No âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Júlio Pomar, o Atelier-Museu Júlio Pomar apresenta “Júlio Pomar. A cola não faz a colagem”, uma exposição que percorre mais de sete décadas da produção de um dos mais importantes artistas portugueses do século XX. Reunindo cerca de 50 pinturas, desenhos, gravuras, esculturas e assemblages, a mostra propõe uma leitura alargada da colagem, entendida não apenas como uma técnica, mas como uma forma de pensar e construir a obra. Cortar, recortar, sobrepor, aglutinar, deslocar, recombinar ou desmontar são operações que atravessam o percurso de Pomar, desde o período neorrealista até às experiências dos últimos anos. “Pinto, recorto, combino, repinto ou raspo, arranho, limo, aliso”, escreveu o artista, sintetizando um processo marcado pela experimentação contínua. A própria noção de colagem surge, assim, como metáfora de uma prática artística que nunca se fixou numa fórmula, antes procurou constantemente novas relações entre formas, matérias, imagens e significados. O título da exposição recupera uma frase de Max Ernst, citada por Pomar no texto “L’Écrit”, de 1981: “Não é a cola que faz a colagem”.
Mais do que uma técnica circunscrita a determinados períodos, a colagem revela-se, na obra de Pomar, como uma metodologia transversal. A exposição acompanha essa evolução desde a composição de pinturas e gravuras dos anos 1950 até à incorporação explícita de objectos, sobretudo a partir de meados da década de 1960. Obras como “Guerreiro” (1961), construída pela acumulação e sobreposição de chapas de ferro, demonstram que o pensamento da colagem já estava presente antes de esta se afirmar materialmente. “Metro” (1964), por seu lado, assinala a primeira utilização de um objecto estranho colado sobre a tela, enquanto “Thétis ou Le Bleu du Ciel, d’après Ingres” (1970-73) leva a lógica do recorte e da recombinação a uma dimensão particularmente radical: oito telas independentes podem ser rodadas e reorganizadas, gerando múltiplas composições. A partir de 1976, o próprio Pomar preferiria falar em découpage e assemblage, conceitos que traduzem melhor a sua vontade de desmontar e remontar a pintura. Nesse processo, diferentes referências — do Cubismo às neo-vanguardas e à Pop Art — são assimiladas e transformadas numa linguagem própria, feita de fragmentos, citações, confrontos e deslocamentos.
A diversidade dos materiais reunidos na exposição torna visível essa liberdade de criação e a recusa de fronteiras rígidas entre arte e realidade. Madeira, ferro, tecido, plástico, vidro, cortiça, couro, arame, papel, penas, objectos de uso quotidiano, brinquedos, mecanismos, fragmentos de espelho ou mesmo elementos de origem animal entram no universo plástico de Pomar, adquirindo novas funções e sentidos através de aproximações inesperadas. O fragmento deixa de ser apenas uma parte para se tornar matéria de invenção, capaz de perturbar a leitura convencional da imagem e de produzir novas narrativas. Organizada em diferentes núcleos, a mostra passa pelas obras neo-realistas, pelas representações eróticas do corpo, pelas associações entre figuras humanas e felinos e pelas criações tardias ligadas a mitos e histórias, revelando peças inéditas ou raramente apresentadas ao público, como “Jamais” (1979-80). Complementada pela exposição em suporte digital “Cisões e E@lipses», com curadoria de Constança Pupo Cardoso, a iniciativa reforça a ideia de que, para Pomar, criar significava também desfazer e reconstruir. Num mundo feito de fragmentos, a sua colagem pode ser lida como exercício de liberdade, confronto e recomposição - uma procura incessante de novas formas de organizar o visível e de estabelecer relações entre coisas aparentemente distantes.
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