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domingo, 21 de julho de 2019

CONCERTO: Yamandú Costa & Orquestra Clássica de Espinho



CONCERTO: Yamandú Costa & Orquestra Clássica de Espinho
Festival Internacional de Música de Espinho
Praça Dr. José Salvador, Espinho
20 Jul 2019 | sab | 22:00


Yamandú Costa cresceu envolvido pela música regional gaúcha de Passo Fundo e seu entorno, no meio de milongas, tangos, zambas e chamamés. Paulatinamente, o seu território musical foi-se expandindo, para abrigar choros, ritmos nordestinos, um pouco de Villa-Lobos e diversas outras paisagens musicais. À técnica e ao virtuosismo explosivo que desde cedo foram as suas marcas no violão de sete cordas, agregou o artista outros contrastes, passagens singelas e uma expressividade mais intimista. O resultado pôde ser apreciado na fresca noite de ontem, a encerrar a 45ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho, com o suporte da Orquestra Clássica de Espinho e perante um público completamente rendido à criatividade e facilidade do artista em extrair do violão, muitas vezes em simultâneo, ritmos, harmonias e melodias de cortar a respiração.

A abrir o concerto, o 1º movimento da “Fantasia Popular”, um tema do próprio Yamandú Costa, mostrou o quão fortemente a sua música se encontra enraizada na tradição popular brasileira. O mote estava dado para uma noite inesquecível, com uma Orquestra superiormente dirigida pelo jovem maestro Jan Wierzba a dar o devido acompanhamento ao turbilhão de sons derramado de um violão que fala, chora, dança e ri. No segundo momento da noite, Yamandú Costa revisitou um tema que lhe é muito querido e que remonta a 2000. Ouvido em êxtase absoluto, “Mariana” é de uma beleza esmagadora, poema musical embebido em emoção e fantasia, as palavras tornadas acordes harmoniosos e sensíveis, tocando-nos como um beijo ou uma carícia. Seguiu-se “Decarisimo”, um tema de Astor Piazolla e que, graças ao talento de Yamandú Costa, mostrou como a música do génio argentino se expande ao novo fado, de tal forma é impossível escutar esta peça sem pensar em Marco Rodrigues, Ana Moura ou António Zambujo.

Prosseguindo agora a solo, Yamandú Costa abordou dois géneros musicais distintos. “Samba Pro Rafa” constituiu uma homenagem a Raphael Rabello, compositor e instrumentista considerado por Costa como o pai musical da sua geração. A segunda peça foi o “IV Porro da Suite Colombiana n. II”), do compositor Gentil Montana, tal como a anterior de uma expressividade única, o ritmo e a harmonia à flor da pele. A caminhar para o final, o concerto teria em “Bachbaridade” um novo ponto alto, a abordagem às sonoridades clássicas convertida em inspirado tango. Última peça do alinhamento, “Concerto Fronteira” foi mais um momento único, uma viagem pela região fronteiriça do sul do Brasil ao encontro do compositor gaúcho e acordeonista Luís Carlos Borges, do compositor e violonista argentino Juan Falú e ainda da memória do pai do artista, Algacir Costa, um latino-americano apaixonado pelas diversas riquezas culturais do continente sul-americano. O final perfeito que só não foi final porque o público reclamou o “encore” e o músico viu-se forçado a corresponder ao vibrante aplauso. “Carinhoso”, uma das mais importantes obras da música popular brasileira, composta por Pixinguinha entre 1916 e 1917, esse sim, foi o final perfeito numa noite perfeita e num Festival perfeito!

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