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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Olhos Múltiplos” | Patricia Domínguez, Ines Doujak, Lubaina Himid



EXPOSIÇÃO: “Olhos Múltiplos”,
de Patricia Domínguez, Ines Doujak, Lubaina Himid
Curadoria | Nuria Enguita, Rafael Barber Cortell
MAC / CCB - Museu de Arte Contemporânea
14 Mai > 25 Out 2026


Na generalidade, as exposições pedem-nos para olhar. “Olhos Múltiplos”, no MAC/CCB, pede-nos algo mais desafiante: que desconfiemos daquilo que vemos. Entre as obras de Patricia Domínguez, Ines Doujak e Lubaina Himid abre-se um território onde nenhuma história parece possuir o direito de ser a última. Oriundas de geografias e gerações distintas, as três artistas trabalham sobre aquilo que ficou de fora do relatos oficiais - memórias sem monumento, saberes transmitidos à margem, corpos que a História preferiu não reconhecer. Mas não se trata simplesmente de recuperar o que foi esquecido. Trata-se de lhe devolver uma possibilidade de existência no presente. A exposição organiza-se como uma espécie de viagem sem mapa, em que as obras se aproximam e afastam, se respondem e contradizem, criando uma desorientação que é menos um defeito do que um método. O visitante perde-se, e talvez seja essa a primeira coisa que lhe é pedida: abandonar a confortável ideia de que olhar é reconhecer. Aqui, olhar implica escutar, aceitar o estranho, deixar que uma imagem nos afecte antes de sabermos exactamente o que ela quer dizer.

Lubaina Himid sabe que também se pode reescrever a História através da delicadeza. Nas suas pinturas, as figuras negras outrora ausentes dos grandes relatos reaparecem sem alarde. Conversam, trabalham, habitam interiores, ocupam lugares que lhes foram negados. A cor não disfarça a violência da história colonial; pelo contrário, torna-a mais complexa, restituindo humanidade onde antes havia silêncio. Himid não ergue monumentos: prefere a intimidade, o doméstico, o decorativo, como se soubesse que há uma política profunda em permitir que certas vidas simplesmente estejam. Ines Doujak escolhe o excesso. Os seus corpos híbridos, feitos de matéria humana, animal, vegetal e mecânica, parecem ter escapado a qualquer sistema de classificação. O monstro torna-se uma figura política: não uma aberração exterior à ordem, mas o seu produto. Há humor, ferocidade e uma espécie de beleza incómoda nessas assemblagens que fazem do capitalismo um corpo que devora corpos. Doujak não oferece conforto nem soluções ao deixar-nos perante aquilo que preferíamos não reconhecer. Entre a ternura de Himid e a violência satírica de Doujak, a exposição encontra uma das suas tensões mais fecundas.

É Patricia Domínguez quem abre a porta para outro modo de imaginar a cura. Plantas, animais, dispositivos tecnológicos, objectos banais e referências espirituais encontram-se nas suas instalações como partes dum mesmo organismo. A artista aproxima saberes ancestrais e tecnologias contemporâneas, não para idealizar o passado, mas para questionar a hierarquia que colocou o humano no centro e transformou a natureza em recurso. As suas obras parecem dizer que talvez tenhamos esquecido que o mundo não é cenário, antes relação. É também aqui que “Olhos Múltiplos” deixa de ser apenas uma exposição sobre narrativas divergentes e se torna uma reflexão sobre a própria possibilidade de viver em comum. As três artistas partilham a convicção de que cuidar da terra, da memória ou do outro é uma forma de resistência. Por vezes, contudo, o discurso curatorial pesa sobre as obras, como se sentisse necessidade de lhes explicar antecipadamente o significado. Quando isso acontece, a experiência perde alguma da sua liberdade. Mas quando o discurso recua e deixa que as imagens respirem, o olhar deixa de procurar uma resposta única e começa a aceitar a dúvida, a diferença, a contaminação. Talvez seja essa a sua proposta mais consequente: num tempo em que vemos cada vez mais, aprender a olhar continua a ser uma tarefa por cumprir.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Júlio Pomar. A Cola Não Faz a Colagem” | Júlio Pomar



EXPOSIÇÃO: “Júlio Pomar. A Cola Não Faz a Colagem”,
de Júlio Pomar
Curadoria | Sara Antónia Matos, Pedro Faro, Constança Pupo Cardoso
Atelier-Museu Júlio Pomar
06 Mai > 06 Set 2026


No âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Júlio Pomar, o Atelier-Museu Júlio Pomar apresenta “Júlio Pomar. A cola não faz a colagem”, uma exposição que percorre mais de sete décadas da produção de um dos mais importantes artistas portugueses do século XX. Reunindo cerca de 50 pinturas, desenhos, gravuras, esculturas e assemblages, a mostra propõe uma leitura alargada da colagem, entendida não apenas como uma técnica, mas como uma forma de pensar e construir a obra. Cortar, recortar, sobrepor, aglutinar, deslocar, recombinar ou desmontar são operações que atravessam o percurso de Pomar, desde o período neorrealista até às experiências dos últimos anos. “Pinto, recorto, combino, repinto ou raspo, arranho, limo, aliso”, escreveu o artista, sintetizando um processo marcado pela experimentação contínua. A própria noção de colagem surge, assim, como metáfora de uma prática artística que nunca se fixou numa fórmula, antes procurou constantemente novas relações entre formas, matérias, imagens e significados. O título da exposição recupera uma frase de Max Ernst, citada por Pomar no texto “L’Écrit”, de 1981: “Não é a cola que faz a colagem”.

Mais do que uma técnica circunscrita a determinados períodos, a colagem revela-se, na obra de Pomar, como uma metodologia transversal. A exposição acompanha essa evolução desde a composição de pinturas e gravuras dos anos 1950 até à incorporação explícita de objectos, sobretudo a partir de meados da década de 1960. Obras como “Guerreiro” (1961), construída pela acumulação e sobreposição de chapas de ferro, demonstram que o pensamento da colagem já estava presente antes de esta se afirmar materialmente. “Metro” (1964), por seu lado, assinala a primeira utilização de um objecto estranho colado sobre a tela, enquanto “Thétis ou Le Bleu du Ciel, d’après Ingres” (1970-73) leva a lógica do recorte e da recombinação a uma dimensão particularmente radical: oito telas independentes podem ser rodadas e reorganizadas, gerando múltiplas composições. A partir de 1976, o próprio Pomar preferiria falar em découpage e assemblage, conceitos que traduzem melhor a sua vontade de desmontar e remontar a pintura. Nesse processo, diferentes referências — do Cubismo às neo-vanguardas e à Pop Art — são assimiladas e transformadas numa linguagem própria, feita de fragmentos, citações, confrontos e deslocamentos.

A diversidade dos materiais reunidos na exposição torna visível essa liberdade de criação e a recusa de fronteiras rígidas entre arte e realidade. Madeira, ferro, tecido, plástico, vidro, cortiça, couro, arame, papel, penas, objectos de uso quotidiano, brinquedos, mecanismos, fragmentos de espelho ou mesmo elementos de origem animal entram no universo plástico de Pomar, adquirindo novas funções e sentidos através de aproximações inesperadas. O fragmento deixa de ser apenas uma parte para se tornar matéria de invenção, capaz de perturbar a leitura convencional da imagem e de produzir novas narrativas. Organizada em diferentes núcleos, a mostra passa pelas obras neo-realistas, pelas representações eróticas do corpo, pelas associações entre figuras humanas e felinos e pelas criações tardias ligadas a mitos e histórias, revelando peças inéditas ou raramente apresentadas ao público, como “Jamais” (1979-80). Complementada pela exposição em suporte digital “Cisões e E@lipses», com curadoria de Constança Pupo Cardoso, a iniciativa reforça a ideia de que, para Pomar, criar significava também desfazer e reconstruir. Num mundo feito de fragmentos, a sua colagem pode ser lida como exercício de liberdade, confronto e recomposição - uma procura incessante de novas formas de organizar o visível e de estabelecer relações entre coisas aparentemente distantes.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

EXPOSIÇÃO: "Teatro Anatómico"


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EXPOSIÇÃO: “Teatro Anatómico”,
a partir da Coleção Treger Saint Silvestre
Curadoria | João Sousa Cardoso
Centro de Arte Oliva
04 Mar > 31 Dez 2023


Em depósito de longo prazo no Centro de Arte Oliva desde 2014, a Colecção de arte bruta / outsider “Treger Saint Silvestre” é uma das mais relevantes coleções a nível europeu. Constituída por, aproximadamente, mil e quinhentas obras de trezentos e cinquenta artistas, reflecte a evolução de diferentes momentos históricos e ramificações das artes marginais aos circuitos do sistema artístico estabelecido, desde os clássicos da Arte Bruta à Arte Outsider e suas variantes. A coleção distingue-se pela enorme amplitude cronológica, demarcada por artistas nascidos em finais do século XIX até autores ativos na atualidade, diferenciando-se também pela alargada representatividade geográfica, que abrange os tradicionais “centros da arte bruta” da Europa Ocidental e América do Norte, expandindo-se a artistas oriundos de África, Ásia, Europa e América Latina Central, com destaque para a diversidade de artistas portugueses e brasileiros.

Apresentada através de um programa contínuo de exposições temporárias, a Colecção Treger Saint Silvestre volta a ser alvo de uma revisitação, desta vez pelo olhar atento de João Sousa Cardoso. O mesmo rigor, conhecimento e sensibilidade artística que o levou a encenar “A Ronda da Noite” de Agustina Bessa-Luís, na Fundação Calouste Gulbenkian (2022) e “Sequências Narrativas Completas”, no Teatro Nacional D. Maria II (2019) ou a dirigir o “Teatro Expandido!” (2015) no Teatro Municipal do Porto, é posto agora ao serviço desta exposição, numa criação “site-specific” onde a dramatização dos corpos, dos objetos e das presenças, dialoga com a tradição do teatro. Ao visitante oferece-se um espaço extraordinariamente concebido, que convida à deambulação, à apreciação detalhada de cada uma das peças, à sua observação dos mais variados ângulos. Se o quisermos, à sua dissecção.

Inspirada no Teatro Anatómico de Pádua – o primeiro teatro anatómico permanente do mundo, inaugurado em 1595, exemplo do progresso científico no estudo da anatomia e modelo para os teatros anatómicos nas principais universidades da Europa –, que Goethe visitou e admirou na sua viagem a Itália, a mostra propõe a reflexão sobre uma colecção complexa, sinuosa e orgânica, desalinhada do campo da arte contemporânea, que tanto nos oferece um desenho de René Bértholo ou Alireza Maleki, como a fotografia de Albert Moser ou Tomasz Machcinsky, a pintura de Josef Wittlich, a escultura de Jean-Jules Chasse-Pôt ou a assemblagem de Marc Giai-Miniet, misturando-os com os trabalhos de três artistas convidados, André Sousa, Fernão Cruz e Horácio Frutuoso. Ao mesmo tempo, “Teatro Anatómico” convida a uma experiência local dos sentidos que implica os corpos e a materialidade das imagens, no tempo da economia virtual. E, num gesto político, a pensarmos a crueldade capaz de suspender os ciclos da barbárie.