Na generalidade, as exposições pedem-nos para olhar. “Olhos Múltiplos”, no MAC/CCB, pede-nos algo mais desafiante: que desconfiemos daquilo que vemos. Entre as obras de Patricia Domínguez, Ines Doujak e Lubaina Himid abre-se um território onde nenhuma história parece possuir o direito de ser a última. Oriundas de geografias e gerações distintas, as três artistas trabalham sobre aquilo que ficou de fora do relatos oficiais - memórias sem monumento, saberes transmitidos à margem, corpos que a História preferiu não reconhecer. Mas não se trata simplesmente de recuperar o que foi esquecido. Trata-se de lhe devolver uma possibilidade de existência no presente. A exposição organiza-se como uma espécie de viagem sem mapa, em que as obras se aproximam e afastam, se respondem e contradizem, criando uma desorientação que é menos um defeito do que um método. O visitante perde-se, e talvez seja essa a primeira coisa que lhe é pedida: abandonar a confortável ideia de que olhar é reconhecer. Aqui, olhar implica escutar, aceitar o estranho, deixar que uma imagem nos afecte antes de sabermos exactamente o que ela quer dizer.
Lubaina Himid sabe que também se pode reescrever a História através da delicadeza. Nas suas pinturas, as figuras negras outrora ausentes dos grandes relatos reaparecem sem alarde. Conversam, trabalham, habitam interiores, ocupam lugares que lhes foram negados. A cor não disfarça a violência da história colonial; pelo contrário, torna-a mais complexa, restituindo humanidade onde antes havia silêncio. Himid não ergue monumentos: prefere a intimidade, o doméstico, o decorativo, como se soubesse que há uma política profunda em permitir que certas vidas simplesmente estejam. Ines Doujak escolhe o excesso. Os seus corpos híbridos, feitos de matéria humana, animal, vegetal e mecânica, parecem ter escapado a qualquer sistema de classificação. O monstro torna-se uma figura política: não uma aberração exterior à ordem, mas o seu produto. Há humor, ferocidade e uma espécie de beleza incómoda nessas assemblagens que fazem do capitalismo um corpo que devora corpos. Doujak não oferece conforto nem soluções ao deixar-nos perante aquilo que preferíamos não reconhecer. Entre a ternura de Himid e a violência satírica de Doujak, a exposição encontra uma das suas tensões mais fecundas.
É Patricia Domínguez quem abre a porta para outro modo de imaginar a cura. Plantas, animais, dispositivos tecnológicos, objectos banais e referências espirituais encontram-se nas suas instalações como partes dum mesmo organismo. A artista aproxima saberes ancestrais e tecnologias contemporâneas, não para idealizar o passado, mas para questionar a hierarquia que colocou o humano no centro e transformou a natureza em recurso. As suas obras parecem dizer que talvez tenhamos esquecido que o mundo não é cenário, antes relação. É também aqui que “Olhos Múltiplos” deixa de ser apenas uma exposição sobre narrativas divergentes e se torna uma reflexão sobre a própria possibilidade de viver em comum. As três artistas partilham a convicção de que cuidar da terra, da memória ou do outro é uma forma de resistência. Por vezes, contudo, o discurso curatorial pesa sobre as obras, como se sentisse necessidade de lhes explicar antecipadamente o significado. Quando isso acontece, a experiência perde alguma da sua liberdade. Mas quando o discurso recua e deixa que as imagens respirem, o olhar deixa de procurar uma resposta única e começa a aceitar a dúvida, a diferença, a contaminação. Talvez seja essa a sua proposta mais consequente: num tempo em que vemos cada vez mais, aprender a olhar continua a ser uma tarefa por cumprir.
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