedicação, entrega e emoção que soube espalhar entre a assistência, fazendo deste um momento verdadeiramente reabilitador para todos. De Nick Zoulek, escutou-se a abrir “Reminder: Grow Reflect Repeat”, peça de grande intensidade nos seus movimentos repetitivos, a remeter para um dos mestres do minimalismo, Steve Reich. Seguiu-se “Gratitude”, uma composição de Nathan Smith que destaca o potencial da marimba quando combinada com a voz humana, nesta peça ao cuidado de Catarina Gouveia.

Numa coreografia divertida, cinco elementos do Grupo fizeram a ponte entre Angola e o Brasil através de um mexido e bem ritmado “Radio Bossa”, lançando no ar uns pozinhos de “Tico-tico no Fubá”, “Garota de Ipanema” e “O Pato”. Voltamos a atravessar o Atlântico e eis-nos em Paris, de novo com uma composição de Nathan Smith e de novo pela voz graciosa e plena de charme de Catarina Gouveia. “Afta-Stuba!”, de Mark Ford, terá sido porventura o grande momento da tarde, as mudanças de ritmo marcadas por um divertido “jogar às escondidas” que arrancou sorrisos e aplausos à plateia. Numa homenagem ao folclore mexicano, “Marimba”, do compositor, percussionista e professor francês Émmanuel Séjourné, foi um final pleno de animação, ao qual não faltaram sequer maracas, pandeiretas e um vistoso “sombrero”. Grande tarde de música, oferecida por um conjunto de jovens que têm, para além do natural talento, o gosto da dádiva e da partilha enquanto pilares fundamentais para a construção de um mundo mais fraterno e solidário.

sábado, 29 de março de 2025

CONCERTO: Ensemble Vocal da Escola Profissional de Música de Espinho



CONCERTO: Ensemble Vocal EPME
Ensemble Vocal da Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção musical | Luís Castro, Miranda Sinani
Com | Luís Duarte (piano)
ReabilitaSons 2025
Centro de Reabilitação do Norte
27 Mar 2025 | qui | 17h30


Foi um final de tarde feliz, aquele vivido no Centro de Reabilitação do Norte na passada quinta feira. Perante um numeroso público, que encheu de alegria e sorrisos o espaço luminoso onde decorreu o evento, o Ensemble Vocal da Escola Profissional de Música de Espinho teve para oferecer um programa dedicado à voz e à expressão vocal, tanto numa vertente próxima do canto popular e, em particular, dos cânticos de trabalho, quanto numa vertente mais lírica, com abordagens a vários géneros musicais, em particular à música clássica. Integrando o ciclo “ReabilitaSons”, conjunto de cinco momentos musicais do qual este foi o segundo (depois do Combo de Jazz, no passado dia 06 de Março), o concerto juntou à vertente de saúde, pela importância das actividades deste âmbito no processo de reabilitação dos doentes, as componentes artística e educacional, reunindo um coro de quinze alunos da EPME, sob a direcção musical de Luís Castro e Miranda Sinani e com acompanhamento ao piano de Luís Duarte.

Os dois temas que abriram o concerto levaram os presentes numa viagem à Bulgária, ao encontro da sua tradição vocal e dos seus executantes, geralmente conhecidos por vozes búlgaras. “Bre Petrunko” e “Vecheryai, Rado” mostraram um conjunto de vozes de grande harmonia, capazes de transmitir as particularidades de uma música muito influenciada pela história trácia, otomana e bizantina da Bulgária, com os seus maravilhosos timbres inconfundíveis, escalas modais, ritmos irregulares e harmonias dissonantes. O momento teve o condão de conquistar o público e predispô-lo para os registos a solo ou em duo que se seguiram, com acompanhamento do piano. Numa bonita voz, Joana Pereira trouxe-nos “Heart of Stone”, um tema composto por Toby Marlow para o musical da Broadway, “Six”, viagem de cinco séculos entre a Inglaterra dos Tudor (o título remete para “As Seis Mulheres de Henrique VIII”) e os actuais ícones da pop.

Guilherme Oliveira mostrou-se convincente nas interpretações de “La Conocchia”, de Gaetano Donizetti, “Die Nacht”, de Richard Strauss e “Quero Cantar, Ser Alegre”, de Francisco de Lacerda, temas integrantes dos repertórios de alguns dos mais importantes cantores líricos do mundo e que, no Centro de Reabilitação do Norte, foram merecedores de vivos aplausos. Em crescendo, Polina Arkhanhelska interpretou, com grande segurança, “Mandoline”, de Fauré, para de seguida protagonizar, com Guilherme Oliveira, o mais aclamado momento do concerto, graças à apaixonada interpretação de “Love Unspoken”, da opereta “A Viúva Alegre”, de Franz Lehár. O coro voltou ao palco para novo tema do cancioneiro tradicional búlgaro, “Dilmano Dilbero”, as sonoridades arrebatadoras a tomarem de novo conta dos presentes. A fechar o concerto, a escolha recaiu sobre um tema da nossa tradição, o “Coro das Maçadeiras”, com a expressão corporal e a percussão a juntarem-se às vozes, num final enérgico e particularmente apelativo. Bravíssimo!

sábado, 8 de março de 2025

CONCERTO: Combo de Jazz da Escola Profissional de Música de Espinho



CONCERTO: Combo de Jazz EPME
Com | Catarina Gouveia (Voz), Miguel Dantas (Guitarra), Francisco Azevedo (Contrabaixo), Diogo Maia (Bateria)
ReabilitaSons 2025
Centro de Reabilitação do Norte
06 Mar 2025 | qui | 17:30


“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Assim tem sido no Centro de Reabilitação do Norte, com o desenvolvimento de um conjunto de propostas culturais a todos os títulos admirável e de reconhecidos méritos. Foi nesta onda de entusiástica entrega e grande dinamismo que o Centro voltou a abrir as suas portas, acolhendo, ao final da tarde da passada quinta-feira, o Combo de Jazz da Escola Profissional de Música de Espinho, para uma viagem pelos ricos e variados meandros deste género musical. Tratoy-se de um momento diferenciador para todos quantos tiveram a oportunidade de presenciar um concerto coroado de muitas palmas e sorrisos e que contou com uma importante adesão dos doentes internados no Centro, alguns deles fazendo-se acompanhar das respectivas famílias, para um tempo de união e partilha à volta da boa música. Ao encontro do blues e do swing, do bebop e do jazz mais tradicional, Miguel Dantas na guitarra, Francisco Azevedo no contrabaixo, Diogo Maia na bateria e Catarina Gouveia na voz preencheram o programa com um conjunto de standards jazzísticos que se revelaram do agrado de todos.

De emoção e muita animação se fez o tempo do concerto, com o primeiro tema a trazer-nos a música de Henry Mancini e a letra de Johnny Mercer em “Days of Wine and Roses”. Não sendo Sinatra, Catarina Gouveia mostrou-se numa voz cristalina, com grande plasticidade e uma simpática presença que a todos cativou. A secção rítmica não lhe ficou atrás, os apontamentos solísticos a surgirem espontâneos e livres, a puxarem a espaços pelos aplausos do público. Estava dado o mote para um concerto cujo alinhamento teria ainda para nos oferecer Charlie Parker e o seu “Billie’s Bounce”, um incontornável “Maiden Voyage” de Herbie Hancock e “Time After Time”, com música de Jule Styne e letra de Sammy Cahn, imortalizado nas vozes de Chet Baker ou Ella Fitzgerald. Já na parte final, os acordes de “Someday My Prince Will Come”, com música de Frank Churchill e letra de Larry Morey, trouxeram à memória o clássico de animação da Disney “Branca de Neve e os Sete Anões”, a secção rítmica a atingir aqui o ponto alto, com a voz de Catarina Gouveia a revelar-se mais sedutora que nunca. “Inner Urge”, composição do saxofonista Joe Henderson, teve o condão de fechar da melhor forma um momento que perdurará por muito tempo na memória de todos quantos tiveram a oportunidade de o presenciar.

Pontapé de saída do “ReabilitaSons”, série de cinco concertos resultantes de uma parceria com a Escola Profissional de Música de Espinho e que, até ao final de Maio, trará ao Centro de Reabilitação do Norte um alargado conjunto de músicos de excelência, o evento insere-se no esforço de dinamização cultural levado a cabo por esta unidade de saúde, no sentido de complementar a reabilitação física dos seus utentes com atividades promotoras do bem-estar psíquico e da inclusão social, numa visão holística e profundamente integradora. Foi nessa lógica que foi possível ver, lado a lado, utentes, famílias e profissionais de saúde, beneficiando de um momento em tudo distinto e, porque não dizê-lo, gerador de novos públicos, a julgar pelos muitos comentários no final de quem se viu rendido à harmonia e bom gosto do Jazz. Mérito, sem dúvida de um alinhamento inteligente, e de uma postura de grande entrega por parte dos jovens músicos, intérpretes geniais do conceito da música para todos num contexto iminentemente solidário e cúmplice. O ciclo de concertos prossegue no dia 27 de Março, às 17h30, com a apresentação do Ensemble Vocal da Escola Profissional de Música de Espinho. A iniciativa é aberta ao público em geral, não requer inscrição ou qualquer outro tipo de reserva e a entrada é livre.

domingo, 15 de outubro de 2023

CONCERTO: A garota não



CONCERTO: A garota não
Com | Ensemble de Cordas da Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção | Trevor McTait (arranjos de Nuno Peixoto e Francisco Ribeiro)
Auditório de Espinho
14 Out 2023 | sab | 21:30


“Espinho recebe Setúbal para a 38ª jornada do campeonato. O árbitro já avisou que em vez de cartões amarelos e vermelhos levará consigo uma cartolina a dizer “Casa comigo, Sérgio Miendes!” O Setúbal preparou um alinhamento fortíssimo e vai entrar em palco num esquema de 3 + 15 com o maravilhoso Ensemble de Cordas da Escola Profissional de Música de Espinho. A treinadora justifica a opção do extraordinário número de players com a necessidade de fazer frente à exigente plateia de espinhenses que esgotaram o estádio antes mesmo dos bilhetes terem sido postos à venda (sensacionalismo).”

Foi desta forma - ousada, irreverente, carregada de humor e ironia - que Cátia Mazari Oliveira, A garota não, se fez anunciar na sua vinda a Espinho, para um concerto há muito tempo esgotado. Um concerto que foi, todo ele, um manancial de livre pensamento, feito de químicas e dilúvios, de amores urgentes e canções sem final. Interventiva, contestária, insatisfeita, inquieta, ao longo de quase duas horas A garota não partilhou com o público a força das palavras e a beleza da música, entremeando-as com saborosas histórias onde couberam, entre outros, um cdzito a rodar constantemente e a massacrar clientes de um restaurante “com músicas que não valem uma bufa”, um carola que perfez 50 concertos de A Garota Não (“o que diz muito da sua sanidade mental”), canções do amor que correu bem e canções do amor que correu mal, relações falhadas mas bons amigos, a bancada mais à direita do parlamento substituída por uma bancada de poetas, o futebol filosófico dos Monty Python, os discos do Sérgio Miendes ou a vingança dos técnicos de som.

Na esteira das histórias de A garota não, conto também uma história. Há um mês atrás fui à FNAC. Queria comprar o 2 de Abril, o CD de que tanto se tem falado, não só para poder ouvi-lo sempre que o entendesse mas, também, para poder levá-lo para o concerto e, quem sabe, colher um autógrafo. Na loja disseram-me que não, que nem em vinil, que o 2 de Abril não conheceu suporte físico, apenas nas plataformas digitais poderia ser encontrado. Ontem soube que é falsa a informação. Comprei o CD (comprei também o anterior CD da cantora e ainda o do Sérgio Mendes) e, para espanto meu, vinha assinado e tudo. Importa agora dizer o seguinte: Este disco é todo feito à mão, sai à cantora os olhos da cara. Se ela pusesse os seus discos à venda nas FNAC’s e em lojas assim, “de peso”, ainda teria de pagar para os ter lá. Por isso prefere manter o processo em modo caseiro, tipo trabalhos manuais, “de mãos dadas com uma menina em Setúbal que se chama Ana Polido e que faz deliciosos trabalhos de costura, unidade a unidade.” A liberdade não está à venda. Conquista-se. Mas dá muito trabalho.

Na companhia de Diogo Costa (bateria e percussão) e Sérgio Mendes (guitarras), a cantora deu-se a ver de forma limpa e livre, revelando influências que vão do hip hop ao reggae, da música cabo-verdiana à música popular brasileira. No fundo das letras e das músicas descobrimos os genes do arrojo e da bravura, da arte e do talento. Também os genes da verdade, do peito aberto, que a mostram em brandura e sonho, vontade de lutar e vontade de vencer. Foi comovente a forma como soube agradecer o empenho dos 15 elementos do Ensemble de Cordas da Escola Profissional de Música de Espinho, que enriqueceram temas como “Prédio mais alto”, “Não sei o que é que fica” e Dilúvio”. Com ela, o público soube que há vozes que não se calam, que acreditam em lugares melhores do que aquele em que nos encontramos e que procuram, com as suas canções, servir de veículo para que esses lugares possam estar mais perto de nós. Lugares que cantem um dia mais claro e um tempo mais doce, lugares de todos - pretos, baixos, velhos, tortos -, lugares onde não se tenha de chorar a morte da Maria das Dores (e da Sara, da Cássia, da Madalena, da Assunção, da Maria, da Elsa, da Conceição, e de todas as outras mulheres mortas, vítimas de violência doméstica em 2022). O caminho é longo, a viagem é comprida, mas A garota não está a fazê-lo.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]