Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Rodrigues. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Rodrigues. Mostrar todas as mensagens

domingo, 8 de novembro de 2026

DANÇA: “This is not a protest” | São Castro



DANÇA: “This is not a protest”
Direção coreográfica | São Castro
Direção musical | Rui Rodrigues
Música | Alexej Gerassimez, Ty Ellender, Pascal le Boeuf, Emma O’Halloran, Ivan Trevino, Giovanni Sollima, Viet Cuong, John Psathas, Joan Sebastian Bach Desenho de luz | Cárin Geada
Intérpretes / bailarinos | Diogo M. Santos, Matilde Barbas, Nara Gonçalves, Nuno Velosa
Intérpretes / músicos | Grupo de Percussão da Escola Profissional de Música de Espinho - António Ferreira, André Silva, Pedro Leal, Tomás Marques
Produção | Play False - Associação Cultural
80 Minutos | Maiores de 6 Anos
Auditório de Espinho - Academia
06 Nov 2026 | sex | 21:30


Uma mesa que é casa e abrigo, mas também lugar de confronto e medição de forças; vários copos que, tocados entre si, nos oferecem uma experiência sinestésica; uma marimba que nos leva numa viagem ao som de Bach. Foi assim o serão da passada sexta-feira, no Auditório de Espinho, com a estreia absoluta de “This is not a protest”, criação da coreógrafa São Castro, numa parceria entre a Play False - Associação Cultural e a Escola Profissional de Música de Espinho. Com direcção musical de Rui Rodrigues, o espectáculo parte de uma ideia tão elementar quanto sugestiva: o impacto. Quatro bailarinos e quatro percussionistas reúnem-se em torno de uma composição onde a intensidade física e sonora se afirma como matéria dramatúrgica. Não se pense, porém, que o impacto da peça se esgota numa dimensão sensorial que vive apenas de som e movimento. São Castro acrescenta-lhe um conjunto de objectos que, manipulados com intenção e imaginação, ultrapassam a barreira da sua própria utilidade, adquirindo novas formas, contextos e significados e provocando um enorme efeito surpresa no espectador. Este acaba por ser o ponto de partida para uma reflexão sobre aquilo que antecede a ruptura: a acumulação de tensões, a inquietação perante uma determinada ordem, o impulso que leva um indivíduo a reconhecer-se num colectivo. Mais do que representar um protesto, o espectáculo procura explorar o território que o torna possível, sem a necessidade de identificar uma causa ou de assumir uma posição discursiva. Interessa-lhe menos o acto de contestar do que a energia que o prepara e a forma como essa energia se manifesta nos corpos.

O som que irrompe do silêncio, o corpo que desafia o espaço, a presença que se impõe. A percussão não funciona aqui como mero acompanhamento da dança. É força actuante, interlocutora e, por vezes, antagonista do movimento. Os corpos respondem aos ritmos, procuram-nos, desafiam-nos e interrompem-nos, numa relação em que o diálogo tanto se constrói pela consonância como pelo conflito. O som ganha espessura física, quase táctil, enquanto o movimento parece adquirir uma dimensão acústica, como se cada deslocação, queda ou suspensão transportasse uma vibração própria. Há uma energia quase visceral nesta aproximação entre músicos e bailarinos, alimentada pelo choque dos instrumentos e pela fisicalidade dos gestos. A teatralidade emerge e é sem surpresa que reconhecemos o bailarino metamorfoseado no percussionista e o percussionista no bailarino. A escolha de um repertório de forte intensidade reforça esta atmosfera, criando uma tensão permanente entre disciplina e desordem, sincronização e ruptura, impulso individual e acção conjunta. Contudo, é na recusa de uma leitura unívoca que a coreografia encontra uma das suas linhas de maior interesse. Aquilo que se vê não se esgota naquilo que representa. Um gesto pode sugerir confronto, resistência ou afirmação de presença, mas também admitir sentidos inesperados, dependendo do olhar de quem o observa. A dança torna-se, assim, um território de possibilidades, onde a intenção de quem cria não determina inteiramente a interpretação de quem assiste.

É nessa margem interpretava de múltiplos significados que “This is not a protest” convoca a plateia e lhe atribui um papel que ultrapassa o de simples testemunha. Sem uma causa explícita, um slogan ou uma bandeira, a peça não deixa, porém, de transportar uma dimensão política que liga o corpo, enquanto território de expressão, à acção colectiva, enquanto possibilidade de ruptura. Num tempo em que os gestos públicos são frequentemente convocados para representar posições, identidades e reivindicações, a criação de São Castro parece interrogar a facilidade com que atribuímos significados àquilo que vemos. A ausência de uma mensagem fechada constitui simultaneamente o seu desafio e o seu risco. Ao privilegiar a sugestão sobre a afirmação, o espectáculo exige disponibilidade para aceitar a ambiguidade e reconhecer que nem todas as manifestações precisam de uma causa identificável para produzirem inquietação. A dramaturgia prolonga-se, por isso, para lá do palco, no modo como cada espectador organiza as imagens, escuta os silêncios e interpreta os movimentos. Por fim, uma palavra para Diogo M. Santos, Matilde Barbas, Nara Gonçalves, Nuno Velosa, António Ferreira, André Silva, Pedro Leal, Tomás Marques, intérpretes brilhantes de um espectáculo que perdura para lá do seu final. Ancorada no ritmo, a simbiose entre os vários intérpretes revelou-se perfeita, reforçando a coerência, a intencionalidade e a inteligência da proposta. São eles que nos dizem que nem sempre é necessário gritar para que uma inquietação se faça ouvir.

domingo, 6 de outubro de 2024

CONCERTO: Sangue Suor convida Ana Deus



CONCERTO: Sangue Suor convida Surma e Ana Deus
FLO - Festival Literário de Ovar 2024
Centro de Arte de Ovar
22 Set 2024 | dom | 18:00


O convite partiu do Theatro Circo de Braga e uma nova banda nasceu. Adoptou o nome de “Sangue Suor”, juntando em palco três renomados bateristas da cena musical portuguesa: Rui Rodrigues, Susie Filipe e Ricardo Martins. Tudo começou em 2021, com a encomenda a Rui Rodrigues de “Sangue & Suor”, tema de aniversário da centenária sala bracarense. Um ano mais tarde, a formação deixou cair o “&”, passando a denominar-se “Sangue Suor”. A composição de novos temas, fruto de diversas residências artísticas da banda, viria a dar lugar a “O Salto”, seu primeiro álbum, lançado em Abril de 2023, numa edição conjunta do Theatro Circo e da Omnichord Records. Um momento raro no panorama musical português, elevando a importância da percussão e de três importantes bateristas na busca de liberdade criativa, novos sons, fúria, desassossego, fusão e experimentação. Em Ovar, coube-lhe colocar um ponto final no programa da décima edição do FLO - Festival Literário de Ovar. À inspiração que corre no seu sangue e se derrama em suor, de ritmo e energia feito, juntaram a voz e a palavra em poemas de Gedeão. O público reagiu de forma diversa: Enquanto alguns saíam a meio, os demais permaneceram até ao fim, aplaudindo de pé. Ninguém ficou indiferente.

A batida é forte, sincopada. Uma espécie de respiração rompe o ar e, bem ao longe, escutam-se chocalhos. Naturalista, pastoril, com um acentuado cunho tribal, a música traz-nos a voz de Surma, como um grito melancólico que se ergue no espaço e se espalha em todas as direcções. A guitarra de Vítor Hugo preenche vazios, os sintetizadores completam o rufar dos tambores. Está lançada a viagem a um mundo que rejeita a facilidade e a superficialidade, repleto de sons irrequietos, que cruzam fronteiras e linguagens, abrem caminho à exploração e permitem desvendar novos horizontes. A partir daqui, a ordem é “Para a Frente”, mesmo que de um salto no escuro se trate. Ao longo de quase uma hora de espectáculo, mais saltos se seguirão: Em equilíbrio, de costas, revirado, em parafuso. Além de Surma, cruzamo-nos com as vozes e os sons de Cabrita e Selma Uamusse, mas também com a presença do teclista Óscar Silva e da cantora e performer Ana Deus. É ela que nos trará a interpretação magistral de um poema de Gedeão: “Os homens da minha aldeia / formigam raivosamente / com os pés colados ao chão. / Nessa prisão permanente / cada qual é seu irmão.”

Instrumento rítmico por excelência, a bateria carrega em si a ancestralidade da pele esticada sobre uma caixa de ressonância e, ao mesmo tempo, aquela forma de ser organizada, metódica, segura de quem conduz ou consente que a conduzam. Foi isto que os “Sangue Suor” tão bem souberam exprimir no palco do Centro de Artes de Ovar, convertendo uma hora de espectáculo numa experiência sensorial ímpar. Cada tema é um salto, cada música um risco. E eis Gedeão de novo, e de novo na voz de Ana Deus: “O universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. / Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. / Espaço vazio, em suma. / O resto, é a matéria.” Perguntava-me o que teria passado pela cabeça do programador ao eleger esta banda para encerrar um Festival Literário. Hoje, a resposta parece-me óbvia, pela poesia em forma de música que dela se derrama, poesia definida em risco (no seu duplo sentido). Nela se descobre a essência do ser mutante, a violência de permanecer num limbo, o ferro de um lado, do outro o algodão (doce). Construção, destruição, reconstrução. Salto, a queda no vazio, o mergulho. Subir as escadas e de novo o salto. Desta vez em pontapé à Lua.