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domingo, 21 de dezembro de 2025

CERTAME: 20.º MIRA Mobile Prize | B&W Street Photography



CERTAME: 20.º MIRA Mobile Prize | B&W Street Photography
Vários artistas
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
MIRA Galerias | MIRA FORUM
08 Nov 2025 > 10 Jan 2026


Num tempo em que se partilham diariamente biliões de imagens e centenas de milhares de horas de vídeo, a ubiquidade do telemóvel transformou a fotografia num gesto quotidiano e global. A equipa do MIRA — Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, com o apoio de Beatriz Vital — tem sabido ler esta mudança e desde há uma década que vem celebrando a fotografia mobile com um entusiasmo que se renova a cada edição. À open call do 20.º MIRA Mobile Prize | B&W Street Photography, chegaram imagens de todos os continentes, revelando não só a vitalidade do género como a capacidade do dispositivo móvel em captar o inesperado. A shortlist de cinquenta artistas, que pode ser vista por estes dias no MIRA Galerias | MIRA FORUM, confirma essa amplitude: uma multiplicidade de olhares sobre o espaço público, onde a vida acontece em movimento ou suspensão. O júri — Armineh Hovanesian, Emir Bozkurt, Marco Prado, Nelson Marmelo e Sukru Omar — distinguiu a norte-americana Renee Zanone com o prémio principal, destacando igualmente a portuense Raquel Lamares como a portuguesa mais bem classificada. À volta destes nomes orbitam Adelino Marques, Andrea Seligman, Filipa Scarpa, Marc Devriese, Augusto Lemos e muitos outros, numa mostra que afirma a fotografia mobile como território artístico pleno e não mera derivação tecnológica.

A exposição convida o visitante a abraçar, pela lente dos autores, fragmentos de vida colhidos nos cenários urbanos onde a humanidade se desloca, repousa ou simplesmente respira. É esse quotidiano plural, atravessado por personagens que vestem, celebram e sofrem de formas distintas, que ano após ano surpreende o júri e o público, desmentindo qualquer ideia de rotina num prémio que se vai tornando uma referência em Portugal. Nos trabalhos seleccionados, as ruas transformam-se em palco de narrativas silenciosas: da grande avenida cosmopolita à estreita rua de aldeia, dos átrios de estações ao rumor de cafés e museus. A luz molda arquiteturas, desenha sombras, enquadra corpos; por vezes, aproxima-se do minimalismo abstracto, noutras exalta a exuberância humana. O preto e branco, escolhido como território desta edição, concentra o olhar na textura, na forma e na estrutura, permitindo que os gestos ganhem força e as histórias se insinuem entre o envergonhado e o despudorado. A discrição do smartphone, a sua quase inviabilidade, torna-se decisiva para captar instantes irrepetíveis, preservando a espontaneidade da vida tal como acontece. Sem ensaios, sem anúncio, apenas presença.

A tradição da fotografia de rua - de Robert Frank a Vivian Maier, de Diane Arbus a Elliot Erwitt ou ao recentemente falecido Martin Parr, para citar apenas alguns nomes - ecoa nas imagens agora apresentadas, compartilhando com esses mestres a vocação documental de registar o humano em espaços públicos. Cada autor, porém, expande esse legado com nuances próprias: Se uns procuram a teatralidade das multidões, outros revelam a intimidade de um gesto solitário. Há olhares irónicos, empáticos, contemplativos. A diversidade expressiva reitera que a rua continua a ser um laboratório de emoções, onde a banalidade quotidiana convive com momentos de potencial histórico. E é precisamente aí que a fotografia mobile se afirma como instrumento contemporâneo: leve, silenciosa, acessível, capaz de captar o instante antes que ele se dissolva. A mostra do MIRA, patente até ao próximo dia 10 de janeiro, reúne esse caleidoscópio de sensibilidades num conjunto coeso que reafirma o poder da imagem a preto e branco para suspender o tempo e revelar a Humanidade no seu estado mais cru e mais luminoso. Entre profundidade poética e observação crítica, o espectador encontra aqui não apenas fotografias, mas encontros breves e intensos com o mundo, tal qual ele pulsa.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: MIRA Mobile Prize 2025



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: Mira Mobile Prize 2025
Vários artistas
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
MIRA Galerias | MIRA FORUM
10 Mai > 07 Jun 2025


Diariamente são partilhadas on-line 3,2 biliões de imagens (quase quarenta mil imagens por segundo) e 720 mil horas de vídeo. Importa acrescentar que estes números estarão seguramente ultrapassados, uma vez que remontam a 2020 e hoje a realidade será bem diferente. Serve isto para dizer que ter um telemóvel equipado com uma ou várias câmaras fotográficas, com qualidade capaz de fazer as delícias do fotógrafo ou videógrafo mais exigente, é prática corrente e que está à vista de todos. Atenta a esta realidade, a dinâmica e laboriosa equipa do MIRA - Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, assistidos por Beatriz Vital – vem celebrando a fotografia mobile há uma década e voltou a lançar o repto aos artistas, na certeza do seu espírito de abertura em relação ao novo e que se traduz, sempre, num vastíssimo conjunto de imagens enviadas de todo o mundo. Assim foi, uma vez mais, nesta 19ª edição do concurso, na qual se destacou o trabalho de 50 artistas e que pode agora ser visto no MIRA Galerias | MIRA FORUM.

Primeiro de dois momentos anuais dedicados à fotografia Mobile – está já agendada para 8 de Novembro a inauguração da exposição do MIRA Mobile Prize Street Photography -, a mostra volta a promover e aprofundar essa nova ferramenta geradora de imagens que é a Inteligência Artificial, a par das habituais categorias de Arte Digital, Arquitectura, Minimal, Paisagem, Retrato e Vida Quotidiana. E se, no ano anterior, o espaço dedicado a esta particular arte de construir imagens era relativamente limitado, este ano a mostra atinge uma dimensão digna desse nome, com a proposta de uma shortlist que integra trinta e um fotógrafos nacionais e estrangeiros e o lançamento da 1.ª exposição de imagens geradas com recurso à IA. Além da projecção de um vasto conjunto de imagens geradas por IA, a mostra integra trabalhos de um número considerável de artistas convidados, destacando-se Carlos Garcia (Garcia Mann) com o seu trabalho “New Amerika””, série de oito imagens que se debruçam sobre traços da sociedade americana e alguns dos seus ícones, em que as cores vibrantes que os caracterizam dão lugar ao negro e a cinzentos pesados. 

O Júri deste ano - constituído por Andreia Bigiarini, Gina Costa, Giulia Baita, Joanne Carter e Rui Apolinário - decidiu atribuir o Prémio Mira Mobile Prize 25’ ao arquitecto madrileno Jose Luis Morales, destacado fotógrafo mobile, que sucede assim a Andrea Seligman, vencedora no ano passado. O português mais bem classificado foi Lara Plácido, também ela arquitecta. Ao lado destes dois trabalhos, o visitante pode apreciar um vasto conjunto de imagens igualmente muito belas e significativas da autoria de, entre outros, Adelino Marques, Andrea Seligman, Demetrio Jereissati, Diana N. Jeon, Erick Pereira, Filipe Neto, Gianluca Ricoveri, Isbela Mota, Jane Schultz, Linda Hollier, Marco Prado, Maria Castro, Maryjane Rosenfeld, Omur Mehmet ou Tete Lima. Entre a superficialidade e a profundidade crítica ou poética que envolve o acto de criar através da imagem, eis uma extraordinária oportunidade para apreciar o que de melhor se faz em duas áreas da fotografia com o maior futuro. As exposições podem ser visitadas até 07 de Junho.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Sem Passado" | Felícia Pinho Oliveira



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Sem Passado”,
de Felícia Pinho Oliveira
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
Encontros da Imagem de Braga
Mira Forum
14 Set > 09 Nov 2024


“Este Menino hádeçe chamar Manoel. Leva hum lenço branco uma faixa branca e trez paninhos brancos. Naçeu em 4 de Agosto de 1825 p.ª a todo o tempo que se procurar ser entregue a seu dono = Entrou as 8 horas e hum quarto da manham.”

“Sem Passado” é um projeto de fotografia documental sobre o arquivo da Casa da Roda do Porto e as memórias de quem por lá passou. Instituição destinada a acolher crianças abandonadas anonimamente pelos progenitores, a Casa da Roda existiu no Porto entre os séculos XVII e XIX e teve três instalações diferentes ao longo do tempo, das quais não restam vestígios. As crianças eram normalmente abandonadas com o seu enxoval e com um objecto, de natureza muito diversa, que as distinguia das demais. Esse objecto era designado por “sinal” e permitia a recuperação inequívoca da criança no futuro. Os “sinais” que marcaram estas crianças formam, juntamente com os livros da Roda e os espaços do Arquivo Distrital do Porto onde se conserva este imenso espólio de mais de 180 metros de documentação, o corpo de trabalho de Felícia Pinho Oliveira, retratando a estética de abandono do século XIX e recuperando a memória de crianças duplamente negligenciadas, pela sociedade e pela história.

Uma fita de seda, uma bolsa vermelha, um rigor preto com a imagem de Santa Rita de Cássia, uma medida vermelha com letras brancas, três contas vermelhas, uma moeda partida ao meio e presa a uma fita cor de rosa, uma carta de jogar onde está escrito o nome “Jerónima”… A preservação de escritos ou bilhetes soltos, cosidos ou colados nos livros da Roda, é uma das características marcantes do arquivo da Casa da Roda do Porto. São escritos e sinais deixados com os expostos no momento do abandono, certidões de baptismo, guias manuscritas ou impressas de criação dos expostos, recibos de pagamento, certidões de capacidade das amas, de estado dos expostos e de falecimento, todas passadas pelos párocos das freguesias das amas ao serviço da instituição. O confronto com as palavras, em muitos casos escritas pelo próprio punho de um dos pais, nas notas deixadas com as crianças, revela-se um mergulho inquieto nos sentimentos, nos laços afectivos universais e intemporais, que unem invariavelmente pais e filhos.

O modo como foram criadas as instituições da roda em Portugal é relativamente bem conhecida e tem na sua base o alto infanticídio que existia em Portugal no final do século XVIII que, por muito tempo, e mais do que um crime, era visto como sendo um pecado. Sabe-se que cerca de 63 900 crianças foram expostas na “roda” do Porto entre 1690 e 1800, numa altura em que o número de habitantes da cidade rondaria os 30.000. Uma outra estatística revela que nesta mesma cidade o número de crianças reclamadas à “Casa da Roda” variaria entre os 3 e os 15%, conforme o ano do abandono. Quando estamos perto de celebrar os 35 anos da Convenção sobre os Direitos das Crianças, adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro do ano seguinte, eis uma exposição impactante e com um enorme sentido de oportunidade, marco maior da presente edição dos Encontros da Imagem.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Paisagem"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Paisagem”,
de José Zagalo Ilharco
Curadoria | Rui Pinheiro
Bienal de Fotografia Lamego e Vale do Varosa 2024
Museu de Lamego
07 Ago > 28 Out 2024


Numa parceria com o Museu Nacional Soares dos Reis, o Museu de Lamego apresenta “Paisagem”, uma exposição inédita da obra de José Zagalo Ilharco, fotógrafo amador de grande mérito, premiado a nível nacional e internacional. O título inspira-se no homónimo da fotografia do Rio Sousa, premiada em Bruxelas, em 1895 e enquadra-se na temática da presente edição da Bienal de Fotografia Lamego e Vale do Varosa 2024, da qual a exposição é parte integrante. José Zagalo Ilharco nasceu a 31 outubro de 1860 na freguesia da Sé, na cidade de Lamego, e faleceu a 5 novembro de 1910, no Porto, repentinamente, aos 50 anos de idade. Quando jovem adulto fixou residência na cidade do Porto, onde se tornou um bem-sucedido homem de negócios, entre outros, nos sectores dos Seguros e do Comércio, tendo-se dedicado ainda, nos seus tempos livres, a diversas actividades culturais e recreativas, com destaque para a fotografia amadora e a floricultura, interesses que partilhava com o seu amigo Aurélio Paz dos Reis, pioneiro do cinema português.

No campo da fotografia, dedicou-se especialmente à paisagem, mas também à antropologia dos espaços, de que são exemplo as imagens agora reveladas do Porto e de Matosinhos. A sua obra fotográfica, composta por mais de 260 imagens, integra ainda uma série de retratos dos seus familiares e amigos, bem como das casas onde residiu e respectivos jardins. José Zagalo Ilharco foi sócio fundador e director do Real Velo Club do Porto, tendo fotografado, em 1893, ano da sua fundação, o grupo de membros da Direcção e o Velódromo, localizado nas traseiras do Palácio das Carrancas, em terrenos pertencentes ao Paço Real do Porto. Com pista para velocípedes, a grande atração do espaço, e dois cortes de lawn-tennis ao centro, o Velódromo recebia novas modalidades em expansão entre as elites da cidade. José Zagalo Ilharco é o autor das únicas fotografias existentes deste equipamento, destacado num artigo de Vasco Valente, então Diretor do Museu Nacional Soares dos Reis, publicado na revista O Tripeiro em maio de 1946.

Em 1947, o seu filho Norberto de Melo Zagalo Ilharco, em testemunho de apreço pela obra do pai, reuniu, em dois álbuns, as reproduções das suas melhores fotografias. As obras que integram esta exposição retrospetiva foram tornadas públicas pela primeira vez no Museu Nacional Soares do Reis, entre 25 de janeiro e 28 de abril de 2024, num reconhecimento ao legado do fotógrafo. São obras que resultam de uma selecção do segundo volume, dedicado exclusivamente à paisagem, e que viajam agora até Lamego, terra que viu nascer José Zagalo Ilharco. Valioso testemunho de paisagens de Portugal do final do século XIX e início do século XX, obra relevante por poucos conhecida, as imagens patentes ao público incluem, entre originais e reproduções, sobretudo paisagens de Matosinhos, Leça da Palmeira, Porto e Douro. Das imagens apresentadas destaca-se, igualmente, um núcleo de fotografias realizadas em 1893 do velódromo Maria Amélia, produzidas antes da sua inauguração nos terrenos onde se encontra actualmente o Museu Nacional Soares dos Reis.

domingo, 25 de agosto de 2024

CERTAME: Bienal de Fotografia Lamego e Vale do Varosa 2024



CERTAME: Bienal de Fotografia Lamego e Vale do Varosa 2024
Vários autores
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
Museu de Lamego, Castelo de Lamego, Casa da Torre, Mosteiro de Salzedas e Torre da Ucanha
20 Jul > 29 Dez 2024


Quando se junta a qualidade e sensibilidade curatorial de Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, a nomes da fotografia tão admiráveis como os de Duarte Belo, Adelino Marques, Álvaro Domingues, Luís Quinta, Manuel Valente Alves, Conceição Magalhães, Augusto Lemos, Alexandre Delmar e José Zagalo Ilharco, nada como meter pernas ao caminho e demandar Lamego na certeza dos melhores encontros. Mas antes de falar daquilo que vi, vamos a um pouco de história, recuando a 2013, ano da criação do Ciclo de Fotografia do Museu de Lamego. Desse tempo fica o propósito inicial de divulgar a fotografia em todas as suas vertentes e, também, o formato de projecção nocturna ao ar livre no pátio do museu, que cedo se assumiu como uma das suas marcas distintivas. Dos movimentos mais recentes da fotografia portuguesa ao fotojornalismo, do lugar da fotografia no mundo contemporâneo à fotografia na arquitectura, foram muitos e bons os temas das edições seguintes do Ciclo, até que em 2019 foi decidido alargar o âmbito geográfico do certame ao Vale do Varosa, incluindo o Mosteiro de Salzedas, o Convento de Santo António de Ferreirim e a Torre de Ucanha no roteiro da 7ª edição. A pandemia foi a grande responsável pela interrupção do Ciclo em 2020, regressando em 2021 com sete exposições, repartidas pelo Museu de Lamego, Mosteiro de Salzedas e Torre de Ucanha. Aquilo que de diferente vamos encontrar em 2024 é a designação do certame - Bienal de Fotografia Lamego e Vale do Varosa - e o assumir de uma nova periodicidade para estes encontros.

Inaugurada a 20 de Julho, a Bienal abraça “A Paisagem” como tema desta edição, assumindo tratar-se de “muito mais do que o cenário onde decorre a vida humana.” Para além da dimensão estética inerente às propostas expositivas, interessou aos curadores Manuela Matos Monteiro e João Lafuente que as obras apresentadas produzissem uma reflexão crítica sobre o papel do humano – coletivo e individual – no desenho da paisagem e na forma como quotidianamente a habitamos. Nesse sentido, foram convidados alguns dos mais importantes autores portugueses que fotografam e refletem sobre a paisagem, fazendo do conjunto das onze exposições que integram a Bienal uma viagem “entre o maravilhamento e a inquietação que serão a base de uma reflexão crítica sobre a nossa relação com o mundo.” Começando a visita pelo Castelo de Lamego, as portas da Torre de Menagem abrem-se à fotografia de Adelino Marques e àquilo que designa por “metamorfoses de uma paisagem”, numa exposição intitulada “Da Evanescência das Marés à Intemporalidade dos Lugares”. São duas formas de olhar a paisagem, num misto de racionalidade e poesia que prende e emociona. Na parte superior da Torre, “O Signo e a Paisagem”, de Conceição Magalhães e Augusto Lemos, serve-se da muito mediatizada N2 para falar de “um olhar simbólico e um imenso imaginário” inerentes à cultura humana, adoptando como símbolo ou signo os marcos rodoviários.

Descendo a Rua da Cisterna até à Casa da Torre, “Paisagens Tecnológicas”, de Álvaro Domingues, abre-se ao nosso olhar. dando a ver um conjunto de imagens que mostram o território como construção social, “um retalho do mundo que, como escreveu Camões, é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”. Já no Museu de Lamego, começamos por admirar a imensa colecção de imagens de Duarte Belo que retratam, desde 1996 até ao presente, Meadas, Lamego e Varosa. Intitulada “Linhas do Tempo”, esta exposição mostra como, em pouco mais de um quarto de século, a mão do homem pode induzir transformações tão profundas na paisagem. “A Invenção das Nuvens”, de Manuel Valente Alves, combina, de forma abstracta, fotografia, desenho e pintura, acentuando o conceito de paisagem através das nuvens que são, também elas, paisagem. O fascínio pelo mar e pela energia que nele se desenvolve e irrompe à superfície serviu de pretexto a Luís Quinta para nos dar a ver “Prados Azuis”, tão somente “o mar, a superfície do mar acessível ao olhar de todos, um mar azul mas que pode ser dourado como se estivesse pronto a ser colhido.” De José Zagalo Ilharco, “Paisagem” reúne um conjunto precioso de imagens dos primórdios da fotografia em Portugal. Por último, no Mosteiro de Salzedas, “Paisagens do Mundo”, uma mostra colectiva que reúne fotógrafos portugueses e estrangeiros, oferece-nos a paisagem como tema. A cores ou a preto e branco, de vários tamanhos ou formatos, documentais ou encenadas, são imagens, todas elas, de enorme beleza, que justificam plenamente um desvio até Salzedas.

NOTA: Não falo aqui de Alexandre Delmar e da sua exposição “Paisagem | Território | Trabalho”, resultado de uma residência artística, patente na Torre de Ucanha, por não ter sido possível visitar este pólo que se encontra encerrado ao domingo.

domingo, 26 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: MIRA Mobile Prize 2024



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: Mira Mobile Prize 2024
Vários artistas
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
MIRA | Artes Performativas
04 Mai > 08 Jun 2024


Quem não tem, nos dias de hoje, um smartphone? Serão poucos os braços erguidos num país onde o número de telemóveis ultrapassa largamente a população portuguesa. A percepção que temos, enquanto utilizadores destes equipamentos, é que a sua evolução tecnológica tem sido uma constante e que isso vem alterando, de forma significativa, a utilização que lhes damos. Mais do que uma ferramenta para comunicar com o mundo, eles funcionam, cada vez mais, como uma janela para a nossa percepção desse mesmo mundo, abrindo espaço às múltiplas interpretações da realidade que nos rodeia. Celebrando a fotografia mobile há quase 10 anos, a dinâmica e atenta equipa do Mira Fórum - Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, assistidos por Luísa Rosas da Silva - voltou a lançar o repto à comunidade mobile, na certeza do seu espírito de abertura em relação ao novo que se traduz, sempre, num vastíssimo conjunto de imagens enviadas de todo o mundo. Assim foi, uma vez mais, nesta 17ª edição do concurso, dedicada a Marian Seid Rubin, pioneira da fotografia mobile e um membro ativo e solidário da comunidade organizadora.

A novidade desta edição é a inclusão, nas categorias a concurso, da “IA” - imagens construídas com recurso à Inteligência Artificial -, ao lado das categorias “Arte Digital”, “Arquitectura”, “Minimal”, “Paisagem”, “Retrato” e “Vida Quotidiana”. Na base desta opção está a percepção de que este é um espaço de futuro, algo que começa a mexer com a curiosidade de todos e a levar alguns a experimentar novos caminhos na arte de construir imagens. É inegável que são cada vez mais os membros da comunidade mobile a apresentar excelentes trabalhos com recurso à Inteligência Artificial e é esse espírito de experimentalismo e alguma irreverência que levou os organizadores a ousar arriscar aquilo que provoca e inquieta: a Inteligência Artificial na Fotografia. Ao Júri do concurso - constituído por Andrea Bigiarini, Gina Costa, Giulia Baita, Joanne Carter e Mário Pires - coube a tarefa de seleccionar, de entre os muitos milhares de fotografias recebidas, as duzentas melhores e, numa fase posterior, as cinquenta de uma “short list” que ocupam o espaço do MIRA | Artes Performativas, bem como os vencedores do Prémio Mira Mobile Prize 24’, português mais bem classificado e, ainda, a melhor classificação na categoria IA.

O Júri decidiu atribuir o Prémio Mira Mobile Prize 24’ à arquitecta e fotógrafa artística brasileira Andrea Seligman, enquanto o nosso bem conhecido António Tedim foi o português mais bem classificado. Diana N. Jeon foi distinguida com o melhor trabalho de IA. Estes trabalhos podem ser vistos na belíssima “caixa de cortiça” da Rua Padre António Vieira, ao lado de imagens igualmente muito belas e significativas da autoria de, entre outros, Adelino Marques, Ana Valente, Teresa David, Bruna Costa, Clara Magalhães, Nuno do Carmo, Paulo C. Amado, Selene Vicente, Amo Passicos, Pati John, Aylin Argun, Mary J. Rosenfeld, Catherine Caddigan, Karen Divine, Jane Schulz, Alex Imas ou Eliza Tsitsimeaua. Face à grande qualidade das fotografias, a organização do concurso decidiu aumentar, nesta edição, o número de imagens em projecção para as duzentas, o que revela que a fotografia mobile consolidou, de facto, o seu lugar no mundo da fotografia. Para aqueles que não tiverem a possibilidade de se deslocar ao Porto até ao próximo dia 08 de Junho e acompanhar a exposição, podem sempre ver esta selecção alargada no canal de Youtube do MIRA Fórum, em https://www.youtube.com/@miraforum2184.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO: "Mundo da Canção"



EXPOSIÇÃO: “Mundo da Canção”
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
Consultores | José Pacheco Pereira, Manuel Vitorino, Rita Maltez
Mira Fórum
06 Abr > 08 Jun 2024


Mundo da Canção. Serão cada vez menos aqueles que recordam a Mundo da Canção (MC), revista publicada pela primeira vez em 19 de Dezembro de 1969 e que viria a tornar-se uma referência cultural no Porto e no país. Tendo Avelino Tavares como fundador e editor, a MC deu palco a músicos da canção portuguesa e internacional como José Afonso, José Mário Branco, Luís Cília, Fausto, entre outros, mas também Leonard Cohen, Donovan, Deniz Cintra, Arrival, The Beatles e Bee Gees, chegando a ter uma tiragem de 25 mil exemplares. Activista cultural, Avelino Tavares viria a trabalhar na organização, produção ou divulgação de festivais, como o Festival de Jazz do Porto, o Praia Blues ou o Intercéltico do Porto, a ele se devendo a vinda à cidade de reputados nomes da “world music”, como Cesária Évora (que celebrou os 25 anos de carreira, num espetáculo no extinto Cinema Terço), Leo Ferré, Paco de Lucía, Gal Costa, Astor Piazzola ou Miles Davis. É o labor e o legado deste homem dos sete instrumentos que os promotores da exposição “Mundo da Canção” pretendem recuperar, através de um conjunto de objectos intimamente ligados à sua história e que podem ser vistos no Mira Fórum até 08 de Junho.

Torna-se difícil dizer uma revolução e a do 25 de Abril ainda o é mais porque foge aos modelos que a História descreve. Há subtis realidades que escaparam às narrativas maiores e o tempo, lentamente, tem-nas trazido ao de cima. Filtradas, decantadas, as causas profundas da rotura de quase meio século de ditadura aparecem como realidades que pareciam menores mas que, afinal, tiveram um papel importante na formação de uma consciência cívica, de uma cidadania crítica que trouxe para a rua um país em busca de liberdade. É neste contexto que surge esta exposição cujo objectivo é explorar o papel que o projecto / revista Mundo da Canção teve na formação de tantos adolescentes e jovens adultos, hoje septuagenários ou mais adiantados no tempo. Partindo do acervo do Arquivo EPHEMERA - doado por Avelino Tavares -, que conta com milhares de documentos que ilustram o percurso de um projecto com múltiplas vertentes, a exposição “Mundo da Canção - Quem canta o MAL espanta. A cantiga é uma ARMA” pretende dar a conhecer o lugar do MC na história da Revolução de Abril.

Porque a memória é uma certa forma de vida, esta é também uma oportunidade para homenagear Avelino Tavares que acompanhou a elaboração deste projecto de contar a MC, mas que infelizmente não pode vivê-lo. A sua presença faz-se sentir ao longo de toda a exposição, dos muitos cartazes onde avultam os nomes de Pablo Milanes, Paco Ibañez, Nara Leão e Zeca Afonso, aos “Livre Trânsito” de concertos ou Festivais icónicos, do cuidado posto na organização do concerto de Fausto na apresentação de “Por Este Rio Acima” ao levantamento nas instalações da extinta PIDE/DGS do nº 34 da MC, uma edição que “viajou” directamente da tipografia para os armazéns da polícia política e aí passou 13 longos meses. Refira-se, ainda, que esta exposição é mais uma prova da importância do Arquivo EPHEMERA que permite contar realidades que escapam à fontes formais de registo da História. Neste tempo de celebração da Revolução de Abril, o Arquivo EPHEMERA disponibilizou materiais para mais de cinquenta iniciativas em Portugal e no estrangeiro no que pode ser considerado um verdadeiro serviço público.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

INSTALAÇÃO: "Primrose: um outro Porto Atlas"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO: “Primrose: um outro Porto Atlas”,
de Manuel Valente Alves
Curadoria | Manuela Matos Monteiro
Mira Forum 
07 Mai > 11 Jun 2022


Enquanto projecto expositivo, “Primrose: um outro Porto Atlas” configura uma instalação da autoria de Manuel Valente Alves. A sua matriz reside em “Porto Atlas um livro de fotografia” (Edições Afrontamento, 2021) e estende-se para lá das suas páginas sob a forma de um vídeo cujo título dá o nome à instalação. Entre o livro e o vídeo perfila-se uma exposição de fotografia, espécie de corredor de passagem, simultaneamente elo de ligação e ponto de separação entre a imagem congelada e a imagem em movimento. É deste “núcleo” que gostaria de falar em primeiro lugar, não apenas pelo valor intrínseco das imagens, mas sobretudo pela forma como nos são apresentadas, “folhas de provas” agrupadas três-a-três, presas entre si e suspensas por fios que pendem do tecto. Em si mesmas, são um convite a que acompanhemos o seu movimento desordenado, perdendo-as e reencontrando-as ao acaso, por um capricho do vento ou graças às (muitas) mãos que não resistem a folheá-las.

As folhas levam-nos ao livro e o livro traz-nos ao Porto. Um Porto que conhecemos bem, onde diariamente nos movemos, que varremos com os nossos olhos, as mais das vezes sem o vermos. Um Porto desvendado em imagens, que não pretendem constituir-se em atlas da cidade (apesar do título poder sugeri-lo), antes se assumem como um roteiro “daquilo que se oferece e se passa num olhar contemporâneo, um registo de uma beleza inesperada, uma estranheza ou uma identificação com o que se passa nesta cidade, nos seus lugares de conveniência, as eleições de cada grupo, de cada recanto de encontro consigo mesmo, a mescla diária de gregarismo e individualização”, conforme as palavras de Maria do Carmo Serén, que podem ler-se na nota introdutória do livro.

“Primrose” é já outra história, outro canto. Outro encanto. O Porto de “Primrose” é “um Porto que vemos menos, olhamos menos e que, por isso, nos inquieta (…)”, conforme lemos na folha de sala que acompanha a exposição e que tem a assinatura de Manuela Matos Monteiro, curadora da exposição. Ante o nosso olhar desfilam imagens que, em si mesmas, compõem um manifesto de amor ao Porto, uma quase oração que nos fala de luz e sombra, de águas quietas ou mexidas, de folhas, ervas, flores, ramos e troncos, de céu e vento. Imagens que nos conduzem, também, “a uma viagem interior porque amaciados os lugares, desfocados os elementos, associadas realidades distintas em trama – como de associações livres se tratasse – convocamos os nossos cenários íntimos.” Para ver até dia 11 de Junho, nas galerias do Espaço Mira.