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segunda-feira, 29 de julho de 2019

CONCERTO: "An Evening With Avishai Cohen"



CONCERTO: “An Evening with Avishai Cohen”
Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música convida Avishai Cohen Trio
Matosinhos em Jazz
Praça Guilhermina Suggia, Matosinhos
27 Jul 2019 | sab | 22:00


Foi com chave de ouro que encerrou a edição deste ano do Matosinhos em Jazz. Num concerto a roçar a perfeição, a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e o Avishai Cohen Trio proporcionaram ao vasto público que, na noite do passado sábado, acorreu à Praça Guilhermina Suggia, momentos únicos, de fruição e deleite. Composto quase exclusivamente por peças da sua autoria, Avishai Cohen propôs um alinhamento representativo do seu universo musical, onde cabem uma grande mistura de tradições, culturas, línguas e estilos. Assim, numa “soirée” única, o público bebeu o melhor do Jazz contemporâneo e das músicas do mundo, envolto nas sonoridades classicistas de uma Orquestra que, sob a direcção do maestro Bastien Stil, soube adequar-se na perfeição a tão estimulante espaço de modernismo.

Honrando as suas origens sefarditas, “Puncha Puncha” e “Morenika” foram temas cantados em ladino – uma língua que conserva partes próprias do espanhol medieval final –, num sussurro quente e sensível, a arranhar a alma de todos os presentes. Intimista e de uma enorme beleza, “Kumi Venetse Hasadeh” contrastou com um ritmado “Arab Medley”, fusão de três temas originários do Líbano e da Síria popularizados por Samira Tawfiq e que nos veio mostrar que, por muito grandes que possam ser as diferenças que separam os povos, a música aí está para os unir. Com “A Child is Born”, Cohen trouxe-nos um dos mais belos standards do Jazz, composto pelo trompetista Thad Jones, enquanto “Two Roses” e “Alon Basela” fizeram brilhar, respectivamente, o piano de Elchin Shirinov e a bateria de Noam David.

Após uma breve pausa para uma saúde aos presentes com um copo vinho tinto português levantado bem alto, “agora que já nos conhecemos”, Avishai Cohen “dispensou” a Orquestra e os restantes membros do trio, brindando os presentes com “Motherless Child”, um vibrante canto de escravos negros do Sul dos Estados Unidos e ainda “Alfonsina y el Mar”, essa zamba doce e melancólica composta pelo pianista argentino Ariel Ramirez e popularizada pela voz de Mercedes Sosa. Com “Remembering”, melodioso e ritmado momento de grande música, chegava ao fim o programa de uma noite mágica, que haveria de se estender ainda pelo inefável “Seven Seas”, um dos temas mais conhecidos do artista, num muito reclamado “encore” que foi ouro sobre azul. A pensar já em 2020, diríamos que a fasquia está a um nível galáctico e que vai ser muito difícil esquecer o marcante ponto final da edição deste ano do Matosinhos em Jazz. Até para o ano!

sábado, 20 de julho de 2019

CONCERTO: Pérez Cohen Potter Quintet



CONCERTO: Pérez Cohen Potter Quintet
Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
19 Jul 2019 | sex | 22:00


“(...) Leaving behind nights of terror and fear / I rise / Into a daybreak that's wondrously clear / I rise / Bringing the gifts that my ancestors gave / I am the dream and the hope of the slave / I rise / I rise / I rise.”

Colocando um ponto final na sua digressão europeia, o Pérez Cohen Potter Quintet esteve na noite passada em Espinho para um daqueles concertos que valem por uma vida. Co-liderado por esse pianista de excepção que é Danilo Pérez, pelo trompetista Avishai Cohen e pelo saxofonista Chris Potter, e contando ainda com Larry Grenadier no contrabaixo e Jonathan Blake na bateria, o grupo fez da sua música o vaso onde se beberam todas as emoções, perante um Auditório lotado e completamente rendido à sua superior sensibilidade criativa e qualidade interpretativa. E como se a música, por si só, não fosse suficiente para elevar o nível do concerto a patamares de excelência, o quinteto fez questão de fazer deste um concerto de causas, dedicando-o às mulheres, “porque são elas o presente e o futuro”, diria Pérez a propósito.

Construir uma aventura musical pessoal inspirada em figuras como Toni Morrison, Angela Davis ou Maya Angelou, para citar apenas algumas mulheres que, com a sua icónica presença e a força dos seus trabalhos, souberam vencer todas as fronteiras de estilo e influências, tal foi a proposta para uma noite de festa e de celebração. Escrito por Danilo Pérez e dedicado à escritora Toni Morrison, “Beloved” deu o pontapé de saída e revelou a medida da ambição do grupo, capaz de exprimir musicalmente pensamentos densos e profundos que nos falam da vida, dos sonhos ou do amor, transformando-os em sons e harmonia. Foi uma experiência única, de energia rítmica e coerência musical feita, a música a brotar livre e inspiradora, a plateia suspensa, subjugada, em êxtase.

Seguiu-se “Tea Cake”, um tema inspirado na personagem do celebrado romance de Zora Neale Hurston, “Their Eyes Were Watching God” (1937) e escrito por Chris Potter, Aqui, de novo, se devolvem, em forma de música, os movimentos emocionais de uma obra literária, num todo pleno de harmonia, Jonathan Blake a revelar-se um baterista de excepção e com um sentido do ritmo absolutamente prodigioso. O terceiro tema saiu da mente inspirada de Avishai Cohen e remete para “Innovation: Africa”, projecto de desenvolvimento tecnológico e agrícola liderado pela israelita Sivan Ya'ari junto de comunidades rurais do Uganda, Etiópia, Malawi, Tanzânia, Zimbabwé e outros cinco países africanos. Na mente de todos, para além do incrível diálogo entre trompete e saxofone, ficarão os minutos iniciais desta composição única e que mimetizam, de forma impressiva, os sons de um amanhecer em África.

“Lament for Jojo”, escrito por Chris Potter e baseado numa personagem do romance “Sing, Unburied, Sing”, de Jesmyn Ward, foi um momento de saborosa tranquilidade. O concerto é agora um mar de águas calmas onde Pérez se espraia em notas tímbricas que prolongam a viagem e Cohen e Potter elevam o diálogo entre os respectivos instrumentos a um lirismo arrebatado, Larry Grenadier a pontuar o conjunto com os acordes graves do seu contrabaixo. Quanto a Blake, é cada vez mais um caso à parte neste concerto, assumindo-se como um verdadeiro líder. Com inexcedível coerência, um tom intimista cai sobre o Auditório quando Avishai Cohen recita “All The Things You Have to Say Goodbye Before the End”, um poema de Zelda Schneurson Mishkovsky. Tema final do alinhamento, “Alternate Realities”, escrito por Danilo Pérez e dedicado a Angela Davis, põe de lado o impressionismo pastoral do quinteto, dando lugar a uma alegre cacofonia sinfónica digna de um Charles Mingus no seu melhor. No “encore” ainda ouviremos, inebriados, “Still I Rise”, tema inspirado no poema homónimo de Maya Angelou e que reforçou, uma vez mais, ter sido este um concerto de causas. E de mulheres!

[Foto: facebook.com/fimespinho/]