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terça-feira, 2 de julho de 2019

CONCERTO: Elicia Silverstein




CONCERTO: Elicia Silverstein
Festival Internacional de Música de Espinho
Capela de Santa Maria Maior, Espinho
28 Jun 2019 | sex | 22:00


Local singelo e de enorme significado para os espinhenses – para quem as histórias e memórias se fundem na relação íntima com o mar –, a Capela de Santa Maria Maior acolheu a violinista Elicia Silverstein, na noite da passada sexta feira, para um concerto no âmbito da 45ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho. Colocando obras de Salvatore Sciarrino e Luciano Berio ao lado das de Johann Sebastian Bach, Heinrich Biber e Antonio Maria Montanari, a jovem violinista nova-iorquina trouxe implícita uma proposta de cruzamento entre a vanguarda italiana e os sons de um certo barroco mais progressista, explorando as conexões filosóficas, estruturais e técnicas da grande música separada três séculos entre si.

Foi sob o signo da espiritualidade que Elicia Silverstein iniciou o concerto, tocando a passacaglia “O Anjo da Guarda” de Biber, resultando numa demonstração da plasticidade tímbrica do violino, para a qual muito contribuiu o virtuosismo da artista e o próprio ambiente, um local de oração e de meditação sobre o que de mais elevado encontramos nos caminhos da féItem maior do repertório violinístico e uma preciosa jóia para os melómanos, a “Sonata nº 1, em sol menor, para violino solo, BWV 1001” de Bach foi a peça seguinte e veio reforçar a certeza de estarmos perante uma talentosa violinista, capaz de estabelecer uma relação muito pessoal com o metro e com o ritmo, a dinâmica de expressão da música de Bach fortemente vincada na sua interpretação, a polifonia latente.

Partilhando com a peça de Biber toda uma abordagem melancolicamente etérea, o “Capricho nº 2” de Sciarrino constituiu uma experiência única, através duma paleta extraordinariamente rica, feita de longos arranhados, breves momentos de harmonia perfeita e silêncios subtis, convidando o espectador a uma imersão no som. Com Montanari e a sua vibrante “Giga (senza basso), da Sonata de Dresden, em ré menor” regressamos por instantes ao barroco para logo escutarmos aquele que viria a ser o momento alto do concerto, a “Sequenza VIII” de Berio. Exemplo de virtuosismo de composição e de interpretação, a peça relaciona-se, de forma indirecta, com o princípio da chaconne, remetendo obliquamente para a “Partita nº 2, em ré menor, para violino solo, BWV 1004” de Bach, com a qual Elicia Silverstein encerrou o concerto. E se a peça barroca foi como o “regresso à calma”, o perfeito encerrar de um ciclo, é a música de Berio, a sua tensão crescente, as explosões de sons, a jubilante música, que preenche por completo o espectador e o acompanha muito para além de um tempo de fruição e deleite ímpar. Inesquecível!

[Foto: facebook.com/fimespinho]

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