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domingo, 1 de março de 2026

CONCERTO: Música de Câmara | Escola Profissional de Música de Espinho



CONCERTO: Música de Câmara
Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção musical | Trevor McTait
Com | Leonor Neves (piano), Pedro Castro (violino), Angel Luna (trompa), Luisa Margalho (violino), Maria Helena Perez (violino), Leonor Colaço (flauta), Beatriz Santos (fagote), Viviana Pereira (piano), Matilde Rocha (piano), Miguel Martins (violino) e Joana Pinto (violoncelo)
ReabilitaSons 2026
Centro de Reabilitação do Norte
26 Fev 2026 | qui | 17h30


No retomar da parceria entre a Escola Profissional de Música de Espinho e o Centro de Reabilitação do Norte, o “ReabilitaSons” voltou a afirmar-se, muito mais do que um ciclo de concertos, como uma declaração de princípios sobre a reabilitação integral. À luz das recomendações da Organização Mundial de Saúde e do sublinhar do papel determinante das artes na promoção da saúde mental e física, iniciativas desta natureza têm vindo a revelar-se instrumentos terapêuticos subtis, mas de profunda eficácia. Foi isso que se percebeu ao final da tarde da passada quinta feira, com a música a saber intrometer-se num espaço habitualmente marcado por rotinas clínicas e desafios exigentes e a introduzir uma suspensão no tempo, abrindo nele rasgos de beleza e transcendência. Utentes, familiares e profissionais tiveram o privilégio de partilhar o mesmo silêncio expectante e o mesmo aplauso caloroso, dissolvendo hierarquias na comunhão estética. A cultura foi, não ornamento, antes extensão do cuidar no que tem de estimulação da memória, convocação de emoções, reforço de vínculos e demonstração da capacidade de restituir aos doentes uma dimensão de participação activa na vida comunitária.

Fazer de cada concerto um gesto de inclusão e um exercício de esperança, levando a reabilitação física ao encontro de uma reabilitação emocional e social mais ampla e humanizada, voltou a ser o grande desígnio, com o programa a evidenciar inteligência na construção e diversidade nas propostas. A abertura com o Trio n.º 1 de Duvernoy, no diálogo entre piano, violino e trompa, trouxe clareza formal e elegância melódica, num Adagio de linhas cantáveis seguido de um Allegretto leve e comunicativo. De seguida, a célebre “Träumerei”, de Robert Schumann, aqui em arranjo para dois violinos, pairou sobre a sala com a delicadeza de uma confidência, explorando a respiração conjunta das intérpretes. O Larghetto do Trio (A.507) de Gaetano Donizetti revelou um lirismo operático transposto para a música de câmara, com flauta e fagote a entrelaçarem-se sobre o suporte atento do piano. Um momento de sublime beleza e encanto que nem uma arreliadora falha técnica conseguiu beliscar. A Sonata para dois violinos, Op.56, de Sergei Prokofiev, no seu Andante cantabile, expôs um equilíbrio subtil entre tensão e doçura, exigindo maturidade expressiva e rigor técnico que os dois violinos tão bem souberam assumir.

O fecho com o Trio com piano em Si bemol maior, K.254, de Wolfgang Amadeus Mozart, devolveu ao auditório a luminosidade clássica e a arquitetura transparente que caracterizam o génio de Salzburg. No Allegro assai, destacou-se a vivacidade do discurso e a articulação cuidada entre os três instrumentos, enquanto o Adagio trouxe recolhimento e nobreza de fraseado, num diálogo onde cada voz encontrou espaço e propósito. Ao longo de todo o concerto, os jovens músicos da Escola Profissional de Música de Espinho revelaram não apenas competência técnica, mas uma postura de entrega e consciência do contexto em que actuaram. Tocaram para um público particular, atento e emocionalmente investido, e souberam ajustar dinâmicas, respirações e silêncios a essa circunstância. Houve frescura, mas também responsabilidade artística; houve rigor, mas igualmente empatia. E nesse equilíbrio entre exigência e humanidade residiu a verdadeira grandeza da tarde: a música como ponte e cuidado, celebração e partilha.

domingo, 18 de maio de 2025

CONCERTO: Música de Câmara | Escola Profissional de Música de Espinho



CONCERTO: Música de Câmara
Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção musical | Trevor McTait
ReabilitaSons 2025
Centro de Reabilitação do Norte
15 Mai 2025 | qui | 17h30


O envolvimento com a arte é altamente benéfico para a saúde mental e física do ser humano. Quem o diz é a Organização Mundial de Saúde, num Relatório publicado em 2019 e que se baseia na interpretação de mais de novecentas publicações globais, a mais abrangente análise sobre o assunto até então. Nas instituições de saúde, por exemplo, o estudo indica que actividades como a música ou a leitura constituem um excelente complemento aos protocolos de tratamento, sendo vários países a trabalhar no desenvolvimento de sistemas de prescrição, mediante os quais os doentes são direccionados para actividades de âmbito social, cultural e artístico. No Centro de Reabilitação do Norte, há muito que a tomada de consciência para a importância da Arte e da Cultura nas dinâmicas e processos reabilitadores dos doentes é uma realidade, com a consequente promoção de iniciativas que congregam interesses e vontades e proporcionam momentos de união e partilha verdadeiramente enriquecedores e reabilitadores. Está neste caso o ciclo de concertos “ReabilitaSons”, resultado de uma parceria do Centro de Reabilitação do Norte com a Escola Profissional de Música de Espinho.

Iniciada no passado mês de Março, o ReabilitaSons viu cumprir-se, na tarde da passada quinta-feira, o quarto de cinco momentos musicais que o integram, voltado desta feita para a Música de Câmara. Perante um auditório cada vez mais vasto e atento, o concerto contou com a direcção musical de Trevor McTait e distribuiu-se por quatro momentos distintos, ligando a chamada música erudita à música de raiz tradicional, superiormente representada pelo Fado. Com Dinis Coimbra e Trevor McTait no violino e Dinis Augusto no contrabaixo, o primeiro momento trouxe Tomaso Albinoni ao encontro dos presentes, com dois andamentos - Adagio e Allegro - da Sonata n.º 1, Opus 8. O barroco voltou a ser a figura de proa do segundo momento da tarde, com a interpretação de excertos de duas peças de Johann Sebastian Bach. Leonor Colaço (flauta), Pedro Castro (violino) André Fernandes (vibrafone) e Beatriz Santos (fagote) trouxeram-nos, numa conjugação de instrumentos deliciosamente entrosados, o Contrapunctus VII, de “A Arte da Fuga”, e Fuga n.º 1 em Dó Maior, de “O cravo bem temperado”, duas peças reveladores do virtuosismo daquele que é considerado por muitos como o maior compositor de todos os tempos.

Um quarteto formado por Miguel Martins (violino), Leonor Cirne (violino), Marta Monteiro (viola d’arco) e Joana Pinto (violoncelo) foi responsável pelo momento seguinte, dando a escutar um andamento do “Quarteto de cordas, Opus 20 n.º 3 em Sol menor”, de Joseph Haydn, com ele expondo a rica e harmoniosa paleta de sonoridades do compositor vienense, uma das figuras mais marcantes do período Clássico. Integrando-se com graça e beleza num programa que teve na música erudita a sua pedra de toque, o Fado irrompeu na sala pela voz de Joana Pereira, devidamente acompanhada por Marta Alecrim (guitarra portuguesa) e Rodrigo Lopes (guitarra). O momento abriu com um tradicional “Fado Menor”, seguido de dois instrumentais, “Canto do Rio”, de Carlos Paredes e “Variações em Lá menor”, de João Bagão. “Fado do Ciúme” e “Naufrágio”, de, respectivamente, Frederico Valério e Alain Oulman - imortalizados na voz de Amália Rodrigues -, colocaram o ponto final num programa com direito a “encore” e que viu os presentes juntarem as suas vozes às da fadista na interpretação de “Uma Casa Portuguesa”. O final perfeito de uma tarde de música, com tudo para agradar a todos.